quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

A Igreja é uma Realidade Política ou Espiritual?

Nicholas Senz

Quando os futuros repórteres aprendem as artes do jornalismo nas faculdades e universidades, o assunto sobre o qual costumam aperfeiçoar as suas técnicas costuma ser política. Por outras palavras, a maioria dos repórteres treinam para ser jornalistas políticos. Não é nada que não faça sentido, uma vez que a maioria dos empregos para jornalistas serão aqueles que cobrem o campo da política. Mas o factor negativo é que todas as outras áreas tendem a ser vistas pela lente da política e isso pode conduzir a uma cobertura distorcida.

Os exemplos abundam, mas existem sobretudo no campo do jornalismo religioso. E vemos esta tendência não só em órgãos de imprensa seculares, que cometem erros tão básicos como confundir um crozier [báculo] com “crow’s ear” [orelha de corvo] ou a apelidar carmelitas de freiras da Luz do Karma [Karma Light]. Claro que bastaria uma pesquisa de cinco segundos no Google para resolver isto, desde que haja noção do que não se sabe. Mas o que é mais perturbador é que tendemos a ver estes mesmos erros básicos em órgãos de informação católicos. Os jornalistas católicos importam frequentemente termos políticos para as suas reportagens sobre assuntos de Igreja e os resultados são tudo menos esclarecedores.

Uma das armadilhas mais frequentes e que mais têm formado, ou deturpado, o discurso eclesial é a divisão da Igreja entre “progressistas” e “conservadores”. Para o jornalista que vê tudo pela lente da política, isto seria uma perspectiva natural. A política tem sobretudo a ver com facções com interesses diferentes a competir pelo poder para poderem aplicar as suas agendas ou ideias. Na política americana as facções tendem de facto a caber nestes dois campos. Por isso, quando um jornalista participa num encontro da Conferência Episcopal e ouve os bispos a discutir se deviam dar prioridade a questões de vida ou de justiça social, não acha muito diferente de republicanos e democratas a debater os detalhes de um orçamento no senado.

Mas o ensinamento da Igreja não cabe tão bem nesta quadrícula da política secular e as tentativas de projectar os prelados neste ou naquele campo tendem a ser fúteis. Quem lê os textos do arcebispo Jose Gomez ou do Cardeal Sean O’Malley sobre questões de vida, classifica-os de conservadores; mas se ler as suas declarações sobre a imigração ou salários justos, parte do princípio que são progressistas. A verdade é que nem um termo nem outro se aplica a um contexto eclesial, mas demasiados jornalistas católicos insistem em usá-los. Este hábito só serve para exagerar e exacerbar as divisões entre os católicos.

A aplicação destes termos à realidade interna da Igreja é ainda menos apropriada. Tipicamente, os católicos que defendem os ensinamentos e a prática da Igreja são apelidados de “conservadores” enquanto aqueles que fazem pela mudança (normalmente por algo mais em linha com a moral secular), são apelidados de “progressistas”. Mas não deveria ser a doutrina da Igreja que serve para medir as outras coisas? Uma pessoa que simplesmente defende preservar a doutrina da Igreja devia ser considerada “moderada”. Os próprios termos são reveladores dos preconceitos daqueles que os usam.

Outro problema tem a ver com a forma como os repórteres e meios de comunicação descrevem os próprios ensinamentos da Igreja. Para os católicos estes ensinamentos são e entendidos como verdades, enraizadas nas Escrituras e passadas de mão em mão pela tradição apostólica, desenvolvida ao longo do tempo pelo Magistério. Mas demasiadas vezes vemos os jornalistas católicos a descrever estas verdades com recurso a termos políticos. Diz-se que a contracepção é “proibida” pela Igreja, que esta tem uma “política” contra a ordenação das mulheres e “regras” sobre eutanásia. Esta terminologia é inteiramente desadequada e enganadora. As proibições podem ser levantadas. As políticas podem ser alteradas. As regras podem ser mudadas. As verdades não podem.

Freiras da Luz do Karma
Todos estes termos podem ser usados correctamente numa análise política, em que as diferentes facções lutam pelo poder para poderem implementar as suas preferências, vendo-as anuladas e revertidas quando o partido da oposição as expulsar do poder. Usá-los para descrever os ensinamentos da Igreja apenas deixa o leitor com a impressão de que a doutrina e o dogma são alteráveis, sujeitos a guerrilhas de poder e acordos. Imagine-se os cardeais a fazer acordos sobre parágrafos do Catecismo como os deputados fazem acordos sobre projectos de lei.

Dito isto, claro que há elementos de verdade nesta forma de falar sobre a Igreja. Qualquer pessoa que conheça as tricas dos funcionários do Vaticano poderá dizer-lhe que muito do que se passa lá é política. Enquanto a Igreja for povoada por seres humanos – e não por anjos – continuará a haver facções e politiquices.

Mas esta não é a essência da Igreja. Não define o que a Igreja é, o que ensina nem a sua mensagem salvadora. A Igreja é composta por pessoas, mas é uma instituição fundamentalmente divina. É o corpo de Cristo, vivificado pelo Espírito de Deus, trazendo pessoas para o Pai através dos seus ensinamentos, sacramentos e vida diária.

Sem essas fundações, a Igreja ter-se-ia dissolvido há muito tempo. Esta deve ser a visão que guia a Igreja. Mas boa sorte em conseguir que as escolas de jornalismo compreendam, ou ensinem, isso.


Nicholas Senz é Director da Formação de Crianças e de Adults na Igreja Católica de St. Vincent de Paul, em Arlington, Texas, onde vive com a sua mulher e dois filhos. Tem um mestrado em Filosofia e Teologia da Dominican School of Philosophy and Theology em Berkeley, Califórnia.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 22 de Fevereiro de 2018)

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