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segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Cessar fogo frágil e dia de oração por vítimas de abusos

Santa Madre Teresa de Calcutá
Estou de regresso, depois de umas férias excelentes e ainda uma viagem fascinante, da qual ouvirão falar mais para o final do mês.

Muito se passou ao longo deste mês e meio, mas não irei recapitular as notícias, passando já para a actualidade.

Sendo assim, a notícia de hoje é a entrada em vigor do cessar-fogo na Síria. Rezemos para que se aguente pelo menos a semana que está prevista, e que sirva de base para um acordo de paz mais durador. Mas será complicado, muito complicado.

A comissão criada pelo Papa para pensar em formas de combater os abusos sexuais na Igreja vai apresentar uma série de sugestões a Francisco, incluindo a de que cada conferência episcopal crie um dia de oração pelas vítimas deste flagelo.

Os Leigos Para o Desenvolvimento continuam a enviar pessoas para vários países, para ajudar quem mais precisa. Já são 30 anos e a Renascença foi falar com a directora executiva Carmo Fernandes para saber mais sobre estes projectos.


Na semana passada tivemos o interessante artigo do padre Mark Pilon que diz que a crise que a Igreja enfrenta não é de culto, isto é, não se resolve com mudanças litúrgicas, mas sim de fé. Não podia estar mais de acordo.

Deixo-vos ainda com a informação sobre o próximo retiro “Vinha de Raquel” que é destinado a pessoas que tenham sido pessoalmente afectadas pelo aborto, seja porque abortaram, seja porque alguém próximo abortou, etc., O próximo é já nos dias 23 – 25 de Setembro e podem encontrar mais informações aqui

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

A Crise Não é de Culto, mas de Fé


Pe. Mark A. Pilon
As seguintes estatísticas são - ou deviam ser - preocupantes para a a Igreja toda, uma vez que não são exlusivas à diocese de Pittsburgh:


O número de católicos activos na diocese de Pittsburgh diminuiu rapidamente nas últimas décadas, de 914.000 em 1980 para 632.000 em 2015, segundo dados da própria diocese.


Desde 2000, a frequência da missa dominical diminuiu 40%, havendo agora menos cerca de 100.000 praticantes regulares. A matriculação em escolas católicas caiu 50% e o número de sacerdotes no activo passou de 338 para 225. A manter-se este ritmo, a diocese calcula que haverá apenas 112 padres em actividade em 2025.


Qualquer análise honesta nos diz que estes números representam problemas graves e o bispo de Pittsburgh expressou a sua grande preocupação numa entrevista a um jornal secular daquela cidade. Toda a conferência episcopal americana deveria estar gravemente preocupada, porque este tipo de estatística é comum à maioria das dioceses e arquidioceses do país, salvo raras excepções.


Mas as propostas apresentadas pelo senhor bispo para tentar inverter este declínio não são particularmente encorajadoras e fazem lembrar os fúteis planos quinquenais da União Soviética, que acabavam por repetir sempre as mesmas soluções falhadas. “A principal prioridade tem de ser tornar o nosso culto melhor”, afirma o bispo David Zubik ao Tribune-Review. “Em segundo lugar, temos de fazer o melhor possível para conseguir mais líderes ordenados, mas não só, temos também de abrir muitas posições de liderança na Igreja para leigos.”


Segundo se lê na entrevista, “melhor culto” significa “homilias e música melhores” e ainda “tornar as igrejas mais acolhedoras para quem vem de fora”. O bispo apresenta ainda outras soluções possíveis, como “mais leigos em posições de liderança e melhor formação para diáconos; estilos de ministério mais apelativos para os jovens e, em simultâneo, fortalecer o cuidado pastoral dos idosos”.


Não ouvimos tudo isto antes? Mais leigos em posições de liderança, diáconos permanentes com melhor formação, melhores programas para os jovens, melhores cuidados pastorais para os idosos?


É habitual dizerem-nos que as razões pelas quais há cada vez menos católicos praticantes nas nossas paróquias são sobretudo programáticas e estruturais. Melhores programas pastorais, melhor culto e melhor acolhimento são tudo o que precisamos para inverter a devastação que ninguém poderia ter previsto depois do Concílio Vaticano II. Talvez seja tempo de considerar outras opções.


A verdadeira razão de fundo é simples: Trata-se de uma enorme perda de fé. Há muitas explicações para essa perda de fé, mas os católicos estão a desaparecer aos molhos porque perderam a fé na Igreja e na verdadeira natureza dos seus sacramentos, ou porque na verdade nunca a tiveram. Não é por haver homilias fracas, antigamente também as havia e as igrejas estavam cheias. Não tem a ver com a qualidade da música, nos anos 40 e 50 não tínhamos música, salvo em missas solenes de Domingo e nos dias santos. Mas as igrejas estavam cheias. O problema é simplesmente uma enorme perda de fé.


Há uns 30 anos uma sondagem credível revelava que apenas cerca de 30% dos católicos continuava a acreditar na presença real de Cristo na Eucaristia. Porque é que os bispos não convocaram uma reunião de emergência para lidar com esse problema de falta de fé, como fizeram em 2002 para lidar com a crise dos abusos sexuais? Se as pessoas não acreditam na presença real de Cristo na Eucaristia ou na Eucaristia como verdadeiro sacrifício oferecido a Deus para benefício dos pecadores, então não será uma melhoria da música a convencê-los a ir para a Igreja aos domingos de manhã.


Esta perda de fé reflecte ainda uma perda do sentido de pecado e da sua gravidade e por sua vez ambos estão associados a uma rejeição dos ensinamentos morais da Igreja, pois todos os aspectos da fé estão interligados. A obrigação da missa domincal não tem qualquer sentido e não levará as pessoas a participar se estas não crêem na gravidade de faltar à missa ao domingo. Na verdade, mesmo que exista tal coisa como um pecado grave, como é que se pode entender que isso se aplica a faltar à missa quando se acredita que a missa não é mais do que música, leituras e uma encenação memorial em vez de uma coisa real, um verdadeiro sacrifício, a verdadeira presença de Cristo.


Mesmo os adeptos da Forma Extraordinária [conhecida vulgarmente como rito tridentino], que tendem a pensar que restaurando a liturgia restaurar-se-á a fé, devem compreender que não é assim tão simples. Muitas coisas contribuíram para esta crise e devem ser analisadas: má catequese, maus exemplos, escândalos e, também, sem dúvida, má liturgia. Mas também a falta de proclamação do Evangelho na praça pública. Se a Igreja for apenas mais uma “denominação” na praça pública, e o Evangelho não for proclamado abertamente como a solução para os problemas da sociedade, então estamos verdadeiramente a caminho de um longo inverno eclesial.


Na verdade o bispo Zubik referiu-se ao problema da fé quando disse que “ao mesmo tempo compreendi que eles [os paroquianos] estavam entusiasmados sobre a razão principal pela qual estamos a fazer tudo isto: para reavivar a fé das pessoas.”


Senhor bispo, a verdade é que para se reavivar a fé de alguém, é preciso que essa fé já exista. A principal prioridade, então, deve ser esta questão básica: A que é que se deve esta monumental perda de fé, e como é que a podemos ressuscitar?

O padre Mark A. Pilon, sacerdote da Diocese de Arlington, Virginia, é doutorado em Teologia Sagrada pela Universidade de Santa Croce, em Roma. Foi professor de Teologia Sistemática no Seminário de Mount St. Mary e colaborou com a revista Triumph. É ainda professor aposentado e convidado no Notre Dame Graduate School of Christendom College. Escreve regularmente em littlemoretracts.wordpress.com
(Publicado pela primeira vez na quarta-feira, 24 de Agosto de 2016 em The Catholic Thing)
© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Porque nos Voltámos Para Oriente

Pe. Gerald E. Murray
Desde Julho que os padres da igreja de Holy Family, na cidade de Nova Iorque, onde sou pároco, voltaram à prática de celebrar a Santa Missa virados para o Oriente litúrgico, ad orientem. Decidi que o faríamos depois de ter lido uma entrevista dada pelo Cardeal Robert Sarah à revista francesa Famille Chrétienne, em Maio. Mais tarde voltaria a falar do assunto numa conferência em Londres, em Julho, recomendando reavivar a celebração da missa ad orientem.

Na entrevista de Maio ele aborda a questão da legalidade canónica desta prática: “É legítima e adequada à letra e ao espírito do Concílio. Na minha capacidade de prefeito para a Congregação para o Culto Divino e para a Disciplina dos Sacramentos, continuo a recordar a todos que a celebração voltada para Oriente (versus orientem) é autorizada pelas rúbricas do missal, que especificam os momentos em que o celebrante se deve voltar para as pessoas. Não é necessária, por isso, autorização particular para celebrar a missa voltado para o Senhor”.

Estas palavras do Cardeal Sarah mexeram comigo. Ele relaciona o voltar para o Oriente litúrgico com o movimento mais profundo das nossas almas que se voltam para Deus. O nosso culto deve ser uma experiência que nos faz sair de nós mesmos em direcção a Cristo. “A conversão é um voltar-se para Deus. Estou profundamente convencido que os nossos corpos devem participar nesta conversão. A melhor forma é certamente celebrar – padre e fiéis – voltados juntos para a mesma direcção: Para o Senhor que vem. Não se trata, como por vezes ouvimos, de celebrar de costas para as pessoas ou voltado para elas. O problema não é esse. Trata-se de estarem voltados em conjunto para a abside, que simboliza o Oriente, onde está entronizada a cruz do Senhor ressuscitado.”

Os fiéis não são um público que precisa de ser conquistado ou entretido por um espectáculo interessante por parte do padre que preside, que precisa de se manter na frente e no centro e não deixar que os paroquianos lhe saiam do campo de visão. Não, a natureza do culto divino exige que não deixemos nada interferir na união de Deus com o seu povo. Ao voltar-se para o Senhor com os fiéis, o padre assume o papel de guia na peregrinação para o Senhor, para o Céu. Não se põe a tentação de agir como actor principal num espectáculo para um público cativo.

O tempo para estar voltado para os fiéis e dirigir-se a eles durante a missa é sobretudo a Liturgia da Palavra. A Palavra de Deus é proclamada e o pregador utiliza os seus talentos e os frutos dos seus estudos numa exortação que tem as suas raízes no Evangelho, nas outras leituras e nos ensinamentos da Igreja. Mas depois de começar o ofertório, o sacerdote dirige-se em primeiro lugar a Deus e os fiéis unem-se a ele nas suas orações enquanto seu sacerdote e advogado dos pecadores.

Ainda segundo o Cardeal Sarah: “Celebrando desta forma, experimentamos, nos nossos próprios corpos, a primazia de Deus e da adoração. Compreendemos que a liturgia é a nossa primeira participação no sacrifício perfeito da Cruz. Eu próprio já tive esta experiência. Ao celebrar desta forma, com o padre à cabeça, a assembleia vê-se arrebatada de forma quase física pelo mistério da cruz no momento da elevação”.

O Papa Francisco a celebrar ad orientem
Também eu partilho desta experiência. Agora, quando elevo a Hóstia consagrada, e depois o cálice que contém o Sangue de Cristo, sei que os meus paroquianos estão a olhar para o sacramento de Cristo, e não para mim. A ausência de contacto visual entre o padre e os fiéis neste momento central do culto é uma das melhores formas de comunicar a presença de Deus na Santa Eucaristia.

Quando vimos para a Missa, sejamos padres ou paroquianos, procuramos todos, juntos, a presença de Deus. Na celebração ad orientem, quando Cristo desce sobre o altar na altura da consagração, estamos todos concentrados nele. A sua presença domina a nossa atenção. É como se o padre desaparecesse da cena, continuando depois as orações da Missa, antes de se voltar para os fiéis para oferecer a paz do Senhor e, depois, para mostrar o Senhor Eucarístico aos seus fiéis, antecipando o momento em que o Senhor dará de comer ao seu rebanho com o dom de si próprio, pelas mãos do seu sacerdote.

A maioria dos nossos paroquianos na Holy Family habituaram-se já, serenamente, a estas mudanças. Houve algumas queixas, mas houve mais expressões de agradecimento e de encorajamento. Alguns não entenderam ainda que ter o padre voltado para o Senhor e não para os fiéis não tira nada a estes, mas antes os ajuda a focar-se em Cristo.

Os benefícios para o padre que preside incluem lembrar-se de que, no cânone da missa, ele está a falar a Deus em nome de todos, especialmente em nome daqueles que conduz naquele momento. O padre que preside é o seu pai espiritual e está a suplicar a Deus em seu nome enquanto renova o sacrifício perfeito do Calvário.

Outro benefício para o padre é que ele pode estar mais focado naquilo que está a fazer e distrair-se menos pelos movimentos inevitáveis na Igreja – pessoas a entrar e a sair, crianças e até adultos a andar de um lado para o outro, portas a abrir-se e a fechar-se, etc.

Estou agradecido ao Cardeal Sarah por encorajar pelo reavivar desta antiga prática litúrgica da Igreja. Ele recorda-nos de algo que já sabemos, mas de que facilmente nos esquecemos quando o nosso culto se torna demasiado autoreferencial e menos cristocêntrico: “Para nós, a luz é Jesus Cristo. Quando está voltada para Oriente, toda a Igreja está orientada para Cristo: ad Dominum. Uma Igreja fechada sobre si mesma, num círculo, perderá a sua razão de ser. Para ser ela mesma, a Igreja deve viver voltada para Deus. O nosso ponto de referência é o Senhor! Sabemos que Ele esteve connosco e que regressou ao Pai do Monte das Oliveiras, a leste de Jerusalém, e que voltará da mesma forma. Estar voltado para o Senhor significa esperar por ele todos os dias. Não devemos dar a Deus razões para se queixar constantemente de nós: ‘porque me viraram as costas, e não o rosto’ (Jeremias 2:27)”. 


O padre Gerald E. Murray, J.C.D. é pastor da Holy Family Church, em Nova Iorque, e especializado em direito canónico.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Domingo, 21 de Agosto de 2016)

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

terça-feira, 10 de março de 2015

Sacrifícios quaresmais islâmicos e latinices

Clicar para aumentar
O Conselho de Segurança das Nações Unidas vai discutir a perseguição aos cristãos no Médio Oriente. Vai ser no dia 27 e quem propõe é o Governo francês.

Este fim-de-semana cumpriram-se 50 anos desde que Paulo VI celebrou a primeira missa em italiano depois do Concílio Vaticano II e a efeméride foi assinalada pelo Papa Francisco.

Na sexta-feira divulguei uma entrevista sobre o assunto. Agora, como na altura prometi, um outro artigo com dois protagonistas, um sacerdote que defende a reforma, outro que valoriza a importância do latim na liturgia.

Para melhor poderem conhecer as suas posições, publiquei no blog as transcrições integrais de ambas as entrevistas. Aqui o padre Luís Manuel Pereira da Silva e aqui a do padre Manuel Vaz Patto.

Acredite ou não, há muçulmanos a fazer sacrifícios esta Quaresma, em solidariedade para com os cristãos. Falei com o fundador da campanha, saiba do que se trata este fenómeno! Aqui, mais uma vez, a transcrição completa da entrevista, no inglês original.

O presidente da Hungria esteve em Lisboa este fim-de-semana para homenagear o padre Kondor, que promoveu a causa da beatificação dos Pastorinhos.

A cerimónia decorreu em Fátima que, como sabemos, está no centro de várias teorias da conspiração, tema do mais recente artigo do The Catholic Thing em português.

Termino com duas notas. Em primeiro lugar o aviso para uma conferência sobre o Santo Sudário, na quarta-feira (ver imagem). O orador é o meu bom amigo João Paulo Sacadura, que é um apaixonado pelo tema e que vale bem a pena ver!

E por fim, depois de na semana passada ter incentivado a irem ver o musical Godspell, fui ao espectáculo na sexta-feira. Posso-vos dizer que gostei mesmo muito! Estava mal influenciado pela adaptação cinematográfica, que é terrível, mas esta versão está muito bem feita, inspiradora, extremamente bem encenada e com músicas bem adaptadas pelo sempre surpreendente Gimba. Não deixem de ir, se puderem.

segunda-feira, 9 de março de 2015

“A liturgia é sagrada e o latim ajuda-nos a lembrar isso”

Paulo VI celebra a missa pré-conciliar
Transcrição integral da entrevista ao padre Manuel Nogueira Mouzinho Vaz Patto, sobre o valor do latim nas celebrações da Igreja. A reportagem está aqui. Ver também, sobre o mesmo assunto, a entrevista ao padre Luís Manuel Pereira da Silva.


O que significa o rezar e celebrar em Latim e não no vernáculo?
O Latim sempre teve lugar na Igreja, e continua a ter, sobretudo no Concílio Vaticano II, na Sacrosanctum Concilium é reforçado o valor do latim, como sendo o vulgar. Infelizmente deixou de ser o vulgar para ser inexistente na Igreja, por isso qualquer fiel comum não pode ter acesso ao latim na liturgia, o que não é previsto no concílio.

De facto o latim tem um valor muito importante, em primeiro lugar porque remete para a sacralidade, para que a liturgia seja uma coisa diferente das coisas comuns, como acção sagrada que é e pela presença de Deus. A liturgia é a acção de Deus, em primeiro lugar, que desce à Terra e, pela presença de Jesus, pode trazer-nos as graças de Deus e levar as nossas súplicas até Deus.

Por isso a liturgia é sagrada e o latim ajuda-nos a lembrar isso, que a liturgia não é uma coisa comum, habitual, como uma refeição ou um encontro nosso. O latim tem esse valor que o concílio Vaticano II lhe dá e que infelizmente se tem perdido e é bom, de facto, sermos fiéis ao concílio e como os últimos Papas, Francisco e Bento XVI nos têm alertado, é preciso cuidarmos muito da liturgia como acção sagrada, para que possa ser um espaço de encontro dos homens com Deus.

O latim pode ter e tem, em muitas pessoas, essa possibilidade de ajudar ao encontro com Deus.

Celebra a maioria das suas missas no vernáculo, certamente. Sente alguma diferença quando celebra em latim?
O vernáculo tem muito lugar na Igreja, é importante que as pessoas compreendam sobretudo a palavra de Deus, para que se possam alimentar dela, portanto o vernáculo tem no rito antigo, mas sobretudo no novo, um lugar muito importante. As pessoas devem tentar compreender e foi esse o esforço do concílio, para que as pessoas compreendessem, mas sem tirar o carácter essencial da liturgia. Portanto a liturgia no vernáculo faz sentido, mas deve ser mantido também o uso do latim.

No pontificado de Bento XVI falava-se na reforma da reforma. Imagina uma situação em que nas missas em todo o mundo algumas orações sejam feitas em latim, como sinal de unidade?
A respeito da reforma da reforma, isso pode acontecer, depende dos fiéis, basta que os fiéis queiram.

O essencial é celebrar a liturgia com o cuidado que merece como acção sagrada. Portanto em cada gesto, em cada palavra, que pode ser no vernáculo ou em latim, deve estar presente esse carácter sagrado, de acção de Deus. Por isso o vernáculo faz sentido mas também o latim, sobretudo nos cânticos, que é o mais fácil e o mais adequado, que nos ajuda a rezar a elevar-nos para Deus.

Deve ter lugar e os fiéis reconhecem que os ajuda na sua intimidade e relação com Deus.

"Rezar numa língua que não se entende pode-se transformar numa cacofonia"

Paulo VI a celebrar missa pós-conciliar
Transcrição integral da entrevista ao padre Luís Manuel Pereira da Silva, sobre a abertura da liturgia ao vernáculo. A reportagem está aqui. Ver também a entrevista, no sentido contrário, ao padre Manuel Vaz Patto.

Faz 50 anos que Paulo VI celebrou a primeira missa no vernáculo. Que diferença é que isto fez na vida dos católicos?
Foi uma das grandes realizações da reforma que o concílio promoveu, o acesso às línguas vernáculas. É certo que o concílio não acabou com a missa em latim, ela sempre foi possível, inclusive o missal de Paulo VI também está em latim, e sempre a Igreja teve a faculdade de celebrar o latim, se se justificar.

Todavia, o Papa Paulo VI celebrar pela primeira vez no vernáculo é uma forma de chancelar toda uma reforma litúrgica que estava a ser empreendida e que era um desejo de grandes sectores da Igreja.

Antes do concílio o Movimento Litúrgico, uma das ideias e sugestões que fazia à Santa Sé era para que a celebração fosse na língua que as pessoas percebessem.

Rezar numa língua que não se entende pode-se transformar numa cacofonia. A prova disso é que as pessoas, quando queriam rezar, rezavam na sua língua própria. Rezavam o terço, tinham orações nos missais em português, porque é a forma de expressão.

Aliás a Igreja reza, em cada sítio, conforme a língua que usa, tal como no tempo de Jesus e tal como na história da salvação. Quando o povo de Deus falava aramaico ou hebraico, rezava em hebraico e escreveu parte da Bíblia em hebraico.

No tempo de Jesus, a língua maioritária do Império Romano era o grego, tanto que a Igreja nascente celebrou em grego até ao Papa Dâmaso e o Papa Dâmaso morre no século IV. Por isso é que os Evangelhos, à excepção do Evangelho de São Mateus, estão escritos em grego.

Quando o latim começou a ser a língua maioritária a Igreja também começou a rezar em latim. O que se sucedeu é que a liturgia continua a ser celebrada em latim, uma língua que o povo cada vez mais não percebia, sobretudo a partir do século IX, quando começam a surgir as línguas nacionais. O que depois se sentiu, e cada vez mais se acentuou, foi um desfasamento entre a língua oficial da liturgia e a língua em que o povo reza, canta e louva o senhor.

Portanto, voltar à língua vernácula é voltar ao contexto natural, porque não há línguas sagradas. Nosso Senhor não falou latim. Não era a língua do seu tempo. Quando vemos algumas tendências para endeusar o latim… Hoje em dia quem é que entende o latim e se expressa em latim? Ninguém.

A oração é a oração do povo de Deus, unido à sua cabeça que é Cristo. E cada povo tem a sua língua, cada povo tem a sua forma de se expressar e a celebração em vernáculo é uma consequência natural de uma oração que se quer participada pela comunidade, conscientemente celebrada, conscientemente vivida e que se torna, como diz o Concilio, a glorificação de Deus e a santificação do homem.

Faria sentido haver algumas orações das missas em latim, como sinal de unidade a nível global?
É uma possibilidade e é uma prática já que existe.

Nas grandes celebrações internacionais o Ordo, o Kyrie, o Santo e o Agnus Dei muitas vezes são em latim. Às vezes o Pai Nosso, o Credo ou o Glória, mas o Credo e o Glória, como hino e como afirmação de fé, mesmo nas celebrações internacionais, se quisermos ser objectivos, em que estejam 100 mil pessoas, dessas quem é que entende o latim? É o querer manter uma coisa, a meu ver, que não faz contexto.

Aliás o motu próprio de Bento XVI diz isso com clareza, logo ao princípio. Quando a assembleia e o grupo celebrante percebe o latim, justifica-se. Quando isso não acontece, não há condições reunidas para se manter. Portanto eu, que até defendo essas grandes orações, acho que não é por isso que há mais unidade. A unidade faz-se à volta do mistério que celebramos. As outras formas são apenas formas de celebrar.

Quem vê as celebrações de Fátima vê que é muitas vezes assim. Na Santa Sé, chega-se a certos momentos e reza-se em latim, sem problema nenhum.

Os documentos do CVII promovem o vernáculo, mas de modo algum prescrevem o latim. Na prática viu-se o quase desaparecimento total do latim da vida diária dos fiéis. Foi-se longe de mais?
Não. Seguiu o curso natural das coisas. O contexto do Sacrosanctum Concilio é de 1963 e portanto na Igreja que ainda não tinha optado pelo vernáculo, não podia dizer outra coisa. A prática das comunidades cristãs, das conferências episcopais, da realidade da Igreja, é que ajudou a aclarar o que aconteceu. De facto, as pessoas optaram pela língua vernácula.

Veja, em Lisboa, houve missa em latim durante décadas depois do concílio, concretamente na Igreja de Santo António, e acabou porque não tinha povo. Manteve-se, porque era permitido, era normal e depois teve de acabar, porque não vinha ninguém.

Portanto não foi um abuso, nem um ir para lá do que diz o concílio. Foi um actualizar o que o concílio abre e responder às necessidades e à tendência que havia na Igreja.

Mas o latim continua a ser uma língua importante para a Igreja…
Claro que o latim continua a ser a língua oficial da Igreja, porque os documentos principais estão escritos em latim. Mas depois o que é que se tem de fazer? Traduzir tudo para as línguas vernáculas. Quem é que lê, hoje, uma encíclica do Papa em latim?

Um grupo que saiba latim e que reze em latim, tudo bem. De resto, pode-se tornar o pegar numa coisa para fazer dela um ex-libris, mas de quê?

sexta-feira, 6 de março de 2015

Nimrud - Era uma vez um tesouro da humanidade

Nimroud, antes...
Não há dia em que o Estado Islâmico não nos dê notícias frescas. Hoje surgiu a informação da destruição da cidade de Nimrud, um tesouro arqueológico que data do século XIII antes de Cristo.

Desde os budas dinamitados no Afeganistão até este último incidente, são já vários os episódios de violência contra o património cultural do mundo. Porquê? É o que tento explicar aqui.

Amanhã faz 50 anos que o Papa Paulo VI celebrou a primeira missa em italiano, selando a reforma litúrgica que permitiu missas no vernáculo. Hoje temos o padre Vasco Pinto de Magalhães sobre o tema, a dizer que a missa em Latim deixava o povo de fora. Amanhã teremos mais uma reportagem sobre o assunto, com perspectivas diferentes.

Existe marketing religioso? Claro que sim, dizem os especialistas. E faz falta.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

A “História da Igreja Católica” de Hitchcock

Acabei de ler a “História da Igreja Católica” de James Hitchcock, o que me levou a reflectir sobre alguns desenvolvimentos históricos que nos podem dar que pensar hoje em dia, sobretudo em três áreas específicas:

1. Desenvolvimentos Litúrgicos

No que diz respeito à Missa, o latim tornou-se a língua litúrgica em vez do grego no terceiro século, por ser o vernáculo. O “beijo da paz” era um costume pagão que foi gradualmente incorporado na liturgia. A comunhão na mão prevaleceu até ao século nono, altura em que se formulou a doutrina da presença real e a comunhão na boca tornou-se a respectiva afirmação doutrinal, (hereges como Ratramnus atacaram a ideia). Durante a Idade Média, sob influência do clero franco, as genuflexões, o sinal da cruz e outros gestos tornaram-se lugares-comuns litúrgicos. A comunhão era pouco frequente. O Concílio de Trento viria a encorajar a comunhão frequente, mas aquilo em que os padres conciliares estavam a pensar era comunhão semanal para seminaristas e comunhão mensal para freiras. Foi Pio X, no século XX, quem abriu a porta para aquilo que hoje compreendemos como “comunhão frequente”.

Enquanto académico de línguas clássicas, tendo estudado grego e latim no liceu e na universidade, tendo ensinado latim em África e na Califórnia e memorizado grande parte da missa em latim, fiquei de rastos quando se começou a celebrar o Novus Ordo em inglês. Graças às maravilhas da tecnologia Android, agora consigo ler partes do ofício divino em latim no meu Smartphone. Mas ainda não sei de cor o Glória nem o Credo em inglês. Seja como for, a missa não é sobre mim! Não se pode voltar atrás: a nossa é uma Igreja de muitos ritos – romano, bizantino, alexandrino, siríaco, arménio, maronita, caldeu… - com uma variedade de línguas – grego, sírio, árabe, russo, eslovaco, etc. A missa nos países de língua inglesa continuará a ser em inglês, com pequenos bolsos aqui e ali para quem ama a forma “extraordinária”. Ainda há padres fluentes em latim? Se não, será que têm tempo para aprender?

Mas a prática de celebrar a missa “versus populum”, de frente para a congregação, em vez de “ad orientem”, de frente para o altar, é um problema. Se há esperança para o diálogo ecuménico com os ortodoxos, esta prática, bem como a primazia do Papa, é um obstáculo gritante. A arquitectura das igrejas católicas de rito latino mudou significativamente desde o Vaticano II, com uma mesa próxima da congregação, ao estilo protestante, em vez de enfatizar o altar em frente, onde o padre continua a renovar o mistério do sacrifício de Cristo na Cruz.

Temos de perguntar: quais são as nossas prioridades ecuménicas? Queremos investir na união com os protestantes, que se sentem confortáveis numa igreja com uma mesa para a “Ceia do Senhor”? O senso comum deve levar-nos a dar prioridade aos ortodoxos, que são “igrejas irmãs” com sucessão apostólica válida e perpetuam de forma reverente o sacrifício da missa.

Entretanto, continuando a assistir a missas “Novus Ordo”, ficaria razoavelmente satisfeito se os padres apresentassem claramente a missa como um sacrifício em vez de uma refeição comunitária, deixassem de usar termos neutros para substituir os masculinos no Evangelho e no missal e deixassem de atravessar toda a Igreja para socializar na altura da comunhão.

2. Escândalos na Igreja
Jesus avisou os seus discípulos de antemão: “Ai do mundo, por causa dos escândalos; porque é mister que venham escândalos, mas ai daquele homem por quem o escândalo vem!” (Mt. 18,7). Os séculos IX e X foram o auge dos escândalos, tanto na Igreja como na política. Carlos Magno casou-se cinco vezes, teve seis concubinas e forçou as filhas a ter filhos fora do casamento, para evitar problemas com genros sedentes de poder. O Papa Estêvão VI exumou o cadáver do seu antecessor, o Papa Formoso, para o profanar publicamente por causa de desentendimentos sobre direito canónico, mas ele também acabou preso e estrangulado até à morte.

No século XI Bento IX tornou-se Papa através de subornos, mas acabou por resignar, na condição de ser reembolsado. No século XV o Papa Sexto mandou dois padres assassinar alguns Medicis que representavam obstáculos a alianças estratégicas que tinha em mente; e o Papa Alexandre VI, depois de uma feroz campanha para se tornar Papa, viria a ser um dos pontífices mais infames. Pio II, o único Papa a escrever uma autobiografia, também era conhecido por escrever obras pornográficas antes de ter conseguido alcançar o pontificado através de esquemas ambiciosos.

Contudo, as reformas proliferaram juntamente com os escândalos. No século XII, Pedro Abelardo, famoso pelos encontros com Heloísa, acabou por se tornar um director espiritual e um abade reformador, a tal ponto que os seus monges o tentaram envenenar, enquanto Heloísa se tornou abadessa de uma comunidade de freiras. No século XIV, Santa Catarina de Sena, que não deixava de melgar os papas desnorteados, dedicou o capítulo 124 dos seus famosos diálogos à necessidade de obliterar o escândalo dos padres sodomitas para se poder reformar a igreja. No século XVI o Papa Paulo III, cuja carreira foi auxiliada pelo facto de a sua irmã ter sido amante de Alexandre VI, deixou para trás uma vida de escândalos para se tornar um Papa reformista. E no século XVII a grande reforma trapista da ordem cisterciense foi conseguida por Armand-Jean de Rancé, depois da morte da sua amante.

No século XX, para além do escândalo de padres e freiras a abandonar os seus ministérios, o maior escândalo tem sido o dos abusos sexuais, incluindo pedofilia, por padres em boa conta, bem como o encobrimento e as “transferências”. Mas enquanto recuperávamos deste pesadelo tivemos dois grandes e santos papas, bem como uma reforma gradual e bem-sucedida numa área de disciplina interna da Igreja que costumava passar-se só atrás de portas fechadas, mas agora se tornou mais transparente.

E agora, perante desafios abertos à liberdade religiosa por parte dos governos, é possível que vejamos os bispos e outros líderes religiosos a chegarem-se à frente e a fechar serviços, como agências de adopção, em vez de ceder à pressão de servir “casais” homossexuais ou fechar hospitais em vez de sucumbir às exigências de financiar contraceptivos nos seguros. A “reforma”, nestes casos, poderá exigir atitudes verdadeiramente heroicas.

3. Concílios

Temos assistido a críticas incessantes ao Concílio Vaticano II por não ter clarificado nem fortalecido a posição da Igreja no mundo e de, pelo contrário, ter levado a uma fuga de fiéis. Mas como Hitchcock faz questão de sublinhar, historicamente os concílios nunca resolveram os problemas da época em que foram convocados. Pelo contrário, em muitos casos ajudaram a intensificá-los. O Concílio de Nicéia (325), que tinha como objectivo clarificar questões sobre a divindade de Cristo, acabou por gerar ambiguidades sobre a sua “consubstancialidade” com o Pai. O Concílio de Calcedónia (451) não resolveu o problema da relação de estatuto entre as sés de Roma e de Constantinopla. 

O Concílio de Trento (1545-63) foi recheado de divisões políticas. Boicotado pelos bispos franceses, teve a oposição de Paulo IV mas foi retomado por Pio IV, embora sujeito a relações tempestuosas entre facções nacionais e doutrinais. Os objectivos contra-reformistas de resolver as questões da justificação e da relação entre a graça e o livre arbítrio foram em larga medida falhados e a missa no vernáculo foi proibida, apesar de o latim ter alcançado a primazia precisamente por ser o vernáculo.

Igualmente, o Vaticano I (1869-70) enfrentou oposição episcopal considerável à declaração de infalibilidade papal. Um dos problemas era que, historicamente, dois papas tinham estado perto de heresias. Honório, no século VII aceitou o monoteletismo e o Papa João XXII, no século XIV defendeu, por um período, a doutrina de “alma adormecida” após a morte, antes do juízo final. Foi por isso que se incorporou a condição de se falar “ex cathedra” na declaração, para diminuir a probabilidade de pronunciamentos heterodoxos.

Por isso o Vaticano II, por mais falhas que tenha tido, não foi caso único. As divisões políticas eram imensas. Os principais agentes no Concílio foram principalmente teólogos, muitos dos quais do género “progressista”, e os bispos e os cardeais tendiam a dar lugar a esses “peritos”, como explica Hitchcock:

Juntamente com Schillebeeckx, Haering e, em menor escala, Rahner, o padre e teólogo germano-suíço Hans Küng tornou-se o mais apaixonado e audaz porta-voz do aggiornamento, exigindo que a Igreja se acomodasse a uma cultura em mudança, enquanto Lubac, Danielou, Maritain, Balthasar, Bouyer, Ratzinger e outros protestavam o que consideravam ser distorções do concílio.

Um dos principais pontos de viragem do Vaticano II teve lugar quando a Comissão Teológica, presidida pelo Cardeal Ottaviani, foi ultrapassada pela berma pelo recém-criado Secretariado para a Promoção da Unidade dos Cristãos, presidido pelo Cardeal Bea. Este secretariado era idealista em relação à possibilidade de se restaurar a unidade e pragmática quanto aos métodos, que incluíam gestos diplomáticos para com os soviéticos e os representantes ortodoxos que simpatizavam com os soviéticos.

Vários dos “schemata” foram submetidos a critérios ecuménicos. Assim, os progressistas conseguiram descarrilar os esforços para enfatizar a Virgem Maria como Mediadora de todas as Graças e co-redentora, uma vez que isso era visto como um obstáculo à unidade co os protestantes. Os braços do secretariado chegavam mesmo bem mais longe que o Cristianismo, em direcção ao Islão, visto como uma religião “abraâmica” que adorava “o Deus único e misericordioso”. (Tanto quanto sei nem um dos peritos que escreveu a Constituição Dogmática Lumen Gentium era um estudante sério da doutrina, prática e história do Islão.)

Apesar destes exageros e talvez algumas ambiguidades noutros documentos, (o concílio não emitiu leis ou declarações definitivas sobre questões de fé e de moral), o Vaticano II não produziu nada de claramente herético. Os progressistas avançaram com propostas que tresandavam a heresia, como o conciliarismo, modernismo, a primazia da colegialidade episcopal, compromissos com a liberdade religiosa, etc. Mas a organização tardia de “conservadores” como como os cardeais Ottaviani, Siri, Ruffini e o arcebispo Lefebvre, entre outros, bem como as suas intervenções nas conferências, ajudaram a modificar estas iniciativas e a colocar os debates novamente em linha com a tradição e os anteriores concílios.

Aqueles que apontam para o Vaticano II como o princípio de uma espiral de declínio para o Catolicismo não têm em conta que o Concílio teve lugar mesmo durante a revolução sexual dos anos 60. Enquanto o Concílio começava, em 1962, a pílula contraceptiva estava no mercado há dois anos e esperava-se que um dos resultados deste concílio “pastoral” fosse a aprovação de pelo menos esta forma de contracepção. Quando isto não aconteceu e quando a encíclica Humanae Vitae (1968), de Paulo VI, enfrentou a rejeição ou a indiferença esmagadora de muitos bispos e teólogos, isso conduziu a uma crise de autoridade, que se mantém. O feminismo militante e o ataque a todas as formas de “patriarquia” também foram um factor muito importante.

Será que o Vaticano II conseguiu “abrir as janelas para deixar entrar ar fresco”, como o Papa João XXIII esperava? De certa maneira, sim. No Vaticano I, por exemplo, não havia cardeais da Ásia nem de África. No Vaticano II, contudo, os cardeais africanos, asiáticos e da América Latina estavam bem representados. Foi sem dúvida mais “ecuménico” no sentido de abrir a Igreja ao mundo. Aliás, Hitchcock apresenta uma estatística interessante, que em 2010 a Igreja duplicou de tamanho em relação ao fim do Concílio Vaticano II.


Howard Kainz é professor emérito de Filosofia na Universidade de Marquette University. Os seus livros mais recentes incluem Natural Law: an Introduction and Reexamination(2004), The Philosophy of Human Nature (2008), e The Existence of God and the Faith-Instinct (2010)

(Publicado pela primeira vez em TheCatholic Thing no sábado, 16 de Agosto de 2014)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

A Alegria do Evangelho - Os Conservadores

Antes sequer de começar, eu sei que estes rótulos “conservador” ou “liberal” são muito redutores. Mas por outro lado também são indicativos, desde que nos lembremos que são estereótipos, e tenhamos algumas reservas.

O problema é que conservador abarca tanto as pessoas que são ultra-tradicionalistas como outras que simplesmente estão com a Igreja em questões fracturantes como o aborto, casamento, ordenação de mulheres etc.

Dito isto, muitas pessoas têm dito que este documento, à imagem de todo o pontificado, tem posto os conservadores “nervosos”. Os conservadores, por seu lado, sobretudo os mais conservadores, fazem logo questão de desmentir e insistir que não há aqui nada de novo.

Nem tanto ao mar nem tanto à terra. É verdade que muitos conservadores sustêm a respiração cada vez que o Papa diz ou escreve alguma coisa. É uma questão de hábito, também… estavam habituados à total segurança de Bento XVI e com Francisco há surpresas. Mas às vezes a ginástica torna-se absurda, como quando alguns insistiram que nesta exortação não há qualquer crítica ao capitalismo, porque o Papa nunca menciona a palavra capitalismo… please!

Vejamos então algumas passagens.

“A quantos sonham com uma doutrina monolítica defendida sem nuances por todos, isto poderá parecer uma dispersão imperfeita; mas a realidade é que tal variedade ajuda a manifestar e desenvolver melhor os diversos aspectos da riqueza inesgotável do Evangelho.” (#40)
A questão aqui é que, por mais que isso custe a alguns, a Igreja é de facto uma casa de variedades. Poderão dizer, sim, é certo, mas ao menos em relação à doutrina não há dúvidas. O Papa aqui não usa a palavra dúvidas, mas usa nuances… é mais neutro. Doutrina só há uma, mas como a entendemos? Como a ensinamos? A Igreja não ensina que há hierarquias de verdades? Penso que será essa a janela que o Papa está a abrir aqui.

“Por vezes, mesmo ouvindo uma linguagem totalmente ortodoxa, aquilo que os fiéis recebem, devido à linguagem que eles mesmos utilizam e compreendem, é algo que não corresponde ao verdadeiro Evangelho de Jesus Cristo. Com a santa intenção de lhes comunicar a verdade sobre Deus e o ser humano, nalgumas ocasiões, damos-lhes um falso deus ou um ideal humano que não é verdadeiramente cristão. Deste modo, somos fiéis a uma formulação, mas não transmitimos a substância. Este é o risco mais grave.” (#41)
“O risco mais grave”… Isto não é brincadeira. E isto sim é algo que eu identifico com alguma facilidade no “campo” conservador. A rigidez da defesa da doutrina, sendo louvável em si, não pode abafar a surpresa e a frescura que deve ser a mensagem cristã. Conhecer Cristo tem de ser mais do que simplesmente ter a fórmula certa na cabeça e observar os rituais.

Podem até ser belos, mas agora não prestam o mesmo serviço à transmissão do Evangelho. Não tenhamos medo de os rever! Da mesma forma, há normas ou preceitos eclesiais que podem ter sido muito eficazes noutras épocas, mas já não têm a mesma força educativa como canais de vida. (#43)

Nalguns, há um cuidado exibicionista da liturgia, da doutrina e do prestígio da Igreja, mas não se preocupam que o Evangelho adquira uma real inserção no povo fiel de Deus e nas necessidades concretas da história. Assim, a vida da Igreja transforma-se numa peça de museu ou numa possessão de poucos. (#95)
Lamento, mas esta é uma forma querida e simpática de o Papa dizer aquilo que muitos de nós, e uso o “nós” de propósito, temíamos. Francisco está a falar precisamente das tradições de que tanto gostamos e que ao longo das últimas décadas têm sido abandonadas. Liturgias elaboradas, ritos diferentes e antigos, dos incensos aos paramentos pretos… E fala também de outras curiosidades que Bento XVI estimava mas que Francisco mostrou desde cedo não querer. Os sapatos encarnados, os mil e um apetrechos que, de facto, fazem parte da história e da cultura da Igreja.

Mas não demos um passo maior que as pernas. Francisco não tem paciência para estas coisas, mas não diz que devemos enterrá-las, como muitos andam a tentar fazer desde o Concílio, baseando-se no tal “espírito” vago, que não está na letra dos documentos.

E por isso mesmo, esta atitude do Papa e as suas palavras não deixam de ser absolutamente certeiras. Porque para muitos os paramentos, os incensos, as liturgias, a língua e a orientação do padre deixaram de ser setas a apontar no sentido de Cristo e passaram a ser o próprio objectivo e destino. O Papa não nos diz que estas coisas são más em si, só nos diz que na medida em que não contribuem para iluminar o caminho para Cristo, são dispensáveis.

E não iluminam? Nalguns casos, provavelmente não. Noutros, sim. É esse discernimento que é preciso saber fazer. Não guardar a tradição só porque é antigo e tradicional, mas sim na medida em que contribui para o conhecimento da verdade.

A todos os que sentem agora a tentação de citar estas palavras para celebrar liturgias francamente feias, e igrejas que mais parecem contentores e armazéns, não esqueçamos que o mesmo Papa, neste mesmo documento, pede liturgias belas. Para Jesus o melhor, só o melhor. O melhor tem muitas formas e feitios. Não tem de ser sempre igual e parado no tempo. Mas é sempre belo.

A Eucaristia, embora constitua a plenitude da vida sacramental, não é um prémio para os perfeitos, mas um remédio generoso e um alimento para os fracos. Estas convicções têm também consequências pastorais, que somos chamados a considerar com prudência e audácia. Muitas vezes agimos como controladores da graça e não como facilitadores. Mas a Igreja não é uma alfândega; é a casa paterna, onde há lugar para todos com a sua vida fadigosa. (#47)
Esta foi uma passagem que levou muita gente a pensar que o Papa preparava terreno para permitir que os divorciados recebam os sacramentos. Eu também a assinalei por causa disso. Contudo, na sua mais recente entrevista, publicada pelo “La Stampa”, o Papa desmente essa ideia e diz que não era isso que queria dizer, que pensava mais especificamente na situação de quem recusa baptizar filhos de mães solteiras e que, no caso dos divorciados “recasados”, o impedimento de comungar não é uma sanção.

A outra maneira é o neopelagianismo auto-referencial e prometeuco de quem, no fundo, só confia nas suas próprias forças e se sente superior aos outros por cumprir determinadas normas ou por ser irredutivelmente fiel a um certo estilo católico próprio do passado. É uma suposta segurança doutrinal ou disciplinar que dá lugar a um elitismo narcisista e autoritário, onde, em vez de evangelizar, se analisam e classificam os demais e, em vez de facilitar o acesso à graça, consomem-se as energias a controlar. (#94)
Nada a acrescentar a estas palavras, que são muito claramente direccionadas a um estilo de tradicionalistas que, infelizmente, cumpre criteriosamente cada ponto da descrição.

A diversidade deve ser sempre conciliada com a ajuda do Espírito Santo; só Ele pode suscitar a diversidade, a pluralidade, a multiplicidade e, ao mesmo tempo, realizar a unidade. Ao invés, quando somos nós que pretendemos a diversidade e nos fechamos em nossos particularismos, em nossos exclusivismos, provocamos a divisão; e, por outro lado, quando somos nós que queremos construir a unidade com os nossos planos humanos, acabamos por impor a uniformidade, a homologação. Isto não ajuda a missão da Igreja. (#131)
Esta passagem é muito importante para os nossos dias, quando os novos meios de comunicação tornam cada vez mais fácil encontrar quem pensa como nós e assim formarmos grupinhos e grupetas, cuja legitimidade reivindicamos em nome da diversidade.

Por outro lado, não deixa de ter piada ver a ala mais liberal a exigir o fim sem tréguas de tudo o que é movimento e grupo mais conservador, contrariando precisamente essa diversidade que, supostamente, tanto prezam.

O Papa dá aqui uma resposta que desarma ambos esses excessos. A diversidade e a unidade não são incompatíveis… Desde que verdadeiramente inspirados pelo Espírito Santo. E essa confirmação vem-nos pela oração, antes de mais, mas vê-se também nos frutos. De resto o Espírito Santo não é monopólio nem de conservadores nem de liberais, mas serve os propósitos de Deus, sempre.

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terça-feira, 3 de dezembro de 2013

A Alegria do Evangelho - Liturgia e Inculturação

A questão da liturgia é fundamental para a nova evangelização. É na liturgia que a comunidade se junta para exprimir a sua fé. Não são poucas as pessoas que começam uma aproximação a Deus atraídos pela liturgia, como não serão também poucas as que se afastam porque a liturgia não as atrai.

A liturgia é também uma área de enorme tentação para muitos sacerdotes, que podem cair no erro de a modificar a seu bel-prazer, pensando que com isso estão a seduzir os fiéis. Daí decorrem as missas-disco, as homilias com fantoches e outras coisas verdadeiramente deploráveis.

Do lado contrário há uma tentação de abordar a liturgia como se tivesse sido aperfeiçoada em Trento para todos e para sempre e preservada em âmbar para nunca mais poder ser alterada de qualquer forma. Mas sobre isso falarei sobretudo noutra secção.

Aqui, o essencial parece-me estar nesta frase:
“A evangelização jubilosa torna-se beleza na liturgia. A Igreja evangeliza e se evangeliza com a beleza da liturgia, que é também celebração da actividade evangelizadora e fonte dum renovado impulso para se dar.” (#23)
A beleza da liturgia não está (só) na fidelidade às rubricas e não está certamente no “marketing” artificial. A beleza na liturgia surge naturalmente quando a fé é verdadeira, quando ela ocorre num espírito de “evangelização jubilosa”.

Não faria justiça à lógica da encarnação pensar num cristianismo monocultural e monocórdico. É verdade que algumas culturas estiveram intimamente ligadas à pregação do Evangelho e ao desenvolvimento do pensamento cristão, mas a mensagem revelada não se identifica com nenhuma delas e possui um conteúdo transcultural. Por isso, na evangelização de novas culturas ou de culturas que não acolheram a pregação cristã, não é indispensável impor uma determinada forma cultural, por mais bela e antiga que seja, juntamente com a proposta do Evangelho. A mensagem, que anunciamos, sempre apresenta alguma roupagem cultural, mas às vezes, na Igreja, caímos na vaidosa sacralização da própria cultura, o que pode mostrar mais fanatismo do que autêntico ardor evangelizador. (#117)

Não podemos pretender que todos os povos dos vários continentes, ao exprimir a fé cristã, imitem as modalidades adoptadas pelos povos europeus num determinado momento da história, porque a fé não se pode confinar dentro dos limites de compreensão e expressão duma cultura. É indiscutível que uma única cultura não esgota o mistério da redenção de Cristo. (#118)

Rito etíope
Isto é verdadeiramente essencial. Nós, em Portugal, somos católicos latinos. A nossa liturgia é romana e latina e se cortarmos com essas raízes corremos o risco de estar a criar formatos efémeros que perdem significado com o passar dos anos.

Mas se nós somos latinos, os africanos não são. Nem os chineses, nem os japoneses. No caso da China e do Japão o caso é complicado, não há nenhum exemplo de inculturação evangélica que possa servir de base para criar um rito próprio, mais adequado à cultura local. A sua criação seria sempre forçada. Mas no caso de África, ou da Índia, esses exemplos já existem e podiam perfeitamente servir de base para esse tipo de experiência. Estou a falar das liturgias copta, etíope, ou no caso da Índia, malabar ou malankara.

Existe um caso em que se fez esta experiência. No Congo houve autorização para se elaborar um “Rito Zairense”, que é uma africanização do rito romano. Apesar de ter muita curiosidade, não sei o suficiente sobre o assunto para me poder pronunciar sobre se tem corrido bem ou não.

Mas mesmo dentro da Igreja Latina, esta seria uma boa oportunidade para apostar na renovação dos ritos próprios locais, como o rito bracarense que, infelizmente, está praticamente morto e enterrado em Portugal.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Lixo, tesouros e fidelidade

Depois de duas semanas de Papa Francisco vou cometer o atrevimento de comentar o seu pontificado. Faço-o ciente de que estou a falar de Pedro, o homem escolhido por Jesus para guiar a sua Igreja.

Este Papa entusiasma-me. Como ficar indiferente àquela imagem do abraço e do beijinho que deu ao rapaz deficiente profundo no Domingo de Páscoa?! Se me pedirem amanhã para definir o Cristianismo numa só imagem vou buscar aquela. Sem tirar nem pôr.

A sua capacidade para surpreender com estes gestos é fenomenal e é algo de que a Igreja precisa.

Obrigado!

Então porque é que dou por mim tantas vezes a suspirar quando vejo mais uma notícia sobre o Papa? Em parte porque sou um chato conservador, ou um legalista, como alguém me disse hoje. Mas não o sou só porque sim, sou-o porque olho para a Igreja e vejo que tem dois mil anos de riqueza e sinto-me, legitimamente, herdeiro dessa riqueza.

A Igreja é um edifício, construído sobre uma rocha, que é Pedro, e construído por Jesus. É o meu edifício, porque é a minha casa. Tal como a casa dos meus pais, onde cresci, está repleta de ornamentos e bugigangas que o meu pai sempre recusou deitar fora. Para alguns são lixo, mas cada um conta uma história e essa história ajuda a compreender aquela casa, o que se passou com ela, as dificuldades porque passou, onde se formou, como se formou, como se tornou o que é hoje e como nos molda.

Por isso custa-me quando aparece alguém que decide deitar fora esses ornamentos, mesmo os que menos parecem interessar. (Sou como o meu pai, nesse aspecto, onde uns vêem lixo eu vejo tesouros... quem mais sofre com isso é a minha mulher.) Cada ornamento que deitam fora é menos uma ligação que eu tenho ao meu passado, aos meus pais, aos meus avós...

Os sapatos encarnados são mais importantes que a mensagem de Cristo? Faz alguma diferença se o Papa lava os pés a mulheres ou a homens? Claro que não!

O quadro do meu antepassado irlandês que está na entrada da casa dos meus pais é o que mantém a casa de pé? As centenas de bilhetes de jogos de futebol que eu guardo cuidadosamente num dossier são a alma da minha casa? Não, claro que não. Mas se os deitarem para o lixo é uma parte da mim que desaparece, é uma ligação ao meu passado que cortam. E eu sinto-me mais pobre por isso. Sou sentimentalista, o que é que querem?

E por isso é natural que os outros sentimentalistas que por aí andam, como eu, estejam nesta altura um bocado desnorteados. Não é porque confundimos o essencial com o acessório (embora também os haja), é porque achamos que mesmo as coisas acessórias têm algum valor e mesmo que aceitemos que as tirem da casa, não gostamos de as ver tratadas como lixo.

Feito este desabafo, concluo. Obrigado Papa Francisco pelas palavras de sábado à noite, na vigília pascal. Terá sido a pensar em mim que disse estas palavras?

“Porventura não se dá o mesmo também connosco, quando acontece qualquer coisa de verdadeiramente novo na cadência diária das coisas? Paramos, não entendemos, não sabemos como enfrentá-la.

Frequentemente mete-nos medo a novidade, incluindo a novidade que Deus nos traz, a novidade que Deus nos pede. Fazemos como os apóstolos, no Evangelho: muitas vezes preferimos manter as nossas seguranças, parar junto de um túmulo com o pensamento num defunto que, no fim de contas, vive só na memória da história, como as grandes figuras do passado.

Tememos as surpresas de Deus. Queridos irmãos e irmãs, na nossa vida, temos medo das surpresas de Deus! Ele não cessa de nos surpreender! O Senhor é assim.”

Sim. Frequentemente temo a novidade. Não gosto. Sou assim.

Mas confio em Pedro, Sua Santidade. Confio em si e vou consigo até onde for preciso, mesmo que isso implique esvaziar a casa de todos os tesouros/lixo que ela tem, desde que não mexa nas fundações e nos pilares. Nem que seja preciso ficar sem tecto, exposto às intempéries, sem nada a que me agarrar se não àquela rocha. A sua rocha.

Cuide das suas ovelhas. Lembre-se que as há de várias formas e feitios.

quinta-feira, 28 de março de 2013

No mesmo dia Papa envia sinais contraditórios para tradicionalistas

"There aren't any women here, are there?"
Como já tive oportunidade de referir aqui, logo depois da eleição, a escolha do Papa Francisco não foi particularmente bem aceite por alguns católicos tradicionalistas.

O seu historial de não implementação do “Sumorum Pontificum” em Buenos Aires não ajudou, e o facto de nas primeiras semanas ter abandonado muitos dos sinais exteriores que Bento XVI cultivava no campo litúrgico, agravou a preocupação.

Hoje, contudo, surgem dois sinais contraditórios mas que poderão ajudar a compreender melhor o Papa.

Na missa crismal, de manhã, numa homilia dirigida de forma especial aos padres, o Papa disse o seguinte:

As vestes sagradas do Sumo Sacerdote são ricas de simbolismos; um deles é o dos nomes dos filhos de Israel gravados nas pedras de ónix que adornavam as ombreiras do efod, do qual provém a nossa casula actual: seis sobre a pedra do ombro direito e seis na do ombro esquerdo (cf. Ex 28, 6-14). Também no peitoral estavam gravados os nomes das doze tribos de Israel (cf. Ex 28, 21). Isto significa que o sacerdote celebra levando sobre os ombros o povo que lhe está confiado e tendo os seus nomes gravados no coração. Quando envergamos a nossa casula humilde pode fazer-nos bem sentir sobre os ombros e no coração o peso e o rosto do nosso povo fiel, dos nossos santos e dos nossos mártires, que são tantos neste tempo.

Depois da beleza de tudo o que é litúrgico – que não se reduz ao adorno e bom gosto dos paramentos, mas é presença da glória do nosso Deus que resplandece no seu povo vivo e consolado –, fixemos agora o olhar na acção…

Ora isto é precisamente o género de coisa que muitos tradicionalistas estavam à espera de ouvir da boca do Papa, um claro sinal de que no seu entender pobreza e humildade não são para confundir com miserabilismo e que a riqueza litúrgica em nada ofende a pobreza de espírito, como aliás São Francisco tão bem demonstrou com a sua vida e os seus escritos.

Contudo, horas mais tarde, surge a notícia de que esta tarde na prisão juvenil o Papa vai lavar os pés não só a jovens rapazes institucionalizados, mas também a pelo menos uma rapariga. Salvo erro será mesmo a primeira vez que um Papa o faz, embora, alegadamente, Bergoglio já o fizesse em Buenos Aires.

E então? Bom… então muito! É que se há coisa que enerva os tradicionalistas (e não estou a ser sarcástico, pois incluo-me, moderadamente, neste lote), é o desprezo pelas rubricas e a mania que muitos padres têm de “inventar” e celebrar missas não como manda a Igreja mas como lhes apetece.

E o que dizem as rubricas? Indicam claramente que neste gesto, que é opcional, mas que é uma parte tão importante da simbologia da Ceia do Senhor, o sacerdote deve lavar os pés a 12 homens. Em latim o termo é “Viris”, que significa mesmo “homens” no sentido masculino e não no sentido geral de “seres humanos”.

Vejamos como serão as reacções. Para muitos estas preocupações podem parecer absurdas, mas para muitos outros não são.

A presença de mulheres... uma preocupação antiga...

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

“A muitos padres ninguém ensinou a celebrar missa!”

Uma celebração na forma extraordinária
Entrevista a Monsenhor Juan Ferrer Greneche, Sub-secretário da Congregação do culto Divino e Disciplina dos Sacramentos, feita e traduzida por Aura Miguel. A notícia está aqui.

Para que serve a Congregação para o culto divino e Disciplina dos Sacramentos?
A maior preocupação hoje, da Congregação, é a formação. Ou seja, ajudar os sacerdotes e a todos os fiéis cristãos a conhecerem realmente o que é a liturgia

Mas esse conhecimento devia ser óbvio, porque a Igreja existe há dois mil anos e o Concílio já foi há 50 anos. O que se passa, para se manter actual esta preocupação?
Infelizmente centramo-nos com muita facilidade no lado externo, na aparência das coisas; muitas vezes, o que é urgente faz esquecer o que é importante; numa casa, mais depressa vemos as paredes e a fachada, esquecendo-nos que por detrás existe uma estrutura e isso, por vezes, também acontece na vida cristã, ou seja, centramo-nos nas coisas externas. Até mesmo na liturgia, insistimos mais no “como fazemos”, esquecendo-nos de “o que fazemos”

O seu chefe, o Cardeal Cañizares, disse recentemente que estão a preparar um manual para ajudar o sacerdote a celebrar a missa. Isto quer dizer que, até agora, não se sabia celebrar a Missa? Porque é que se faz este manual?
Às vezes, pode parecer óbvio que todos os sacerdotes tenham de saber celebrar missa, mas a muitos ninguém ensinou! Nos seminários, em muitos centros de formação religiosa, não ensinam a celebrar, aprendem com o que se vê, ou então, com as ideias gerais, com as teorias, com as hipóteses que o professor de liturgia lançou nas aulas. Estuda-se mais teoria do que a experiência prática e a interiorização dos ritos que estão nos livros litúrgicos vigentes.

Uma pergunta que tem a ver com uma certa sensibilidade mais recente: este Papa gostaria que se celebrasse mais a missa em latim, ou é uma confusão?
O Papa não quer que se perca o latim e isso mesmo já dizia o Concílio Vaticano II. Isto não significa que não se celebre na língua vulgar, na língua das nossas terras, mas sem esquecer a língua latina – o que vale também para os que defendem a cultura ocidental, de raízes clássicas e cristãs.

Uma forma extraordinária de celebrar...
No Ocidente, sobretudo na Europa, vivemos – como o Santo Padre diz – num deserto cada vez maior. Como é que a liturgia pode ajudar a ter um ponto de esperança?
Neste deserto de Deus que é a cultura contemporânea da Europa, a liturgia – em especial, o seu espírito de adoração, de afirmação da primazia de Deus – é como um canto de esperança à humanidade.

O Papa associa sempre o mistério da fé ao mistério da esperança: onde há fé, há esperança. Toda a liturgia é afirmação de fé e é testemunha, sinal visível da presença de Deus e da nossa fé n’Ele. Portanto, a liturgia é como uma provocação à actual situação de desolação para reconhecer que, para além das trevas, há uma luz e que, para além deste horizonte opaco de preocupação e medo pelo futuro, há uma esperança certa no amor de Deus redentor. 

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Árvores caídas e terras sem filhos

Estragos do fim-de-semana em Fátima
O Santuário de Fátima sobreviveu, mas com danos. Ainda assim, não ficou no estado em que chegou a estar o Mosteiro de Salzedas. Felizmente falamos no pretérito, porque hoje o mosteiro está restaurado e é um exemplo apontado pela Associação Portuguesa de Museologia.

Dois bispos preocupados com a falta de nascimentos e com os incentivos à natalidade. D. Ilídio Leandro, de Viseu, aponta o dedo ao Governo, D. António Couto diz que em Lamego praticamente não há crianças.

Venho novamente fazer-vos um pedido! O blogue passou à final, a votação começa agora do zero e está restrita aos cinco mais votados. Até Sábado podem votar uma vez por dia, é só clicar aqui e procurar a categoria Religião (bem lá ao fundo). Obrigado!

Para quem vive em Lisboa e estiver livre, vou hoje participar num debate sobre liturgia, com base nos 50 anos do Concílio, na paróquia de Santa Isabel. O evento realiza-se no auditório da Escola de Hotelaria que fica a cerca de 100 metros da Igreja. Todos são bem-vindos e a ideia é fazer-se uma discussão alargada com participação de todos.

sábado, 13 de outubro de 2012

O II Concílio Vaticano para mim

Estamos em plenas comemorações do 50º aniversário da abertura do Concílio Vaticano II. Temos tido muita gente a comentar o Concílio e a partilhar as suas recordações daquele evento, mas sinto que tem havido falta de vozes de pessoas que vivem a Igreja mas que não eram sequer vivas nos anos 60.

Tenho 32 anos. O Concílio começou, portanto, 18 anos antes de eu nascer. Na casa e no ambiente onde cresci o Concílio e as suas decisões nunca foram postos em causa nem questionados. Para a maioria das pessoas da minha geração o Concílio Vaticano II tem tanta relevância e tanto interesse como o Vaticano I, ou o Concílio de Calcedónia. História.

E penso que essa é precisamente a primeira questão a assinalar. As pessoas que viveram a época do Concílio, particularmente aquelas que participaram directamente nele ou vibraram mais com ele, não parecem compreender porque razão a minha geração não sente as coisas da mesma forma ou, nalguns casos, até parece exibir interesse por aspectos da Igreja pré-conciliar que, em poucos casos, se manifesta como hostilidade para o Concílio em si.

Estamos sempre a ouvir que o Concílio teve lugar numa época de grande entusiasmo e de grande optimismo, “os loucos anos 60”, em que parecia que o mundo estava a mudar e tudo iria ser diferente. Contagiados por esse ambiente, os padres sinodais procuraram “abrir uma janela” para o mundo, reconciliar-se com o mundo, etc.

Mas para os católicos da minha geração, e penso não estar a exagerar, os anos 60 não são vistos dessa maneira. O entusiasmo e optimismo parecem-nos, daqui, ingénuos e precipitados. As únicas pessoas da minha idade que vibram com os anos 60 e procuram dar continuidade ao seu ambiente nos nossos dias, normalmente são os mesmos que revelam total incompreensão pelas minhas posições morais e religiosas.

Portanto perdoem-nos se não temos o mesmo entusiasmo. Provavelmente os nossos filhos e netos sentirão o mesmo em relação aos nossos entusiasmos e paixões, daqui a 40 anos.

Mas claro que não podemos confundir o ambiente dos anos 60 com o Concílio propriamente dito. Aqui, contudo, gostaria de clarificar uma coisa. Para mim o concílio são os documentos conciliares. Ponto final. Esses são, evidentemente, pedra fundamental da construção da Igreja, modelam a forma como vivemos hoje a nossa fé e dos que conheço melhor são muito inspiradores.

Não tenho, por isso, nada contra o Concílio. É importante que isso fique claro.

Mas o respeito que tenho pelo concílio não se estende a um qualquer “espírito” mal definido que vai muito para além dos documentos e que em muitas partes do mundo foi levado a extremos que, considero, prejudicaram os fiéis e violaram o direito que estes têm a receber e a conhecer a verdadeira fé da Igreja.

Esses abusos litúrgicos e doutrinais fazem mal à Igreja, ferem-na. Mas não concordo também com quem as absolutiza, como se o legado do Concílio se resumisse a eles. Cinquenta anos é muito pouco tempo para fazer um balanço de algo tão importante na história da Igreja. Tendemos a esquecer isso. As coisas extremaram-se em muitos casos, o entusiasmo terá ido longe de mais, mas voltarão ao centro. Aliás, já começaram a voltar, penso. É preciso paciência e, claro, oração.

Hoje vi um cartoon que mostrava uma igreja vazia. Um padre diz: “O Concílio abriu a Igreja”, ao que o acólito responde: “E os fiéis saíram”. Pode ser verdade… e nesse sentido, aqueles que apontam a “abertura da Igreja ao mundo” como a grande conquista do concílio poderão estar enganados. Por outro lado, podemos perguntar se muitas dessas pessoas estavam lá convictas ou não… os ortodoxos não tiveram reforma litúrgica nem concílio, mas têm as igrejas igualmente vazias, ou mais.

Mas o Concílio não foi só isso. Foi também, para dar só um exemplo, o abandono de uma atitude triunfalista e arrogante no que diz respeito ao ecumenismo e ao diálogo inter-religioso e o investimento na construção de relações, primeiro de amizade, com outros cristãos que, com a ajuda de Deus, conduzirão à plena comunhão no futuro.

Quanto à fuga dos fiéis, se a Igreja for verdadeira e fiel à sua missão, muitos hão-de voltar. Talvez sejamos uma Igreja mais pequena no futuro, mas isso não nos deve preocupar. Seremos, certamente, uma Igreja mais cristã, mais católica, onde todos, incluindo os leigos, podemos desempenhar papéis mais úteis e informados. Isso também é uma conquista do Concílio.

Finalmente uma recomendação aos católicos da minha geração. Familiarizem-se com o Concílio. Conheçam os documentos, leiam-nos. Aproveitem o Ano da Fé para isso. Já agora, aos mesmos, a caixa de comentários está aberta para partilharem também as vossas experiências, já que não presumo que fale por todos.

Filipe d'Avillez

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