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quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Marx, Müller e o Tarzan das ocupações surpreendem

Cardeal Reinhard Marx
Foram hoje apresentados os relatórios dos grupos de trabalho no sínodo, relativos à terceira parte do instrumentum laboris, precisamente a parte mais “polémica”. Aqui pode encontrar o essencial de todos os relatórios.

Mas o que mais admirou foi o facto de o grupo de língua alemã ter apresentado uma proposta de admissão de algumas pessoas em uniões irregulares aos sacramentos. A surpresa, lá está, não é a proposta, mas sim o facto de ter sido aprovada por unanimidade nesse grupo, o que significa que os cardeais Marx e Kasper estiveram de acordo com o cardeal Muller.

Durante a conferência de imprensa de hoje, o Cardeal Marx aproveitou também para lamentar o tom com que o cardeal Pell se dirigiu aos defensores da mudança da prática da Igreja nestes casos.

A preparação para o matrimónio tem sido um dos assuntos em cima da mesa. A jornalista Matilde Torres Pereira foi ver o que se faz nesse campo em Portugal, e se é suficiente.

Anda a circular uma notícia que diz que o Papa está com um tumor benigno no cérebro, mas o Vaticano desmente categoricamente

O que parece ser mesmo verdade é que alguém do Vaticano escreveu uma carta de apoio ao “Tarzan das ocupações”… pois… mais vale lerem, porque não sei bem o que dizer sobre este assunto.

O padre Tolentino venceu um prémio literário pela obra “A Mística do Instante – O Tempo e a Promessa”

E hoje é dia de artigo do Catholic Thing. O padre Jerry Pokorsky estreia-se na versão portuguesa com um texto que mostra as diferenças entre a perspectiva terrena e a perspectiva cristã sobre o que constitui um “grande homem”.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

O Sínodo, Eu, a Nena e o Peu

Eu sou do tempo em que os sínodos eram chatos...

Lembro-me de vários sínodos da Igreja ao longo da última década e a única coisa que todos tiveram em comum é que eram aparentemente inúteis e profundamente maçadores.

Claro que para os bispos que neles participavam havia de haver alguma utilidade, nem que fosse pelo facto de estarem juntos e conhecerem-se melhor, aprofundando este ou aquele tema, mas quem é que se lembra, sinceramente, de algo de novo ou de marcante que tenha saído do sínodo sobre a Eucaristia?

Mas depois veio o Papa Francisco e o sínodo para a família e algo me diz que nada vai ser igual.

De positivo, por isso, temos esta animação toda, para começar. Temos verdadeiras trocas de ideias, temos bispos “à pancada”, como acontecia antigamente nos concílios ecuménicos decisivos. Temos um modelo em que, a confiar no que o Papa tem dito, aquilo que sai do sínodo vai mesmo ser tido em linha de conta para qualquer decisão final.

Em relação à temática tivemos vários meses com a Igreja a aprofundar temas que nos tocam a todos, porque a família é verdadeiramente a célula base da sociedade e quando está mal é esta que sofre.

Mas nem tudo foi bom. É natural haver diferenças de opinião e até discussões, mas é um bocado triste ver que mesmo entre os sucessores dos apóstolos há politiquices e manhas. Eu até acredito que seja inevitável, que seja sempre assim, até certo ponto, mas quando fica exposto custa mais. A leitura do relatório intercalar, com o cardeal Peter Erdo a ter de assumir a autoria de um texto com o qual claramente estava em profundo desacordo; o facto de se ter produzido um documento que, a julgar não só pelas palavras de vários bispos mas também pela votação final, não traduzia minimamente a opinião dos padres conciliares... tudo isso custa a ver.

Porque não se podem esquecer, os nossos bispos, que muita gente ficou com esperanças de que este sínodo se traduzisse numa alteração das regras em relação a questões que são para elas feridas em aberto. Não estou agora a ajuizar se essas mudanças seriam benéficas ou não, apenas que havia muita gente a quem foi dada esperança que afinal era infundada. Isso conduz a desilusão e a revolta.

Mas talvez uma das coisas mais lamentáveis a que assistimos foi o extremar total de posições, entre liberais e conservadores. Se me parece, sinceramente, que muitas das “manobras” a que me referi acima foram levadas a cabo pelos liberais, também não foi bonito ver a reacção dos defensores do status quo. Um caso extremo foi em relação ao Cardeal Kasper, figura de proa da “mudança”, que fez umas declarações muito parvas sobre os africanos, mas que não eram muito mais do que isso, parvas, e acabou por ser acusado de tudo, incluindo “racismo e xenofobia”. O triunfalismo nesses dias dos que durante tanto tempo tinham vivido com o medo de que a sua linha vencesse no sínodo era palpável, e desagradável.

O discurso final do Papa foi, neste sentido, absolutamente brilhante e é talvez o texto com que mais me identifico em todo este processo.

A proposta do Kasper, de haver casos em que as pessoas em uniões irregulares pudessem comungar, nunca me convenceu inteiramente. Não que eu seja frontalmente contra a ideia, (como foi evidente quando escrevi este texto, que deu uma longa discussão e desembocou neste), mas porque o seu raciocínio nunca me pareceu suficientemente sólido. Havia coisas vagas que simplesmente deixava no ar e não conseguia tranquilizar quem dizia que na prática o sistema iria fragilizar a ideia da indissolubilidade do casamento.

Pior foi a campanha em que depois se lançou, dando entrevistas atrás de entrevistas, mas reagindo como que ofendido quando o “outro lado” ripostava; alegando que falava em nome do Papa (mesmo que ele saiba que o Papa concorda com ele, o Papa tem boca para falar e não precisa da sua ajuda)... foi-me desencantando cada vez mais e penso que ele acaba por ser o maior derrotado de toda esta situação, o que é pena, porque a história de um sínodo não devia ter de ser contada através de vencedores e derrotados.

Foram duas semanas muito intensas, para quem viveu este sínodo de perto. No meu caso a acompanhar conferências de imprensa na net, a seguir ao máximo o que se escrevia nas redes sociais, nos órgãos de comunicação especializados, etc. E a verdade é que ao fim destes dias todos, em que todos falavam só de rupturas, uniões irregulares, casos dramáticos e complexos, comecei, talvez tenhamos começado todos, a perder a perspectiva daquilo que estava verdadeiramente em causa.

Por isso é que tenho a agradecer à minha cunhada e ao meu cunhado terem marcado o casamento para o dia 18 de Outubro. Certamente não faziam ideia quando agendaram, mas o facto de eu ter passado o sábado a festejar o seu casamento e não a acompanhar a recta final do sínodo fez-me mais bem do que se possa imaginar.

Sentado naquela igreja, a ver uma assembleia repleta de pessoas com perfeita noção do que se estava a passar; a responder em uníssono na celebração; com música sacra variada mas sempre belíssima (apesar de me terem colocado no coro); com cinco sacerdotes à volta do altar, sinal de que estávamos a assistir ao final de uma caminhada que foi feita sempre em Igreja; com uma festa a seguir que foi divertidíssima, sem excessos, com uma diversão sempre saudável e um entrosamento perfeito entre gerações.

Olhar para aqueles dois noivos, um homem e uma mulher, como Deus quis, a jurar fidelidade e amor para toda a vida, como Deus quis, unidos não só por um amor multifacetado mas também por uma profunda fé; Sabendo que estávamos diante de duas pessoas que têm a mais perfeita noção daquilo que estão a fazer; Sabendo que embora nada esteja garantido nesta vida, ninguém hesitaria em dizer que acreditamos que sim, este casamento é até que a morte os separe; Sabendo que há desejo de ter filhos, amor à vida e generosidade para a acolher.

Enquanto dançava na pista com a minha filha de seis anos, encantada com tudo aquilo, eu pensava nas duas semanas que se passaram e dizia para mim: “Deus queira que os bispos que lá estão possam viver experiências destas. Deus queira que aqueles que estão a falar do casamento não saibam só o que são os casos perdidos, complexos, nulos ou irremediáveis. Deus queira que eles tenham sempre presente que quando se fala de casamento é disto que se fala. Porque se assim for, estamos bem. Mas se não for, então algo está mal.”

Sim, eu lembro-me de quando os sínodos eram maçadores e chatos. E ainda bem que já não são! Mas mais do que isso, obrigado, Nena e Peu, por terem salvo o sínodo para mim e por terem mostrado a todos os vossos convidados o que Deus quer para os seus filhos tão amados.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Dia de "tens uma cena na testa"

Hoje é Quarta-feira de Cinzas. À 10ª pessoa que me perguntou o que é que tinha na cabeça, comecei a responder que fui pontapeado na testa…

Imagino que o Papa não tenha esses problemas. Na missa de hoje, em que recebeu as cinzas, o Papa falou da verdadeira conversão e dos benefícios da esmola para quem dá.

D. Nuno Brás considera que a Quaresma é uma boa altura para reforçar a autodisciplina, em declarações feitas no debate das quartas-feiras que vai para o ar depois das 23h, na Renascença.

O Patriarca de Lisboa já publicou a sua mensagem para a Quaresma, apelando a uma opção pelos pobres nesta preparação da Páscoa.

Esta manhã saiu mais uma entrevista do Papa Francisco a um jornal italiano. Francisco diz que não é um super-homem e também que ninguém tem feito mais que a Igreja no combate aos abusos sexuais.


Uma Revolução sobre o Casamento – Em Roma?

No sábado o Il Foglio, o mais importante jornal conservador de Itália, publicou o texto completo do discurso inaugural do Cardeal Kasper ao Consistório sobre a Família, que se realizou no Vaticano, uma reunião preparatória para o Sínodo Extraordinário da Família que terá lugar de 5-19 de Outubro, em Roma. O texto apenas está disponível em italiano (embora haja passagens significativas em inglês aqui). O Cardeal, conforme a sua própria descrição, “colocou questões”, questões altamente controversas, sobre o tratamento pastoral dos católicos divorciados e recasados, em particular no que diz respeito à readmissão à comunhão.

O discurso não era para ser secreto, na verdade, era suposto ter sido publicado em forma de livro, presumivelmente com outro material. Mas ao aparecer de repente, como apareceu, e com sugestões aparentemente revolucionárias inspiradas em práticas antigas, é evidente que se vai tornar um assunto quente para os próximos meses. Alguns comentadores já estão a dizer que se agora a Igreja não permitir que os divorciados e recasados recebam comunhão, passaremos por outro período de choque e revolta, semelhante ao que se seguiu à publicação por Paulo VI do “Humanae Vitae” em 1968, que reafirmou o ensinamento cristão sobre a contracepção.

Estamos a colocar vários carros à frente de vários bois. O texto de Kasper é cauteloso, embora pareça apontar numa direcção revolucionária. Ele reafirma a proibição que Jesus fez ao divórcio, enquanto explora como lidar com algo que se tornou um difícil problema moderno.

Não há um católico hoje que não conheça alguém que viva em circunstâncias matrimoniais irregulares. O divórcio, mesmo entre católicos praticantes, é cada vez mais comum e – dada a loucura sexual e a pressão económica e cultural das sociedades modernas – nem sempre a culpa é de apenas um. Essa é uma razão pela qual vários papas – João Paulo II, Bento XVI e agora Francisco – sugeriram a exploração de soluções pastorais. O porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi, já disse que o pensamento de Kasper está em linha com o do Papa.

Dito isso, contudo, o discurso dá a ideia de estar a fazer algo que, pelo menos à superfície, é contraditório. Kasper fala da necessidade de se “alterar o paradigma”, com a Igreja a tornar-se o Bom Samaritano para aqueles que pedem socorro. Mas na mesma passagem afirma a indissolubilidade do casamento que “não pode ser abandonado ou desfeito, apelando a uma compreensão superficial de misericórdia barata”.

Ele compara a nossa situação à do Vaticano II, quando princípios dogmáticos pareciam impedir certas acções, mas o Concílio “abriu portas”. Apesar dos sinais de alarme que esta comparação possa despertar nalgumas pessoas, Kasper oferece, tentativamente, duas possíveis “aberturas”.

A primeira é o que pode ser considerado a “racionalização” e “personalização” do processo de nulidade. Em vez de passar por um processo canónico formal, “o bispo poderia confiar a tarefa a um padre com experiência espiritual e pastoral como um vigário episcopal ou penitenciário”. Presumivelmente este conheceria melhor as pessoas e a situação, evitando assim o incómodo de um processo impessoal e desajeitado. Alguns advogados canónicos já levantaram questões sobre como isto poderia funcionar na prática, mas pelo menos em teoria não é mais que um ajuste da ideia existente de que em certas condições a celebração de um casamento possa ser nula.


A “abertura” mais revolucionária, a segunda, sugere, depois de um período de penitência, “não um segundo casamento, mas sim uma tábua de salvação através da participação na comunhão”.

Aqui o argumento torna-se mais obscuro e precisa de ser clarificado. Roberto de Mattei, um historiador que já escreveu para o The Catholic Thing, respondeu no Il Foglio, no mesmo dia em que apareceu o texto de Kasper, que o Cardeal não pode anular a história e a doutrina “com uma revolução descarada na cultura e na prática”.

É difícil dizer se é isso que Kasper está a propor – embora de Mattei seja uma pessoa inteligente e pareça estar no caminho certo. O Cardeal acrescenta que o arrependimento em condições certas devia levar à confissão. Até aqui tudo bem. Mas depois lista cinco condições que poderão levar ao regresso à Comunhão para uma pessoa nesta situação:

1. se estiver arrependida do falhanço do primeiro casamento

2. se tiver clarificado as obrigações do primeiro casamento, se estiver definitivamente posto de parte que possa voltar atrás,

3. se não puder abandonar, sem causar danos, as responsabilidades assumidas pelo novo casamento civil,

4. se, contudo, estiver a fazer tudo ao seu alcance para viver as possibilidades do segundo casamento com base na fé e a educar as crianças na fé,

5. se desejar os sacramentos como fonte de força na sua situação, devemos ou podemos negar-lhe, depois de um período de tempo noutra direcção, de “metanoia”, o sacramento da penitência e, depois, de comunhão?

O Cardeal Kasper afirma que esta não poderia ser uma solução massiva, mas apenas aplicada a poucas pessoas em situações indesejáveis, que verdadeiramente queiram os sacramentos. E assenta as suas propostas em casos derivados da história antiga da Igreja – os ortodoxos ainda permite o divórcio e o recasamento – que poderiam ser aplicados cuidadosamente. Alguns académicos negam que esses casos existissem antes de os padrões se tornarem mais frouxos nos séculos posteriores do Império Bizantino.

Perguntei a um padre de confiança o que pensava desta linha de argumentação. Ele respondeu-me com uma perspectiva “pastoral” diferente:

“Enquanto pároco, sinto muito pelas boas pessoas que se encontraram, ou encontram, em casamentos falhados. Há entre eles algumas pessoas heróicas e santas – algumas das quais contraíram segundos casamentos. Gostaria verdadeiramente de as ajudar a encontrar uma forma de receber a Eucaristia e regularizar a sua situação, mas não vejo como a “solução de Kasper” possa resultar. Sei da forma como se lidava com alguns destes casos na Igreja primitiva, que havia um período de penitência e mesmo uma dimensão penitencial no segundo casamento, mas conseguem mesmo ver-nos a implementar estas práticas penitenciais? Conseguem imaginá-las a serem aceites? Eu não. E com todo o respeito, isto seria mais um tiro dado a um sacramento que já se encontra ferido pelo pelotão de fuzilamento cultural.”

Preparem-se. Vamos ouvir falar muito mais sobre este assunto no futuro próximo.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está agora disponível em capa mole da Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na segunda-feira, 3 de Março de 2014)

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