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| Edith Stein |
No passado Domingo o Papa Francisco esteve na Sinagoga de
Roma,
onde discursou. A dada altura disse o seguinte: “Os cristãos, para se
compreenderem a si mesmos, não podem deixar de referir as suas raízes judaicas,
e a Igreja, apesar de professar a salvação através da fé em Cristo, reconhece a
irrevogabilidade da Antiga Aliança e o amor constante e fiel de Deus por
Israel”.
Esta foi sem dúvida a passagem mais importante do seu
discurso e nela o Papa refere-se a uma discussão teológica interna ao
Cristianismo que passa por saber se os cristãos deviam pregar o Evangelho aos
judeus. A teoria que parece estar a ganhar terreno na Igreja Católica é que os
cristãos não devem procurar evangelizar os judeus de forma especial, uma vez
que a Antiga Aliança ainda é válida – uma vez que as promessas de Deus são
irrevogáveis, segundo a carta de São Paulo aos Romanos.
O meu bom amigo Tiago Cavaco, pastor evangélico,
leu o discurso e não gostou. Porque o Tiago é boa pessoa e intelectualmente
honesto, o seu texto não é um ataque cerrado – que seria fácil mas pouco
produtivo de fazer – mas antes uma série de interrogações que, a meu ver, se
podem resumir numa só. “Se os judeus não precisam de Jesus, o que é que Jesus
veio cá fazer?”
Este meu texto, agora, não é uma defesa da posição da Igreja
Católica ou do Papa. Antes, tenciono aqui deixar algumas pistas para ajudar à
discussão, porque me parece que esta é uma discussão que importa ter e que não
está de forma alguma resolvida.
Sendo assim:
1. Isto não é (assim
tão) novo
O discurso do Papa trouxe o assunto mais para a ordem do
dia, mas a primeira vez que eu dei por isto foi há mais de uma década. Na
altura foi
num documento da conferência episcopal americana. Eu li e a dada altura
levantei o assunto com um professor do meu mestrado, na altura padre e agora
bispo, que disse que achava isso tudo muito estranho. Mostrei-lhe o documento.
Ele leu e, basicamente, descartou, dizendo que podia ser um documento de
reflexão teológica da Igreja americana, mas a posição da Igreja Universal não
era essa.
Mais recentemente a comissão do Vaticano para o diálogo religioso
com os judeus publicou
um novo documento a dizer basicamente a mesma coisa. “Que os judeus são
participantes da salvação de Deus é teologicamente inquestionável, mas como
isso é possível sem confessar Cristo explicitamente, é e permanece um mistério
divino insondável”.
Antes de mais, para muita gente isto pode não ser claro,
sobretudo para protestantes que não têm obrigação nenhuma de saber como é que
as coisas funcionam no Vaticano, mas nem um documento da comissão para o diálogo,
nem um discurso do Papa numa sinagoga vinculam a Igreja Universal a uma
posição. Não me parece correcto, simplesmente por uma questão de rigor, dizer
que a posição da Igreja Católica agora é esta ou aquela. Penso, aliás, que isto
é claramente um “work in progress”. Todavia, o facto de o Papa ter endossado a
ideia num discurso público não é, obviamente, irrelevante. O que quero deixar
claro é que dentro da Igreja a ideia não é de modo algum unânime.
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| Cardeal Lustiger |
Contudo, esta também não foi, ao contrário do que eu
pensava quando li o discurso, a primeira vez que um Papa subscreve publicamente
esta ideia. Rapidamente no twitter recebi referências de outras instâncias.
Nomeadamente no Evangelii Gaudium, nº 247: “Um olhar muito especial é dirigido
ao povo judeu, cuja Aliança com Deus nunca foi revogada, porque ‘os dons e o
chamamento de Deus são irrevogáveis’”.
Mas o EG é um texto do Papa Francisco, portanto quem
acha, como o Tiago, que este é o pior Papa das últimas décadas (e não são só
protestantes que o acham), dificilmente se deixará tocar por isto. Mas a
maioria dos grandes críticos de Francisco nutrem, ao mesmo tempo, uma enorme
admiração por Bento XVI. Sei que é o caso do Tiago e sei que todos concordarão
que BXVI não é o tipo de teólogo de se deixar levar por sentimentalismos.
Vejamos então o que ele escreveu nos seus livros sobre
Jesus de Nazaré:
“A este respeito,
no horizonte de fundo, aparece sempre também a questão sobre a missão de
Israel. (…) uma nova reflexão permite reconhecer que é possível, em todas as
obscuridades, encontrar pontos de partida para uma justa compreensão.
Quero referir aqui
o que, relativamente a este ponto, aconselhou Bernardo de Claraval ao seu
discípulo, o Papa Eugénio III. Recorda ao Papa que não lhe foi confiado o
cuidado apenas dos cristãos. “Tu tens um dever também para com os infiéis, os
judeus, os gregos e os pagãos”. Mas corrige-se logo a seguir, especificando: “Admito,
relativamente aos judeus, que tens a desculpa do tempo; para eles foi
estabelecido um determinado momento, que não se pode antecipar. Primeiro devem
entrar os pagãos na sua totalidade. (…)
Hildegard Brem
comenta assim este trecho de Bernardo: “Na sequência de Romanos 11,25, a Igreja
não se deve preocupar com a conversão dos judeus, porque é preciso esperar o
momento estabelecido por Deus, ou seja, “até que a totalidade dos gentios tenha
entrado”. Ao contrário, os próprios judeus constituem uma pregação vivente,
para a qual deve apontar a Igreja, porque nos trazem à mente a paixão de Cristo”.
Jesus de Nazaré – Da entrada em Jerusalém até à
Ressurreição - Capítulo II, ponto 2
Este artigo contém uma interessante análise e comentários a este ponto.
2. O “efeito
holocausto”
Embora seja relativamente fácil dizer que estas teorias
são apenas o resultado de um complexo de culpa que sentimos em relação ao
holocausto, por este só ter sido possível graças ao facto de haver um terreno
fértil para o anti-semitismo, para o qual contribuíram mais de mil anos de
Cristianismo europeu – o que não é obviamente o mesmo que dizer que o
Cristianismo foi responsável pelo holocausto, atenção – penso que não é assim
tão simples. Poderá ser um factor, mas não explica tudo. O já citado São
Bernardo de Claraval não sofria certamente de complexos do holocausto.
Mas penso que o holocausto pode ter despertado entre os
teólogos uma dúvida. Como é que uma ideia aparentemente tão benévola, de querer
levar aos judeus o conhecimento do Messias que tanto dizem esperar, pode ter
tido consequências tão trágicas ao longo de tantos séculos? É que não foi uma
vez nem duas, foram centenas. Só para dar um exemplo, já que este texto
pretende ser um diálogo com um pastor que se identifica com a tradição
luterana, vemos o que aconteceu quando Lutero viu frustradas as suas tentativas
de converter os judeus. Em 1543 escreveu o panfleto “Sobre os judeus e as suas
mentiras” em que recomenda a destruição de casas e sinagogas de judeus, a
proibição dos seus livros sagrados e dos rabinos ensinarem, etc. etc.
Tragicamente, existem demasiados exemplos no lado católico também.
Repito que este meu texto não tem por objectivo defender
a teoria de que não precisamos de pregar aos judeus, apenas de levantar mais
algumas questões e apontar para fontes que podem contribuir para o
aprofundamento. E é nesse sentido que pergunto se não é natural que alguém
pense que esta estratégia de tentar converter os judeus fez mais mal do que bem
ao longo dos milénios e se isso não será sinal de que o caminho não é esse,
sobretudo tendo em conta o suporte neo-testamentário já citado.
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| Pe. David Neuhaus |
3.
Vozes ausentes
No meio de tudo isto, confesso que há vozes que ainda não
ouvi mas que penso que são fundamentais para este debate. Refiro-me a católicos
que tenham nascido judeus. O Cardeal Lustiger, de Paris, que morreu em 2007,
sempre se afirmou judeu e embora não tenha ideia de ele ter abordado esta
questão especificamente, pelo que ele dizia, nomeadamente ao intitular-se um “fulfilled
Jew” (falta-me agora um termo adequado em português), leva-me a crer que
discordaria da ideia de não se pregar aos judeus, embora esteja apenas a
especular.
O padre David Neuhaus, que é vigário-geral para os
católicos de língua hebraica, na Terra Santa, seria uma voz a ouvir também, mas
tanto quanto vejo na net, ainda não se pronunciou sobre isto em particular. Se
alguém tiver dados em contrário, que me avise.
Também não conheço suficientemente a obra de Edith Stein
sobre esta questão, mas imagino que possa ter algo a dizer.
Este é um assunto complexo e que merece certamente muita
reflexão e debate. Penso que todos, cristãos católicos ou reformados, ou mesmo
judeus, temos a ganhar em fazê-lo e agradeço por isso o texto do Tiago que me
levou a escrever este.