quarta-feira, 29 de outubro de 2014

A Evolução e a Fé são Irreconciliáveis?

Por David G. Bonagura Jr.
“A verdade não pode contradizer a verdade”. Assim ensinou o Papa Leão XIII e é por essa perspectiva que a Igreja Católica aborda a ciência e a revelação de Deus. Não existe uma única verdade científica que contradiga a palavra de Deus. Se as coisas do mundo natural foram criadas por um Deus omnipotente e reflectem a sua presença, então devem estar de acordo com aquilo que Deus revelou de si mesmo e do Universo, através da sagrada tradição e das sagradas Escrituras.

Às vezes as novas descobertas científicas parecem desafiar a nossa compreensão religiosa do mundo, como quando aprendemos que é o Sol e não a Terra que se encontra no centro do sistema solar. Mas este facto não só não afecta a centralidade do ser humano na criação de Deus (o dogma que supostamente era posto em causa na altura), como acrescenta uma nova perspectiva sobre outra verdade da revelação: que Cristo, representado na iconografia primitiva como o sol, é o verdadeiro centro e fonte de vida da criação e das nossas vidas.

Não há, por isso, qualquer razão para afirmar – como fez um biólogo recentemente no New York Times – que a ciência e a religião são irreconciliáveis. Nem nos devemos contentar em dizer que a ciência e a religião se resumem a “magistérios não coincidentes” que dizem respeito, respectivamente, a factos e a valores. Pelo contrário, os “factos” da ciência são a fundação racional sobre a qual assentam a revelação sobrenatural e os seus “valores”. Claro que a ciência e a fé têm objectos diferentes, que têm em consideração as suas diferenças inerentes mas, com o São João Paulo II, sabemos que não existe “razão para qualquer concorrência entre razão e fé: cada um contém o outro e cada um tem o seu campo de acção”.

Mais do que qualquer outra teoria científica contemporânea, a evolução constitui um feroz ataque à compreensão judaico-cristã da origem da humanidade. Desde os autocolantes nos carros que mostram um peixe, símbolo do Cristianismo, com pernas (às vezes com a legenda “Darwin”) ao recente artigo no Times que tenta explicar porque é que a fé e a teoria da evolução são incompatíveis, certo defensores da evolução têm afirmado publicamente que a sua versão da génese da humanidade é correcta e que o Genesis não passa de uma história parva.  

É fundamental para a Igreja enfrentar os desafios da teoria da evolução e das origens da humanidade, uma vez que ela ensina de forma infalível que os seres humanos são feitos à imagem e semelhança de Deus, que dotou cada um de uma alma imortal. (A Igreja nunca ensinou como é que isto se passou, uma vez que isso nunca nos foi revelado). Algumas teorias da evolução (existem muitas variações) contradizem esta verdade, afirmando que a existência da humanidade é um acidente material resultante de mutações genéticas e não de intervenção divina. Tais teorias devem ser consideradas incompletas, uma vez que excluem Deus do processo de criação.

Num famoso discurso, São João Paulo descreveu a teoria da evolução como “mais do que uma hipótese”, embora tenha usado o mesmo discurso para apontar os problemas com certas abordagens filosóficas da teoria. Mas deixemos de lado os méritos da teoria da evolução em si. O biólogo do Times dá aos seus leitores três razões pelas quais a teoria da evolução exige que se abandone a fé judaico-cristã na criação. Estas razões, que dizem mais respeito a conclusões humanas do que à ciência, podem ser desmontadas dentro do âmbito científico.

Pe. George Lemaitre, autor da
teoria do Big Bang
Em primeiro lugar, o autor argumenta que “um processo inteiramente natural e espontâneo, nomeadamente a variação aleatória e a selecção natural” explica a complexidade de organismos que aparentemente requerem um autor inteligente e sobrenatural. Mesmo que tomemos como boa essa afirmação, este “fenómeno inteiramente mecânico e estatisticamente poderoso”, apenas exclui a criação Deus ex machina defendida por certas leituras fundamentalistas e equivocadas da Bíblia. Este método não exclui a criação física por Deus através da causalidade secundária, o modus operandi normal de Deus no mundo. Quanto à suposta aleatoriedade, São João Paulo ensina-nos que aos olhos de Deus não há coincidências.

Em segundo lugar, o autor aponta para as ligações filogenéticas entre diferentes espécies. Mas este facto também não faz nada para excluir Deus do processo da criação. Na melhor das hipóteses a diferença extraordinária que existe entre os seres humanos e outros primatas com uma estrutura de ADN semelhante (alguma vez se viu um chimpanzé a debater as suas origens?) aponta para a existência de uma alma humana infundida nos humanos por Deus. Esta é a grande diferença entre homens e bestas. O autor tem razão num ponto, porém: “Nenhum traço literalmente sobrenatural foi alguma vez encontrado no Homo sapiens”. A biologia evolutiva, por si, não é capaz de medir a alma imaterial, que é produto de Deus e não da criação material.

Por fim, o problema do mal é colocado de uma perspectiva evolutiva: a predação, a doença e a morte mostram que os humanos “são produzidos por um processo natural e totalmente amoral, sem qualquer indicação da existência de um criador controlador e benevolente”. Mas o esforço levado a cabo pelos homens – em todos os tempos e em todas as culturas e religiões – para encontrar sentido no sofrimento e atribuir códigos morais à procriação, mostram que há muito a dizer sobre estes animais racionais do que meramente a sua natureza animal. Os biólogos têm tentado encontrar um “gene moral”, mas o sentido e a moralidade transcendem os limites daquilo que qualquer outro animal pode fazer. É estranho que uma espécie supostamente gerada pelo acaso, sem qualquer sentido, tenha esta vontade inata tão intensa de encontrar sentido em todas as coisas.

Pedimos desculpa ao nosso professor de biologia, mas os seus alunos e leitores não precisam de abandonar a sua fé judaico-cristã à luz da teoria da evolução. Pelo menos em termos das três críticas que ele propõe, não há nada na dimensão científica da evolução que exclua o papel de Deus na criação dos humanos e na infusão das suas almas. Pelo contrário, talvez o professor é que precisa de reavaliar a sua fé na evolução, interpretada a uma luz intencionalmente ateia. 


David G. Bonagura, Jr. é professor assistente de Teologia no Seminário da Imaculada Conceição, em Huntington, Nova Iorque.

(Publicado pela primeira vez na Quinta-feira, 23 de Outubro de 2014 no The Catholic Thing)

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