quarta-feira, 1 de outubro de 2014

A Razão é Mais que Meros Argumentos

Francis J. Beckwith
O coração tem razões que a razão desconhece... Chegamos à verdade não só pela razão, mas também pelo coração. – Blaise Pascal (1623-1662)

Há cristãos cujas vidas parecem uma Quaresma sem Páscoa. – Papa Francisco

A minha primeira atracção pela filosofia chegou através da apologética cristã. Desde que me lembro, os aspectos cognitivos da minha fé – e como justificá-los – ocuparam a minha mente. Em 1968, quando os meus pais me perguntaram o que queria para a minha Primeira Comunhão, pedi uma Bíblia. Todos os meus colegas pediram uma medalha ou outra, mas eu fui atraído pelo λόγος. Era um puto católico fora do comum.

Na adolescência abandonei a Igreja e tornei-me evangélico. Sentia-me atraído por autores que se dedicavam a defender as credenciais intelectuais do Cristianismo. Antes de ir para a Universidade de Fordham, em 1984, para fazer o meu mestrado e doutoramento em filosofia estudei numa faculdade evangélica onde tirei um mestrado em apologética.

Ao longo dos anos, como já referi nestas páginas, comecei a discernir em mim o desejo desordenado de tratar as minhas crenças cristãs apenas como dados sobre os quais podia exercer o poder desapaixonado da razão, como se fossem apenas uma colecção de proposições que eu devia comprovar para minha satisfação. Em vez de ver o conjunto das minhas crenças como um aspecto integral mas não exclusivo de uma caminhada que não se pode percorrer sem as virtudes teológicas da fé, esperança e caridade, abordava-as como se não passassem de uma colecção de problemas a resolver.

Comecei também a descobrir que alguns dos meus heróis da apologética evangélica não eram, afinal, pessoas muito simpáticas. Eram intelectualmente brilhantes, claro, e enfrentavam quem fosse preciso com uma variedade de argumentos inteligentes e sedutores. Mas no fim de contas não queria ser como eles. Não obstante os seus apelos por um Cristianismo intelectualmente sério, alguns tendiam a aceitar atalhos intelectuais em vez de dedicar o tempo necessário para pesar paciente e cuidadosamente os argumentos dos seus críticos.

Houve dois, em particular, que à medida que envelheceram se tornaram caricaturas da sua juventude tão promissora. As virtudes que antes os tinham servido tão bem – a juventude, o charme e o raciocínio rápido – começaram a esvanecer na medida em que os vícios, mal contidos na sua juventude, se começaram a realçar. A dada altura deixaram de ser pessoas com mau feitio mas com imensas qualidades, tornando-se velhos zangados, descansando sobre louros antigos.
Razão e coração
Como é evidente tinha muitos outros heróis apologistas que não eram só academicamente brilhantes, mas também decentes e boas pessoas. Ao contrário das primeiras, estas eram pessoas de oração, devoção, grande piedade e caridade pessoal. A sua fé cristã não se podia reduzir a um combate intelectual, possuíam uma maneira de ser atraente e irradiavam um sentido de alegria, contentamento e verdadeira curiosidade intelectual. Queria ser como eles.

Quando reentrei para a Igreja Católica, há quase oito anos, descobri um fenómeno semelhante. Alguns apologistas católicos eram como o primeiro grupo que tinha encontrado quando era protestante: tinham argumentos fantásticos, mas almas feias. Pareciam estar sempre zangados, rejeitando os seus críticos como tolos cegos movidos por má-fé.

Mas os outros, para minha grande alegria, eram como o segundo grupo. Compreendiam que a evangelização não tem a ver com apresentar argumentos aos nossos vizinhos para os ganhar para Jesus; passa por introduzir os nossos irmãos a Jesus através do nosso exemplo para que se sintam atraídos a ouvir os nossos argumentos.

Acredito que seja isto que o Papa Francisco nos esteja a tentar ensinar sobre a Nova Evangelização. Como o próprio escreve na sua exortação apostólica “Evangelii Gaudium”, de 2013: 

É verdade que, na nossa relação com o mundo, somos convidados a dar razão da nossa esperança, mas não como inimigos que apontam o dedo e condenam. A advertência é muito clara: fazei-o “com mansidão e respeito” (1 Pd 3, 16) e “tanto quanto for possível e de vós dependa, vivei em paz com todos os homens” (Rm 12, 18). E somos incentivados também a vencer “o mal com o bem” (Rm 12, 21), sem nos cansarmos de “fazer o bem” (Gal 6, 9) e sem pretendermos aparecer como superiores, antes “considerai os outros superiores a vós próprios” (Fl 2, 3).


(Publicado pela primeira vez na Sexta-feira, 26 de Setembro de 2014 em The Catholic Thing)

Francis J. Beckwith é professor de Filosofia e Estudos Estado-Igreja na Universidade de Baylor. É autor de Politics for Christians: Statecraft as Soulcraft, e (juntamente com Robert P. George e Susan McWilliams), A Second Look at First Things: A Case for Conservative Politics, a festschrift in honor of Hadley Arkes.

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