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Wednesday, 24 July 2013

Um Quarto de Século de Cisma

Austin Ruse
Mais um vez, bispos cismáticos fizeram um ultimato à Igreja Católica. Reneguem os vossos ensinamentos, ou nunca mais voltamos.

A recente declaração dos três bispos restantes dos tradicionalistas da Sociedade Sacedotal de São Pio X afasta ainda mais qualquer esperança de que a Igreja se reconcilie com algum deles nos próximos tempos. Reparem que digo a Igreja reconciliar-se com eles, e não eles reconciliarem-se com a Igreja, porque para eles a reconciliação é toda de sentido único.

Numa declaração emitida no 25º aniversário do seu cisma, os três bispos insistem que o problema não tem nada a ver com a interpretação dos documentos do Concílio Vaticano II, mas com os documentos em si. Consideram que estes são perfeitamente claros e e perfeitamente heréticos.

Um dos trabalhos mais importantes dos últimos dois pontificados foi precisamente o esforço de determinar a interpretação correcta do Concílio, contra os mais loucos, e a colocação dos documentos na perspectiva da tradição da Igreja. Bento XVI insistiu que o Concílio devia ser lido através daquilo a que chamou uma “hermenêutica da continuidade”.

A SSPX entende o Concílio através de uma “hermenêutica da ruptura”. Eles dizem que o Concílio marcou o início de um “novo tipo de Magistério, até então desconhecido na Igreja, sem raizes na Tradição”. Aponta baterias, como fez sempre desde o início da sua revolta em 1988, à “liberdade religiosa, ecumenismo, colegialidade e a Nova Missa”.

A SSPX insiste que a liberdade religiosa equivale a insistir que Deus renuncie ao Seu reino sobre o homem e que isso equivale à “dissolução de Cristo”.

O Ecumenismo e o diálogo inter-religioso levaram a um ponto em que “uma grande parte do clero e dos fiéis já não vê em Nosso Senhor e na Igreja Católica o único caminho da Salvação”.

A SSPX também odeia aquilo a que chama a “Nova Missa”, que “diminui a afirmação do Reino de Cristo através da Cruz. O próprio rito encurta e obscurece a natureza sacrificial e propiciatória do Sacrifício Eucarístico”. A declaração da SSPX diz que a missa destrói a “Espiritualidade Católica”.

Há alguma verdade nas críticas à forma como as coisas evoluíram desde o fim do Vaticano II. O Ecumenismo tem sido um fracasso excepto nas questões em que tem sido posto em prática por católicos fiéis a trabalhar com Evangélicos em questões sociais.

E para mim não há qualquer dúvida que a Missa Tridentina é mais  bonita que a nova em quase tudo. Também é verdade que muitos católicos acreditam hoje que todos os caminhos levam a Deus, e que por isso a evangelização não é mesmo necessária.

Mas nem todos estes problemas são culpa do Concílio Vaticano II. Em vários aspectos, o Concílio tornou a Igreja suficientemente resistente para poder sobreviver aos golpes culturais que em larga medida já destruíram o Protestantismo mainstream.

Há mais de dois anos escrevi neste site que as conversações entre a Sociedade e a Igreja nunca chegariam a bom porto, por duas razões. Primeiro porque a Sociedade está a exigir demasiado. Eles querem mais do que a aprovação universal da Missa Tradicional. Eles querem que a Igreja renuncie aos ensinamentos de de um Concílio Ecuménico. Mas como disse o Cardeal Ratzinger, no “Relatório Ratzinger”, se rejeitarmos o Vaticano II, então também rejeitamos Trento, porque estamos a rejeitar a autoridade de ambos, isto é, a os ensinamentos dos bispos de todo o mundo, em Comunhão com o Papa.
 
Arcebispo Marcel Lefebvre
A segunda razão pela qual a SSPX provavelmente nunca vai voltar é mais complexa que a primeira. É mais do que simples rejeição do ensinamentos católico. Há também o orgulho: orgulho entrincheirado, orgulho que não aceitará a reconciliação, aconteça o que acontecer.

Mesmo que a Igreja renunciasse ao Concílio Vaticano II e impusesse a Missa Tridentina de forma universal, é provavel que o núcleo duro dos SSPX nunca regressem. Agora já se habituaram à sua própria autoridade e uma das coisas mais difíceis é a verdadeira obediência.

O regresso é improvável, mas não é impossível. Há poucas semanas um grupo previamente cismático viu os seus seminaristas prostrados no chão de uma Igreja em Roma, a serem ordenados ao sacerdócio por um arcebispo do Vaticano.

Os Filhos do Santíssimo Redentor chegaram a ser aliados próximos do Arcebispo Marcel Lefebvre, fundador da Sociedade de São Pio X. De facto, quando foram fundados em 1987 foram pedir a bênção a Lefebvre.

Até 2007 viveram no deserto eclesial até 2007, quando o Papa Bento XVI emitiu o motu proprio “Summorum Pontificum”, que permite a celebração universal da Missa Tradicional. Então o grupo pediu a Roma para se fazer uma reconciliação. Houve visitações. O Cardeal Levada da Comissão Pontifícia Ecclesia Dei esteve envolvido. E o ano passado o Papa concedeu a regularização.

Mas como seria de esperar, apesar de o grupo ter regressado a Roma, alguns membros individuais escolheram manter-se separados em cisma, com a Sociedade de São Pio X.

Para aqueles que insistem que a Sociedade não é cismática, considerem o seguinte: No documento que regulariza este grupo o texto oficial menciona mesmo o fim da sua “condição cismática”.

Os católicos tradicionalistas não são seres estranhos de outro planeta. São os nossos irmãos e irmãs que, em larga medida, são tão fiéis à Igreja como outros católicos – excepto na obediência eclesial . A sua energia, tanto física como intelectual, é algo a contemplar e a admirar, e fazem muita falta à Igreja hoje.

Se ao menos eles direccionassem essa energia a outros alvos que não a Igreja Católica.


Austin Ruse é presidente do Catholic Family & Human Rights Institute (C-FAM), sedeado em Nova Iorque e em Washington D.C., uma instituição de pesquisa que se concentra unicamente nas políticas sociais internacionais. As opiniões aqui expressas são apenas as dele e não reflectem necessariamente as políticas ou as posições da C-FAM.

(Publicado pela primeira vez na Sexta-feira, 12 de Julho 2013 em The Catholic Thing)

© 2013 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. 
Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 19 December 2012

3 - A Sociedade de São Pio X e os 360º

O líder da SSPX e o Papa Bento XVI
Todos conhecem a famosa (e provavelmente apócrifa) história do futebolista que se alegra por a sua vida ter dado uma volta de 360º…

Pois foi mais ou menos isso que se passou, até agora pelo menos, nas conversações entre o Vaticano e a Sociedade de São Pio X, que reúne os tradicionalistas que seguiram o Arcebispo Marcel Lefebvre e estão em situação de ruptura com Roma.

Durante a primeira metade do ano de 2012 falou-se e escreveu-se muito sobre a iminência da reunificação. Foi uma verdadeira montanha russa que começou com aproximação, depois aparente afastamento, depois aproximação tão grande que importantes vaticanistas e comentadores chegaram a dar o acordo por certo e, finalmente, o balde de água fria que foi a certeza de que não se tinha chegado a acordo.

Os documentos são confidenciais mas o que se sabe é que o Vaticano estava disposto a oferecer aos SSPX uma prelatura pessoal que lhes daria autonomia para se governarem, em comunhão plena com a Santa Sé. Mas ao que parece a exigência de que o grupo aceitasse que o Concílio Vaticano II não representava qualquer ruptura na doutrina da Igreja parece ter sido demais para o Bispo Fellay, actual líder do grupo, e os seus seguidores.

Muitos foram os que vaticinaram que este diálogo “ou ia ou rachava”, por assim dizer. A confirmar-se essas previsões, então rachou e os tradicionalistas poderão estar agora a sair definitivamente da órbita de Roma.

Se isso se confirmar, então é pena. Por um lado porque esta era uma reunificação muito desejada por Bento XVI, que investiu nela a grande custo pessoal. Por outro, porque assim aumenta a probabilidade de a SSPX começar a entrar na espiral de loucura que costuma caracterizar estes grupos cismáticos.

Apesar do fracasso do diálogo, pelo menos aparentemente e até agora, os efeitos não deixaram de se fazer sentir. Um dos quatro bispos tradicionalistas, o anti-semita e ferozmente anti-romano Williamson, foi afastado da sociedade e alguns padres saíram também para formar um novo grupo (acção típica da espiral de loucura de que falava).

É claro que o diálogo continua mas neste momento, e ao contrário do que pensava há seis meses, julgo que a reconciliação será bastante pouco provável.

Monday, 7 May 2012

"Luz da Manhã", tradicionalistas e São Tomé



Apesar da crise, os peditórios continuam a render mais dinheiro às organizações de solidariedade. A Cáritas conta com mais 300 milhões de euros!


Os tradicionalistas “não puderam recusar a proposta” de Bento XVI que deverá, até ao fim do mês, levar à reintegração da sociedade fundada por Marcel Lefebvre.

O júri que representa a Igreja no IndieLisboa atribuiu o prémio Árvore da Vida ao filme “Luz da Manhã”.

O bispo de São Tomé esteve em Lisboa e falou de um país onde 90% da população é pobre.

E para quem pensa peregrinar a Fátima, seja quando ou por que razão for, não deixem de levar este Guia. Se tiverem mais tempo aproveitem e façam o caminho de Bragança…

Monday, 30 April 2012

Maio, mês de reconciliação? E será que interessa?



Um leitor deste blogue sugeriu o dia 13. Seria uma data interessante, sobretudo se tivermos em conta que o bispo Bernard Fellay, o actual líder desta sociedade fundada pelo Arcebispo Marcel Lefebvre que se encontra em ruptura com Roma desde 1988, convocou há poucos anos uma “cruzada de terços” pela reunificação.

A data certa é um mistério. Se o Vaticano trabalhar ao seu ritmo, que não é o ritmo do mundo (como já sabemos pelas negociações a propósito dos feriados religiosos), então bem podemos esperar. Mas penso que o Papa não quererá perder muito mais tempo a este respeito. Esta unificação, a confirmar-se, configurará a concretização de um sonho e uma reconciliação pessoal. Ratzinger era prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé na altura em que se deu a ruptura e, então, foi incapaz de a evitar.

E se os tradicionalistas forem recebidos de volta à Igreja, como se espera, o que se passará?

Em termos de organização, o Papa certamente lhes oferecerá uma estrutura que lhes dá bastante autonomia. Alguma coisa do género da prelatura pessoal do Opus Dei ou do ordinariato pessoal dos ex-anglicanos. Assim os membros da SSPX ficarão em larga medida a salvo das interferências dos bispos liberais que, em muitos locais da Europa Ocidental, são muito contrários a esta reunificação. Exactamente qual será essa estrutura não se sabe, mas o Papa tem total liberdade para inventar a estrutura que bem quiser, portanto não adianta muito tentar adivinhar.

Ou não...
Qual será a reacção da SSPX? Em primeiro lugar quero esclarecer que embora conheça uns quantos católicos de pendor tradicionalista, não conheço pessoalmente ninguém da SSPX. Em Portugal não são propriamente numerosos. Por isso tudo o que escrevo a seguir diz respeito ao que vou lendo, no meu esforço de acompanhar esta situação.

Com base nessas leituras, que incluem artigos, blogues e comentários aos mesmos feitos por simpatizantes e/ou membros da SSPX, penso que se engana quem pensa que os tradicionalistas regressam a Roma quais filhos pródigos, humildemente agradecidos pela magnanimidade do pai.

Há excepções, e já li alguns comentários de tradicionalistas a elogiar a benevolência de Bento XVI, mas a tendência geral é de um enorme triunfalismo, eventualmente de missão, de quem vem salvar Roma dos seus desvios. Os tradicionalistas não são conhecidos pela sua flexibilidade e, enquanto grupo, penso que o convívio debaixo do mesmo tecto nem sempre será fácil. A verdade, também, é que raramente estarão mesmo debaixo do mesmo tecto, uma vez que terão a sua estrutura autónoma.

Poderei estar a ser injusto com esta análise, se for o caso peço desculpa.

Who cares?
Finalmente, alguns poderão perguntar mas, afinal de contas, o que é que isto interessa?

Interessa muito, e basta olhar à nossa volta para ver o que se está a passar na Igreja actualmente para perceber porquê.

Sem querer fazer juízos de valor, o que é que vemos? O mesmo Papa que abriu as portas aos anglicanos conservadores (esvaziando, na prática, o diálogo ecuménico com uma igreja que insiste em cavalgar rumo ao liberalismo extremo) abre agora as portas aos católicos tradicionalistas que estavam afastados. No mesmo mês sabemos que a Congregação para a Doutrina da Fé criticou duramente as religiosas americanas pelos seus desvios à doutrina católica e a insistência em promover causas contrárias ao magistério.

Na Europa, onde a SSPX é mais forte, os tradicionalistas regressam a uma Igreja em que está a ocorrer, debaixo dos nossos olhos, uma rebelião liberal nos países germânicos. Centenas de padres assinam “manifestos pela desobediência”.

Aos 85 anos, e depois de sete na Cadeira de Pedro, o Papa está a tomar medidas concretas para reforçar a sua posição, que é conservadora e tradicionalista, sem ser extremista. Os resultados levarão tempo a fazer-se notar, mas penso que a atitude dos bispos americanos no seu “conflito” comObama já é um reflexo desta nova realidade.

Portugal não é um bom espelho desta realidade, mas a clivagem entre uma Igreja conservadora e uma Igreja liberal é demais evidente em várias partes do mundo.

Quando foi eleito muitos vaticinaram um duro pontificado do “Pastor Alemão”. Bento XVI tem surpreendido os mais críticos e, até certo ponto, desiludido os seus defensores mais ferozmente conservadores.

Afinal, ao que parece, o “Pastor Alemão” ainda sabe ladrar.

Filipe d’Avillez

Monday, 9 April 2012

Silêncio prometedor da Sociedade de São Pio X?

A seis dias do prazo dado por Roma para uma nova resposta dos responsáveis da Sociedade de São Pio X (SSPX), fundada pelo falecido arcebispo Marcel Lefebvre, o que mais me surpreende é precisamente o silêncio acerca deste assunto.

Vamos recapitular. Depois de alguns anos de conversações a Igreja fez uma proposta concreta à Sociedade, que se encontra fora de comunhão com Roma. Caso a Sociedade aceite um “preâmbulo doutrinal”, cujo conteúdo não foi revelado, terá direito a um lugar especial, com bastante autonomia, dentro da Igreja, com a sua situação canonicamente resolvida. Mais uma vez, os detalhes não são certos, mas foram descritos como bastante generosos.

A Sociedade, chefiada actualmente pelo Arcebispo Fellay, enviou uma resposta para Roma que foi considerada insuficiente. Depois de algum estudo Roma disse-o e afirmou que esperava outra resposta até ao dia 15 de Abril. O termo “ultimato” nunca foi usado, mas tem sido entendido como tal por muitos.

Acontece que antes da Sociedade enviar a sua resposta inicial o arcebispo Fellay falou em público em várias ocasiões deixando várias vezes a impressão de que ela seria negativa.

Agora, pelo contrário, parece reinar o silêncio. Com o tríduo pascal não têm faltado ocasiões para fazer homilias em que possa expressar novamente essas ou outras opiniões, mas Fellay não o tem feito, contrastando claramente com atitudes anteriores, sobre os quais escrevi aqui e aqui.

Que quer isto dizer? Será o silêncio um bom sinal? Talvez as declarações negativas de há meses tenham sido uma forma de “bater o peito” e mostrar que a Sociedade não iria ceder de mão beijada. Não leiam isto como uma crítica, pode ser uma forma de tentar manter unida a Sociedade, onde certamente existem opiniões divergentes.

Dia 15 de Abril a resposta da SSPX será conhecida. Se é para ser tornada pública no imediato ou não, não sei, mas estaremos atentos.

Todos aqueles que desejam que essa união aconteça devem seguir o principal conselho tanto de Roma como dos membros da SSPX e rezar. Mas este silêncio, em minha opinião, pode ser um sinal prometedor.

Filipe d’Avillez

Friday, 16 December 2011

Hitchens, Lefebvre e Rainer Maria Rilke

Temos muitas notícias para irem digerindo este fim-de-semana.

Hoje foi divulgada a mensagem para o próximo Dia Mundial da Paz. Vejam aqui o essencial, com link para a mensagem completa. Ontem Bento XVI alertou para o perigo das ideologias sem Deus.


Da Holanda surgiu um relatório que aponta que houve entre 10 e 20 mil crianças abusadas em instituições católicas desde 1945. Os dados, para além de tristes, são interessantes. Confirma-se, por exemplo, que as instituições seculares apresentam números idênticos, mas é fraco consolo…

Ontem morreu Christopher Hitchens. O homem tinha muitas facetas, naturalmente nós destacámos aquelas que se cruzam com a religião, desde a sua militância anti-religiosa ao seu ódio de estimação por madre Teresa de Calcutá.

Boas notícias para os cristãos na Terra Santa, esperam-se 90 mil peregrinos este Natal naquelas bandas.

Boas notícias também de Viseu, onde os padres se têm revelado generosos ao doar parte do seu subsídio de Natal para o fundo de emergência social.

Para quem gosta de Teatro, atenção que Miguel Loureiro leva a palco “Vida de Maria” de Rainer Maria Rilke, fá-lo, confessa, também por devoção.

Lefebvrianos dizem que não. E agora?

Ao que parece a Sociedade de São Pio X vai rejeitar a proposta feita por Roma para reunificação. Os detalhes estão nesta notícia.

Que dizer deste aparente falhanço das negociações?

Em primeiro lugar um cristão deve recordar que embora a situação pareça impossível, a Deus nada é impossível.

Em segundo lugar, porém, é com muita pena que vejo o processo a chegar a um beco sem saída. Este sempre foi um projecto pessoal de Bento XVI, não duvido que ele desejava muito a regularização da SSPX e que acreditava que a sua reintegração na plena comunhão da Igreja pudesse servir para fortalecer a “reforma da reforma” que parece apostado em fazer.

Acima de tudo, a recusa e os termos em que é feita são um duro golpe da ala tradicionalista para um Papa que todos os dias tem de lidar com obstáculos colocados por bispos da ala liberal, que fazem tábua rasa dos seus documentos e das suas recomendações, por exemplo, no campo da liturgia.

Aparentemente a resposta da SSPX vai ser algo do género “obrigado pela vossa proposta, mas não a aceitamos. E se em vez de sermos nós a mudar a nossa visão fossem vocês a mudar para que nos possamos sentir em casa?”

Por um lado até se percebe o optimismo dos lefebvrianos. Olham para os seminários vazios da Igreja Católica e para os seus, que estão cheios, e abanam a cabeça. Olham para as missas com fantoches gigantes e sucessivos atropelos litúrgicos nas catedrais europeias e sentem-se reconfortados com as suas missas solenes. Vêem centenas de padres na Áustria a assinar “manifestos de desobediência” e consolam-se dizendo que estão firmemente agarrados à tradição imutável da Igreja.

Mas há um problema, estão fora de comunhão com Pedro. A consumar-se um “chumbo” à iniciativa romana, o cisma poderá tornar-se definitivo.

E depois? Depois, na minha opinião, assistiremos ao que tem acontecido a todos os grupos que entram em cisma convencidos da sua superioridade, uma espiral descendente em direcção à loucura, bizarria e obscuridade. Pode levar décadas, mas não tenho dúvidas de que acontecerá.

A Igreja Católica está em crise, sem dúvida, embora essa crise se faça sentir sobretudo nas sociedades ocidentais (ao criticar os seminários vazios na Europa, Monsenhor Bernard Fellay não fala dos africanos ou asiáticos que rebentam pelas costuras), mas já passou por muitas e há-de sair de pé. Os lefebvrianos que ficarem na SSPX preferem saltar de um barco desorientado e morrer afogados na certeza das suas verdades a permanecer e contribuir para que o rumo seja corrigido.

Penso que um dos primeiros efeitos da recusa será uma onda de deserções individuais, ou de pequenos grupos que regressarão a Roma. A SSPX está presente em muitos países e é ilusão pensar que não tem as suas próprias divisões internas. Essas poderão tornar-se mais aparentes agora, levando mesmo a fracturas.

Quando surgiu a notícia do “convite” de Roma, num blogue católico mas tradicionalista e próximo das posições dos Lefebvrianos os comentários foram bem indicativos da vontade que muitos dos seus membros têm de regressar à plena comunhão. Esses dificilmente se manterão no caso de uma rejeição que mais parece fruto de birra do que convicção.

Nos Evangelhos Jesus deixa bem claro o que acontece aos ramos que se separam da vinha. Ao olhar para toda esta situação só me vem à cabeça o cartoon de uma pessoa que serra um ramo alto enquanto se mantém sentado alegremente em cima dele.

Filipe d’Avillez

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