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quarta-feira, 3 de maio de 2017

Almas Sofredoras

Há muitos argumentos fortes, tanto a favor como contra, sobre a existência de Deus. Mas um dos desafios maiores à ideia de um Deus benigno e que nos ama, segundo o modelo Bíblico (os deuses sanguinários e caprichosos dos pagãos são uma coisa à parte), é o sofrimento dos inocentes. Um ateu britânico contemporâneo comentou que se lhe perguntassem porque é que Deus não existe, responderia simplesmente: “Crianças com cancro dos ossos”.

Austin Ruse, um dos fundadores do The Catholic Thing e antigo colunista, aceitou este desafio e a resposta é um livro conciso mas importante, chamado “The Littlest Suffering Souls: Children Whose Short Lives Point Us to Christ” [As Pequenas Almas Sofredoras: Crianças cujas curtas vidas nos apontam para Cristo]. Ele argumenta que o Cristianismo é único entre as diferentes religiões e filosofias, porque encontra sentido no sofrimento. O estoicismo, e a maior parte das outras fés, simplesmente assumem que o sofrimento é um facto da natureza e oferecem técnicas para o suportar.

Mas este livro não é um argumento abstracto. Ruse trata com detalhe de alguns casos concretos: A Margaret Leo e o Brendan Kelly (ambos da zona de Washington D.C.) e a “Audrey”, uma pequena rapariga que viveu e morreu perto de Paris e cujo apelido não foi divulgado, a pedido dos pais.

O Austin é um amigo e colaborador de longa data (estas histórias começaram como crónicas do The Catholic Thing e provocaram centenas de reacções de todo o mundo). Mas posso dizer que o resultado é quase milagroso. Quem diria que estas crianças santas e sofredoras poderiam ser prova viva, para aqueles que as conheciam ou que simplesmente ouviram falar delas, da existência de um Deus que nos ama?

É quase impossível escrever bem sobre a dimensão espiritual de crianças que enfrentam situações de saúde dramáticas. O resultado costuma ser beato, no mau sentido, e por isso falsamente sentimental. A grande e irredutível Flannery O’Conner vacilou, por essa razão, quando as dominicanas de Hawthorne lhe pediram para escrever uma introdução às Memórias de Mary Ann, um relato de outra pequena sofredora da década de 60.

O prefácio deste volume é escrito pelo Cardeal Burke, que o recomenda, citando João Paulo II sobre a unicidade do Cristianismo que ensina que os nossos sofrimentos – até os das almas mais novas – participam no sofrimento redentor de Jesus.

Neste livro Ruse capta esta ideia melhor do que qualquer outro autor que eu conheço, preservando os sentimentos adequados (e não o sentimentalismo) mas também transmitindo o humor ocasional, bem como a inspiração final destas vidas, sem recurso a palavras falsas. (E já que estamos numa de elogios, parabéns à TAN Books por ter produzido um volume tão simples e bonito).

A verdade é que mesmo os pais e as famílias podem chegar a odiar Deus quando confrontados com provas destas – e frequentemente são as crianças sofredoras que as ajudam.

Duas das crianças que aparecem no livro têm pais importantes. Leonard Leo é vice-presidente executivo da Sociedade Federalista, um grupo de advogados que aconselhou o Presidente Trump sobre a recente nomeação para o Supremo Tribunal e Frank Kelly chefia o departamento de assuntos governamentais globais da Deutsche Bank. Ambos estiveram esta semana no Centro de Informação Católica em D.C. para a apresentação do livro, homens altamente qualificados mas – via-se – sem palavras quando questionados sobre os seus filhos. Daí o valor adicional deste livro.  

Brendan Kelly, com o Papa João Paulo II
Brendan Kelly nasceu com trissomia 21 e aos dois anos foi diagnosticado com leucemia. Só morreu aos 16 anos depois de uma série de dramas médicos, pontuados por muito amor e eventos incríveis – incluindo inexplicáveis e milagrosos – que tocaram uma enorme quantidade de pessoas, incluindo um episódio com São João Paulo II em Castel Gandolfo que o fará rir-se desalmadamente. Duas mil pessoas foram ao seu enterro.

Margaret Leo tinha uma forma de espinha bífida tão severa que costuma ser fatal, não obstante os avanços médicos. A maioria das crianças que são diagnosticadas com esta condição através da amniocentese são abortadas porque a sua “qualidade de vida” vai ser tão baixa. A Margaret passou a vida toda numa cadeira de rodas por causa de distorções tão severas na sua coluna que quando inseriram barras de titânio para manter as costas direitas, as barras entortaram. Mas esta criança minúscula nunca se queixou nem parecia sentir medo. Tinha uma fé simples e um dom para a amizade, apesar de muitas pessoas se sentirem incomodadas por deficientes em cadeiras de rodas. Ela acabou por morrer, de forma quase inesperadas, mas a sua morte foi seguida de acontecimentos miraculosos.

A Audrey morreu depois de sete anos a lutar contra uma leucemia. A sua família francesa era nominalmente católica e não a instruiu na fé, mas aos três anos começou ela a instruí-los a eles. Vendo um crucifixo num confessionário, comentou: “Só de olhar para Ele, amamo-Lo”. Instintivamente adoptou a mortificação, abdicando de comer doces; fazendo actos de penitência sem que alguém lhe tivesse explicado o sentido; insistindo na oração antes das refeições – o que não se fazia em casa. Parecia conhecer passagens do Evangelho sem as ter aprendido e vivia perpetuamente – pelo menos era isso que as pessoas sentiam – na presença de Deus.

Estes são apenas alguns detalhes das histórias de três crianças santas que têm muito para nos ensinar, o resto das histórias segue muito a mesma linha. Mas o facto de terem nascido em famílias importantes também tem significado, como explica Ruse. À medida que ele explica as suas várias ligações familiares, comenta que: “Tenho noção que estou a citar nomes, mas é de propósito e espero que me desculpem, pois faço-o para sublinhar um aspecto particular destas ‘pequenas almas sofredoras’… Estes não eram filhos de camponeses a tratar dos rebanhos. Nasceram em famílias influentes, famílias que habitavam um certo meio: os corredores de poder de Washington, D.C. Resumindo, nasceram numa espécie de deserto espiritual, um ambiente em que as coisas do mundo facilmente prevalecem sobre as coisas de Deus e tinham – e ainda têm – coisas a ensinar aos habitantes desse deserto em particular.”

Ultimamente temos debatido a Opção Beneditina, a Opção Dominicana e muitas outras “opções” do género na nossa Igreja e no nosso país atribulados. Todas essas opções têm algo que se lhes diga, mas na minha opinião, e não só em Washington, a opção das almas sofredoras ganha aos pontos.

Leia também:


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro é A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century, da Ignatius Press. The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está também disponível pela Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quinta-feira, 27 de Abril de 2017)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

A Igreja e a ONU, de Novo

Austin Ruse
A Santa Sé volta ao banco dos réus da ONU esta semana. Desta vez é a Comissão de Tortura, e não vai ser bonito. [Desde que o artigo foi publicado no site do TCT a audição já se realizou]

Lembram-se da última vez? Há meses a Comissão da ONU para os Direitos da Criança disse à Santa Sé que a Igreja devia mudar os seus ensinamentos sobre assuntos de moral fundamentais como o aborto, contracepção, sexualidade na adolescência e casamento. O facto de apenas os suspeitos do costume se terem mostrado horrorizados significa que a Comissão de Tortura deve seguir o mesmo caminho.

A Convenção das Nações Unidas contra a Tortura, outros Tratamentos ou Penas Cruéis, Desumanos ou Degradantes, foi aceite pela Assembleia Geral da ONU em Dezembro de 1984 e entrou em vigor passados três anos. Actualmente 155 governos ratificaram o tratado, incluindo o Irão e a Arábia Saudita. A Santa Sé assinou o tratado em 2002.

A Convenção em si é uma coisa boa. Define a tortura da seguinte maneira:

Qualquer acto por meio do qual uma dor ou sofrimentos agudos, físicos ou mentais, são intencionalmente causados a uma pessoa com os fins de, nomeadamente, obter dela ou de uma terceira pessoa informações ou confissões, a punir por um acto que ela ou uma terceira pessoa cometeu ou se suspeita que tenha cometido, intimidar ou pressionar essa ou uma terceira pessoa, ou por qualquer outro motivo baseado numa forma de discriminação, desde que essa dor ou esses sofrimentos sejam infligidos por um agente público ou qualquer outra pessoa agindo a título oficial, a sua instigação ou com o seu consentimento expresso ou tácito. Este termo não compreende a dor ou os sofrimentos resultantes unicamente de sanções legítimas, inerentes a essas sanções ou por elas ocasionados.

A convenção declara que não existem excepções à proibição da tortura, incluindo guerra, emergência pública, actos terroristas ou qualquer tipo de conflito armado. Os signatários aceitam incluir estas proibições na sua lei nacional, para aplicar o tratado em todos os territórios sob sua jurisdição, extraditar transgressores e, quando isto não for possível, a jurisdição universal.

É fácil ver como a Igreja veria tudo isto com bons olhos, até entusiasticamente. E é fácil também ver como a Igreja, pelo menos na era pós-inquisição, dificilmente violaria o tratado. Mas não.

Os governos que ratificam o tratado têm de comparecer diante do organismo de supervisão para explicar de que forma ele está a ser implementado. Estes organismos são compostos por peritos, nomeados pelos seus próprios países. Mas quando estão na comissão, representam-se apenas a si mesmos e não os países de origem. São agentes livres. E nota-se.

Eis o que vai acontecer à Santa Sé às mãos da comissão. A Igreja vai ser instruída a alterar os seus ensinamentos sobre o aborto. A Igreja será acusada de violar o tratado por permitir o abuso sexual de menores, mesmo fora dos 100 hectares da Cidade do Vaticano, em qualquer parte do mundo onde uma criança tenha sido abusada por um padre católico. Provavelmente a comissão opinará também sobre a orientação sexual e identidade de género. Mas alguma destas coisas consta do tratado contra a tortura? Não.

Há anos alguns actores influentes da ONU, incluindo os chefes de todos os organismos de monitorização da altura e das grandes agências como a UNICEF, encontraram-se em Glen Cove, Nova Iorque, e chegaram a um acordo para um plano para espalhar o evangelho da esquerda sexual através de todos os tratados de direitos humanos das Nações Unidas, mesmo naquelas que não mencionam questões como o aborto. Aliás, o aborto não é mencionado em nenhum destes tratados. Nem um. Contudo, praticamente todos os organismos de supervisão dos tratados dizem aos Estados que têm de legalizar o aborto – e muito mais.

A Comissão sobre Tortura já disse à Irlanda, Polónia, Nicarágua e Bolívia que a criminalização do aborto em caso de malformação, violação, incesto e perigo de vida da mãe é considerada tortura, ao abrigo do tratado. A comissão também já questionou os Estados Unidos sobre a tortura de homossexuais.

A Santa Sé no banco dos Réus na ONU
Interessa? As declarações das comissões têm algum efeito? Significam muito para professores de direito de esquerda, certamente, bem como para juízes e deputados do mesmo pendor. Aliás, muitos consideram que as declarações destes organismos criam normas vinculativas. E alguns tribunais e parlamentos já começaram a concordar. O Supremo Tribunal da Bolívia mudou as leis nacionais sobre aborto com base nas observações finais da Comissão sobre Tortura.

O que é que vai acontecer a seguir? A comissão vai pressionar o Vaticano. Provavelmente mostrará pouco respeito pelos representantes da Santa Sé. Referir-se-á a Arcebispos como “Senhor” e à Igreja como “a vossa organização”. Não escutará – verdadeiramente – os representantes da Santa Sé, mas as perguntas durarão horas. O relatório final será publicado daí a umas semanas, embora o mais provável seja que já esteja escrito, provavelmente por uma ONG de esquerda com um particular ódio pela Igreja.

A imprensa rejubilará por poder dizer que a Igreja está em violação de mais um tratado de direitos humanos e poucas pessoas compreenderão verdadeiramente o que aconteceu.

O que é que a Igreja deve fazer? A Igreja deve aguentar a sova neste novo processo. Deve ter uma estratégia bem montada de relações públicas para responder ao relatório e deve utilizar todas as oportunidades para explicar como estes organismos ditos de defesa dos direitos humanos de facto prejudicam os verdadeiros direitos humanos.

Depois devia esperar uns anos e, sem grande alarido, retirar-se de todos os tratados da ONU. E devia explicar porquê: porque estas comissões estão a ir muito mais longe do que o seu próprio mandato e, ao fazê-lo, estão a prejudicar os direitos humanos verdadeiros. A Igreja não quer ter nada a ver com isso.

Afinal de contas, foi a Igreja que inventou os direitos humanos e devia dar uma lição a estes meias-lecas.


Austin Ruse é presidente do Catholic Family & Human Rights Institute (C-FAM), sedeado em Nova Iorque e em Washington D.C., uma instituição de pesquisa que se concentra unicamente nas políticas sociais internacionais. As opiniões aqui expressas são apenas as dele e não reflectem necessariamente as políticas ou as posições da C-FAM.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Sexta-feira, 2 de Maio de 2014)

© 2014 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 12 de março de 2014

Um Bispo Valente Denuncia a Pornografia

Austin Ruse
Não me recordo daquele momento eléctrico em que vi pornografia pela primeira vez, mas lembro-me como em miúdos, no início dos anos 60, éramos obcecados pelas imagens da Playboy.

Lembro-me como tudo isso parecia normal entre os adultos, embora não entre os meus pais. Uma vizinha perguntou uma vez se o meu pai queria trocar uns romances pelas Playboys do seu marido, que estava doente e não tinha nada para ler. O meu pai recusou, mas como é que eu sabia sequer disso? Eu escondo a própria existência desse tipo de coisa das minhas filhas.

Lembro-me que um dos meus amigos roubava Playboys ao seu pai e nós escondíamo-las no mato. Que rapaz de certa idade não se lembra de folhear revistas dessas, húmidas de terem estado escondidas debaixo de troncos e árvores? Lembro-me do cheiro.

Lembro-me de ter ficado de castigo quando a minha mãe descobriu um “Playboy: Entretenimento para Rapazes” mal desenhado, que eu tinha feito e agrafado para mostrar aos amigos. O castigo ficou a cargo do meu pai, mas não me lembro se levei com o cinto ou se apanhei o sermão do desapontamento.

Estes pensamentos, e outros, voltaram recentemente quando li o início da Carta Pastoral do bispo Paul Loverde, de Arlington, Virginia. Será publicada oficialmente na Festa de São José, o que é apropriado porque a carta enfatiza que o pai tem responsabilidade de proteger a sua família do flagelo da pornografia. Esta é a sua segunda carta pastoral sobre pornografia e, tanto quanto sei, apenas a terceira de qualquer bispo americano, sendo a outra da autoria do bispo Robert Finn, de Kansas City.

Num livro sobre este assunto Matt Fradd conta como, ao procurar numa arca de coisas antigas na garagem de um parente, encontrou “uma fotografia lustrosa de uma mulher completamente nua. Suspirei, parecia que o meu coração tinha parado – nunca tinha visto nada assim”. Diz que sentiu fascínio e depois remorso.

Não foi assim que tantos de nós entrámos em contacto com estas coisas?

Durante anos Fradd viu cada vez mais destas imagens. Escreve que “comecei a compreender que quando maridos e pais usam pornografia, não só se tornam escravos do pecado, mas ferem profundamente a sua habilidade de amar e proteger, da forma como a sua vocação exige”.

O final feliz de Fradd, depois de anos de luta, não é a norma hoje em dia, porque o mundo está imerso em pornografia. Aquelas primeiras imagens digitais atingem os jovens cérebros e continuam a escravizá-los, até depois do casamento e do começo da vida familiar. Os casamentos e as famílias são destruídas por elas.

O bispo Loverde é um verdadeiro pastor por publicar uma segunda edição de “Bought with a Price (edição Kindle)”:

“Nos meus quase cinquenta anos de padre vi o mal da pornografia a espalhar-se como uma praga através da nossa cultura. Aquilo que era o vício vergonhoso e ocasional de poucos tornou-se agora o entretenimento usual de muitos... A praga persegue a alma de homens, mulheres e crianças, dilacera os laços do casamento e vitimiza os mais inocentes de entre nós. Obscurece e destrói a habilidade das pessoas de se verem umas às outras como uma expressão bela e única da criação de Deus, em vez disso escurece a sua visão, levando-os a ver os outros como objectos a serem usados e manipulados.”

Bispo Paul Loverde
Elenca a ameaça, bem conhecida de todos os que já foram consumidores de pornografia ou que simplesmente estão a par do seu alcance e da sua profundidade. Mas acrescenta: “Talvez o pior, contudo, seja a forma como a pornografia danifica o modelo que o homem tem do sobrenatural. A nossa visão natural neste mundo é o modelo para a visão sobrenatural do próximo. Quando danificamos este modelo, como é que vamos compreender essa realidade?” A nossa visão sobrenatural é danificada pelo mau uso da nossa visão natural.

A carta é endereçada a todas as pessoas da sua diocese, mas esperamos que pelo menos os seus fiéis católicos leiam este documento tão importante: novos, solteiros, casados, padres e religiosos: “Ninguém que viva na nossa cultura se pode separar do flagelo da pornografia. Todos são afectados em maior ou menor grau, mesmo aqueles que não participam directamente no seu uso.”

Penso nas minhas filhas e pergunto-me quantas das amigas da sua escola católica vêm de uma família com um problema escondido de pornografia? Sinto que seria capaz de matar qualquer pessoa de qualquer idade que mostrasse às minhas filhas as imagens terríveis que estão ao alcance de alguns toques em qualquer iPhone hoje em dia.

O bispo Loverde analisa a fundo aquilo a que chama “Quatro Falsos Argumentos”; 1) Não há vítimas, 2) o uso moderado da pornografia pode ser terapêutico, 3) a pornografia é um auxílio na maturação, e 4) a oposição à pornografia tem por base o ódio ao corpo.

Entre as vítimas, aponta Loverde, está a dignidade dos “artistas” pornográficos que frequentemente são os “necessitados” e os “vulneráveis”, incluindo os “pobres, abusados e marginalizados, até crianças”, que são transformadas em meros objectos. O uso da pornografia desumaniza quem vê e corrói a família. Um pai é suposto proteger a família, mas através da pornografia permite a entrada daquilo a que Loverde chama “uma serpente” que rasteja por entre a sua mulher e filhos.

“Bought with a Price” é um documento de ensino formidável de um dos melhores bispos dos nossos tempos. Outros bispos tendem a estar mais no centro das atenções, enquanto Loverde faz os possíveis para manter a ortodoxia e a fé dos que lhe foram confiados.

O seu apelo eloquente merece ser lido e estudado por homens, sobretudo pelos seus filhos – os mesmos filhos que um dia virão bater-me à porta, à procura das minhas filhas.

São José, rogai por nós.


Austin Ruse é presidente do Catholic Family & Human Rights Institute (C-FAM), sedeado em Nova Iorque e em Washington D.C., uma instituição de pesquisa que se concentra unicamente nas políticas sociais internacionais. As opiniões aqui expressas são apenas as dele e não reflectem necessariamente as políticas ou as posições da C-FAM.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Sexta-feira, 07 de Março de 2014)

© 2014 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

O Rapaz Perdido

Austin Ruse
Não consigo deixar de chorar sempre que vejo filmes sobre rapazes perdidos. Não sei se o género literário é antigo ou não. Há a passagem sobre Jesus no Templo, mas Ele não está verdadeiramente perdido. William Blake tem um poema belíssimo sobre um rapazinho perdido. E há o Peter Pan, claro.

Mas o cinema moderno dedica-se bastante a este tema. Será porque o número de rapazes perdidos aumentou exponencialmente desde meados do século XX?

Em “Inteligência Artificial” Steven Spielberg mostra-nos um menino robot, David, o primeiro de um novo modelo capaz de mostrar verdadeiro amor pelos donos. É colocado com uma família cujo filho verdadeiro está num estado de animação suspensa até que se encontre uma cura para a sua doença. Encontrada a cura, o rapaz regressa a casa para descobrir que tem um rival mecânico.

O menino verdadeiro cria incidentes que levam os seus pais a temer o David e a clínica decide que ele deve ser destruído. Em vez disso, contudo, a sua mãe deixa-o numa floresta assustadora com um urso de peluche. David suplica com a mãe para não o abandonar.

David e Teddy aventuram-se numa distopia perigosa onde os robôs são torturados e mortos. Procuram a Fada Azul, do Pinóquio, que o pode transformar num verdadeiro rapaz, para que a sua mãe o receba de volta um dia.

Esse é o buraco que os “rapazes perdidos” procuram preencher. Sem qualquer culpa própria, são atirados para o mundo quando tudo o que querem é uma casa, uma mãe, mas sobretudo um pai.

Em “Slingblade” vemos a história de um deficiente mental, Karl, que ainda pequeno foi obrigado a enterrar o seu irmão recém-nascido, depois de um aborto falhado, metendo-o numa caixa de sapatos e enterrando-o vivo.

Aos 12 anos mata a sua mãe e o namorado e é institucionalizado. Libertado, conhece Frank, cujo pai se suicidou e que vive com a mãe e uma série de namorados abusadores.

Embora Karl seja um rapaz perdido, é o desejo do pequeno Frank que nos parte o coração. Vimo-lo dizer: “Às vezes só queria que ele ainda estivesse vivo. A mãe é muito querida, mas gostava de os ter aos dois. Uma vez fomos a Memphis de carro. Estava a chover tanto que nem dava para ver a estrada, mas não tive medo, porque desde que o pai estivesse a guiar, nada nos podia acontecer”.

Mas o filme de rapaz perdido por excelência é outro do Spielberg, o “Império do Sol”, que o próprio considerou o seu trabalho mais profundo sobre a “perda de inociência”. Jamie, filho de britânicos ricos, perde-se da sua mãe numa multidão quando os japoneses invadem Shangai em 1937. Passa os próximos oito anos num campo de internamento localizado perto de uma pista de aterragem japonesa.
Perto do fim da guerra Jamie observa uma cerimónia Kamikaze: três jovens pilotos preparam-se para partir rumo a uma morte certa. Jamie saúda-os e canta o Suo Gân, uma música de embalar galesa. (Ouça, que não se vai arrepender).
Dorme meu bebé, no meu peito,
Tens à volta os braços de uma mãe.
Faz um ninho cómodo e quente.
Sente o meu amor para sempre novo.
Nada de mal te irá acontecer,
A dor sempre passará longe de ti.
Amada criança, perto irás ter sempre,
Em suave dormir, o peito da mãe.

Chega o fim da guerra e Jamie deambula, esfomeado, mas é finalmente socorrido e colocado num orfanato. Certo dia ouve alguém chamar o seu nome. Os seus olhos cansados repousam sobre a sua mãe, que o agarra junto ao peito. Pela primeira vez vemos Jamie a fechar os olhos.

Tenho uma razão pessoal para ficar choroso com estas cenas, é que estes rapazes perdidos são sempre o meu irmão mais novo. O nosso pai morreu quando ele tinha só oito anos, menos dez que eu.

Um irmão mais velho como deve ser teria feito tudo o que fosse possível para ajudar o seu irmão mais novo. Mas não eu. Ao fundo da rua, na escola, mais valia estar a um milhão de quilómetros, no meu pequeno mundo egoísta, longe de toda a dor do meu maninho.

Mas ele foi espectacular. O Doug lutou pelos pais dos seus amigos. E conseguiu. Ensinaram-no a caçar, a pescar e a acampar. Vejo fotografias dele, corajoso, sozinho mas rodeado de rapazes e, sobretudo, dos seus pais. Continua a ter uma relação próxima com muitos deles, mais do que tem comigo.

E por isso, quando vejo esses filmes, penso no Doug. Penso em como o abandonei quando precisava de mim e como nunca mais voltei. Penso em como ele teve de ir em busca de outros homens para substituir não só um pai mas um irmão mais velho. Coro de vergonha.

Um dia a minha mulher perguntou: “Já pensaste que se calhar tu é que és o rapaz perdido?”. Fiquei de rastos.

Tinha só 18 anos quando o meu pai morreu. A sua morte deixou-me à deriva no mundo, e o mundo era-me estranho. O único tutor que tive foi o Zeitgeist, que naqueles dias era particularmente hostil. Só aos 36 anos é que tomei a decisão de amadurecer. Vivi uma vida impressionantemente pouco séria, com educação, empregos e relações encharcadas em longas noites de borga com amigos, convencidos de que eramos os maiores.

Pela Graça de Deus consegui sair desta trajectória ridícula, que me deixou com uma consciência cheia de arrependimento e uma mão cheia de histórias engraçadas. Mas tive sorte.

A nossa nação está repleta de rapazes que poderão não ter essa sorte. Actualmente 27% das crianças americanas vivem longe do seu pai; são 10 milhões de rapazes perdidos. Quem é que os protege?

Da próxima vez que vir um rapaz perdido num filme chorarei pelo meu irmão, e por mim. Mas devemos todos chorar pelos rapazes que, neste momento, estão perdidos e à procura de um lar.


Austin Ruse é presidente do Catholic Family & Human Rights Institute (C-FAM), sedeado em Nova Iorque e em Washington D.C., uma instituição de pesquisa que se concentra unicamente nas políticas sociais internacionais. As opiniões aqui expressas são apenas as dele e não reflectem necessariamente as políticas ou as posições da C-FAM.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Sexta-feira, 07 de Fevereiro de 2014)

© 2014 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

O Dia em que a Liberdade Religiosa Morreu

Austin Ruse
Sam Casey estava sentado à cabeceira da maior mesa de reuniões em Washington, a observar, de  boca aberta, o esvaziar de metade da sala e o ferimento grave da liberdade religiosa. Passou-se de repente num dia de Julho em 1999, mas na verdade o esventramento da mais poderosa coligação transpartidária do país estava a ser preparado há semanas.

A história legislativa da liberdade religiosa na América pode ser descrita de muitas formas, mas uma delas é como um jogo de ping-pong.

A Constituição proíbe o Governo Federal de estabelecer uma religião oficial, mas também impede o Governo de colocar obstáculos ao livre exercício da religião. Precisamente o que significa o livre exercício, quem pode ser impedido e como, é um dos assuntos mais melindrosos.

Os casos judiciais modernos começaram nos anos 60 quando uma trabalhadora têxtil chamada Adell Sherbert se converteu aos Adventistas do Sétimo Dia. A fábrica onde trabalhava passou a operar seis dias por semana, obrigando-a a trabalhar ao Sábado, algo que a sua fé não permitia. Foi despedida. O Estado recusou-lhe subsídio de desemprego e ela processou, invocando liberdade religiosa. O Supremo Tribunal deu-lhe razão.

Com esse caso o Tribunal criou o Teste Sherbert, com critérios para determinar se o Governo estava a violar a liberdade religiosa de alguém ou não. A pessoa devia ter uma crença religiosa sincera, sobre cuja prática o Tribunal tivesse colocado um fardo substancial. O Governo devia mostrar a existência de um “interesse constrangedor do Estado” para colocar esse fardo sobre o crente e ainda dar provas de o ter feito da forma menos restritiva possível.

É uma fasquia alta.

Nos anos 80 houve o caso de Alfred Smith e Galen Black, que trabalhavam numa clínica de reabilitação mas fumavam peiote como parte da sua religião nativa-americana. Quando a clínica descobriu, foram os dois despedidos. O Estado recusou-lhes os subsídios. No caso Employment Division v. Smith, o Tribunal acabou com o Teste Sherbert que tinha protegido a liberdade religiosa. A decisão acabou por prender-se com o facto de os homens estarem a cometer um acto ilegal e argumentou que a lei contra o uso de peiote não era dirigida estritamente contra o uso religioso do narcótico, mas contra o seu uso em geral.

Esta decisão, alcançada em 1990, conduziu a uma reacção enorme da comunidade religiosa e dos defensores das liberdades civis. Cristãos de direita e de esquerda, bem como a esquerda secular, galvanizaram-se. A coligação única, que incluía a ACLU, o Congresso Mundial Judaico, a Christian Legal Society e a Coligação pelos Valores Tradicionais, exigiu mudanças.

Tenham em conta que estas associações estavam em lados opostos da discussão sobre o aborto há anos. Ainda assim, estavam de acordo no que diz respeito à liberdade religiosa. Em apenas três anos conseguiram que o Congresso passasse a Lei de Restauração da Liberdade Religiosa, que trouxe de volta o Teste Sherbert. Passou na Câmara dos Representantes por unanimidade e no Senado por 97 votos contra 3, tendo sido assinado pelo Presidente Clinton.

Quatro anos mais tarde foi largamente revogada. No caso City of Boerne v. Flores, em que a cidade de Boerne, no Texas, recusou-se a deixar o bispo católico demolir um edifício histórico para alargar os serviços da Igreja, o Supremo Tribunal determinou que, ao criar a lei, o Congresso tinha ultrapassado os seus poderes ao abrigo da quinta secção da 14ª emenda. Decidiram que a lei obrigava o Governo Federal, mas não os Estados.

A coligação pela liberdade religiosa começou então a preparar a Lei de Protecção da Liberdade Religiosa, com vista a ultrapassar algumas das objecções do Supremo Tribunal, nomeadamente demonstrando a existência de uma necessidade concreta de protecção, por haver pessoas lesadas.

A coligação apresentou no Congresso volumes de provas de discriminação religiosa contra igrejas e pessoas em todo o país, uma “elenco completo”, nas palavras de Casey. A lei passou na Câmara de Representantes por 306-118, uma maioria mais pequena, mas ainda substancial, que incluiu 107 democratas.

Mas depois embateu num obstáculo conhecido como Teddy Kennedy e um mais pequeno conhecido como Joe Biden.
Just killed religious freedom...
No espaço de poucos anos, algo tinha mudado.

A coligação convocou uma reunião para o dia 22 de Julho de 1999. Mais de 60 pessoas juntaram-se à volta daquela mesa de reuniões na sede dos Veteranos de Guerras Estrangeiras. Sam Casey, que na altura estava na Christian Legal Society e actualmente trabalha na Jubilee Campaign, presidiu.

Segundo Casey: “Estavam lá todos, esquerda, direita e centro. Há anos que lutávamos juntos, com sucesso. Tínhamos ganho na câmara dos representantes e agora estávamos presos no senado, precisávamos de decidir quais os próximos passos”.

Mas a reunião começou com uma intervenção de Oliver “Buzz” Thomas, do Comité Baptista Conjunto, a anunciar que tinha chegado à conclusão que a Lei de Restauração da Liberdade Religiosa, que estavam precisamente a tentar salvar, era, na verdade inconstitucional. Isto apesar de ele ter ajudado a formulá-la e de ter testemunhado a seu favor. Então anunciou que o seu grupo estava a abandonar a coligação e saiu porta fora.

Metade da sala foi atrás.

Foi nesse instante que Casey e os outros perceberam o quão forte se tinha tornado o lobby gay. A nova objecção da esquerda era de que a liberdade religiosa seria usada para impedir o avanço dos direitos dos homossexuais. Estas objecções nem faziam parte do debate poucos anos antes, mas agora estavam a destroçar a mais potente coligação transpartidária da história dos Estados Unidos e a impedir a criação de legislação que servia para proteger crentes.  

Os restantes grupos, exclusivamente da direita cristã, chegaram a um acordo sobre uma lei para proteger a prática religiosa de reclusos, mais nada.

Casey tinha entrado naquela sala convicto de que a sua posição era maioritária mas saiu consciente de que fazia parte de uma minoria remanescente, a tentar preservar o que fosse possível.

Uma das tristes ironias de tudo isto é a questão de animosidade. A decisão no caso Smith obriga o queixoso a provar a existência de animosidade contra si por causa das suas crenças religiosas. No caso dos homossexuais, contudo, os juízes federais e o juiz Kennedy, do Supremo, mantiveram recentemente que a oposição ao casamento homossexual é, por si, prova de animosidade contra os homossexuais e por isso é inadmissível.

Parece que o mundo está de pernas para o ar, e que os homossexuais estão por cima.


Austin Ruse é presidente do Catholic Family & Human Rights Institute (C-FAM), sedeado em Nova Iorque e em Washington D.C., uma instituição de pesquisa que se concentra unicamente nas políticas sociais internacionais. As opiniões aqui expressas são apenas as dele e não reflectem necessariamente as políticas ou as posições da C-FAM.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Sexta-feira, 10 de Janeiro de 2014)

© 2014 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Papa pede fraternidade, romenos... enfim...

Amigo dos intocáveis
inimigo dos Estado...
O Vaticano publicou esta quinta-feira a mensagem para o Dia Mundial da Paz. Nele o Papa fala muito das injustiças da guerra e também da economia e, numa passagem que considero crucial, diz que é na família, composta por uma mãe e um pai, que se aprende a fraternidade.

Estamos perto do Natal e é natural que comecemos a ouvir as tradicionais músicas natalícias. Esperemos, contudo, que não sejam como estas que foram transmitidas na televisão pública da Roménia…

Na Índia não é fácil ser arcebispo, mas é pior ainda ser um “intocável”. Então quando o Arcebispo sai em defesa do intocável, a situação torna-se explosiva.

Na Arábia Saudita a autoridade máxima do Islão condenou, recorrendo a termos muito fortes, os atentados suicidas.

Boas notícias para a diocese de Bragança que, três décadas depois, acabou de pagar a catedral.

Hoje publiquei no blogue duas interessantes transcrições de entrevistas feitas a propósito dos direitos humanos. Numa conversa interessantíssima, o cónego João Seabra explica o que é que os direitos humanos devem ao Cristianismo e noutra o activista Austin Ruse explica porque é que as Nações Unidas são, actualmente uma ameaça aos direitos humanos.

Não deixem ainda de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing, no qual Robert Royal fala de alguns projectos de evangelização que estão a ter muito sucesso. E se gosta de ler estes artigos então poderá estar interessado em fazer um donativo para assegurar a manutenção do projecto. Noto que este link vai directamente para a página do TCT, a Actualidade Religiosa não recebe um tostão dos mesmos.

Many of the things the UN does are a threat to human rights

Transcrição integral da entrevista a Austin Ruse, presidente da C-Fam, no inglês original. A notícia encontra-se aqui.

Full transcript of interview with C-Fam's Austin Ruse, in the original English. The news feature can be found here.

What exactly is C-FAM and what work do you do?
C-Fam is a non-governmental organization working almost exclusively at the United Nations. We were founded by the inspiration of John Paul II when he called regular people to go to the Cairo Conference in 1994. The C-Fam founders went to Cairo and then decided to open up a full-time office a few years later.

Our chief work is assisting UN diplomats in negotiating documents, making sure bad language does not get into them regarding life and family, and then telling the wider world what really goes on in the UN.

The Universal Declaration of Human Rights was a UN initiative. Do you believe it was a negative one?
I would say it was a good initiative. It was heavily influenced by Catholic thinking, it is a universal document that everyone can aspire to. So yes, I would say on balance that it was and remains a good document.

What is your opinion on the role of the UN at the moment, safeguard of human rights, or threat?
I would say that the UN is a net negative in the World today, and I think many of the things they are doing are a threat to genuine human rights. The reason I say that is because it seems to be a manufacturer of new human rights which really don’t exist. The right to homosexual marriage, for instance, the right to abortion. And as you push these new ideas of human rights which don’t exist, you undermine commonly held human rights that people agree to. Political self-determination, freedom of religion, so on and so forth. By advancing human rights that aren’t human rights, they hurt existing human rights. So the UN right now is a very serious problem.

Are there any others you’d like to point out, that people might not be so aware of?
A few years ago there was an effort by the French and German governments to write an international document allowing for cloning, for instance. This was a life issue which was actually defeated and the document issued actually calls for cloning to be banned around the world. But the main ones have to do with reproductive health and reproductive rights and this new phrase sexual orientation and gender identity, which includes a lot of different things, and not just homosexual marriage. So those are the two main ones, reproductive rights, which are used to promote abortion, and sexual orientation and gender identity, which is hotly debated nowadays.

Are the Muslim countries seen as allies in this regard?
Prior to the Cairo conference John Paul II made this call for people of faith to go to Cairo. At the same time he reached out to a number of governments. Largely catholic states, in addition to Muslim states, and he created an inter-governmental alliance which has tattered over the years but still remains, between these different faith groups.

What we have found is that on some issues the Muslims are very good allies. They are not exactly Catholic in their position on abortion, but they do find offence at the way these issues are advanced through international instruments. They believe it is inappropriate for the UN to advance these particular ideas.

So yes, we do work with Muslim states, it’s very effective. So effective that our opponents in the New York Times and the London Times call it the Unholy Alliance, between the Vatican and Muslim states. But it’s been very fruitful as a coalition and a learning experience for both us and the Muslims.

Does this work help Christians in Muslim countries? Or does it make it more difficult for you to put pressure on these countries regarding persecution of Christians?
Well the pro-life and pro-family groups in the UN tend to stay away from the religious freedom issue. Because it is very difficult to beat up on your allies one day and ask them for help the next.

Governmentally the Holy See can do that, and it does, and there are lots of organizations at the UN that push for the rights of Christians who are persecuted in Muslim States, so we tend to stay away from that.

However, we firmly believe that we do that sort of work by lovingly embracing these people on the life issues and showing them a good Christian face, of people who are willing to work with them, love them and become friends with them. We do give aid to our beleaguered brothers and sisters who are under attack by being good Christians to the Muslims we meet in New York.

When a Muslim diplomat shows up in New York for the first time he fully expects that he is going to meet nothing but pimps prostitutes and pornographers. Because that is one of the faces we show to the world. So when they meet Christians who pray, and pray for them, I think it changes their lives.

For those of us unfamiliar with the workings of the UN, how dangerous is it to get this language into a document which might not be binding?
There are documents, treaties and conventions, which are binding. The UN just issued a document in 2006 on persons with disabilities, and it was the first hard law treaty to include the phrase reproductive health. And the committee that oversees that treaty has already redefined reproductive health, in that treaty, to include abortion and has pressured governments to change their laws. When Spain, under Zapatero, changed the laws on abortion, in the law they cited that treaty as justification.

The non-binding documents have an effect as well, because when you put a phrase into a non-binding resolution 100 times, 1000 times, 10.000 times, it seems like reproductive health and reproductive rights are in these documents that many times, it contributes to the drumbeat that there is a new international norm. And the comments of these committees on reproductive health are used by governments. The CEDAW treaty on women’s rights doesn’t mention reproductive health, but the committee has read reproductive health and abortion into the document and governments have changed their laws based on those comments. So all of this contributes to what the left wants to see as a change in international norms, and therefore governments have an obligation to change their laws. So that’s why we do what we do, to counter those arguments, to explain why the arguments are false. A few years ago we issued the San José Articles, an expert document drawn up in San José, Costa Rica, which point by point knocks down the claims of the other side that there are international obligations on reproductive health and rights, and abortion. People can see that on SanJoseArticles.org and see the experts that signed the document.

Has Portugal been an ally or an adversary in these issues?
Portugal has always been silent. Which means that largely they are an adversary.

What happens at the UN is that the other side writes the document and we have to chip away at it. Those who remain silent are basically siding with the document. The only way to get bad language out of a document is for governments to speak up or to lend their voice to a coalition that is speaking up, and Portugal has always remained silent.

I don’t remember Portugal ever having spoken out at all, which means that they generally have been on the other side.

Desobediência civil em Kiev e Papa pessoa do ano

Surpresa das surpresas… o Papa Francisco é a “pessoa do ano” para a revista Time. É o terceiro Papa a conseguir esta distinção.

A Universidade Católica da Ucrânia apela à desobediência civil contra o Governo, invocando as cenas de violência que tiveram lugar ontem, em Kiev.

Ontem falei de dois artigos sobre os direitos humanos, depois de enviar o mail foi publicado um terceiro, onde Austin Ruse fala de como a ONU é hoje uma ameaça aos direitos humanos, e não um garante.

Vive na região de Bragança e não tem planos para o Natal? Pois bem, alegre-se… vai jantar com o bispo.


quarta-feira, 31 de julho de 2013

Carta de Moscovo

Austin Ruse
Recentemente disse a uma senhora da Letónia que tinha estado em Moscovo e que me tinha reunido com o Governo para agradecer a sua posição firmemente pró-família nas Nações Unidas. Ela abanou um dedo ossudo na minha direcção e exclamou: “Não são de confiança. Se estão do seu lado, é por outras razões. São mentirosos!”

Depois de no ano passado ter participado numa conferência em Rodes, patrocinada por Moscovo, um amigo e colega cortou relações comigo durante vários meses, acreditando que eu me tinha associado a gangsters e oligarcas do KGB.

A desconfiança dá tanto para um lado como para o outro. Em Moscovo tanto membros do Governo como cidadãos normais me disseram que os Estados Unidos querem minar os valores e a moral do povo russo. Apontam para um discurso, que provavelmente nunca foi proferido, por Allen Dulles, director da CIA, que terá sugerido minar os valores russos e transformar as suas mulheres em prostitutas. O discurso é mencionado aqui, mas como uma história apócrifa.

Também citam uma coisa alegadamente dita por Zbigniew Brzezinski, que pensam, erradamente, ter feito parte da administração Reagan, no sentido de que a América deve tentar minar a única instituição que permanece na Rússia: a Igreja Ortodoxa.

Mas descontando estes erros, eles têm alguma razão. Afinal de contas a Rússia, como muito do resto do mundo, está recheada de porcaria feita nos Estados Unidos, sobretudo pornografia. Quando me encontro com diplomatas recém-chegados às Nações Unidas, esperam encontrar proxenetas, prostitutas e pornógrafos. Ficam chocados quando se dão de caras com pessoas que rezam.

A América lidera, actualmente, o esforço para espalhar a agenda homossexual a nível global. Nomeamos embaixadores homossexuais para países tradicionais. A República Dominicana está furiosa com esse facto. É uma prioridade da política externa americana avançar a causa homossexual sempre que possível. Organizamos festas gay em embaixadas, até em sítios, como o Paquistão, onde isso ofende.

Mas é a Rússia que se encontra sob o foco dos activistas homossexuais e dos direitos humanos por causa de leis recém-criadas para limitar os avanços homossexuais. O Parlamento russo passou uma lei, quase por unanimidade, que proíbe a propaganda homossexual dirigida a crianças em idade escolar e manifestações públicas de homossexualidade, como marchas.

O dramaturgo homossexual Harvey Fierstein ia tendo um ataque no New York Times esta semana. Ele faz várias afirmações falsas sobre a lei, tal como que os pais que falem sobre homossexuais de forma positiva podem ver os seus filhos removidos ou ser presos. Segundo ele, a nova lei permitiria às forças de segurança identificar e prender turistas suspeitos de serem homossexuais. Tudo isto é falso e o Times devia ter vergonha de o ter publicado.

Até conservadores estão a envolver-se. O site Daily Caller de Tucker Carlson, publicou uma coluna de opinião na semana passada, chamando os homossexuais a envolver-se com a questão na Rússia.

Eu estive na Rússia para agradecer a posição firme que a Rússia tem tido em relação a estes assuntos nas Nações Unidas e para dizer que os conservadores americanos são a favor da lei sobre a homossexualidade.

As afirmações de Fierstein e da imprensa homossexual de que existe uma “guerra aos homossexuais” deixaram-me curioso. Acabei por descobrir que a verdade é outra.

Estava no Hotel Metropol, um dos mais antigos e prestigiados de Moscovo. Segunda-feira de manhã, à porta do hotel, observei um homem transsexual, agora “mulher”, a passear pela rua com calças pretas e uma camisola apertada, com decote para mostrar os seus novos peitos.

Protesto gay na Rússia

Ninguém reparou sequer. E ele não parecia estar particularmente preocupado em ser visto e chateado, muito menos detido pelas forças de segurança.

Na próxima noite, passeava ao pé do Bolshoi quando reparei em três homens peludos, com vestidos. Mais uma vez, ninguém reparou nem os tentou prender.

Curioso, fui à internet e meti “Gay Moscow” no Google. Longe de se ter refugiado no armário, a cena gay de Moscovo está à vista e orgulhosa. Dezenas de sites anunciavam restaurantes e bares. Até existem saunas.

Ouvimos dizer muita coisa sobre a Rússia hoje em dia: Corrupção, autoritarismo, abusos. Tanto de organizações como a Human Rights Watch, a ACLU e a Amnistia Internacional como por parte de malta conservadora. Mas questiono-me se as coisas são tão claras como nos dão a entender.

A afirmação de que a Rússia está em guerra contra os homossexuais é falsa. Que mais será falso? O que sei é que a Rússia está a experimentar um despertar religioso, liderado pela Igreja Ortodoxa.

O czar dos comboios russos, Vladimir Yakunin, com quem me encontrei, organizou recentemente uma visita à Rússia da Verdadeira Cruz de Santo André. Havia filas de cinco horas, debaixo de chuva, para a visitar. Felizmente, Yakunin organizou as coisas para que eu pudesse saltar a fila.

Encontrei-me também com o jovem bilionário Konstantin Malofeev, cujo gabinete está recheado de ícones religiosos. Ele está a trabalhar no sentido de aproximar os ortodoxos russos e os cristãos americanos.

Malofeev e muitos outros russos vêem-se como uma nação cristã, enviada para ajudar outros cristãos pelo mundo. Para eles, pelo menos, essa é a razão pela qual apoiam o regime de Assad; ele é melhor para os cristãos ortodoxos na Síria.

Ele questiona-se sobre se será possível forjar uma grande aliança global entre os ortodoxos e os católicos, e que efeito é que isso terá na guerra cultural global que está a ser avançada pela esquerda sexual. Eu partilho a sua curiosidade.

A conversa global é religiosa. Os secularistas podem dominar o Ocidente, mas para lá dele nem estão em cena, excepto na medida em que conseguem impor a sua agenda através de instituições internacionais para o desenvolvimento.

As nossas vozes poderiam ser muito mais poderosas se nos unirmos àqueles que muitos parecem ter interesse em silenciar.

Podemos partir do exemplo do Papa Francisco. Nos primeiros dias do seu pontificado recebeu em audiência o Metropolita Hilarion, director das Relações Externas da Igreja Russa. Hilarion deu a Francisco um ícone famoso e poderoso, importante para os ortodoxos, mas para os russos em geral: Nossa Senhora de Kazan. Francisco deu-o a Bento XVI quando se encontraram pela primeira vez, depois da sua eleição.

A Rússia é criticada, e com razão, por muitos dos seus actos. Mas poderá também estar sob ataque por razões que não estão inteiramente à vista.


Austin Ruse é presidente do Catholic Family & Human Rights Institute (C-FAM), sedeado em Nova Iorque e em Washington D.C., uma instituição de pesquisa que se concentra unicamente nas políticas sociais internacionais. As opiniões aqui expressas são apenas as dele e não reflectem necessariamente as políticas ou as posições da C-FAM.

(Publicado pela primeira vez na Sexta-feira, 26 de Julho 2013 em The Catholic Thing)

© 2013 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Um Quarto de Século de Cisma

Austin Ruse
Mais um vez, bispos cismáticos fizeram um ultimato à Igreja Católica. Reneguem os vossos ensinamentos, ou nunca mais voltamos.

A recente declaração dos três bispos restantes dos tradicionalistas da Sociedade Sacedotal de São Pio X afasta ainda mais qualquer esperança de que a Igreja se reconcilie com algum deles nos próximos tempos. Reparem que digo a Igreja reconciliar-se com eles, e não eles reconciliarem-se com a Igreja, porque para eles a reconciliação é toda de sentido único.

Numa declaração emitida no 25º aniversário do seu cisma, os três bispos insistem que o problema não tem nada a ver com a interpretação dos documentos do Concílio Vaticano II, mas com os documentos em si. Consideram que estes são perfeitamente claros e e perfeitamente heréticos.

Um dos trabalhos mais importantes dos últimos dois pontificados foi precisamente o esforço de determinar a interpretação correcta do Concílio, contra os mais loucos, e a colocação dos documentos na perspectiva da tradição da Igreja. Bento XVI insistiu que o Concílio devia ser lido através daquilo a que chamou uma “hermenêutica da continuidade”.

A SSPX entende o Concílio através de uma “hermenêutica da ruptura”. Eles dizem que o Concílio marcou o início de um “novo tipo de Magistério, até então desconhecido na Igreja, sem raizes na Tradição”. Aponta baterias, como fez sempre desde o início da sua revolta em 1988, à “liberdade religiosa, ecumenismo, colegialidade e a Nova Missa”.

A SSPX insiste que a liberdade religiosa equivale a insistir que Deus renuncie ao Seu reino sobre o homem e que isso equivale à “dissolução de Cristo”.

O Ecumenismo e o diálogo inter-religioso levaram a um ponto em que “uma grande parte do clero e dos fiéis já não vê em Nosso Senhor e na Igreja Católica o único caminho da Salvação”.

A SSPX também odeia aquilo a que chama a “Nova Missa”, que “diminui a afirmação do Reino de Cristo através da Cruz. O próprio rito encurta e obscurece a natureza sacrificial e propiciatória do Sacrifício Eucarístico”. A declaração da SSPX diz que a missa destrói a “Espiritualidade Católica”.

Há alguma verdade nas críticas à forma como as coisas evoluíram desde o fim do Vaticano II. O Ecumenismo tem sido um fracasso excepto nas questões em que tem sido posto em prática por católicos fiéis a trabalhar com Evangélicos em questões sociais.

E para mim não há qualquer dúvida que a Missa Tridentina é mais  bonita que a nova em quase tudo. Também é verdade que muitos católicos acreditam hoje que todos os caminhos levam a Deus, e que por isso a evangelização não é mesmo necessária.

Mas nem todos estes problemas são culpa do Concílio Vaticano II. Em vários aspectos, o Concílio tornou a Igreja suficientemente resistente para poder sobreviver aos golpes culturais que em larga medida já destruíram o Protestantismo mainstream.

Há mais de dois anos escrevi neste site que as conversações entre a Sociedade e a Igreja nunca chegariam a bom porto, por duas razões. Primeiro porque a Sociedade está a exigir demasiado. Eles querem mais do que a aprovação universal da Missa Tradicional. Eles querem que a Igreja renuncie aos ensinamentos de de um Concílio Ecuménico. Mas como disse o Cardeal Ratzinger, no “Relatório Ratzinger”, se rejeitarmos o Vaticano II, então também rejeitamos Trento, porque estamos a rejeitar a autoridade de ambos, isto é, a os ensinamentos dos bispos de todo o mundo, em Comunhão com o Papa.
 
Arcebispo Marcel Lefebvre
A segunda razão pela qual a SSPX provavelmente nunca vai voltar é mais complexa que a primeira. É mais do que simples rejeição do ensinamentos católico. Há também o orgulho: orgulho entrincheirado, orgulho que não aceitará a reconciliação, aconteça o que acontecer.

Mesmo que a Igreja renunciasse ao Concílio Vaticano II e impusesse a Missa Tridentina de forma universal, é provavel que o núcleo duro dos SSPX nunca regressem. Agora já se habituaram à sua própria autoridade e uma das coisas mais difíceis é a verdadeira obediência.

O regresso é improvável, mas não é impossível. Há poucas semanas um grupo previamente cismático viu os seus seminaristas prostrados no chão de uma Igreja em Roma, a serem ordenados ao sacerdócio por um arcebispo do Vaticano.

Os Filhos do Santíssimo Redentor chegaram a ser aliados próximos do Arcebispo Marcel Lefebvre, fundador da Sociedade de São Pio X. De facto, quando foram fundados em 1987 foram pedir a bênção a Lefebvre.

Até 2007 viveram no deserto eclesial até 2007, quando o Papa Bento XVI emitiu o motu proprio “Summorum Pontificum”, que permite a celebração universal da Missa Tradicional. Então o grupo pediu a Roma para se fazer uma reconciliação. Houve visitações. O Cardeal Levada da Comissão Pontifícia Ecclesia Dei esteve envolvido. E o ano passado o Papa concedeu a regularização.

Mas como seria de esperar, apesar de o grupo ter regressado a Roma, alguns membros individuais escolheram manter-se separados em cisma, com a Sociedade de São Pio X.

Para aqueles que insistem que a Sociedade não é cismática, considerem o seguinte: No documento que regulariza este grupo o texto oficial menciona mesmo o fim da sua “condição cismática”.

Os católicos tradicionalistas não são seres estranhos de outro planeta. São os nossos irmãos e irmãs que, em larga medida, são tão fiéis à Igreja como outros católicos – excepto na obediência eclesial . A sua energia, tanto física como intelectual, é algo a contemplar e a admirar, e fazem muita falta à Igreja hoje.

Se ao menos eles direccionassem essa energia a outros alvos que não a Igreja Católica.


Austin Ruse é presidente do Catholic Family & Human Rights Institute (C-FAM), sedeado em Nova Iorque e em Washington D.C., uma instituição de pesquisa que se concentra unicamente nas políticas sociais internacionais. As opiniões aqui expressas são apenas as dele e não reflectem necessariamente as políticas ou as posições da C-FAM.

(Publicado pela primeira vez na Sexta-feira, 12 de Julho 2013 em The Catholic Thing)

© 2013 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. 
Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Lições das Pequenas Almas Sofredoras

Austin Ruse
Ao longo dos meus últimos artigos tenho estado a contar a história das pequenas almas sofredoras:

A Audrey Stevenson morreu de leucemia, aos 7 anos, depois de levar toda a sua família à fé.

A Margaret Leo morreu com 14 anos, após uma vida alegre de caridade cristã, apesar de sofrer de espinha bífida.

O Brendan Kelly morreu aos 15. Tinha trissomia 21 e viveu a vida toda com leucemia, mas continua a inspirar todos os que o conheceram.

A primeira coisa que nos marca quando conhecemos estas histórias é perceber o quanto sofreram. Estamos a falar de sofrimento intenso, tanto físico como mental, de longa duração. Sofrimento atroz, do género de fazer o soldado mais rijo chamar pela mãe.

Tanto a Audrey como o Brendan foram sujeitos a tratamentos invasivos de quimioterapia, esteróides, punções lombares e, eventualmente, transfusões de medula. Viveram longos períodos sem sistema imunitário, com o perigo a espreitar por detrás de cada micróbio errante.

A Margaret Leo teve barras de titânio inseridas nas costas para travar o curvar da coluna. Em vez disso foram as barras que entortaram. Ainda hoje o seu pai guarda as barras tortas em cima da sua secretária, para nunca se esquecer do que é, verdadeiramente, um dia mau.

Os pais da Audrey tinham de obrigá-la a falar da sua dor, para que os médicos a pudessem ajudar. A Margaret raramente mencionava o seu sofrimento e, no geral, sorria apesar de tudo e durante os períodos de pior dor, o Brendan tentava fazer rir os seus pais, para que não se preocupassem com ele. A maioria das crianças não é assim. Nós, adultos, não somos assim.

Enquanto seres humanos simplesmente não somos capazes de imaginar este tipo de dor. Fugimos da dor. Escondemos a dor por detrás de analgésicos cada vez mais desenvolvidos. Refugiamo-nos na cama. Choramingamos e queixamo-nos. Falamos da nossa dor, talvez todos os dias. Um “Como é que isso vai?” pode espoletar um verdadeiro catálogo até das dores mais pequenas. É verdade que às vezes oferecemos a dor como sacrifício pelos outros, mas na maioria das vezes não o fazemos.

O sofrimento é um dos grandes mistérios. Ocupa não só as grandes mentes de todos os tempos, mas também o meu e o seu. Uma das Quatro Nobres Verdades do Budismo é sobre o sofrimento e de como usar o Nobre Caminho Octuplo para o evitar. O Hinduísmo vê o sofrimento como uma espécie de punição por mau comportamento. O Islão diz que os fiéis devem aguentar o sofrimento como uma prova da sua fé.

Só o Cristianismo vê o sofrimento como redentor, como uma forma de partilhar no sofrimento de Cristo na Cruz e de Lhe diminuir o sofrimento. Os católicos também acreditam que o sofrimento pode ser oferecido para diminuir a dor dos outros. Esta noção é perfeitamente estranha à maioria das religiões.

Uma leitora discordou veementemente de algumas das ideias no artigo sobre a Audrey. Simplesmente não era capaz de conceber que a sua história fosse verdadeira. Avisou que os adultos às vezes impõem as suas ideias aos mais novos e perguntou se os pais da Audrey não teriam incutido nela uma espécie de religiosidade precoce. A leitora, que é judia, questionou se às vezes os adultos não vêem coisas nas crianças que de facto não estão lá. É uma preocupação compreensível.


Uma vez dei uma entrevista sobre a Audrey a uma rádio católica. A entrevistadora sugeriu que eu investigasse o caso de outra menina com o mesmo nome, Audrey Santo, à volta da qual tinha crescido uma certa devoção. Depois de um acidente de natação, esta menina desenvolveu uma condição chamada mutismo acinético, que a deixou incapaz de se mexer e de falar. A sua mãe levou-a a Medjugorje e anunciou que a rapariga, a pedido da Virgem Maria, tinha aceite tornar-se uma alma vítima. Dizia-se que tinha as chagas, que as imagens choravam, e por aí fora. O bispo local sugeriu cautela em relação a toda a história.

Mas os casos sobre os quais escrevi não têm nada a ver com isto. Não há estátuas a chorar, nem chagas. Só crianças normais em circunstâncias extraordinárias. Eram antes de mais crianças, e não os objectos de imaginações religiosas. Nenhuma delas queria estar doente ou sofrer.

O Brendan era a alma de todas as festas. Vi fotografias de ele a dançar em casamentos com amigos e familiares a aplaudir. Adorava desporto. A Audrey tinha de facto um sentido aguçado de propriedade e chegava a evitar ir a festas de anos com medo de ouvir palavrões, mas não deixava de ser uma menina normal que brincava com as irmãs e com as amigas. A Margaret adorava ver os outros meninos a brincar no parque. Eram crianças normais a quem tinham sido dadas grandes cruzes para carregar – e grandes dons para as ajudar a carregá-las.

São os santos do mundo actual. Mais do que isso, são santos do nosso tempo, porque a outra coisa que noto sobre eles é que nasceram em grandes desertos espirituais. Enquanto as suas famílias eram em larga medida católicas praticantes, estas crianças cresceram num meio social de poder, influência e riqueza, que tende a fugir de religião. São os verdadeiros desertos dos tempos de riqueza.

O Brendan era amigo do James Pavitt, ex-chefe do serviço clandestino da CIA. Erik Prince, o polémico fundador do serviço de segurança privada Blackwater chorou como um bebé quando soube que Brendan tinha morrido, e transportou toda a sua grande família do Médio Oriente para irem ao funeral.

A Audrey nasceu numa família influente em França, com ligações e interesses nos Estados Unidos e noutros países.

A Margaret Leo tornou-se muito amiga de Clarence Thomas, o juiz do Supremo Tribunal. A sua fotografia ainda está na sua secretária, dentro de uma moldura feita por ela, de pauzinhos de gelado.

Quando pensamos em crianças a quem foram dados grandes dons espirituais, normalmente pensamos em pastores, ou algo parecido, como em Fátima e em Lourdes. Mas estas crianças eram diferentes. Estas receberam muitos bens materiais, excelentes oportunidades de educação e conhecimentos sociais. Deus colocou estas pequenas almas sofredoras nestes locais e neste tempo por uma boa razão, para que as suas histórias possam tocar as almas que habitam as casaronas de Great Falls, McLean, Paris e mais além.

Audrey Stevenson, Margaret Leo, Brendan Kelly, rogai por nós.


Austin Ruse é presidente do Catholic Family & Human Rights Institute (C-FAM), sedeado em Nova Iorque e em Washington D.C., uma instituição de pesquisa que se concentra unicamente nas políticas sociais internacionais. As opiniões aqui expressas são apenas as dele e não reflectem necessariamente as políticas ou as posições da C-FAM.

(Publicado pela primeira vez na Quarta-feira, 3 de Julho 2013 em The Catholic Thing)

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