quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

O Modo de Vida Livre e a Solo

Michael Pakaluk
Os adeptos da escalada costumam trabalhar em pares. Ambos estão equipados com um cabo, que está fixo em intervalos regulares à face da rocha. O que vai à frente costuma ter um bocado de cabo livre, mas nunca de tal forma que se magoaria muito se caísse.

Uma vez que a escalada exige confiança máxima, é natural os atletas formarem das mais próximas amizades humanas. Dizem que só a irmandade sentida por soldados em batalha é que se compara. Se virmos a vida como um desafio parecido com a difícil subida de uma montanha, então os parceiros de escalada podem representar a verdadeira amizade. Não admira que tantos cristãos se sintam atraídos pela escalada, ou por histórias de escalada.

Existe uma modalidade que se chama “livre solo” em que um atleta sobe “livre”, isto é, sem a proteção dos cabos, e “solo”, isto é, sem a ajuda de um parceiro. Nestes casos a colaboração não só se torna desnecessária como seria mesmo um obstáculo. Um amador que se faz a um muro de escalada no ginásio está a fazer “livro solo”, mas em segurança, a baixa altitude e por cima de colchões.

Mas alguns escaladores verdadeiramente dotados praticam o solo livre a alturas perigosas, onde um erro é morte certa. O melhor de todos é o Alex Honnold, conhecido por ter subido em livre solo a Dawn Wall e o El Capitan, em Yosemite. O “National Geographic” fez um documentário sobre a segunda destas subidas.

O livre solo é eticamente controverso, mas antes de mais consideremos a sua atratividade. O escalador pode mover-se mais depressa, logo conserva melhor a sua força. E é uma coisa muito pura: rocha, céu e homem. Um escalada bem-sucedida é um hino à perfeição: que demonstração de mestria poderia ser mais suprema do que alguém que tem tanta confiança no seu controlo que mal considera que a sua vida está em risco?

Do ponto de vista ético, o espírito do praticante de livre solo parece altamente admirável. É a velha escolha de Aquiles: preferia morrer em busca da perfeição, do que manter-se vivo mas a fazer algo que lhe parece medíocre. Não foi Aristóteles quem disse que devíamos preferir uma “vida boa” a “simplesmente viver”? Enquanto cristãos nós admiramos as pessoas que arriscam tudo. O cardeal Newman ensinava que não estamos verdadeiramente a viver como cristãos se não estivermos a arriscar todos os dias a nossa vida inteira na premissa do Cristianismo ser verdade. (Ver a sua homilia “Ventures of Faith”)

Podemos ainda olhar para as conquistas de Alex Honnold com orgulho pela nossa humanidade partilhada. Ele parece colocar a raça humana no cume da natureza. Nem uma cabra-montês conseguiria subir a Dawn Wall em Yosemite. (Um insecto conseguiria, mas jamais o faria.) Chegado ao topo da subida Honnold poderia afirmar, com razão “este é um salto de gigante para a humanidade…” Agora, mais do que nunca, precisamos dessas fontes de orgulho. Os ecologistas não o admitem, mas essa é a verdadeira razão por detrás da popularidade de Honnold.

E por fim, entre a raça humana, o praticante de solo livre parece provar a realidade daquilo a que Aristóteles e São Tomás chamaram a virtude sobre-humana – uma virtude de tal maneira poderosa que excede os limites normais da humanidade (tal como existe uma bestialidade no pecado). A imagem de Honnold a ultrapassar uma Saliência particularmente difícil perto do topo do El Capitan, suspenso mil metros por cima do vale, parece reveladora de uma coragem sobre-humana.

Mas a modalidade de livre solo é também vista como eticamente questionável. A escalada, dizem alguns, não é uma atividade “séria” como é o combate, mas “recreativa” como o desporto e o entretenimento. Não vale a pena arriscarmos a vida por ela, consideram. Desse ponto de vista praticar o livre solo é tão insensato como tentar acabar um jogo de golfe no meio de uma tempestade. E mesmo que os maiores feitos de livre solo mereçam esse risco, outras tentativas claramente não valem a pena e nesse sentido celebrar os feitos de homens como Honnold apenas encoraja outros a tentar o mesmo.

Se está a pensar em ver o documentário “Free Solo” do “National Geographic”, então devo avisá-lo que só os últimos 15 minutos é que mostram a famosa subida. O grosso do filme lida com a sua relação com a namorada, que vive com ele na sua carrinha. Ele trata-a como uma fã monogâmica ligeiramente irritante, enquanto que ela claramente gostaria que ele deixasse a escalada para se casarem. O “National Geographic” viu-se obrigado a transformar este documentário sobre escalada num “reality show” porque descobriu, ironicamente, que Honnold simplesmente não se conseguia concentrar totalmente com uma equipa de sete homens armados com câmaras a segui-lo escarpa acima. Por isso acabaram por ter muito poucas imagens da própria subida, todas captadas a grande distância, através de teleobjetivas.

Mas para os sábios a presença da namorada revela umas verdades profundas sobre o amor e o casamento. Por exemplo: Ele não a ama a ela mais do que à escalada (isto é, mais do que se ama a si mesmo). Ou, ele comprometer-se a casar com ela implicaria comprometer-se a deixar de escalar, mostrando que o casamento é uma instituição que nos eleva do egoísmo. Ou então, se queremos ver a coisa pelo lado positivo, o celibato é necessário para um modo de vida comparável ao de Honnold (basta pensar no sacerdócio).

Mas a sua presença revela ainda outra coisa verdadeiramente perturbadora sobre a atração pelo livre solo. Se a escalada em equipa representa a amizade, então o livre solo deve ser visto como representando um tipo de autonomia que quase toca o autismo. Honnold, que foi criado pela mãe divorciada, numa casa onde, segundo ele, não se falava em amor, tem de bloquear, deliberadamente, toda a afetividade pela sua namorada para ter sucesso. Ao ponto de lhe pedir que abandone a carrinha onde vivem nos dias antes da escalada.

Eu fico maravilhado com pessoas como o Honnold. Mas isso preocupa-me. Preocupa-me que nos maravilhamos – a nossa cultura maravilha-se – com o livre solo, em vez de o achar desprezível. E isto porque nos atrai a ideia da autonomia, mesmo que seja uma autonomia temerária, que arrisca tudo por ambições que não têm qualquer valor para além da criação da vontade.


Michael Pakaluk, é um académico associado a Academia Pontifícia de São Tomás Aquino e professor da Busch School of Business and Economics, da Catholic University of America. Vive em Hyattsville, com a sua mulher Catherine e os seus oito filhos.
  
(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 19 de Fevereiro de 2019)

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