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segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Os portugueses do extremo-oriente

Cardeal Bo
O novo líder da Federação das Conferências Episcopais da Ásia é um lusodescendente, que vem substituir outro lusodescendente, numa prova vida da importância do legado português naquele continente.

Conheça aqui a história da freira polaca que morreu aos 110 anos e ajudou a salvar judeus durante a II Guerra Mundial.

Faz sentido continuar a haver um bispo das Forças Armadas? O novo foi ordenado ontem, e diz que sim.

É um caso muito peculiar, do início ao fim… Um juiz considerou inconstitucional a lei americana que proíbe a mutilação genética feminina


E na quarta-feira vamos poder ver o Cristo-Rei, os Jerónimos, a Torre dos Clérigos e a Basílica dos Congregados pintados de encarnado. É uma forma de chamar atenção para os cristãos perseguidos no mundo.


quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Faça você mesmo? Nem religião, nem circuncisão!

Mãos no ar se tens prepúcio!
O artigo de hoje sobre a liberdade religiosa na Europa volta-se para a Islândia, o mais recente país a tentar proibir a circuncisão por motivos religiosos. Porque isto das ameaças á liberdade religiosa não afecta apenas os cristãos, e temos de nos unir contra quem simplesmente não percebe a importância da religião.

O Papa Francisco criticou hoje a religiosidade do “faça você mesmo” e, na audiência geral, recebeu o cantor Sting e a sua mulher.

Monchique está a arder e o bispo do Algarve questiona a forma como se tem feito o combate ao incêndio enquanto pede que se minimize a burocracia para ajudar quem perdeu os seus bens.

Ontem escrevi e divulguei um artigo em defesa do bom nome de um amigo. É sempre uma questão difícil. Há quem ache que fiz bem, que estas insinuações e boatos se combatem com a verdade; há quem tema os efeitos de amplificar boatos que provavelmente não chegariam a muitas pessoas não fosse a minha resposta. Admito que é um dilema. Acabei por retirar o artigo e aqui explico porquê.

Sofre ou já sofreu de cancro? Conhece alguém nessa situação? Calculo que sim. Então não deixe de ler este tocante artigo de Brad Miner no The Catholic Thing em que ele explica como a doença o ajudou a mudar a sua concepção de Deus e do Céu.

sexta-feira, 31 de março de 2017

Bispos contra o Governo, de A a V

Judeus na Flandres: "Eles que comam bolo"
Os bispos de Angola publicaram uma nota pastoral em que dizem que o país precisa de um governo que se preocupe com todos e não apenas com uma elite privilegiada.

Na Venezuela os bispos também têm coisas a dizer ao Governo, nomeadamente que o país está a cair na ditadura

Na Bélgica não sei se os bispos falaram, mas espero que o façam, porque a Flandres quer proibir o abate de animais para consumo de acordo com regras religiosas. Por outras palavras, o Governo da Flandres quer que judeus e muçulmanos deixem de poder comer carne produzida localmente.

A fundação Ajuda à Igreja que Sofre fez um estudo e apurou que foram destruídas cerca de 12 mil casas de cristãos pelo Estado Islâmico, só na zona da Planície de Nínive. Mas o Estado Islâmico tem os dias contados na região. Em Mossul estão quase a ser derrotados, mas prometem vender cara a derrota.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Vergonha e humilhação na Austrália

(Clicar para aumentar)
Fim-de-semana em cheio no que diz respeito a notícias de religião…

No sábado foi a surpresa em Roma, com o aparecimento de cartazes críticos do Papa, acusando-o de falta de misericórdia na forma como lidou com várias situações internas da Igrejas.

Domingo começou a circular uma notícia dando como certa a canonização dos pastorinhos. Ao que parece não é assim tão certo, faltam ainda algumas etapas do processo, mas Francisco e Jacinta estão sem dúvida mais próximos dos altares.

Hoje, então, foi a revelação na Austrália de que há alegações de prática de abusos sexuais contra menores relativos a 7% do clero do país desde 1950. São notícias terríveis, vale a pena ler com cuidado e recordar esta entrevista que fiz em 2012, quando o inquérito começou a trabalhar este assunto.

Enquanto meio mundo se preocupa com Trump, poucos dão conta do que se passa nas Filipinas, onde o Presidente se orgulha de estar a massacrar pessoas ligadas ao tráfego de droga. Os bispos, Deus os guarde, não se calam, apesar dos perigos de contrariar Duterte.

Mas por falar em Trump, e embora não tenha nada de especificamente religioso, vejam a série de reportagens que fiz sobre as suas principais medidas desde que foi eleito e os obstáculos que terão de enfrentar.

O Papa Francisco, aparentemente imune aos tais cartazes, voltou a falar contra o aborto e a eutanásia e hoje mesmo o Vaticano reafirmou a sua oposição a tais práticas. A propósito, vêm aí mais 40 dias de oração pela vida. Vejam o cartaz.

Por fim, são já mais de 400 os judeus sefarditas que receberam nacionalidade portuguesa desde que a lei o permite. Veja na notícia de onde é que eles vêm.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Auschwitz recordado em dia de Marcha pela Vida

Cliquem para aumentar
Faz hoje 72 anos da libertação de Auschwitz. O assunto não foi esquecido pelo Papa, que recebeu em audiência líderes de comunidades judias na Europa. Também hoje se soube que na Alemanha, nos últimos tempos, os ataques a judeus duplicaram.

O Papa disse também esta sexta-feira que são as pessoas que vivem “situações miseráveis” que estão mais sujeitas ao fundamentalismo. Disse-o num encontro com representantes da Igrejas Cristãs do Médio Oriente.

Encontra-se em Portugal por estes dias um arcebispo paquistanês que vai deixar o seu testemunho sobre a perseguição por parte de fundamentalistas islâmicos. Saiba aqui onde e quando pode ir ouvir monsenhor Sebastian Shaw.

No final da semana de oração pela Unidade dos Cristãos, católicos e evangélicos assinam uma declaração comum sobre o valor da vida. Ontem sete associações de profissionais católicos assinaram uma declaração conjunta de apoio à petição que pede aos deputados que não aprovem qualquer legalização da eutanásia ou morte assistida.

Por falar em unidade dos cristãos, amanhã há um encontro em Sintra. Cliquem no cartaz para ver os detalhes.

Está neste momento a decorrer em Washington a marcha pela vida. São centenas de milhares de pessoas nas ruas, mas desta vez o alvo das críticas não é Trump, é o aborto.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Judeus (br)excitados com cidadania portuguesa

Sinagoga do Porto
Estou de regresso após mais uns dias de licença, folgas e festas, durante as quais o mundo claramente não parou!

O ano acabou e abriu novamente com um atentado terrorista, desta vez em Istambul, numa discoteca. Na sua reivindicação, o Estado Islâmico disse claramente tratar-se de um ataque a símbolos cristãos, considerando apóstatas os muçulmanos que festejam as datas do calendário cristão.

Isto numa altura em que a Síria goza de uma espécie de cessar-fogo, tornada possível depois da libertação de Alepo pelo regime. Em Alepo festejou-se pela primeira vez em cinco anos o Natal, pelo menos de forma aberta e sem medos.

2016 ficará marcado como o ano do Brexit. Um dos efeitos dessa decisão terá sido um número sem precedentes de judeus sefarditas britânicos a pedir cidadania portuguesa, segundo a Comunidade Israelita do Porto.

Hoje o Papa pediu novamente aos bispos que apostem na tolerância zero em casos de abusos sexuais dentro da Igreja, isto poucos dias depois de um padre português ter sido condenado por abusos sexuais, dado que já foi acrescentado à cronologia de casos de abusos sexuais na Igreja, que tenho no blogue e que data já de 2012.

Deixo-vos ainda a indicação para irem ver os dois artigos do The Catholic Thing que publiquei nas últimas duas semanas, uma sobre o ainda polémico caso de Pio XII e os nazis e outro, totalmente, diferente, sobre como um baptizado de uma menina católica paquistanesa na Tailândia encapsula na perfeição a história do Natal

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

O Papa e Hitler: Notícias Falsas e Mentiras

George J. Marlin
Na sua mensagem de Natal “Urbi et Orbi”, no dia 24 de Dezembro de 1940, o Papa Pio XII condenou a Alemanha Nazi pelo seu “uso ilegal de forças destrutivas contra não-combatentes, fugitivos, idosos e crianças; um desprezo pela dignidade, liberdade e vida humana que dá lugar a actos que clamam a Deus por vingança…”

No dia de Natal, um editorial do New York Times reconheceu que “a ordem moral do Papa, numa palavra, está em total contradição com a de Hitler”.

Um ano mais tarde, o discurso de Natal do Santo Padre para o Colégio de Cardeais denunciou os nazis pela violação dos direitos das minorias. Não podia haver lugar, disse, para “(1) opressão aberta ou subtil das características culturais e linguísticas de minorias nacionais; (2) contradição das suas capacidades económicas; (3) limitação ou abolição da sua fecundidade natural”.

Mais uma vez o editorial do dia de Natal do New York Times não só aplaudiu as afirmações do Papa, mas declarou que “a voz de Pio XII é uma voz solitária no silêncio e na escuridão que envolvem a Europa neste Natal… Ele é dos únicos líderes no continente europeu que ainda se atreve a erguer a voz sequer… Não deixou qualquer dúvida de que os objectivos dos nazis são também irreconciliáveis com a sua própria concepção de uma paz cristã”.

Na sua mensagem de Natal de 1942, afirmou: “A Igreja não seria verdadeira consigo mesma, deixaria de ser mãe, se fosse surda ao choro das crianças sofredoras, de todas as classes da família humana, que lhe chega aos ouvidos”. Exigiu que os opositores dos nazis jurassem solenemente “nunca descansar até que as legiões das almas corajosas de todos os povos e todas as nações se ergam, resolvidas a trazer a sociedade de volta para o seu centro de gravidade amovível na Lei Divina e se dediquem ao serviço da pessoa humana e de uma sociedade humana nobre e divina.” Este juramento, concluiu, devia ser feito em nome das vítimas da guerra, “as centenas de milhares que, sem qualquer culpa, mas apenas por causa da sua nação ou raça, foram condenadas à morte ou à extinção progressiva”.

Mais uma vez a direcção editorial do Times louvou o Papa: “Nenhuma homilia de Natal chega a mais gente que a mensagem que o Papa Pio XII endereça a um mundo devastado pela guerra nesta época. Este Natal, mais do que nunca, ele é uma voz solitária a clamar do silêncio de um continente. O púlpito de onde fala assemelha-se mais do que nunca à rocha sobre a qual a Igreja foi fundada, uma ilha minúscula fustigada e cercada por um mar em guerra”.

O editorial referiu ainda que o Papa não é um líder político, mas um “pregador, destinado a erguer-se acima da batalha, imparcialmente ligado… a todas as pessoas prontas a colaborar numa nova ordem que traga uma paz justa”. E concluiu, “o Papa Pio expressa com tanta paixão como qualquer outro líder do nosso lado os objectivos de guerra desta luta pela liberdade, quando diz que todos os que trabalham para construir um novo mundo devem lutar pela liberdade de escolha de Governo e de religião.”

Aquilo que acaba de ler não são “notícias falsas”. A verdade é que a Igreja foi uma opositora incansável de Hitler. O que é falso é a propaganda anticatólica que chegou primeiro dos soviéticos e mais recentemente de intelectuais.

Se mais provas fossem necessárias, o novo livro de Peter Bartley, “Catholics Confronting Hitler”, que é de muito fácil e agradável leitura, descreve os movimentos de resistência católicos e as operações de salvamento levados a cabo no Vaticano e em toda a Europa ocupada pelos nazis. Muitas vezes este trabalho foi feito em colaboração com judeus e protestantes.

Os católicos pagaram o preço pela sua resistência. Bispos foram exilados ou assassinados, padres e leigos detidos ou executados em campos de morte. Com a bênção do Papa, a hierarquia católica alemã denunciou repetidamente dos púlpitos o programa de eutanásia nazi, bem como o seu neopaganismo e anti-semitismo. Ajudaram e esconderam judeus e, em 1943, os bispos “emitiram uma declaração conjunta a lamentar o despejo e assassinato de judeus”.

Em França os jornais clandestinos escritos por jesuítas e aprovados pelo Papa expuseram os males dos nazis, em particular as teorias raciais, e encorajaram a resistência, inclusivamente contra o Governo fantoche de Vichy. Os núncios papais na Eslováquia, Hungria, Balcãs e países ocupados da Europa ocidental, fiéis às ordens do Papa, protestaram publicamente cada vez que os judeus eram detidos ou arrebanhados para serem deportados. Os seus actos causavam frequentemente atrasos e suspensão de ordens de deportação, permitindo a dezenas de milhares de judeus encontrar refúgio nas casas e edifícios da Igreja.

O futuro Papa São João XXIII era delegado apostólico na Turquia e na Grécia durante a guerra e salvou a vida a incontáveis judeus na Hungria, Eslováquia, Bulgária e Roménia. Salvou pelo menos 50 mil judeus, emitindo certificados de baptismo.

Para além destes esforços clandestinos, a Pontifícia Comissão de Assistência, criada pelo Papa Pio XII, distribuía comida, artigos médicos e roupa a centenas de milhares de pessoas desalojadas. O Gabinete de Informação do Vaticano, segundo Bartley, “permitiu a dois milhões de pessoas manterem-se em contacto com entes queridos, pessoas que se julgavam desaparecidas, presos de guerra e pessoas em campos de concentração”. Países amigos “tinham de exceder as suas quotas de refugiados judeus quando estes chegavam às suas fronteiras munidos de documentos assinados por oficiais do Vaticano”.

Estas respostas à opressão nazi levaram Albert Einstein a reconhecer que “só a Igreja Católica se opôs ao ataque hitleriano contra a liberdade”.

E em Setembro de 2008, numa conferência internacional, académicos judeus e rabinos disseram ao Papa Bento XVI que o Papa Pio XII tinha ajudado a salvar perto de um milhão de vidas judaicas.

Então porque é que persiste este mito sobre o “silêncio” da Igreja? Pela mesma razão que outros mitos anticatólicos se alojaram na nossa cultura. Neste caso não se trata apenas de “notícias falsas”. Porque quando os esforços heroicos de salvamento da Igreja são ignorados ou até mesmo transformados no seu contrário, estamos perante mentiras claras, motivadas pelo Pai da Mentira.  



George J. Marlin é editor de “The Quotable Fulton Sheen” e autor de “The American Catholic Voter”. O seu mais recente livro chama-se “Narcissist Nation: Reflections of a Blue-State Conservative”.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quinta-feira, 15 de Dezembro de 2016)

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org


The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

“O Papa vs. Hitler”: Uma Recensão e um Pedido

Brad Miner
O que é que Pio XII sabia sobre o regime nazi na Alemanha, e será que fez o suficiente para o combater? Terá feito o suficiente para salvar os judeus de serem massacrados pelos nazis, tanto em Roma e no resto da Europa? Estas e outras questões continuam em aberto, mas podem ser esclarecidas se o Papa Francisco quiser.

O Canal National Geographic (NatGeoTV, para os amigos) está a transmitir um novo “ecodrama” chamado “O Papa vs. Hitler”, sobre o braço de ferro entre Pio XII e Adolfo Hitler. O filme recorre a uma dúzia de bons historiadores, o principal dos quais é Mark Riebling, autor de “Church of Spies”. Outros peritos consultados incluem o padre George W. Rutler, Eric Metaxas e Nigel Jones. Poderia nomeá-los a todos, mas mais vale avançar com a recensão.

Respondendo à primeira questão apresentada em cima: O Papa sabia muito. “O Papa vs. Hitler” demonstra que Pio XII se esforçou por boicotar o regime nazi logo desde o início. E mesmo antes disso, uma vez que, enquanto Secretário de Estado do Vaticano, foi ele o principal autor de “Mit brennender Sorge” (Com Ardente Preocupação 1937), a única das encíclicas de Pio XI que não foi originalmente publicada em Latim. Trata-se de uma forte condenação dos ataques dos nazis à Igreja e aos judeus alemães convertidos ao Catolicismo. Mas não diz nada sobre a desapropriação, deportação e detenção de judeus por parte do regime. (O primeiro dos campos de morte começou a operar em 1939).

Houve uma primeira tentativa de assassinato de Hitler, levada a cabo por membros da Abwehr, a divisão de informação do exército alemão. O Papa Pio XII deu-lhe o seu apoio. Mas o plano acabou por não ser bem-sucedido e depois disso as acções do Papa a este respeito tornaram-se mais circunspectas. Na verdade, todas as nobres conspirações contra Hitler falharam.

Nas palavras de Nigel Jones: “É quase como se o Diabo estivesse do seu lado”.

Pois… Sim.

Antes, durante e depois da guerra, o Papa Pacelli foi avisado de que quaisquer intervenções mais fortes da sua parte levariam a um aumento das já pesadas restrições contra a Igreja e os católicos nos países ocupados pelos alemães.

Este estilo de programa, claro, mistura imagens de arquivo, especialistas e encenações de eventos históricos. E nesse sentido é um exemplo bem conseguido. A meu ver, é também uma avaliação globalmente positiva de Pio XII. Mas não totalmente. O rabino Shmuley Boteach diz que entre os historiadores existe um “consenso” de que a Shoah (o holocausto) “não poderia ter tido a magnitude” que teve se o Papa tivesse condenado mais firmemente a solução final nazi. O historiador britânico Geoffrey Robertson concorda: “A condenação do Papa teria tido repercussões em todo o mundo”.

Não duvido que isso seja verdade, mas uma visita ao Museu Americano do Holocausto em Washington D.C., mostra que os relatos sobre os crimes dos nazis eram frequentemente ignorados ou desvalorizados, tanto pelo New York Times como pela Administração Roosevelt. 

Uma boa parte de “O Papa vs. Hitler” lida com as conspirações falhadas contra o Führer, o que é interessante do ponto de vista histórico, embora bastante conhecido, sobretudo no que diz respeito à tentativa mais famosa, com nome de código Valquíria, levada a cabo pelo coronel Claus von Stauffenberg no dia 20 de Julho de 1944. Quase que foi bem-sucedida. Stauffenberg devia ser um católico devoto (os historiadores divergem neste ponto), mas neste caso não recebeu qualquer apoio ou encorajamento do Vaticano. Então porque é que aparece no filme?

Talvez porque na véspera de colocar a mala-bomba perto de Hitler, Stauffenberg foi-se confessar e, segundo Riebling, pediu e recebeu a “Absolvição de São Leão”. É a primeira vez que ouço falar de tal coisa: perdão dos pecados antes de uma batalha, dada por vezes a soldados.

Resumindo, parece claro que Pio XII não era “o Papa de Hitler”, como tem sido apelidado por alguns.

Mas isso leva-nos à segunda questão: Será que o Papa fez o suficiente para livrar os judeus do genocídio? O rabino Boteach reconhece que o Papa escondeu judeus sempre que possível – em mosteiros e em catacumbas – mas quando centenas de judeus de Roma foram detidos e colocados em comboios para seguir para os campos de morte (de entre os quais apenas uma mão cheia sobreviveu), o Papa não reagiu. Se o Papa tivesse ido à estação e dito aos soldados alemães – entre os quais certamente havia alguns católicos – que estavam a colaborar com um pecado mortal, quais teriam sido as consequências?

Bom, esse é o problema, não é? Na história as coisas ou se fizeram ou não se fizeram e apenas podemos julgar o que aconteceu, não o que poderá ter acontecido.

E isso leva-me ao pedido: Papa Francisco, revele por favor o material de arquivo do pontificado do seu venerável antecessor Eugenio Pacelli relativo aos anos da guerra.

Passei vários anos a fazer investigação para um livro (sobre o qual escreverei mais tarde) nos arquivos da Diocese de Nova Iorque e compreendo porque é que o material de arquivo deve ser selado durante um certo período. O fundador do WikiLeaks, Julian Assange, não concorda, porque tem uma visão absolutista de que a verdade nunca deve ser escondida. Isso é um disparate, e não apenas no que diz respeito a dados secretos.

Tanto eu como o meu co-autor (o Sr. Marlin) não pudemos ver vários ficheiros sobre o Cardeal John O’Connor, que morreu no ano 2000. Isso pode dever-se ao facto de haver, nesses documentos, afirmações sobre pessoas que ainda estão vivas e que são difamatórias, ou que não são verdade, ou ambos. A regra é esperar 25 anos. Tanto quanto sei, o Vaticano espera 75.

Isso implica reter os arquivos de Pio XII, que morreu em 1958, até 2033. Mas porque não libertar alguns documentos agora? Pelo menos até 1940, com os restantes anos da guerra a serem tornados públicos até 2020? Ajudaria certamente a responder a várias questões e isso é algo que a Igreja deveria querer fazer o mais rapidamente possível.


(Publicado pela primeira vez na sexta-feira, 9 de Setembro de 2016 em The Catholic Thing)

Brad Miner é editor chefe de The Catholic Thing, investigador sénior da Faith & Reason Institute e faz parte da administração da Ajuda à Igreja que Sofre, nos Estados Unidos. É autor de seis livros e antigo editor literário do National Review.

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Judeus que votam na extrema direita e Mourinho papabile

Nem todos se surpreenderam com a notícia do Mourinho
Tenho de começar este mail com um pedido de desculpas e uma rectificação. Por um qualquer lapso que certamente Freud saberia explicar, no mail de ontem escrevi “muçulmanos” em vez de “luteranos” na notícia sobre a comemoração conjunta dos 500 anos da reforma. Felizmente houve pessoas atentes que se aperceberam do erro… Mas peço desculpa a todos pelo bizarro erro.

Ao que parece há judeus que votam nos partidos de extrema-direita em vários países europeus, seduzidos pelo discurso anti-islâmico. Quem o diz é o presidente da Conferência Europeia de Rabinos.


A notícia bizarra do dia é de que José Mourinho vai ser a voz do Papa Francisco num filme de animação sobre Fátima.

A Renascença apresenta-lhe a pré-publicação do excelente livro de Lucien Israel sobre a eutanásia. Não percam!


E finalmente, estarei na Feira do Livro, no próximo domingo, às 16h na banca da Aletheia para autografar exemplares do meu livro “Que Fazes Aqui Fechada”, de entrevistas a freiras e monjas. Apareçam, nem que seja para dizer olá (mas de preferência para comprar o livro…)

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Sobre a questão da conversão dos judeus

Edith Stein
No passado Domingo o Papa Francisco esteve na Sinagoga de Roma, onde discursou. A dada altura disse o seguinte: “Os cristãos, para se compreenderem a si mesmos, não podem deixar de referir as suas raízes judaicas, e a Igreja, apesar de professar a salvação através da fé em Cristo, reconhece a irrevogabilidade da Antiga Aliança e o amor constante e fiel de Deus por Israel”.

Esta foi sem dúvida a passagem mais importante do seu discurso e nela o Papa refere-se a uma discussão teológica interna ao Cristianismo que passa por saber se os cristãos deviam pregar o Evangelho aos judeus. A teoria que parece estar a ganhar terreno na Igreja Católica é que os cristãos não devem procurar evangelizar os judeus de forma especial, uma vez que a Antiga Aliança ainda é válida – uma vez que as promessas de Deus são irrevogáveis, segundo a carta de São Paulo aos Romanos.

O meu bom amigo Tiago Cavaco, pastor evangélico, leu o discurso e não gostou. Porque o Tiago é boa pessoa e intelectualmente honesto, o seu texto não é um ataque cerrado – que seria fácil mas pouco produtivo de fazer – mas antes uma série de interrogações que, a meu ver, se podem resumir numa só. “Se os judeus não precisam de Jesus, o que é que Jesus veio cá fazer?”

Este meu texto, agora, não é uma defesa da posição da Igreja Católica ou do Papa. Antes, tenciono aqui deixar algumas pistas para ajudar à discussão, porque me parece que esta é uma discussão que importa ter e que não está de forma alguma resolvida.

Sendo assim:

1. Isto não é (assim tão) novo
O discurso do Papa trouxe o assunto mais para a ordem do dia, mas a primeira vez que eu dei por isto foi há mais de uma década. Na altura foi num documento da conferência episcopal americana. Eu li e a dada altura levantei o assunto com um professor do meu mestrado, na altura padre e agora bispo, que disse que achava isso tudo muito estranho. Mostrei-lhe o documento. Ele leu e, basicamente, descartou, dizendo que podia ser um documento de reflexão teológica da Igreja americana, mas a posição da Igreja Universal não era essa.

Mais recentemente a comissão do Vaticano para o diálogo religioso com os judeus publicou um novo documento a dizer basicamente a mesma coisa. “Que os judeus são participantes da salvação de Deus é teologicamente inquestionável, mas como isso é possível sem confessar Cristo explicitamente, é e permanece um mistério divino insondável”.

Antes de mais, para muita gente isto pode não ser claro, sobretudo para protestantes que não têm obrigação nenhuma de saber como é que as coisas funcionam no Vaticano, mas nem um documento da comissão para o diálogo, nem um discurso do Papa numa sinagoga vinculam a Igreja Universal a uma posição. Não me parece correcto, simplesmente por uma questão de rigor, dizer que a posição da Igreja Católica agora é esta ou aquela. Penso, aliás, que isto é claramente um “work in progress”. Todavia, o facto de o Papa ter endossado a ideia num discurso público não é, obviamente, irrelevante. O que quero deixar claro é que dentro da Igreja a ideia não é de modo algum unânime.

Cardeal Lustiger
Contudo, esta também não foi, ao contrário do que eu pensava quando li o discurso, a primeira vez que um Papa subscreve publicamente esta ideia. Rapidamente no twitter recebi referências de outras instâncias. Nomeadamente no Evangelii Gaudium, nº 247: “Um olhar muito especial é dirigido ao povo judeu, cuja Aliança com Deus nunca foi revogada, porque ‘os dons e o chamamento de Deus são irrevogáveis’”.

Mas o EG é um texto do Papa Francisco, portanto quem acha, como o Tiago, que este é o pior Papa das últimas décadas (e não são só protestantes que o acham), dificilmente se deixará tocar por isto. Mas a maioria dos grandes críticos de Francisco nutrem, ao mesmo tempo, uma enorme admiração por Bento XVI. Sei que é o caso do Tiago e sei que todos concordarão que BXVI não é o tipo de teólogo de se deixar levar por sentimentalismos.

Vejamos então o que ele escreveu nos seus livros sobre Jesus de Nazaré:

“A este respeito, no horizonte de fundo, aparece sempre também a questão sobre a missão de Israel. (…) uma nova reflexão permite reconhecer que é possível, em todas as obscuridades, encontrar pontos de partida para uma justa compreensão.

Quero referir aqui o que, relativamente a este ponto, aconselhou Bernardo de Claraval ao seu discípulo, o Papa Eugénio III. Recorda ao Papa que não lhe foi confiado o cuidado apenas dos cristãos. “Tu tens um dever também para com os infiéis, os judeus, os gregos e os pagãos”. Mas corrige-se logo a seguir, especificando: “Admito, relativamente aos judeus, que tens a desculpa do tempo; para eles foi estabelecido um determinado momento, que não se pode antecipar. Primeiro devem entrar os pagãos na sua totalidade. (…)

Hildegard Brem comenta assim este trecho de Bernardo: “Na sequência de Romanos 11,25, a Igreja não se deve preocupar com a conversão dos judeus, porque é preciso esperar o momento estabelecido por Deus, ou seja, “até que a totalidade dos gentios tenha entrado”. Ao contrário, os próprios judeus constituem uma pregação vivente, para a qual deve apontar a Igreja, porque nos trazem à mente a paixão de Cristo”.
Jesus de Nazaré – Da entrada em Jerusalém até à Ressurreição - Capítulo II, ponto 2

Este artigo contém uma interessante análise e comentários a este ponto.

2. O “efeito holocausto”
Embora seja relativamente fácil dizer que estas teorias são apenas o resultado de um complexo de culpa que sentimos em relação ao holocausto, por este só ter sido possível graças ao facto de haver um terreno fértil para o anti-semitismo, para o qual contribuíram mais de mil anos de Cristianismo europeu – o que não é obviamente o mesmo que dizer que o Cristianismo foi responsável pelo holocausto, atenção – penso que não é assim tão simples. Poderá ser um factor, mas não explica tudo. O já citado São Bernardo de Claraval não sofria certamente de complexos do holocausto.

Mas penso que o holocausto pode ter despertado entre os teólogos uma dúvida. Como é que uma ideia aparentemente tão benévola, de querer levar aos judeus o conhecimento do Messias que tanto dizem esperar, pode ter tido consequências tão trágicas ao longo de tantos séculos? É que não foi uma vez nem duas, foram centenas. Só para dar um exemplo, já que este texto pretende ser um diálogo com um pastor que se identifica com a tradição luterana, vemos o que aconteceu quando Lutero viu frustradas as suas tentativas de converter os judeus. Em 1543 escreveu o panfleto “Sobre os judeus e as suas mentiras” em que recomenda a destruição de casas e sinagogas de judeus, a proibição dos seus livros sagrados e dos rabinos ensinarem, etc. etc. Tragicamente, existem demasiados exemplos no lado católico também.

Repito que este meu texto não tem por objectivo defender a teoria de que não precisamos de pregar aos judeus, apenas de levantar mais algumas questões e apontar para fontes que podem contribuir para o aprofundamento. E é nesse sentido que pergunto se não é natural que alguém pense que esta estratégia de tentar converter os judeus fez mais mal do que bem ao longo dos milénios e se isso não será sinal de que o caminho não é esse, sobretudo tendo em conta o suporte neo-testamentário já citado.

Pe. David Neuhaus
3. Vozes ausentes
No meio de tudo isto, confesso que há vozes que ainda não ouvi mas que penso que são fundamentais para este debate. Refiro-me a católicos que tenham nascido judeus. O Cardeal Lustiger, de Paris, que morreu em 2007, sempre se afirmou judeu e embora não tenha ideia de ele ter abordado esta questão especificamente, pelo que ele dizia, nomeadamente ao intitular-se um “fulfilled Jew” (falta-me agora um termo adequado em português), leva-me a crer que discordaria da ideia de não se pregar aos judeus, embora esteja apenas a especular.

O padre David Neuhaus, que é vigário-geral para os católicos de língua hebraica, na Terra Santa, seria uma voz a ouvir também, mas tanto quanto vejo na net, ainda não se pronunciou sobre isto em particular. Se alguém tiver dados em contrário, que me avise.

Também não conheço suficientemente a obra de Edith Stein sobre esta questão, mas imagino que possa ter algo a dizer.

Este é um assunto complexo e que merece certamente muita reflexão e debate. Penso que todos, cristãos católicos ou reformados, ou mesmo judeus, temos a ganhar em fazê-lo e agradeço por isso o texto do Tiago que me levou a escrever este. 

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Deus de Kalashnikov e a beleza como coração da Fé

Charlie Hebdo a fazer o que o que faz melhor
O Charlie Hebdo decidiu comemorar o aniversário do ataque à sua redacção, por parte de muçulmanos radicais, com uma representação claramente cristã de Deus, com uma Kalashnikov, a dizer que o assassino ainda está à solta.O jornal do Vaticano acha que é de mau gosto. Eu também. Eles devem-se estar a marimbar…


O Papa Francisco celebrou hoje a Epifania, dizendo que os reis magos nos ensinam a ajoelhar diante da pobreza e da humildade.

E foi hoje lançado o primeiro vídeo mensal em que o Papa fala da intenção do Apostolado da Oração para este mês. No caso, trata-se do diálogo inter-religioso.

Hoje publica-se mais um artigo do The Catholic Thing em português, no qual o padre James V. Schall recorre ao compositor James MacMillan para enfatizar que a beleza é o coração da fé cristã.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Novos mártires do Egipto, rogai por nós

"Se os mártires de todo o mundo fossem colocados
num prato da balança, e os mártires do Egipto no outro,
a balança pendia para o lado do Egipto"
São Tertuliano, Séc. III
Foi com enorme tristeza que soubemos ontem da morte de pelo menos 21 cristãos coptas à mão dos terroristas do Estado Islâmico.

Estes cristãos estavam desaparecidos há várias semanas e já se sabia serem reféns do grupo islamita. O seu rapto seguiu-se ao assassinato, também na Líbia, de outros sete cristãos coptas.

O Papa condenou, hoje falou com o Patriarca dos Coptas e já disse que vai celebrar missa amanhã por estes novos mártires. Leiam também esta declaração do bispo copta no Reino Unido, para verem o que é uma resposta verdadeiramente cristã perante uma tragédia desta dimensão.

Portugal também já condenou este atentado. É um gesto bonito, que fica bem ao MNE, mas teria sido assim tão complicado referir que os homens que foram mortos eram cristãos? Eles não foram assassinados por serem “cidadãos egípcios”, embora o fossem, claro. Foram assassinados por serem cristãos. Os próprios assassinos disseram-no.

Para quem não está a par, aqui está um curto artigo que explica, muito rapidamente, quem são os coptas. Foi escrito há uns anos, mas no essencial mantém-se actual.

O Egipto já respondeu. Utilizou as suas forças armadas para atacar o Estado Islâmico na Líbia. Não deixa de ser irónico que sejam as mesmas forças armadas que há poucos anos massacraram pelo menos 23 cristãos… Mas pode ser que esta tragédia sirva para unir o povo egípcio, que bem precisa.

Claro que tudo isto se seguiu a mais um ataque ao estilo “Charlie Hebdo”, na Dinamarca, no sábado. Um homem foi morto quando participava num debate sobre a liberdade de imprensa e mais tarde um judeu foi assassinado pelo mesmo terrorista à porta de uma sinagoga.

                                                      
São notícias tristes que ensombram aquela que teria sido a principal novidade do fim-de-semana, da elevação de D. Manuel Clemente ao cardinalato.

O agora Cardeal Patriarca (e não Cardeal-Patriarca) não perdeu tempo a enviar uma mensagem para os católicos do seu patriarcado, e elogiou o Papa Francisco. A Aura Miguel esteve em Roma a cobrir o evento e fez várias reportagens, mas destaco esta, com um novo Cardeal que não tem Cartão de Cidadão, mas tem coração português.

Termino este mail, que já vai longo, com um aviso. Recomeça esta quarta-feira o projecto “40 Dias Pela Vida”, que pretende reunir pessoas para rezar, durante 40 dias seguidos, pelas vítimas do aborto: bebés, mães, pais, famílias… Todos são convidados a participar, independentemente de credo ou confissão, mas pede-se que se inscrevam através do site, para que a organização saiba com quem contar.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Papa em Sarajevo e Conferência de Hadjadj

Sarajevo aguarda visita do Papa Francisco em Junho
O Papa Francisco vai visitar Sarajevo em Junho. O anúncio foi feito ontem, durante o Angelus. Não deixa de ser muito interessante que com esta visita, três das quatro visitas europeias de Francisco fora de Itália sejam a países de maioria muçulmana!

Decorrem no Porto as Jornadas de Teologia da Universidade Católica, desta vez dedicadas a questões económicas.

Os últimos números mostram que por cada dois padres que morrem em Portugal, apenas um é ordenado. Passa-se uma situação parecida com as religiosas. Saiba mais aqui.

A lei que concede nacionalidade portuguesa a judeus sefarditas deu mais um passo em frente. Este é um momento histórico, dizem alguns judeus.

O director do Gabinete de Imprensa do Opus Dei em Portugal, Pedro Gil, considera que a Igreja precisa de mais mulheres a trabalhar na comunicação.


E as autoridades do Vaticano detectaram dois casos de posse de pornografia infantil dentro da Santa Sé em 2014. Houve também casos de tentativa de fazer entrar droga por via do correio. Saiba mais aqui.

A semana passada elogiei muito a conferência de Fabrice Hadjadj, no Congresso dos Leigos, que teve lugar no Porto no outro fim-de-semana. Agora podem ler o texto aqui. Não deixem de o fazer.

quarta-feira, 12 de março de 2014

Punks casados e com filhos e judeus zangados com a tropa

A alegre fúria dos ultra-ortodoxos
Ontem estive de serviço a cobrir a conferência com que a Renascença, Ecclesia e UCP assinalaram o aniversário da eleição do Papa Francisco.

Foram três painéis interessantíssimos, começando com uma intervenção de Adriano Moreira, que contextualizou a acção do Papa e identificou a sua “pesada herança de fazer prevalecer o poder da palavra contra a palavra dos poderes”.

Depois houve intervenções de Bruto da Costa, Margarida Neto e Manuel Fúria, que considerou que ser punk, hoje em dia, é casar e ter filhos. Vale a pena ler!

Por fim a análise de Aura Miguel, Octávio Carmo, Pedro Mexia e Henrique Monteiro sobre o fenómeno da popularidade de Francisco, muito interessante.

Fiquem atentos que amanhã haverá ainda muitos outros trabalhos a publicar na Renascença.

De hoje duas notícias: o facto de Israel ter abolido a isenção do serviço militar obrigatório para os ultra-ortodoxos e um alerta para a “Semana Inaciana” no Colégio das Caldinhas, em Santo Tirso.

Quarta-feira é dia de artigo do The Catholic Thing, hoje dedicado à pornografia, um dos flagelos dos nossos tempos.

quinta-feira, 6 de março de 2014

"Lutas com o Senhor pelo teu povo?"

Bem-vindos no Reino Unido. Já os judeus...

D. Ilídio Leandro quere que os viseenses se dediquem ao sínodo diocesano de Viseu durante esta Quaresma e explica que o dinheiro angariado pelas renúncias quaresmais irá para este sínodo mas também, maioritariamente, para uma paróquia moçambicana.

Aproveite para saber quem está a ajudar com a sua renúncia quaresmal, a lista foi actualizada desde a última vez que a divulguei.



Não deixem de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing, no qual Robert Royal analisa as propostas do Cardeal Kasper para divorciados e recasados.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Quem Queres Ser?

Randall Smith
Estávamos a discutir o extraordinário livro de Christopher Browning “Ordinary Men: Reserve Police Battalion 101 and the Final Solution in Poland”, no qual descreve as circunstâncias à volta do massacre de quase 2000 mulheres e crianças judaicas no dia 13 de Julho de 1942, na pequena aldeia de Józefów, na Polónia.

Em lágrimas, o comandante do batalhão, Major Wilhelm Trapp, explicou aos seus homens a “tarefa desagradável” que lhes tinha sido confiada. Cada mulher e criança da aldeia seria levada para a floresta e forçada a deitar-se de barriga para baixo na terra. Colocando as baionetas entre as omoplatas, os soldados deviam dar-lhes um tiro na nuca. Adolescentes, avós, crianças com seis meses: todos deviam ser mortos até à aldeia estar vazia.

Terminada a explicação da tarefa, Trapp fez uma oferta extraordinária: se algum dos homens de entre eles não tivesse vontade de participar, podia retirar-se. Dos cerca de 500 homens no batalhão, apenas 12 o fizeram.

Todos os semestres discuto com os meus alunos porque é que tão poucos aceitaram a proposta, recusando-se a tomar parte na matança. Há uma série de razões, cada um dos quais está detalhado no excelente livro do Prof. Browning. Alguns dos homens que participaram no massacre afirmam que não tiveram tempo para pensar devidamente no assunto; outros dizem que “os tempos e o lugar eram outros” e que “naquela altura as circunstâncias eram diferentes”. Outros ainda disseram que não queriam “parecer fracos” diante dos outros, como se matar mulheres e crianças inocentes fosse algo que os fizesse parecer fortes.

A maioria das razões dadas por estes homens para não se terem recusado a tomar parte no massacre parecem-me, basicamente, treta, excepto uma: alguns dos homens disseram que tinham medo do que lhes poderia acontecer caso recusassem as ordens: “E se alguém nos apontar uma arma à cabeça e disser que nos mata se não matarmos os prisioneiros? Com a arma encostada à cabeça, sob pena de ser executado, temos culpa se matarmos o preso? Temos o dever de preservar a nossa vida, não? Se sim, seria ‘imoral’ matar o preso para preservar a nossa própria vida?”

Com estas perguntas os meus alunos revelam ser jovens adultos intelectualmente desenvolvidos. Porém, isto revela também alguns dos perigos para as suas vidas morais que derivam de lhes ensinar a ética da forma como costuma ser ensinada. Um professor meu referiu, certa vez, que os livros que são mais frequentemente roubados de bibliotecas são de ética, o que comprova algo de que ele sempre tinha suspeitado: que os cursos de ética não costumam tornar as pessoas melhores e mais virtuosas, pelo contrário, tendem a torná-las piores. Um bocadinho de conhecimento pode ser uma coisa muito perigosa.


Não quero ser mal-entendido. Não estou a criticar todos os cursos de ética ou de teologia moral. Seria estranho, uma vez que lecciono um desses cursos todos os semestres. Não, o que me preocupa é a forma como a ética costuma ser ensinada. Há uma série de assuntos importantes envolvidos em todos os dilemas morais que os meus alunos propuseram.

Cemitério judaico de Józefów
Na teologia moral clássica há distinções muito bem definidas entre níveis de culpabilidade, dependendo no grau de voluntariedade ou involuntariedade do acto. Determinar correctamente a culpabilidade de um agente é crucial, por exemplo, num tribunal por parte de um juiz ou de um júri.

Nas gerações anteriores essa consideração desempenhava um papel importante no confessionário. Se me obrigarem a fazer algo contra a minha vontade, cometi um pecado? Talvez até um pecado mortal? Se for escravo num galeão muçulmano, por exemplo, (para citar um famoso caso histórico), devo recusar-me a remar para os meus supervisores muçulmanos se isso implicar a minha execução? Nestas circunstâncias o que é que constitui cooperação “formal” com o mal, que em certos casos é permissível? Todas estas questões são interessantes e importantes, em certos contextos e por razões particulares.

Mas neste caso eu prefiro colocar a pergunta aos meus alunos do seguinte modo: Tu és o homem ou a mulher que tem uma arma apontada à cabeça da mulher ou criança judia. Temes que, se não disparares, serás executado. O que é que esperas que seria a tua decisão? Por enquanto não me interessa saber o que pensas que seria a solução “moralmente correcta”. Nem quero avaliar a culpabilidade de outra pessoa envolvida na situação. O que quero saber, muito concretamente, é o que é que esperas que seria a tua decisão? Que tipo de pessoa queres ser? As nossas decisões formam-nos.

Invariavelmente os meus alunos respondem: Espero que seria a pessoa com a coragem para não disparar, mesmo que isso me custasse a vida. E aí têm a resposta.

Podemos falar de “moral” e de “ética” como se fossem uma série de regras abstractas que nada tivessem a ver com o nosso carácter ou com a nossa formação enquanto pessoas completas e íntegras. Quando compreendemos a ética desta forma errada damos por nós a dizer parvoíces como: “Eu sei que não é moralmente correcto, mas ainda assim acho que é a decisão certa”, ou: “Pode não ser a decisão mais moral, mas é a melhor decisão” – como se o acto “moral” estivesse numa categoria totalmente diferente do que é “bom”.

São Tomás de Aquino pedir-nos-ia para considerar que categoria de virtude é relevante nesta situação. No caso referido, a virtude relevante é a coragem. Então perguntamos o que faria uma pessoa corajosa. E ao escolher correctamente, tornamo-nos aquilo que escolhemos.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez na Quinta-feira, 17 de Outubro 2013 em The Catholic Thing)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Oscar Romero nos altares?


Os “judeus da nação portuguesa” comem bacalhau, têm apelidos portugueses e guardam boas memórias, apesar de tudo. Leia aqui a transcrição completa da entrevista com o Luciano Lopes, vale a pena!

O Papa poderá ter aberto o caminho à beatificação de Oscar Romero, a notícia não é ainda oficial mas está a ser atribuída a fontes do Vaticano.

À medida que se vai conhecendo melhor a história dos irmãos chechenos que levaram a cabo os atentados em Boston vai ganhando consistência a ideia de que terão sido motivados por radicalismo islâmico. O mais velho, Tamarlan, tinha sido considerado demasiado radical para a sua mesquita em Boston.

Ontem foi o Domingo do Bom Pastor, dia escolhido pela Igreja para rezar pelas vocações. O Papa aproveitou para celebrar ordenações em Roma. O Patriarca de Lisboa participou num evento para jovens e falou sobre o sentido de missão da Igreja. Outro participante foi Marcelo Rebelo de Sousa.

Os "judeus da nação portuguesa"

Rabino Lopes, à direita
Transcrição completa da entrevista com o Rabino Luciano Mordekhai Lopes, da comunidade sefardita de origem portuguesa. A notícia pode ser vista aqui.

Quem são os sefarditas?
Os judeus sefarditas, historicamente, são os de origem ibérica. Embora hoje em dia, depois da criação do Estado de Israel sejam considerados todos os judeus que não de origem europeia, isto é, que não sejam alemães, franceses e posteriormente os de origem eslava, chamados Ashkenazis.

Os judeus ibéricos seriam sefarditas. Mas hoje em dia mesmo os judeus do
Iémen, ou Iraque, são chamados Mizrahim, orientais, e outros chamam sefarditas simplesmente para distinguir entre dois grupos, como se houvesse apenas dois grupos de judeus, mas não, há muitos grupos de muitos locais.

Portanto os judeus sefarditas são os de origem ibérica, mesmo que tenham emigrado como aconteceu depois de 1492 em Espanha, em que muitos foram para o Império Otomano, ou para a África do Norte. Alguns chegaram mesmo até à índia, mas esses eram de origem portuguesa. Portanto no sentido mais estrito são exclusivamente os de origem ibérica ou os que não sendo, foram criadas no seio dessa cultura.

Entre os que têm ligação histórica a Portugal, existe também uma ligação sentimental?
Isso é muito importante. Os judeus ibéricos são muito arreigados a essa questão da idade de ouro, que abarca Portugal, que na altura do domínio muçulmano fazia parte do Al-Andaluz.

Até hoje entre os judeus portugueses na Holanda, apesar de não falarem português e de 90% da comunidade ter sido exterminada durante a Segunda Guerra, mantêm palavras em português no ritual. Quando se chama alguém para ir ler o Livro da Lei a pessoa é chamada em português. Outra coisa é o apelido, raramente as pessoas mudam o apelido. É o caso da minha família que saiu de Portugal no século XVII e mantiveram o apelido em Itália até emigrarem de Itália para o Brasil.

Mantêm alguns pratos típicos. No ano novo é tradicional comer-se bacalhau. A questão cultural é muito arreigada e os judeus portugueses sempre se referem a si mesmos como judeus da nação portuguesa. Sempre foi deixado claro, as pessoas que conseguiram sair de Portugal sempre mantiveram laços com os familiares em Portugal, fosse por razões mercantilistas ou por casamento.

No meu caso sempre que posso vou a Portugal. Quando vivia em França, todas as férias que tinha ia a Portugal, só não conheço o Algarve.

A ligação é muito forte, o próprio rito usado é o luso-castelhano mas é o rito tipicamente português. A maneira de pronunciar o hebraico, o serviço na Sinagoga, é um serviço que tem origens em Portugal e a musicalidade do serviço é típica dos judeus portugueses. Embora os sefarditas sejam um só grupo, os hispano-portugueses, histórica e culturalmente diferem dos espanhóis que emigraram para o império otomano ou para Marrocos.

E como é que recebeu esta notícia da aprovação da lei que permite conceder nacionalidade portuguesa aos judeus sefarditas com ligação a Portugal?
Com muita felicidade, porque na verdade isto começou a nível pessoal há 13 anos. Eu já tinha vindo a consultar com cônsules e serviços portugueses no exterior. Tentei com o cônsul português em Vancouver, no Canadá, escrevi algumas vezes ao Governo, e as respostas não eram de má vontade, mas simplesmente as pessoas não sabiam o que responder.

Rabino Luciano, em Jerusalém
Há cerca de dois anos mantive contacto com o deputado José Ribeiro e Castro, do CDS, e na mesma época com o professor Mendo Castro Henriques, que me apresentou ao Francisco Cunha Rego, do Instituto de Democracia Portuguesa. O deputado Carlos Zorrinho, a Maria de Belém e o advogado Bruno Cabecinha também estiveram muito envolvidos. O deputado Ribeiro e Castro lançou umas perguntas parlamentares nesse sentido e recebeu umas respostas que nos permitiram analisar o que fazer.

Com o apoio destes amigos estivemos dois anos a trabalhar nisto, a enviar informações e explicações, porque as pessoas precisavam de saber quem são os judeus portugueses, onde vivem, se são muitos, se são poucos, todas estas informações foram trocadas ao longo de dois anos.

Ficámos ansiosos quando soubemos que a lei ia ser votada agora, esperava que só fosse depois das autárquicas, por causa do contexto dos problemas que Portugal está a passar agora. Acordámos bastante cedo e ficámos a acompanhar as votações no Canal Parlamento. Assim que saiu a notícia comemorámos muito. A minha esposa chorou bastante. É uma luta, embora não esteja 100% terminada, espera-se que tudo acabe bem. Foi uma notícia grandemente recebida, o meu primo em Israel ficou muito feliz e outros judeus sefarditas também.

Há cerca de dois anos tinha sido apresentado um projecto na Câmara de Lisboa mas as reacções não foram muito positivas.

Estamos a falar de quantas pessoas? Será uma medida mais simbólica? Quantas pessoas poderão vir a pedir a nacionalidade?
A comunidade sefardita de origem portuguesa é relativamente pequena dentro da comunidade sefardita em geral. Muitos poderiam interessar-se pelo ponto de vista simbólico e nostálgico. Eu mesmo sempre tive a intenção de viver em Portugal, mesmo quando vivia em França, há sete anos, sempre visitei o país, tenho inúmeros amigos lá e gostava que as minhas filhas crescessem lá, porque considero uma sociedade muito sadia. Quando a minha família saiu foi para Itália, mas sempre tive muito mais carinho por Portugal.

Estimo que pelo menos, de início, talvez umas 50 pessoas, das que eu conheço pessoalmente, estarão interessadas. Há outros que eu não conheço e que poderão querer aproveitar-se disto, nem que seja de maneira simbólica.

Com esta medida Portugal fez as pazes com a comunidade sefardita?
Eu creio que sim, acho que não se pode apagar o que se fez no passado mas pode-se consertar coisas para o futuro.

O povo português, historicamente, nunca foi um povo anti-semita. Historicamente, tirando o período da inquisição, não cultivou o anti-semitismo. Por isso a meu ver este gesto, sim, acho que sim, fecha uma página da história, que não pode ser apagada, mas a vida segue.

Os sefarditas têm muito isto, não tendem a lamentar-se das coisas, mas sim lembrar-se das coisas que se passaram e as lembranças boas da vida na Península Ibérica foram o que ficou para os sefarditas, muito mais do que as atrocidades no período inquisitorial.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

O regresso dos judeus, bebés e beijinhos papais


Os judeus descendentes daqueles que fugiram ou foram expulsos da península ibérica no século XVI poderão vir a receber cidadania portuguesa. O assunto está a ser discutido hoje no Parlamento, mas mesmo se for aprovado ainda não há detalhes sobre como funcionará.

Bento XVI não beijava bebés… até chegar a Portugal. O Papa Francisco sempre beijou bebés, mas adivinhem qual a nacionalidade da primeira criancinha a receber essa honra? Pois é… podemos concluir que os bebés portugueses são mais queridos que os outros?

Os bispos portugueses estiveram reunidos por estes dias em Fátima. Prometem ser uma presença activa quanto aos problemas do país nesta fase e confirmaram que o pontificado de Francisco vai ser consagrado a Nossa Senhora de Fátima.

Em mais uma prova de que as religiões são irracionais e temem a ciência, o Vaticano está a organizar a segunda conferência internacional sobre células estaminais adultas. (Para quem não notou, isto é para ler com ironia…)

Surgiu ontem a notícia de que Bento XVI estaria gravemente doente. A Santa Sé nega.


Por fim dois avisos, ambos para amanhã. O lançamento do livro do meu bom amigo Frei Bernardo Corrêa d'Almeida. Escrito antes da eleição de um sucessor de São Pedro jesuíta que adoptou o nome Francisco, o livro é sobre São Pedro, escrito por um franciscano, com prefácio de um jesuíta. O lançamento é às 21h30 (ver anexo)

Também amanhã, mas mais cedo, pelas 15h00, realiza-se um debate sobre o perdão, que tem por base o livro “Incondicional? - O apelo de Jesus ao perdão radical”, editado em Portugal pela Letras d’Ouro”. Quem me conhece sabe como este tema é importante para mim, recomendo vivamente a participação, no auditório Lusitania - Rua do Prior, nº 6, à Lapa, Lisboa.

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