terça-feira, 14 de outubro de 2014

“Deus pode gostar de mim assim?”

Transcrição integral da entrevista à irmã Maria Vaz Pinto, sobre o seu trabalho de acompanhamento espiritual de pessoas homossexuais. Pode ler a entrevista, conforme foi publicada, aqui.


Há quanto tempo acompanha pastoralmente homossexuais?
Eu não trabalho propriamente numa “pastoral dos homossexuais”. Faço um trabalho pastoral com jovens ou adultos onde aparecem pessoas que são homossexuais.

A primeira vez que alguém me contou que temia ser homossexual, foi há uns 14-15 anos e a primeira vez que acompanhei uma pessoa homossexual foi há cerca de 10 anos.

O seu trabalho é especificamente com mulheres, ou também com homens?
O meu trabalho pastoral é com todas as pessoas, homens e mulheres. No entanto, é verdade que para um acompanhamento espiritual me procuram mais mulheres que homens. Talvez pela simples razão de que uma mulher se pode sentir mais à vontade, para falar da sua intimidade, com outra mulher.

Quais diria serem as principais questões entre os homossexuais?
A primeira questão que me põem é a possibilidade do amor de Deus: “Deus, e os outros, podem gostar de mim ‘assim’? E a luta interior que esta dúvida causa: “Mas foi Deus que me criou ‘assim’!...” Depois, vem a questão da aceitação pessoal: “Como é que aquilo que define melhor uma pessoa, a sua capacidade de amar, em mim está ‘errado’”?

A proposta da Igreja para estes casos é de uma vida casta. Na prática, considera que é útil ou fácil fazer esta proposta às pessoas com quem trabalha?
Diria que é necessário fazer essa proposta por fidelidade à Igreja.

Também diria que não é fácil, sobretudo quando a pessoa não se sente capaz ou chamada a viver uma vida de celibato, ou já escolheu uma vida sexual activa.

Aí aparecem muitas vezes os problemas de pertença ou de experiência de exclusão da Igreja: “Como é que a Igreja pode pedir a todas as pessoas homossexuais que sejam celibatárias? Eu não me sinto chamado a ser celibatário… Então, não posso pertencer à Igreja? Não posso aceder aos sacramentos? Não tenho lugar nela?”

O facto de ser celibatária permite-lhe transmitir essa ideia com outra credibilidade?
O facto de ser celibatária permite-me dizer às pessoas – a qualquer pessoa – que é possível amar plenamente sendo celibatária, e acho que pode ajudar a relativizar ou dissociar a ideia de que para ser feliz é necessário ser casado ou ter uma vida sexual activa.

Para os casos em que a pessoa diz que não pode, ou não quer, viver em castidade, que abordagem procura?
Procuro fazer caminho com a pessoa a partir do “lugar” em que ela está; ajudá-la a encontrar-se com o amor de Deus e, desde aí, “responder-Lhe” com uma vida de amor e serviço aos outros. Se a pessoa, conhecendo a orientação da Igreja, em consciência e no pleno uso da sua liberdade, vê que não pode, ou não quer, viver o celibato que a Igreja lhe propõe, procuro ajudá-la a viver uma relação estável, um “amor até ao fim”, em fidelidade, generosidade e entrega totais.

Existe revolta entre estas pessoas para com a Igreja?
Em algumas, sim, mas não em todas.

Algumas, sentem-se excluídas ou muito culpabilizadas por não poderem viver o que a Igreja propõe e, por isso, revoltam-se e zangam-se muito. Essas, geralmente, afastam-se da Igreja e chegam mesmo a cortar a relação com Deus.

Outras vivem o seu sentimento de pertença à Igreja com luta e sofrimento mas não com revolta, esperando que a Igreja, um dia, possa reconhecer a condição homossexual como uma possibilidade antropológica e não como perversão ou pecado.

Na sua experiência, os homossexuais defendem o casamento entre pessoas do mesmo sexo ou a adopção por homossexuais e consideram que quem se opõe a estas questões é homofóbico?
Eu não generalizaria: Nem todas pensam dessa maneira.

Algumas vivem fielmente a proposta da Igreja e, por isso, o casamento e a adopção estão fora do seu mundo de possibilidades. Por outro lado, muitas das que desejam para si o casamento e adopção, fizeram um longo caminho até chegar aí e reconhecem, por isso, que as outras pessoas também têm direito a fazer esse caminho de aceitação e respeito, que leva tempo. No entanto, parece-me que, a todas, lhes custará muito não poderem viver o amor como as pessoas heterossexuais o vivem.

Certamente haverá muitos homossexuais que sentem um conflito interior entre a sua fé e a sua orientação sexual. Que mensagem tem para eles?
Que não duvidem nunca do amor infinito de Deus por eles, tal como são e como estão.

Que procurem com seriedade a sua verdade mais profunda, sem se deixarem influenciar por correntes, amizades ou relações casuais, que os arrastem para onde não querem ir ou os levem a fingir ser outra coisa diferente daquilo que são.

Que sejam fieis a essa verdade que vão descobrindo de si próprios e ao caminho que Deus vai fazendo com e em cada um e cada uma.

Que não se deixem prender pelo egoísmo numa autocomplacência vitimista nem numa agressividade castigadora, mas que se abram aos outros, generosamente, numa vida de amor, entrega e serviço.

E para as famílias de pessoas que são homossexuais? Como é que uma família cristã devia reagir num caso destes?
Às famílias eu diria que, antes de ser um ou uma “homossexual”, o seu familiar é filho ou filha, irmão ou irmã, primo ou prima, sobrinho ou sobrinha… E que, ainda antes disso, é uma pessoa humana cheia de dignidade, filho ou filha de Deus. E que, assim como Deus nos ama tal como somos, não há outro caminho para nós senão o do amor incondicional.

Leia também a entrevista feita a Rimont, do apostolado Courage, no Brasil

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