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quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Natal no Iraque pouco adocicado

Conto de Natal adocicado... not
Ao longo dos últimos anos o Natal tem sido sempre marcado por atentados contra cristãos nalgum lado. Este ano a fava calhou ao Iraque e o saldo foi de 34 mortos.

A situação no Iraque não foi esquecida pelo Papa Francisco, que nomeou ainda muitos outros países na sua bênção “Urbi et Orbi” do dia 25. Já hoje, o Papa recordou no Angelus o Santo Estêvão, primeiro mártir, e disse que a sua comemoração no dia 26 serve para afastar a ideia de que o Natal é um conto de fadas adocicado.

O Natal é frequentemente descrito como a festa da família. Que o diga o padre Marcos Castro, oitavo de 13 filhos, que nos ajuda a compreender que contributo é que o Cristianismo teve para a noção de família que hoje persiste.

Este ano a publicação do artigo do The Catholic Thing calhou mesmo no dia de Natal. Por isso optei por vos trazer esta interessante reflexão do jesuíta James V. Schall sobre o verdadeiro sentido do Natal [dica: não é um conto de fadas adocicado… caso ainda pensassem que sim].

Por fim, ao longo dos últimos dias publiquei os três textos que faltavam da minha análise à Exortação Apostólica do Papa Francisco. No blogue, o que o Papa tem a dizer aos que estão longe da Igreja, aos ricos e, por fim, a mim

domingo, 22 de dezembro de 2013

A Alegria do Evangelho - Para Mim

Por fim, nesta série de textos, abordo as passagens que me tocaram mais directa e profundamente, por diversas razões.

Quando se procura ouvir o Senhor, é normal ter tentações. (#155)
A Igreja não fala o suficiente disto e penso que faz mal.

Uma das grandes surpresas deste pontificado tem sido a insistência de Francisco em falar de Satanás. Pois se ele existe, não pára quieto e as pessoas que mais gosta de desviar são aquelas que estão a voltar a face para Deus, a iniciar uma caminhada de regresso a casa. Imagino apenas as vezes que ele deve ter sussurrado ao ouvido do filho pródigo que o exercício de regressar à casa do pai era em vão! Os obstáculos que não deve ter lançado no caminho!

Os cristãos têm o direito de saber que é precisamente quando começam a tentar melhorar a sua vida, a viver mais próximos de Deus, que o demónio ataca com mais força, que o caminho de repente parece mais íngreme, que as tentações sobejam e tudo parece mais difícil.

Se assim fossem avisados e se percebessem que diante dessas tentações não devem desesperar mas antes gloriarem-se de serem merecedores de tal atenção do inimigo de Deus, então talvez encontrassem forças para combater com mais ferocidade. Talvez percebessem que quando sucumbem a algumas dessas tentações – e sem dúvida a algumas irão sucumbir – não devem desesperar, mas sim levantar-se e combater de novo.

Triste a vida do homem que não é tentado. É sinal que nem o demónio se digna a lutar pela sua miserável alma.

Ninguém deveria dizer que se mantém longe dos pobres, porque as suas opções de vida implicam prestar mais atenção a outras incumbências. Esta é uma desculpa frequente nos ambientes académicos, empresariais ou profissionais, e até mesmo eclesiais. (#201)
De toda a exortação apostólica, esta foi a passagem que mais me custou a ler. E ainda custa. Porque nela me revejo inteiramente e sinto vergonha e sinto que tenho de fazer algo para mudar. Obrigado Francisco.

Às vezes sentimos a tentação de ser cristãos, mantendo uma prudente distância das chagas do Senhor. Mas Jesus quer que toquemos a miséria humana, que toquemos a carne sofredora dos outros. Espera que renunciemos a procurar aqueles abrigos pessoais ou comunitários que permitem manter-nos à distância do nó do drama humano, a fim de aceitarmos verdadeiramente entrar em contacto com a vida concreta dos outros e conhecermos a força da ternura. Quando o fazemos, a vida complica-se sempre maravilhosamente e vivemos a intensa experiência de ser povo, a experiência de pertencer a um povo. (#270)
Não sei se é da tradução, mas eu adoro a palavra “maravilhosamente” aqui. “Complica-se maravilhosamente”, não há melhor expressão para a experiência cristã.

Estávamos nós tão bem nas nossas vidinhas quando veio este tal Jesus Cristo e olhou-nos, e tocou-nos, e falou-nos... e as nossas vidas nunca mais foram as mesmas. Complicaram-se. Sim. Mas complicaram-se maravilhosamente!

Nunca nos podemos esquecer que o nosso Deus é um Deus flagelado, que gritou e sangrou e caiu e enlameou-se e foi furado com uma lança. O nosso é um Deus que não se coibiu de sofrer a maior das indignidades. Quem somos nós para virar as costas ou ter nojo das chagas dos nossos irmãos? Quem somos nós para tapar o nariz quando o sem-abrigo entra na nossa carruagem do metro? Quem somos nós, que nos alegramos por termos sido salvos por um homem que tentaram apedrejar, para atirar pedras aos incompreendidos ou aos verdadeiramente maus dos nossos dias?

Não podemos. Não podemos, graças a Deus. É verdade que ter de olhar nos olhos ao mendigo, mesmo que seja para lhe dizer que hoje não há nada para dar, pode ser complicado. Mas é uma maravilhosa complicação. Graças a Deus.

A Alegria do Evangelho - Os Ricos

"For he had great possessions", Watts (detalhe)
Embora um pouco desgastada e, por vezes, até mal interpretada, a palavra «solidariedade» significa muito mais do que alguns actos esporádicos de generosidade; supõe a criação duma nova mentalidade que pense em termos de comunidade, de prioridade da vida de todos sobre a apropriação dos bens por parte de alguns. (#188)

É preciso recordar-se sempre de que o planeta é de toda a humanidade e para toda a humanidade, e que o simples facto de ter nascido num lugar com menores recursos ou menor desenvolvimento não justifica que algumas pessoas vivam menos dignamente. É preciso repetir que «os mais favorecidos devem renunciar a alguns dos seus direitos, para poderem colocar, com mais liberalidade, os seus bens ao serviço dos outros». (#190)

A dignidade da pessoa humana e o bem comum estão por cima da tranquilidade de alguns que não querem renunciar aos seus privilégios. (#218)
Aqui a palavra “apropriação” poderia dar a ideia de que o Papa está a falar para os corruptos, mas penso que não é o caso. Ele está a falar para quem, de facto, tem mais que os outros. Bastante mais. E a mensagem, parecendo evidente, não deixa de ser significativa. Homem rico: Não contestamos o teu mérito, não contestamos a legitimidade do que é teu. Mas o que é teu não é só para ti e quando o partilhas não é apenas magnanimidade da tua parte. É tua obrigação, porque a vida, e uma vida digna, do teu vizinho pobre, tem prioridade sobre os teus bens e a tua propriedade privada e até da tua tranquilidade.

A solidariedade é uma reacção espontânea de quem reconhece a função social da propriedade e o destino universal dos bens como realidades anteriores à propriedade privada. A posse privada dos bens justifica-se para cuidar deles e aumentá-los de modo a servirem melhor o bem comum, pelo que a solidariedade deve ser vivida como a decisão de devolver ao pobre o que lhe corresponde. (#189)
Para quem acusava o Papa de ser marxista, este parágrafo não podia ser mais claro.

A Igreja reconhece o direito à propriedade privada, ao contrário do marxismo, mas reconhece-a com certos limites e como instrumento para melhor alcançar aquilo que está consagrado na doutrina social da Igreja: O destino universal dos bens.

Ou seja, propriedade privada; riqueza privada; sim. Mas não como fins em si mesmos. Isso é que é crucial perceber.

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A Alegria do Evangelho - Os que Estão Longe

Eu gostaria de dizer àqueles que se sentem longe de Deus e da Igreja, aos que têm medo ou aos indiferentes: o Senhor também te chama para seres parte do seu povo, e fá-lo com grande respeito e amor! (#113)
É de notar que o Papa não distingue aqui entre os que estão longe porque são ateus, porque são agnósticos, porque são de outras confissões cristãs, porque simplesmente deixaram de confiar na Igreja ou porque são preguiçosos.

O seu convite é para todos os que estão longe, independentemente das razões, e desta forma Francisco mostra compreender que o seu papel não é simplesmente de administrar os assuntos dos católicos, mas sim, enquanto vigário de Cristo na Terra, convidar todos os homens a viver em relação com Cristo.

Nesta passagem a palavra chave é “respeito”. O Papa não se pode sobrepor ao respeito que Deus tem pela liberdade do homem, liberdade de O seguir ou de O rejeitar. Por isso o Papa convida, procura atrair, mas não impõe nem ameaça.

A adesão a Cristo ou é livre, ou não é.

Alguns crêem-se livres quando caminham à margem de Deus, sem se dar conta que ficam existencialmente órfãos, desamparados, sem um lar para onde sempre possam voltar (...) O acompanhamento seria contraproducente, caso se tornasse uma espécie de terapia que incentive esta reclusão das pessoas na sua imanência e deixe de ser uma peregrinação com Cristo para o Pai. (#170)
Uma das grandes iniciativas dos últimos anos da “Nova Evangelização” foi o “Átrio dos Gentios”, que acabou por se traduzir essencialmente num conjunto de encontros entre a elite intelectual da Igreja e a elite intelectual da sociedade civil.

Neste tipo de iniciativa há sempre o risco de os encontros se tornarem pouco mais do que exercícios de exaltação mútua ou, pior, de os elementos da Igreja procuraram de tal forma encontrarem o outro no seu terreno que deixam Cristo para trás. O Papa Bento XVI, que lançou a ideia, deu alguns avisos neste sentido pouco antes de resignar.

Penso que aqui Francisco está a tentar fazer um alerta semelhante. É muito bom a Igreja ir para as periferias para estar com aqueles que estão normalmente longe dela. Mas a ideia não é que permaneçam eternamente longe dela, podendo agora dizer que até têm amigos que são cristãos.

Cristo também ia ter com os marginais. Há de se ter encontrado com milhares deles, mas os únicos que ficaram para a história são aqueles que se deixaram tocar e mudar por Ele.

Da mesma maneira, o objectivo de quem acompanha pessoas que estão longe da Igreja, sejam intelectuais, artistas, toxicodependentes, loucos, prostitutas, new age, ateus ou outros quaisquer, deve ser sempre de introduzir nas suas vidas aquele ingrediente, aquele grão de mostarda, que tudo vai mudar.

Os não-cristãos fiéis à sua consciência podem, por gratuita iniciativa divina, viver «justificados por meio da graça de Deus» e, assim, «associados ao mistério pascal de Jesus Cristo». Devido, porém, à dimensão sacramental da graça santificante, a acção divina neles tende a produzir sinais, ritos, expressões sagradas que, por sua vez, envolvem outros numa experiência comunitária do caminho para Deus. Não têm o significado e a eficácia dos Sacramentos instituídos por Cristo, mas podem ser canais que o próprio Espírito suscita para libertar os não-cristãos do imanentismo ateu ou de experiências religiosas meramente individuais. (#254)
Esta é uma passagem muito importante, porque é um reconhecimento, da parte do Papa, de que até os não crentes, ou os não cristãos, podem desempenhar um papel importante na história da salvação e que Deus também pode agir através das suas boas obras.

Francisco não está a dizer que “é tudo a mesma coisa, basta ser boa pessoa”, mas está a dizer que não é por ser ateu, ou não cristão, que uma pessoa boa está automaticamente condenada. O que já por si é significativo.

Claro que algumas pessoas poderão deitar as mãos à cabeça e dizer que com este tipo de linguagem vai haver pessoas que pensam que nesse caso não vale a pena ser praticante. Talvez seja verdade. Mas queremos uma Igreja que reduz toda a mensagem de Deus ao nível dos mais infantis de entre nós? Ou queremos um povo de Deus adulto? A minha experiência mostra-me que quando queremos que alguém se comporte como um adulto devemos tratá-lo como tal. Isto é linguagem para pessoas que são adultas na fé. E um adulto na fé não amua porque tem de fazer mais sacrifícios que o vizinho do lado só para descobrir que no fim o vizinho também se salvou. Aliás, a parábola dos trabalhadores que chegam mais tarde mas recebem o mesmo salário, não se aplica também a estas situações?

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Para Mim

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

A Alegria do Evangelho - Os Liberais

Repito aqui o que disse em relação aos “conservadores”. O rótulo “liberal” é vago e é obviamente uma caricatura, que abarca muitos géneros diferentes.

No entanto, apesar de os liberais gostarem de pensar que têm este Papa no bolso, há muitas áreas em que ele os vai desiludir, como fica claro ao longo deste documento.

Isto só serve para nos recordar que nem tudo encaixa nos nossos esquemas. O Papa não é “nosso” nem “deles”, é de todos.

O sacerdócio reservado aos homens, como sinal de Cristo Esposo que Se entrega na Eucaristia, é uma questão que não se põe em discussão, mas pode tornar-se particularmente controversa se se identifica demasiado a potestade sacramental com o poder. (...) O sacerdócio ministerial é um dos meios que Jesus utiliza ao serviço do seu povo, mas a grande dignidade vem do Baptismo, que é acessível a todos. (#104)
Às vezes fico com a ideia de que o Papa bem pode repetir isto as vezes que quiser, que há pessoas para quem estas palavras simplesmente não entram. Eu nem digo que deviam abandonar as suas ideias, apenas que deixem de acreditar que Francisco concorda com elas. “Não se põe em discussão”. Parece-me bastante claro.

A diversidade deve ser sempre conciliada com a ajuda do Espírito Santo; só Ele pode suscitar a diversidade, a pluralidade, a multiplicidade e, ao mesmo tempo, realizar a unidade. Ao invés, quando somos nós que pretendemos a diversidade e nos fechamos em nossos particularismos, em nossos exclusivismos, provocamos a divisão; e, por outro lado, quando somos nós que queremos construir a unidade com os nossos planos humanos, acabamos por impor a uniformidade, a homologação. Isto não ajuda a missão da Igreja. (#131)
Incluí esta passagem também no texto sobre os “conservadores” e penso que se aplica a ambos os lados da barricada, pelo que me limito a repetir aqui a minha reflexão:

Esta passagem é muito importante para os nossos dias, quando os novos meios de comunicação tornam cada vez mais fácil encontrar quem pensa como nós e assim formarmos grupinhos e grupetas, cuja legitimidade reivindicamos em nome da diversidade.

Por outro lado, não deixa de ter piada ver a ala mais liberal a exigir o fim sem tréguas de tudo o que é movimento e grupo mais conservador, contrariando precisamente essa diversidade que, supostamente, tanto prezam.

O Papa dá aqui uma resposta que desarma ambos esses excessos. A diversidade e a unidade não são incompatíveis… Desde que verdadeiramente inspirados pelo Espírito Santo. E essa confirmação vem-nos pela oração, antes de mais, mas vê-se também nos frutos. De resto o Espírito Santo não é monopólio nem de conservadores nem de liberais, mas serve os propósitos de Deus, sempre.

Desejo afirmar, com mágoa, que a pior discriminação que sofrem os pobres é a falta de cuidado espiritual. A imensa maioria dos pobres possui uma especial abertura à fé; tem necessidade de Deus e não podemos deixar de lhe oferecer a sua amizade, a sua bênção, a sua Palavra, a celebração dos Sacramentos e a proposta dum caminho de crescimento e amadurecimento na fé. A opção preferencial pelos pobres deve traduzir-se, principalmente, numa solicitude religiosa privilegiada e prioritária. (#200)
Estas palavras são dirigidas directamente para aquelas pessoas, e não são poucas, que começaram a acreditar que havia uma incompatibilidade entre a evangelização e a justiça social. Essa crença fez pessimamente à Igreja nas últimas décadas, legando-nos uma classe de religiosos que acredita que a sua missão é apenas e só melhorar condições de vida, abrir clínicas e fazer campanhas.

Não nos enganemos. Essas coisas são todas fundamentais, mas não são nem podem ser fins em si mesmas. A nossa principal missão enquanto baptizados é levar Cristo ao mundo. Como? Nalguns casos a celebrar missas, nalguns casos a constituir família, nalguns casos a ensinar catequese, nalguns casos a abrir escolas e sim, nalguns casos, a cuidar dos mais pobres de entre os pobres e a acolher os moribundos.

Há um mundo de diferença entre o trabalho que fazia Madre Teresa de Calcutá e o que fazem as freiras radicais americanas que andam há anos a desafiar abertamente a autoridade dos bispos e os ensinamentos da Igreja, apesar de todas poderem dizer que estão a ajudar os pobres e os fracos. Mas essas freiras americanas são apenas uma face mais visível de um problema que afecta toda a Igreja em todo o mundo, incluindo em Portugal.

Acredito que a principal questão aqui é que quando começamos a tentar acabar com os problemas do mundo, mas deixando Jesus em casa, como se Ele fosse um obstáculo – isto quando não O reinventamos como um activista político revolucionário – leva-nos facilmente a acreditar que a solução para os problemas do mundo está em nós, na nossa dedicação e na nossa força.

Essa perda de humildade é o primeiro passo da queda. É um mal terrível e que urge combater a todo o custo. Ajudar sim, ajudar quem mais precisa, ajudar aqueles que metem nojo aos nossos irmãos, claro! Mas sempre com Cristo a guiar-nos o caminho e levando Cristo, que é o verdadeiro tesouro, a todos.

Entre estes seres frágeis, de que a Igreja quer cuidar com predilecção, estão também os nascituros, os mais inermes e inocentes de todos, a quem hoje se quer negar a dignidade humana para poder fazer deles o que apetece, tirando-lhes a vida e promovendo legislações para que ninguém o possa impedir. Muitas vezes, para ridiculizar jocosamente a defesa que a Igreja faz da vida dos nascituros, procura-se apresentar a sua posição como ideológica, obscurantista e conservadora; e no entanto esta defesa da vida nascente está intimamente ligada à defesa de qualquer direito humano. (...) Se cai esta convicção, não restam fundamentos sólidos e permanentes para a defesa dos direitos humanos. (#213)

E precisamente porque é uma questão que mexe com a coerência interna da nossa mensagem sobre o valor da pessoa humana, não se deve esperar que a Igreja altere a sua posição sobre esta questão. A propósito, quero ser completamente honesto. Este não é um assunto sujeito a supostas reformas ou «modernizações». Não é opção progressista pretender resolver os problemas, eliminando uma vida humana. (#214)
Palavras para todos aqueles que esfregaram as mãos de contentes quando o Papa disse, numa entrevista, que a Igreja às vezes parecia estar obcecada com questões fracturantes.

Não. Este não é o Papa que se vai render ao mundo na questão do aborto. Este não é o Papa que vai abandonar a luta pelos mas fracos de entre os fracos.

Porquê? Primeiro, porque ao contrário do que alguns querem dar a entender, o Papa é católico e segundo porque ele mostra entender que esse desrespeito pela vida dos nascituros é a pedra angular de todos os desrespeitos por todas as formas de vida que infestam actualmente a nossa sociedade.

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A Alegria do Evangelho - Os Conservadores

Antes sequer de começar, eu sei que estes rótulos “conservador” ou “liberal” são muito redutores. Mas por outro lado também são indicativos, desde que nos lembremos que são estereótipos, e tenhamos algumas reservas.

O problema é que conservador abarca tanto as pessoas que são ultra-tradicionalistas como outras que simplesmente estão com a Igreja em questões fracturantes como o aborto, casamento, ordenação de mulheres etc.

Dito isto, muitas pessoas têm dito que este documento, à imagem de todo o pontificado, tem posto os conservadores “nervosos”. Os conservadores, por seu lado, sobretudo os mais conservadores, fazem logo questão de desmentir e insistir que não há aqui nada de novo.

Nem tanto ao mar nem tanto à terra. É verdade que muitos conservadores sustêm a respiração cada vez que o Papa diz ou escreve alguma coisa. É uma questão de hábito, também… estavam habituados à total segurança de Bento XVI e com Francisco há surpresas. Mas às vezes a ginástica torna-se absurda, como quando alguns insistiram que nesta exortação não há qualquer crítica ao capitalismo, porque o Papa nunca menciona a palavra capitalismo… please!

Vejamos então algumas passagens.

“A quantos sonham com uma doutrina monolítica defendida sem nuances por todos, isto poderá parecer uma dispersão imperfeita; mas a realidade é que tal variedade ajuda a manifestar e desenvolver melhor os diversos aspectos da riqueza inesgotável do Evangelho.” (#40)
A questão aqui é que, por mais que isso custe a alguns, a Igreja é de facto uma casa de variedades. Poderão dizer, sim, é certo, mas ao menos em relação à doutrina não há dúvidas. O Papa aqui não usa a palavra dúvidas, mas usa nuances… é mais neutro. Doutrina só há uma, mas como a entendemos? Como a ensinamos? A Igreja não ensina que há hierarquias de verdades? Penso que será essa a janela que o Papa está a abrir aqui.

“Por vezes, mesmo ouvindo uma linguagem totalmente ortodoxa, aquilo que os fiéis recebem, devido à linguagem que eles mesmos utilizam e compreendem, é algo que não corresponde ao verdadeiro Evangelho de Jesus Cristo. Com a santa intenção de lhes comunicar a verdade sobre Deus e o ser humano, nalgumas ocasiões, damos-lhes um falso deus ou um ideal humano que não é verdadeiramente cristão. Deste modo, somos fiéis a uma formulação, mas não transmitimos a substância. Este é o risco mais grave.” (#41)
“O risco mais grave”… Isto não é brincadeira. E isto sim é algo que eu identifico com alguma facilidade no “campo” conservador. A rigidez da defesa da doutrina, sendo louvável em si, não pode abafar a surpresa e a frescura que deve ser a mensagem cristã. Conhecer Cristo tem de ser mais do que simplesmente ter a fórmula certa na cabeça e observar os rituais.

Podem até ser belos, mas agora não prestam o mesmo serviço à transmissão do Evangelho. Não tenhamos medo de os rever! Da mesma forma, há normas ou preceitos eclesiais que podem ter sido muito eficazes noutras épocas, mas já não têm a mesma força educativa como canais de vida. (#43)

Nalguns, há um cuidado exibicionista da liturgia, da doutrina e do prestígio da Igreja, mas não se preocupam que o Evangelho adquira uma real inserção no povo fiel de Deus e nas necessidades concretas da história. Assim, a vida da Igreja transforma-se numa peça de museu ou numa possessão de poucos. (#95)
Lamento, mas esta é uma forma querida e simpática de o Papa dizer aquilo que muitos de nós, e uso o “nós” de propósito, temíamos. Francisco está a falar precisamente das tradições de que tanto gostamos e que ao longo das últimas décadas têm sido abandonadas. Liturgias elaboradas, ritos diferentes e antigos, dos incensos aos paramentos pretos… E fala também de outras curiosidades que Bento XVI estimava mas que Francisco mostrou desde cedo não querer. Os sapatos encarnados, os mil e um apetrechos que, de facto, fazem parte da história e da cultura da Igreja.

Mas não demos um passo maior que as pernas. Francisco não tem paciência para estas coisas, mas não diz que devemos enterrá-las, como muitos andam a tentar fazer desde o Concílio, baseando-se no tal “espírito” vago, que não está na letra dos documentos.

E por isso mesmo, esta atitude do Papa e as suas palavras não deixam de ser absolutamente certeiras. Porque para muitos os paramentos, os incensos, as liturgias, a língua e a orientação do padre deixaram de ser setas a apontar no sentido de Cristo e passaram a ser o próprio objectivo e destino. O Papa não nos diz que estas coisas são más em si, só nos diz que na medida em que não contribuem para iluminar o caminho para Cristo, são dispensáveis.

E não iluminam? Nalguns casos, provavelmente não. Noutros, sim. É esse discernimento que é preciso saber fazer. Não guardar a tradição só porque é antigo e tradicional, mas sim na medida em que contribui para o conhecimento da verdade.

A todos os que sentem agora a tentação de citar estas palavras para celebrar liturgias francamente feias, e igrejas que mais parecem contentores e armazéns, não esqueçamos que o mesmo Papa, neste mesmo documento, pede liturgias belas. Para Jesus o melhor, só o melhor. O melhor tem muitas formas e feitios. Não tem de ser sempre igual e parado no tempo. Mas é sempre belo.

A Eucaristia, embora constitua a plenitude da vida sacramental, não é um prémio para os perfeitos, mas um remédio generoso e um alimento para os fracos. Estas convicções têm também consequências pastorais, que somos chamados a considerar com prudência e audácia. Muitas vezes agimos como controladores da graça e não como facilitadores. Mas a Igreja não é uma alfândega; é a casa paterna, onde há lugar para todos com a sua vida fadigosa. (#47)
Esta foi uma passagem que levou muita gente a pensar que o Papa preparava terreno para permitir que os divorciados recebam os sacramentos. Eu também a assinalei por causa disso. Contudo, na sua mais recente entrevista, publicada pelo “La Stampa”, o Papa desmente essa ideia e diz que não era isso que queria dizer, que pensava mais especificamente na situação de quem recusa baptizar filhos de mães solteiras e que, no caso dos divorciados “recasados”, o impedimento de comungar não é uma sanção.

A outra maneira é o neopelagianismo auto-referencial e prometeuco de quem, no fundo, só confia nas suas próprias forças e se sente superior aos outros por cumprir determinadas normas ou por ser irredutivelmente fiel a um certo estilo católico próprio do passado. É uma suposta segurança doutrinal ou disciplinar que dá lugar a um elitismo narcisista e autoritário, onde, em vez de evangelizar, se analisam e classificam os demais e, em vez de facilitar o acesso à graça, consomem-se as energias a controlar. (#94)
Nada a acrescentar a estas palavras, que são muito claramente direccionadas a um estilo de tradicionalistas que, infelizmente, cumpre criteriosamente cada ponto da descrição.

A diversidade deve ser sempre conciliada com a ajuda do Espírito Santo; só Ele pode suscitar a diversidade, a pluralidade, a multiplicidade e, ao mesmo tempo, realizar a unidade. Ao invés, quando somos nós que pretendemos a diversidade e nos fechamos em nossos particularismos, em nossos exclusivismos, provocamos a divisão; e, por outro lado, quando somos nós que queremos construir a unidade com os nossos planos humanos, acabamos por impor a uniformidade, a homologação. Isto não ajuda a missão da Igreja. (#131)
Esta passagem é muito importante para os nossos dias, quando os novos meios de comunicação tornam cada vez mais fácil encontrar quem pensa como nós e assim formarmos grupinhos e grupetas, cuja legitimidade reivindicamos em nome da diversidade.

Por outro lado, não deixa de ter piada ver a ala mais liberal a exigir o fim sem tréguas de tudo o que é movimento e grupo mais conservador, contrariando precisamente essa diversidade que, supostamente, tanto prezam.

O Papa dá aqui uma resposta que desarma ambos esses excessos. A diversidade e a unidade não são incompatíveis… Desde que verdadeiramente inspirados pelo Espírito Santo. E essa confirmação vem-nos pela oração, antes de mais, mas vê-se também nos frutos. De resto o Espírito Santo não é monopólio nem de conservadores nem de liberais, mas serve os propósitos de Deus, sempre.

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sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

"A pobreza é uma rejeição dos direitos humanos"

Transcrição integral da entrevista a Alfredo Bruto da Costa, sobre os Direitos Humanos de uma perspectiva católica e missionária. A notícia está aqui.

Como encara as palavras do Papa Francisco na sua exortação apostólica sobre o sistema financeiro internacional?
É tremendamente crítico, mas compreensivelmente. Não é nenhuma novidade. Já Bento XVI, na encíclica Caridade na Verdade já fazia algumas observações muito críticas ao sistema económico e financeiro. Nós é que não estamos habituados a levar a sério este tipo de críticas, quando estão escritas através de uma linguagem menos incisiva.

Uma das grandes vantagens das mensagens do Papa Francisco é que ele tem uma linguagem extremamente expressiva, por exemplo quando fala da economia e finanças que causa exclusão, ele tem uma frase que é “Esta economia mata”. É uma frase que até podemos tomar literalmente, porque de facto há gente que morre por razões do sistema económico e financeiro global.

O que o Papa Francisco vem trazer é uma revisão de antigos princípios que foram proclamados pela Igreja e que os próprios cristãos não tomaram devidamente a sério. Se fosse assim não teríamos nenhuma razão para pensar que esta insistência e esta forma aguda como ele coloca o problema teria alguma coisa de novo. A meu ver não tem, só tem porque não temos levado a sério essas advertências feitas quer pelos doutores da Igreja, quer pelos últimos Papas, em documentos a esse respeito.

De que forma é que a pobreza pode afectar os direitos humanos?
A pobreza é uma rejeição, uma negação clara dos direitos humanos. Fiz parte de uma comissão criada pela UNESCO, precisamente para explicitar a relação da pobreza no mundo com os direitos humanos. A relação é claríssima.

Se pegarmos na declaração dos direitos humanos um dos principais direitos é o direito à existência. Ora bem, a interpretação desse direito implica que a gente possa ter uma existência digna. Portanto o próprio direito fixado em 1948, interpretado como deve ser, leva a que situações de miséria sejam negações claras de direitos humanos básicos.

Outra questão é quanto à noção de liberdade. Quando pensamos em direitos, em democracia, por exemplo, fixamo-nos bastante na noção de liberdade. A liberdade de expressão, de pensamento, etc. Hoje sabemos que considerando a liberdade numa perspectiva existencial, uma pessoa com fome não é livre. Por este caminho nós temos uma forma muito clara e consistente de mostrar que o próprio conceito de liberdade e de democracia, etc. quando as pessoas não têm de comer, vivem na miséria, não têm maneira de satisfazer as suas necessidades básicas, não são livres. E não são livres de duas formas. Por um lado não são livres de comer, poder comer é uma forma de liberdade,  mas por outro lado está provado, como a própria intuição humana diz, uma pessoa com fome, na miséria, desinteressa-se por outras formas de liberdade, mesmo que elas existam. Portanto não ter para comer ou para viver dignamente é duplamente falta de liberdade, porque não pode comer e depois porque não comendo não pode exercer as outras formas de ser livre.

Indo directamente ao assunto, acredita que as medidas de austeridade que têm sido impostas pelo Governo podem pôr em causa os direitos humanos dos mais pobres?
Não tenha dúvidas. Repare que o tema dos direitos humanos é um tema que está completamente banido do debate político nacional. Ninguém fala dos direitos humanos. Porquê? Por um lado porque se criou uma mentalidade em que, sabendo que estamos numa situação de emergência e de excepção, justifica tudo, justifica apagar todos os direitos excepto o direito perante a “troika”, o direito perante os credores, aparece como um dever para Portugal e um dever que tem de ser respeitado a todo o custo. Os outros compromissos do Estado perante os cidadãos portugueses estão afastados, não fazem parte do debate, não fazem parte da equação dos diplomas dos políticos, portanto voltando à sua questão, não tenho a mais pequena dúvida de que o problema dos direitos humanos está completamente ausente do debate político e das preocupações nacionais, desde que estejamos a executar o memorando de entendimento com a “troika”.

Acredita que há solução, tanto para o sistema internacional como para Portugal?
A solução nunca é uma coisa estática, é um caminho, um dinamismo. O que lhe posso dizer é que estamos perante um conjunto de bloqueios que impedem que a gente pense na viabilidade de qualquer alternativa. Dou-lhe exemplo: Temos um contexto europeu em que o poder da Alemanha é absolutamente soberano e de um autoritarismo a toda a prova, é uma coisa que tinha de ser tratada e se me disserem que Portugal é um país muito fraco para resolver um problema tão grande, diria que por definição, pertencermos a um grupo de países do Euro ou da União Europeia, dá a possibilidade de associar-nos a outros países que também não vejam com bons olhos esta hegemonia despropositada e infundada da Alemanha.

Por outro lado o discurso do nosso Governo tem dado razões para pensar que o Governo faz as coisas não só porque a “troika” impõe, mas porque o próprio Governo pensa que é por aí que temos de ir. Às vezes dizem que não podem fazer de outra forma porque a “troika” impõe, mas normalmente o discurso é que isto é que está certo, o caminho é por aí, e ponto final.

Trata-se de uma preferência de uma teoria económica que não é a única que existe. Há grandes economistas no mundo fora, inclusivamente pessoas altamente colocadas em instituições que fazem parte da “troika” que fazem pronunciamentos ao invés do que se ouve dizer entre nós. Por exemplo este problema de que sem investimento, sem possibilidades de crédito a pequenas e médias empresas, sem acesso ao crédito não temos possibilidades de criar emprego, nem crescimento económico.

Ora bem, há aqui um grande campo de discussão, há quem diga que de facto temos grandes autoridades em matéria económica que discordam desta forma de orientar as coisas, mas para além disso temos uma verificação prática do que se passou nos últimos dois anos, em que a população teve por cima medidas que trouxeram um sofrimento, que continua, e que é muitíssimo sério e por outro lado os principais objectivos da dívida e do défice público não têm sido atingidos de acordo com o que estava previsto.

Há aqui sinais claros de que a política foi concretamente ao longo dos últimos dois anos um falhanço nos seus objectivos, nem assim a “troika” e o Governo querem mudar de política, portanto dizer que não há alternativa não é teoricamente fundado, sobretudo tendo do outro lado o sacrifício humano, com o qual não podemos fazer experiências nem termos birras sobre preferências sobre modelos económicos.

A Igreja Católica tem um papel a desempenhar na promoção e defesa dos direitos humanos?
Eu sempre pensei, sobretudo a partir do Concílio Vaticano II, que quando falamos de Igreja não podemos limitar-nos ao conceito de hierarquia. Aqui temos claramente que distinguir a Igreja-povo dos crentes, que tem um papel igual, ou mais exigente. Como dizia um teólogo francês, em rigor os cristãos deveriam estar na primeira linha do combate a favor dos direitos humanos. Isto é o que decorre da mensagem evangélica. Não tenho dúvidas, penso que a postura do Papa Francisco, no seguimento de Bento XVI, distinguindo o papel da hierarquia, que não é fazer política no sentido de acção política mas sim de influenciar, através da difusão dos valores e das exigências éticas que a fé cristã coloca na organização e no funcionamento das sociedades. Os leigos estão de mão dada com os que não têm fé cristã, quando muito, como disse, a particularidade seria de estarem na primeira linha da luta a favor dos direitos humanos.

"Não pode haver critério económico sem critério moral"

Transcrição integral da entrevista a Salvador de Mello sobre os Direitos Humanos de uma perspectiva católica e missionária. A notícia está aqui.

A declaração universal dos direitos humanos indica (artº 23) o direito ao emprego e a um salário justo que assegure condições de vida dignas. Enquanto gestor, tem de tomar decisões que influenciam a vida dos seus funcionários. Acredita que o facto de ser católico e do Grupo Mello ter uma identidade católica, influencia as suas decisões e a conduta do grupo?
Procuro que assim seja. O facto de ser católico e ter fé leva-me a procurar agir de acordo com aquilo em que acredito e influenciar quem me rodeia. Aliás, li recentemente um livro bastante inspirador, escrito pelo meu amigo António Pinto Leite, presidente da ACEGE, que fala do Amor como Critério de Gestão, que dá uma definição interessante, do meu ponto de vista, que no fundo é que o Amor é a capacidade de tratarmos os outros como gostaríamos de ser tratados se tivéssemos no lugar deles, com a informação de que dispomos. Parece-me um princípio prático e concreto e que pode ser aplicado.

Certamente já teve de tomar decisões que implicam despedimentos ou rescisões. Quando isso acontece as decisões são tomadas com critério puramente económico, ou entram também valores morais?
O que me parece é que não pode haver critério económico sem antes haver critério moral. Penso que a ética deve enquadrar e sobrepor-se aos puramente económicos. Não pode valer tudo, obviamente, e os valores são fundamentais para discernir e para nos dar rumo e consistência. A minha experiência diz-me que é exactamente nas decisões mais difíceis que o dom da fé e a ética são mais importantes.

Muitas vezes temos decisões difíceis para tomar e é nessa altura que o facto de termos uma bagagem de princípios onde ir buscar orientação e inspiração é importante.

Têm pessoas a ganhar ordenado mínimo? E é possível viver uma vida com condições de dignidade a ganhar menos de 500 euros por mês?
Penso que a dignidade humana é muito importante e aliás o valor da dignidade humana é um dos valores pelos quais o grupo José de Mello Saúde se rege. Dito isto, vivemos num contexto muito difícil, temos de ter equilíbrio nas decisões que tomamos e nas decisões dos ordenados que estabelecemos, mas nem sempre é possível pagar aquilo que gostaríamos que as pessoas ganhassem e que nós próprios gostaríamos que as pessoas ganhassem. Vivemos num contexto difícil e é a situação que temos.

Trabalha na área da saúde, um sector muito sensível também a este respeito. Acredita que as medidas de austeridade que o Governo tem aplicado estão a chegar ao ponto de pôr em causa os direitos humanos dos portugueses, nomeadamente das franjas mais frágeis da sociedade?
Penso que o processo de ajustamento pelo que estamos a passar tem por objectivo e finalidade a melhoria das condições de vida dos portugueses e do país, e não o contrário. Não me parece que seja esse processo que ponha em causa os direitos dos portugueses, mas sim a acumulação de dívida pelo que o país passou nas últimas décadas.

Houve nos últimos 20 anos um excesso de endividamento colectivo que não resultou num crescimento da riqueza do país e essa foi uma irresponsabilidade que agora todos estamos a pagar. Penso que não há alternativa a este esforço colectivo, mas encaro o futuro com esperança. Penso que depois deste ajustamento duro por que o país e todos os portugueses estão a passar, o país sairá mais forte, mais capaz de enfrentar os desafios do futuro, e acho que aquilo que se tem estado a passar em Portugal tem sido um exemplo cívico extraordinário, as pessoas têm compreendido que a rota que estávamos a seguir não era viável e que tinha de sofrer correcções. Penso de facto que este processo era necessário e não vejo alternativa a ele.

A recente exortação apostólica do Papa Francisco tem palavras muito duras sobre o sistema económico em Portugal. Leu? Concorda com as críticas que ele faz?
Li com muito interesse a exortação apostólica e confesso que não a encaro tanto como uma crítica mas sim a um apelo à responsabilidade de todos, seja em Portugal seja no resto do mundo. O que o Papa faz, no meu ponto de vista, é um apelo colectivo a que ninguém deve ficar indiferente. O Papa diz-nos o que todos sabemos mas que às vezes queremos esquecer, é preciso fazer mais por um mundo mais justo. Este é um tema no qual todos somos jogadores, ninguém pode ficar no banco ou na bancada. Somos todos chamados a contribuir para um mundo mais justo, por isso parece-me um apelo à responsabilidade muito bem-vindo.

Mesmo com termos como “Esta economia mata”?
Acho que é mais um apelo à responsabilidade, é assim que o encaro, acho que há muito a fazer e foi o que me fez sentir, um apelo à responsabilidade e a fazer mais e melhor.

Algumas das suas passagens são mais directamente dirigidas a quem tem mais posses. Como é que reage a este tipo de parágrafos?
No fundo é como na parábola dos talentos. Quantos mais temos mais obrigação temos de os pôr a render a favor da sociedade. Parece-me isso natural e justo.

Ainda por cima acredito sinceramente que quanto mais damos mais recebemos. Não é só, nem sobretudo, nos bens materiais, mas na entrega aos outros. Quanto mais damos, mais recebemos e somos mais felizes e portanto, cada um fala por si, cada um dá aquilo que quer e pode dar. Mas acho que de facto essa parte da exortação fez-me lembrar a parábola dos talentos e é assim que vejo assunto.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Direitos humanos - aniversários, ameaças e vitórias

Pai dos direitos humanos?
Hoje é o aniversário da declaração Universal dos Direitos Humanos. A Renascença publicou dois trabalhos (um terceiro sairá em breve), sobre os direitos humanos por uma perspectiva católica.




Ainda no campo dos direitos humanos, o Papa chamou atenção para o “escândalo” da fome.


Sabia que o que os protestos na Ucrânia têm também contornos religiosos? Saiba mais aqui.

Por fim, mais dois textos de análise à exortação apostólica “A Alegria do Evangelho”. O que diz o Papa sobre a Família, e o que diz sobre o Perdão.

A Alegria do Evangelho - O Perdão

Para quantos estão feridos por antigas divisões, resulta difícil aceitar que os exortemos ao perdão e à reconciliação, porque pensam que ignoramos a sua dor ou pretendemos fazer-lhes perder a memória e os ideais. Mas, se virem o testemunho de comunidades autenticamente fraternas e reconciliadas, isso é sempre uma luz que atrai. Por isso me dói muito comprovar como nalgumas comunidades cristãs, e mesmo entre pessoas consagradas, se dá espaço a várias formas de ódio, divisão, calúnia, difamação, vingança, ciúme, a desejos de impor as próprias ideias a todo o custo, e até perseguições que parecem uma implacável caça às bruxas. Quem queremos evangelizar com estes comportamentos? (#100)
Este é um tema que me é particularmente caro e à volta do qual elaborei a minha tese de mestrado, por isso interessa-me particularmente. Quanto mais experiência tenho, mais acredito que o conceito cristão de perdão (que é diferente do judaico e do muçulmano), é uma das coisas mais “revolucionárias” que Cristo trouxe ao mundo. Hoje em dia partimos do princípio que devemos perdoar, mesmo que não o façamos, mas isso nem sempre foi assim e não é assim noutras culturas.

O Papa faz bem em ir directamente à ferida. Falar de perdão é fácil e bonito, mas custa quando somos a parte ofendida e todos esperam de nós essa atitude, quando nós nos sentimos merecedores de uma boa dose de vingança, ou pelo menos ressentimento.

O que Francisco nos está a dizer é que esse ressentimento não só nos mata por dentro, como é antievangélico. Uma comunidade de pessoas que se perdoam uns aos outros é muito mais “sedutora” que uma comunidade em que todos guardam ódiozinhos de estimação uns pelos outros.

A receita, diz o Papa, está em ser humilde até nas nossas orações. Não esperemos logo um coração capaz de amar como Cristo amou... sejamos mais modestos, basta rezar assim:

Pelo menos digamos ao Senhor: «Senhor, estou chateado com este, com aquela. Peço-Vos por ele e por ela». Rezar pela pessoa com quem estamos irritados é um belo passo rumo ao amor, e é um acto de evangelização. Façamo-lo hoje mesmo. (#101)


Outros temas:

A Alegria do Evangelho - A Família

No caso da família, a fragilidade dos vínculos reveste-se de especial gravidade, porque se trata da célula básica da sociedade, o espaço onde se aprende a conviver na diferença e a pertencer aos outros e onde os pais transmitem a fé aos seus filhos. O matrimónio tende a ser visto como mera forma de gratificação afectiva, que se pode constituir de qualquer maneira e modificar-se de acordo com a sensibilidade de cada um. Mas a contribuição indispensável do matrimónio à sociedade supera o nível da afectividade e o das necessidades ocasionais do casal. Como ensinam os Bispos franceses, não provém «do sentimento amoroso, efémero por definição, mas da profundidade do compromisso assumido pelos esposos que aceitam entrar numa união de vida total». (#66)
Esta passagem não merece grandes comentários em relação ao seu conteúdo, que me parece excelente e muito claro.

O timing é muito importante, porque esta é uma batalha que decorre actualmente e que está a ser perdida em larga escala em todo o mundo, salvo uma ou outra vitória pontual em países como a Croácia, por exemplo.

Achei interessante, também, o Papa citar os bispos franceses. De todos os países em que o “casamento” entre pessoas do mesmo sexo foi aprovado, porquê os franceses? É que ainda por cima a frase não é propriamente revolucionária... Não nos esqueçamos que apesar de esta invenção ter sido aprovada em França, e apesar do anticlericalismo que sempre associamos aos gauleses, aquele foi o país em que mais duramente se lutou contra a medida. Manifestações de milhões de pessoas na rua, tomadas de posição fimes, marchas pelo casamento tradicional lideradas por pessoas assumidamente homossexuais e contra o chamado “casamento” homossexual... uma postura às vezes estranhamente combativa. Compara-se com a passividade do que se passou em Portugal e noutros estados europeus... estará o Papa a dar-nos um recado? É especulação, mas a citação está lá.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

A Alegria do Evangelho - A Igreja no Mundo

A Igreja na Praça pública...
Os Pastores, acolhendo as contribuições das diversas ciências, têm o direito de exprimir opiniões sobre tudo aquilo que diz respeito à vida das pessoas, dado que a tarefa da evangelização implica e exige uma promoção integral de cada ser humano. Já não se pode afirmar que a religião deve limitar-se ao âmbito privado e serve apenas para preparar as almas para o céu. (#182)

Por conseguinte, ninguém pode exigir-nos que releguemos a religião para a intimidade secreta das pessoas, sem qualquer influência na vida social e nacional, sem nos preocupar com a saúde das instituições da sociedade civil, sem nos pronunciar sobre os acontecimentos que interessam aos cidadãos. Quem ousaria encerrar num templo e silenciar a mensagem de São Francisco de Assis e da Beata Teresa de Calcutá? (#183)
Bravo Papa Francisco! Nada como meter o dedo na ferida.

Aliás, o próprio Papa Francisco está, paradoxalmente e contra a sua vontade, a ser o maior exemplo do que acaba de criticar!

Bento XVI ou o Patriarca de Lisboa criticam o aborto ou os excessos da secularismo anti-religioso? Lá estão os padrecos a meterem-se onde não devem, diz os mesmos do costume.

Papa Francisco critica o sistema económico internacional? Finalmente a Igreja a falar sobre questões importantes para a sociedade! Não percebem a contradição? E não pensem que é só uma questão da esquerda e dos liberais, embora seja sobretudo. Há forças conservadoras que fazem exactamente o mesmo, batendo palmas cada vez que a Igreja condena os males morais, mas rasgando as vestes quando o Papa fala de economia.

Um são pluralismo, que respeite verdadeiramente aqueles que pensam diferente e os valorizem como tais, não implica uma privatização das religiões, com a pretensão de as reduzir ao silêncio e à obscuridade da consciência de cada um ou à sua marginalização no recinto fechado das igrejas, sinagogas ou mesquitas. (...) O respeito devido às minorias de agnósticos ou de não-crentes não se deve impor de maneira arbitrária que silencie as convicções de maiorias crentes ou ignore a riqueza das tradições religiosas. (#255)
Porque é precisamente disto que se trata. Passámos da liberdade religiosa para a liberdade da religião, no sentido de as pessoas serem “livres da religião”. Bento XVI sempre disse que a Igreja não procura impor a sua mensagem, mas propor. Ninguém tem o direito de a impedir de o fazer.


A Alegria do Evangelho - A Igreja enquanto instituição

Chegamos a um dos pontos mais importantes da exortação e dos pontos que mais expectativas cria em relação ao que o Papa vai fazer ou deixar de fazer durante o seu pontificado.

Há estruturas eclesiais que podem chegar a condicionar um dinamismo evangelizador (#26)
Isto é tão simples que parece inútil dizê-lo. A existência de estruturas que não contribuam para um dinamismo evangelizador é natural. Há espaço para tudo. Cultivar interesse pelo rito bracarense pode não contribuir para conquistar novas almas, mas tem valor nem que seja pelo facto de manter vivo um aspecto da cultura e do património universal da Igreja. O mesmo se aplica aos sapatos encarnados de Bento XVI ou aos turíbulos nas missas...

Agora, outra coisa bem diferente são instituições ou práticas que, concretamente, são um obstáculo ao dinamismo evangelizador... isso é inaceitável e onde existem têm de ser expurgadas. Ponto final, parágrafo.

A reforma das estruturas, que a conversão pastoral exige, só se pode entender neste sentido: fazer com que todas elas se tornem mais missionárias, que a pastoral ordinária em todas as suas instâncias seja mais comunicativa e aberta, que coloque os agentes pastorais em atitude constante de «saída» e, assim, favoreça a resposta positiva de todos aqueles a quem Jesus oferece a sua amizade (#27)
Parece-me sem dúvida um bom ponto de partida. Não é simplificar por simplificar. Não é ser pobre por miserabilismo. Não é acabar com a beleza por um qualquer “progressismo adolescente”. É mudar para melhor evangelizar. Assim sim.

“A paróquia não é uma estrutura caduca; (...)Temos, porém, de reconhecer que o apelo à revisão e renovação das paróquias ainda não deu suficientemente fruto, tornando-se ainda mais próximas das pessoas, sendo âmbitos de viva comunhão e participação e orientando-se completamente para a missão. (#28)

“É muito salutar que não percam o contacto com esta realidade muito rica da paróquia local e que se integrem de bom grado na pastoral orgânica da Igreja particular. Esta integração evitará que fiquem só com uma parte do Evangelho e da Igreja, ou que se transformem em nómades sem raízes” (#29)
Este é um tema perfeitamente actual. Quantos de nós continuamos verdadeiramente ligados à paróquia onde vivemos? Eu não.

Hoje em dia os movimentos vieram em larga medida substituir as paróquias e não digo isso como crítica, longe disso. Mas há um risco, para o qual o Papa alerta, e que me parece importante. É que nada substitui a diversidade de uma paróquia. Se nos rodearmos apenas de amigos que são do nosso movimento, do nosso grupinho e que pensam como nós, corremos o risco de viver a Igreja “à nossa maneira”, algo que tanto criticamos naqueles que nem à missa vão, porque são católicos “à sua maneira”.

Na paróquia somos obrigados a conviver com altos e baixos, conservadores e liberais, malucos e génios... um pouco de tudo. Isso é Igreja e nesse sentido é insubstituível. Mas não é fácil, nos nossos dias. Toda a Igreja está a tentar encontrar uma nova saída e uma nova forma de viver a paróquia, sobretudo nas grandes cidades, e ainda não me parece que tenham surgido soluções mágicas. Eu pelo menos não as tenho.

Uma centralização excessiva, em vez de ajudar, complica a vida da Igreja e a sua dinâmica missionária. (#32)
Certo. Mas não nos podemos esquecer de que uma das vantagens do Catolicismo é precisamente o facto de, em última instância, haver uma autoridade central a que recorrer. Isso não pode desaparecer. Nem estou a insinuar que o Papa queira que desapareça, mas temo algumas leituras demasiado radicais destas palavras. E mais, como escrevi antes, uma Igreja descentralizada, tudo bem, mas nesse caso precisamos de cuidados redobrado na nomeação de bispos.

No diálogo com os irmãos ortodoxos, nós, os católicos, temos a possibilidade de aprender algo mais sobre o significado da colegialidade episcopal e sobre a sua experiência da sinodalidade. (#246)
Mais uma vez, sim, é verdade, e é um bonito gesto ecuménico da parte do Papa escrevê-lo, mas calma... É que a sinodalidade dos ortodoxos pode ser bonita, mas também tem falhas. Basta ver a forma como as igrejas ortodoxas passam a vida a excomungarem-se umas às outras e os grandes problemas a nível de jurisdição, com algumas igrejas a disputar questões de jurisdição. Aqui, sem dúvida, fazia falta uma autoridade central que pudesse colocar um ponto final no assunto.

A nossa tristeza e vergonha pelos pecados de alguns membros da Igreja, e pelos próprios, não devem fazer esquecer os inúmeros cristãos que dão a vida por amor. (#76)
Amen.

“Um dos sinais concretos desta abertura é ter, por todo o lado, igrejas com as portas abertas. Assim, se alguém quiser seguir uma moção do Espírito e se aproximar à procura de Deus, não esbarrará com a frieza duma porta fechada.” (#47)
Este ponto pôs-me a pensar bastante, até porque sempre detestei ver igrejas de porta fechada.

Por um lado, compreendo que seja necessário manter portas fechadas por questões de segurança. Mas esse é precisamente o ponto... segurança de quê? Das coisas bonitas que lá estão dentro? Das obras de arte caras, dos dourados e das pratas? Mas afinal de contas as nossas igrejas existem para quê? De que servem esses tesouros se impedem que os fiéis possam ter acesso, sempre que precisarem, ao verdadeiro tesouro, que está no sacrário.

Calma, não estou armado em puritano, se há coisa que adoro são igrejas bonitas. Mas penso que pelo menos devíamos meditar sobre isto. Haveria, por exemplo, uma forma de cada igreja ter um espaço isolado, mais protegido, tipo uma capela lateral, que estivesse sempre aberta? Sem acesso fácil à nave principal, onde estão as coisas de maior valor material? Que bom se nessa capela pudesse estar exposto o santíssimo, nem que fosse por detrás de um vidro de protecção (inquebrável), para evitar profanações? Na pior das hipóteses na manhã seguinte encontrava-se lá um sem-abrigo ou outro (como se isso fosse coisa a lamentar).

É só uma ideia, mas que apenas me surgiu depois de ler estas palavras.

É impressionante como até aqueles que aparentemente dispõem de sólidas convicções doutrinais e espirituais acabam, muitas vezes, por cair num estilo de vida que os leva a agarrarem-se a seguranças económicas ou a espaços de poder e de glória humana que se buscam por qualquer meio, em vez de dar a vida pelos outros na missão. (#80)
Conheço um padre que não recebe ordenado da sua paróquia há meses. Quando lhe perguntamos se está aflito, ri-se e diz que nunca lhe falta nada, porque os paroquianos tratam dele.

Não é falsa humildade, é a mais pura das verdades. Tem um carro bom, a casa cheia de comida e algumas tecnologias topo de gama... O que quero dizer é que não cultiva a pobreza, nem tem de o fazer, pois não fez votos para tal. Desde as velhas que lhe metem notas ao bolso, às famílias que lhe trazem presuntos, couves e batatas quando voltam “da terra”, nunca lhe falta nada e até tem para partilhar com amigos e paroquianos que precisam de ajuda.

Isto é das coisas mais bonitas que há. Um padre que não se preocupa com o material, porque as suas ovelhas cuidam dele.

O reverso da medalha, e infelizmente também existe, é ver, como diz o Papa, sacerdotes e homens de Deus que não são capazes de colocar a sua confiança na providência do Senhor. Isso choca os fiéis e é um sinal de falta de fé. Aves do céu e lírios do campo, amigos. Não esquecer.

Mas o recado é também para “nós” leigos. Quando é que foi a última vez que perguntou ao seu pároco ou a um padre que conhece se precisa de alguma coisa? Ou que o convidou para jantar? Ou levou um presente a casa? Ajudemos a cuidar das necessidades materiais dos nossos sacerdotes, para que eles possam cuidar melhor das nossas almas.

Onde há vida, fervor, paixão de levar Cristo aos outros, surgem vocações genuínas. (...) Por outro lado, apesar da escassez vocacional, hoje temos noção mais clara da necessidade de melhor selecção dos candidatos ao sacerdócio. Não se podem encher os seminários com qualquer tipo de motivações, e menos ainda se estas estão relacionadas com insegurança afectiva, busca de formas de poder, glória humana ou bem-estar económico. (#107)
Sempre que me dizem que precisamos de mais padres, respondo que não. Precisamos é de bons padres. Se forem muitos, melhor. Mas o importante é serem bons. O que o Papa escreve aqui é verdade até estatisticamente. Um jovem que veja uma Igreja dinâmica à sua volta, a fazer realmente a diferença, vai pensar seriamente se essa não é uma causa que merece o seu empenho total. Se viver numa Igreja morna, preferirá certamente outro caminho.

O resto da questão também é fundamental, até porque se torna um vício. Dioceses com poucos padres farão, infelizmente, quase tudo para aumentar os números e “mostrar serviço”. Há histórias lamentáveis de bispos a aceitar candidatos que foram expulsos de outras dioceses porque tinham problemas de carácter ou desvios comportamentais. É uma bomba relógio.

Depois, o passado recente mostra também que quando o clero de uma diocese começa a estar marcada pela presença de pessoas com desvios comportamentais, outros sentir-se-ão atraídos por esse caminho, pois dá prestígio e, até certo ponto, permite esconder modos de vida que são incompatíveis com o serviço sacerdotal. É com bons olhos que leio estas palavras do Papa e vejo que a Santa Sé está a dar o exemplo.

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