quarta-feira, 31 de julho de 2013

Carta de Moscovo

Austin Ruse
Recentemente disse a uma senhora da Letónia que tinha estado em Moscovo e que me tinha reunido com o Governo para agradecer a sua posição firmemente pró-família nas Nações Unidas. Ela abanou um dedo ossudo na minha direcção e exclamou: “Não são de confiança. Se estão do seu lado, é por outras razões. São mentirosos!”

Depois de no ano passado ter participado numa conferência em Rodes, patrocinada por Moscovo, um amigo e colega cortou relações comigo durante vários meses, acreditando que eu me tinha associado a gangsters e oligarcas do KGB.

A desconfiança dá tanto para um lado como para o outro. Em Moscovo tanto membros do Governo como cidadãos normais me disseram que os Estados Unidos querem minar os valores e a moral do povo russo. Apontam para um discurso, que provavelmente nunca foi proferido, por Allen Dulles, director da CIA, que terá sugerido minar os valores russos e transformar as suas mulheres em prostitutas. O discurso é mencionado aqui, mas como uma história apócrifa.

Também citam uma coisa alegadamente dita por Zbigniew Brzezinski, que pensam, erradamente, ter feito parte da administração Reagan, no sentido de que a América deve tentar minar a única instituição que permanece na Rússia: a Igreja Ortodoxa.

Mas descontando estes erros, eles têm alguma razão. Afinal de contas a Rússia, como muito do resto do mundo, está recheada de porcaria feita nos Estados Unidos, sobretudo pornografia. Quando me encontro com diplomatas recém-chegados às Nações Unidas, esperam encontrar proxenetas, prostitutas e pornógrafos. Ficam chocados quando se dão de caras com pessoas que rezam.

A América lidera, actualmente, o esforço para espalhar a agenda homossexual a nível global. Nomeamos embaixadores homossexuais para países tradicionais. A República Dominicana está furiosa com esse facto. É uma prioridade da política externa americana avançar a causa homossexual sempre que possível. Organizamos festas gay em embaixadas, até em sítios, como o Paquistão, onde isso ofende.

Mas é a Rússia que se encontra sob o foco dos activistas homossexuais e dos direitos humanos por causa de leis recém-criadas para limitar os avanços homossexuais. O Parlamento russo passou uma lei, quase por unanimidade, que proíbe a propaganda homossexual dirigida a crianças em idade escolar e manifestações públicas de homossexualidade, como marchas.

O dramaturgo homossexual Harvey Fierstein ia tendo um ataque no New York Times esta semana. Ele faz várias afirmações falsas sobre a lei, tal como que os pais que falem sobre homossexuais de forma positiva podem ver os seus filhos removidos ou ser presos. Segundo ele, a nova lei permitiria às forças de segurança identificar e prender turistas suspeitos de serem homossexuais. Tudo isto é falso e o Times devia ter vergonha de o ter publicado.

Até conservadores estão a envolver-se. O site Daily Caller de Tucker Carlson, publicou uma coluna de opinião na semana passada, chamando os homossexuais a envolver-se com a questão na Rússia.

Eu estive na Rússia para agradecer a posição firme que a Rússia tem tido em relação a estes assuntos nas Nações Unidas e para dizer que os conservadores americanos são a favor da lei sobre a homossexualidade.

As afirmações de Fierstein e da imprensa homossexual de que existe uma “guerra aos homossexuais” deixaram-me curioso. Acabei por descobrir que a verdade é outra.

Estava no Hotel Metropol, um dos mais antigos e prestigiados de Moscovo. Segunda-feira de manhã, à porta do hotel, observei um homem transsexual, agora “mulher”, a passear pela rua com calças pretas e uma camisola apertada, com decote para mostrar os seus novos peitos.

Protesto gay na Rússia

Ninguém reparou sequer. E ele não parecia estar particularmente preocupado em ser visto e chateado, muito menos detido pelas forças de segurança.

Na próxima noite, passeava ao pé do Bolshoi quando reparei em três homens peludos, com vestidos. Mais uma vez, ninguém reparou nem os tentou prender.

Curioso, fui à internet e meti “Gay Moscow” no Google. Longe de se ter refugiado no armário, a cena gay de Moscovo está à vista e orgulhosa. Dezenas de sites anunciavam restaurantes e bares. Até existem saunas.

Ouvimos dizer muita coisa sobre a Rússia hoje em dia: Corrupção, autoritarismo, abusos. Tanto de organizações como a Human Rights Watch, a ACLU e a Amnistia Internacional como por parte de malta conservadora. Mas questiono-me se as coisas são tão claras como nos dão a entender.

A afirmação de que a Rússia está em guerra contra os homossexuais é falsa. Que mais será falso? O que sei é que a Rússia está a experimentar um despertar religioso, liderado pela Igreja Ortodoxa.

O czar dos comboios russos, Vladimir Yakunin, com quem me encontrei, organizou recentemente uma visita à Rússia da Verdadeira Cruz de Santo André. Havia filas de cinco horas, debaixo de chuva, para a visitar. Felizmente, Yakunin organizou as coisas para que eu pudesse saltar a fila.

Encontrei-me também com o jovem bilionário Konstantin Malofeev, cujo gabinete está recheado de ícones religiosos. Ele está a trabalhar no sentido de aproximar os ortodoxos russos e os cristãos americanos.

Malofeev e muitos outros russos vêem-se como uma nação cristã, enviada para ajudar outros cristãos pelo mundo. Para eles, pelo menos, essa é a razão pela qual apoiam o regime de Assad; ele é melhor para os cristãos ortodoxos na Síria.

Ele questiona-se sobre se será possível forjar uma grande aliança global entre os ortodoxos e os católicos, e que efeito é que isso terá na guerra cultural global que está a ser avançada pela esquerda sexual. Eu partilho a sua curiosidade.

A conversa global é religiosa. Os secularistas podem dominar o Ocidente, mas para lá dele nem estão em cena, excepto na medida em que conseguem impor a sua agenda através de instituições internacionais para o desenvolvimento.

As nossas vozes poderiam ser muito mais poderosas se nos unirmos àqueles que muitos parecem ter interesse em silenciar.

Podemos partir do exemplo do Papa Francisco. Nos primeiros dias do seu pontificado recebeu em audiência o Metropolita Hilarion, director das Relações Externas da Igreja Russa. Hilarion deu a Francisco um ícone famoso e poderoso, importante para os ortodoxos, mas para os russos em geral: Nossa Senhora de Kazan. Francisco deu-o a Bento XVI quando se encontraram pela primeira vez, depois da sua eleição.

A Rússia é criticada, e com razão, por muitos dos seus actos. Mas poderá também estar sob ataque por razões que não estão inteiramente à vista.


Austin Ruse é presidente do Catholic Family & Human Rights Institute (C-FAM), sedeado em Nova Iorque e em Washington D.C., uma instituição de pesquisa que se concentra unicamente nas políticas sociais internacionais. As opiniões aqui expressas são apenas as dele e não reflectem necessariamente as políticas ou as posições da C-FAM.

(Publicado pela primeira vez na Sexta-feira, 26 de Julho 2013 em The Catholic Thing)

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1 comentário:

  1. LOL fundamentalistas religiosos e homófobos ressabiados a tentar distorcer a realidade

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