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quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Sacramentos e Hipócritas

“E nós a confessar-nos a estes tipos.” Com esse o comentário, a minha falecida avó revelava um momento de severa lucidez no meio da sua demência, enquanto via uma reportagem sobre o primeiro escândalo de abusos sexuais por parte do clero, em 2002. A minha avó era uma católica nova-iorquina, de ascendência irlandesa, que em toda a sua vida não faltou à missa um único domingo. Em relação ao fragilizado e quase esquecido sacramento da confissão, aposto que não foi a única a pensar desta maneira.

Dezasseis anos mais tarde esta nova ronda de escândalos clericais e episcopais volta a infligir diversas feridas no coração: os danos irreparáveis às vítimas, a cumplicidade com o pecado, o cheiro nauseabundo do abuso de poder. Com cada facada no coração vem também um murro no estômago: aqueles que têm por função convidar-nos a viver uma vida moral – e chamar-nos à atenção se falharmos – têm estado a viver uma vida dupla.

Poucas coisas fazem os homens e as mulheres comuns perder a cabeça mais do que a hipocrisia, e os padres e bispos abusadores são, possivelmente, os piores dos piores hipócritas.

Então porque é que havemos de continuar a ir confessar-nos a um padre, quando é bem possível que ele tenha manchas ainda mais feias que as nossas na sua alma? Quem é ele para me ensinar a viver?

A resposta: Ele não é ninguém. E é precisamente por isso que podemos, e devemos, continuar a confessar os nossos pecados a padres, semana após semana, mês após mês, ano após ano.

Quando Cristo edificou a sua Igreja sobre os apóstolos, não foram as suas capacidades humanas que a fizeram funcionar e crescer. Daquilo que a Sagrada Escritura nos diz sobre os apóstolos, a Igreja não teria sobrevivido um único dia se fosse esse o caso. Pelo contrário, Cristo concedeu a estes homens os seus poderes divinos para usarem: “Soprou sobre eles e disse-lhes, ‘Recebei o Espírito Santo. Aqueles a quem perdoares os pecados, ser-lhes-ão perdoados; aqueles a quem os retiverdes, lhes serão retidos’” (João 20, 22-23).

O poder infalível que Deus confiou à Igreja através de Cristo transcende os limites das mãos falíveis a quem é confiado através do sacramento da ordem. No confessionário o padre não age pela sua autoridade, mas pela da Igreja, para cujo serviço foi consagrado. Quando confessamos os nossos pecados, não é o padre quem nos perdoa, mas Cristo que age através dele. A identidade ou os actos do padre não inibem a graça que Deus nos quer dar através dos sete sacramentos que estabeleceu.

É essencial compreender que a Graça de Deus que os Sacramentos nos transmitem não depende do estatuto do transmissor, pois isso recorda-nos que a nossa Igreja é de Cristo, e não dos homens. Mas, ao mesmo tempo, continua a existir ao nível humano um sentimento de desilusão. Não queremos apenas saber que os nossos pecados foram perdoados, ou que recebemos a graça de Deus, embora isso nos deva bastar, queremos também sentir o amor de Deus.

Não há como negar que participar numa missa ou receber a absolvição de um padre santo e devoto é muito mais edificante, espiritualmente e pessoalmente, do que uma missa transformada num espetáculo de folclore, ou a confissão a um padre distraído ou mal-educado. Normalmente não podemos alcançar o divino sem o representante humano. O nosso desafio é não permitir que o humano nos desencaminhe do divino.

Jesus mostrou estar bem ciente desta dificuldade durante o seu ministério. Criticou ferozmente os fariseus da sua altura por causa da sua hipocrisia, chamando-os tolos cegos, serpentes, ninho de víboras e túmulos caiados. Mas por entre essas denúncias incríveis, Jesus chama-nos a obedecer. “Os escribas e os fariseus sentam-se no trono de Moisés, por isso façam e observem o que eles vos dizem” (Mat. 23, 2-3).

Obedecemos por causa do seu cargo, não por quem são como indivíduos nem pela forma como se comportam. Jesus é claro: Façam os queles dizem, não o que eles fazem.

Por isso devemos obedecer aos mandamentos morais e espirituais que Cristo deixou à sua Igreja, para passar às gerações seguintes. Devemos permanecer castos, confessar os nossos pecados a padres quando falhamos e receber o perdão de Deus através do sacramento da cura que o padre administra – independentemente de o padre no confessionário ser um santo ou um malandro, celibatário ou hipócrita.

E que fazer quando o elemento humano em nós tiver dificuldades em ultrapassar a hipocrisia, a banalidade ou a má educação que possamos encontrar? Como é que havemos de responder a estes fatores externos que dificultam o nosso caminho para o divino?

Talvez este seja o desafio de Deus para os leigos desta época: Ele está a purificar a nossa fé, mostrando-nos que a fé é mais do que apenas sentimentos, emoções e agradáveis interações humanas. A verdadeira fé consiste na confiança em Deus, assente na certeza de que Ele nos ama e quer dar-nos a sua graça. A verdadeira fé requer a nossa aceitação da Cruz e na Cruz não existe consolo humano, apenas a nossa fé de que Deus está connosco.  

E independentemente de como nos sentimos, sabemos que a nossa fé não é vã.


David G. Bonagura, Jr. leciona no Seminário de São José, em Nova Iorque. É autor de Steadfast in Faith: Catholicism and the Challenges of Secularism, que será lançado no próximo inverno pela Cluny Media.

(Publicado pela primeira vez na Quarta-feira, 17 de Outubro de 2018 no The Catholic Thing)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Porque é que a Religião é Suspeita?

David G. Bonagura Jr.
Recentemente um comentador desportivo estava a tecer considerações sobre a razão pela qual um treinador e ex-estrela da NBA não tem conseguido arranjar trabalho naquele campeonato, sugerindo que talvez se deva ao facto de ser “muito religioso”. Não é que haja problema em ser religioso, acrescentou rapidamente, mas esse factor poderia tornar mais complicado lidar com ele.

Não acredito que o comentador tivesse más intenções, estava a falar de improviso e por isso não estava a exprimir uma opinião cuidadosamente pensada, mas sim um preconceito absorvido e não raciocinado. Mas isso faz com que o comentário seja ainda mais impressionante: De onde é que esta ideia surgiu? Porque é que se havia de associar o facto de uma pessoa ser religiosa com um carácter complicado, isto é, inflexível, teimoso, difícil ou antipático?

Num conflito cultural em que as percepções parecem contar mais que a realidade, os inimigos da religião conseguiram utilizar os media, a indústria do entretenimento, as escolas e as leis para criar esta associação que o comentador fez. “Extremismo religioso”, por exemplo, faz parte do léxico comum, mas o seu sentido deixou de se aplicar só a violência cometida sob a capa de crenças religiosas para abranger também as crenças que entram em conflito com os valores das elites seculares.

A indústria cinematográfica mostra regularmente as personagens cristãs como sendo tolos ou vilões. Na praça pública as afirmações baseadas na fé ou na Bíblia são frequentemente recebidas com cepticismo, hostilidade, ou simplesmente ridicularizadas. As conversas sobre os benefícios da fé são recebidas com a evocação das crusadas, a inquisição ou guerras religiosas.

Sejamos claros: O Cristianismo é a maior força para o bem que o mundo alguma vez viu. Ponto final. Não há nada que se aproxime sequer. As instituições caritativas, o cuidado pelos vulneráveis e marginalizados, arte, arquitectura, música e filosofia, tudo isto tem sido sustentado e avançado por cristãos que procuram a glória de Deus e o benefício da humanidade. Os valores e os ideais que são mais queridos pelo mundo hoje – liberdade, justiça e igualdade – derivam todos da reflexão filosófica e da prática cristã.

Então o que é que a religião tem – sobretudo o Cristianismo, contra qual tanta revolta se tem feito sentir nas últimas décadas – que faz com que possa ser retratada de forma tão negativa? Juntamente com o mandamento da caridade, o Cristianismo inclui um estrito código de proibições morais que contrariam a ética secular de autonomia radical individual – o alegado “direito a definir o nosso próprio conceito de existência, o significado, o universo e o mistério da vida humana” ao ponto de poder fazer o que nos apetecer em privado e definir o nosso próprio género ou raça.

À medida que a opinião popular parece deslocar-se mais em direcção ao libertinismo, não é segredo nenhum que um Cristianismo fervoroso permanece como último obstáculo a um colapso moral completo. E aqueles que desejam acelerar esse colapso estão a fazer os possíveis para difamar o Cristianismo sempre que podem.

Propaganda pró casamento gay
Quem é contra é primitivo...
Nos últimos anos, enquanto o enfoque das questões fracturantes passou do aborto para o casamento, a retórica passou a descrever os cristãos como “intolerantes” – somos portadores de “ódio” e “fobias” – por não cederem às exigencias da libertinagem cultural. A convicção moral tem sido descrita intencionalmente como sendo ódio por indivíduos. O juízo de actos confunde-se intencionalmente com o juízo de pessoas. Os cristãos que se atrevem a defender a moral tradicional foram obrigados a recuar até uma posição em que dificilmente conseguem ganhar terreno numa cultura que vive de sound-bites.

E é assim que nos vemos perante a afirmação do nosso comentador desportivo. Esta sua ideia tornou-se parte da narrativa dos media generalistas que são a linha da frente da ofensiva desta guerra cultural. Numerosos filmes, programas de televisão, protestos, livros e videoclips, vistos por mais de 100 milhões de pessoas, têm contribuído, aos poucos e de formas diferentes, para retratar a religião, e o Cristianismo em particular – uma religião baseada no amor por Deus e pelo próximo – como um obstáculo anacrónico e opressor à satisfação pessoal.

Sobretudo entre jovens este preconceito tornou-se prevalecente. Não admira, por isso, que uma pessoa religiosa seja descrita como “de trato difícil” – porque quando uma pessoa abraça uma crença parte-se do princípio que ela seja um obstáculo aos desejos de outra, seja em actos privados, seja num jogo de basquete.

Tendo em conta esta situação, como é que os cristãos podem contrariar este preconceito que se formou contra eles? Se a percepção supera a realidade, então aquela velha exortação de que “saberão que somos cristãos por causa do nosso amor” deixa de ter o mesmo encanto, uma vez que para os inimigos da religião o amor define-se como deixando as pessoas fazer o que lhes apetece. Mas o abandono da moral cristã tradicional não é solução – o protestantismo “mainstream” já mostrou que não se pode separar Cristo da moralidade.

Ao longo de dois milénios os cristãos têm conseguido converter pessoas que acreditam em toda a espécie de diferentes deuses. Mas converter aqueles que apenas acreditam em si mesmos parece um desafio ainda mais difícil. No tribunal da opinião pública os sentimentos e as emoções superam a fé e a moral.

Existe, contudo, um precedente historic, embora não seja um paralelo perfeito, que nos dá esperança. Os jacobinos radicais da Revolução Francesa, na sua tentativa de purgar tudo o que era bom, acabaram por ser destituídos por aqueles que não estavam dispostos a render-se ao caos total. Aos cristãos resta rezar para que aqueles que foram levados a desconfiar da religião compreendam que os verdadeiros suspeitos são os que a no banco dos réus.


David G. Bonagura, Jr. é professor assistente de Teologia no Seminário da Imaculada Conceição, em Huntington, Nova Iorque.

(Publicado pela primeira vez na quarta-feira, 17 de Junho de 2015 no The Catholic Thing)

© 2015 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Pizza para o Papa e Padre Condenado

Papa recebe Pizza em andamento
O ex-pároco da Golegã foi condenado hoje de dois crimes de abuso de menores. Apanhou 14 meses, mas de pena suspensa. É o mais recente caso envolvendo abusos na Igreja Portuguesa, recordo aos interessados que vou mantendo uma cronologia destes casos no blogue.

Por falar em casos de abusos, o Papa aceitou a renúncia do antigo Arcebispo de Edimburgo a todas as honras e privilégios do cargo de cardeal. Não é a primeira vez que um cardeal deixa de o ser, mas ainda assim é uma coisa muito rara.

Hoje o Papa Francisco voltou a criticar o desemprego, mas também recordou a publicação do Evangelium Vitae, por parte de João Paulo II, neste que é o dia Internacional do Nascituro.

Recentemente o Papa disse que às vezes só lhe apetecia ir comer uma pizza. Não é fácil, mas na sua visita a Nápoles um cozinheiro decidiu levar a pizza até ele.

O Boko Haram é suspeito de ter raptado mais meio milhar de pessoas na Nigéria, enquanto a Turquia afirma que já impediu 2,550 de se juntar ao Estado Islâmico.

Será que a fé é incompatível com o bem-estar material? Essa é a questão a que responde David G. Bonagura no artigo desta semana do The Catholic Thing em português.

A Fé pode sobreviver no “Primeiro Mundo”?

David G. Bonagura Jr.
“Com a subida dos rendimentos, descem os campanários… A felicidade chega e Deus põe-se a andar”.

Olhando para o chamado “primeiro mundo”, esta afirmação, no geral, parece ter algum mérito. Ao longo dos últimos séculos, à medida que os nossos confortos materiais se multiplicaram lentamente, o fervor religioso tendeu a diminuir. Mas este declínio não aconteceu da mesma forma nas partes menos abastadas do mundo. Uma vez que esta vaga de secularismo no mundo desenvolvido parece ter coincidido com uma era de avanço tecnológico e material, parece adequado perguntar se a fé religiosa pode sequer sobreviver neste clima.

A aparente incompatibilidade entre a fé e o conforto humano não é nova. O próprio Senhor anteviu esta tensão fazendo o aviso: “É mais fácil a um camelo passar no buraco de uma agulha, do que um rico entrar no Reino de Deus”, (Mt. 19,24). Esta admoestação seguiu-se à conversa entre Jesus e o jovem rico, que preferiu regressar triste para os seus muitos bens do que seguir Jesus.

Por outro lado, a fé parece ser mais firme quando as pessoas estão necessitadas. No seu desespero, dez leprosos procuraram Jesus. Satisfeitos os seus pedidos, apenas um se lembrou de prestar homenagem ao seu Salvador. A inspiração heróica dos mártires incentivou a fé de muitos crentes durante os tempos de opressão. Nos nossos dias, as Igrejas Católicas estavam significativamente mais cheias ao meio-dia de terça-feira, 11 de Setembro de 2001, do que na mesma hora uma semana antes ou nas terças-feiras seguintes.

Mesmo a nossa prática quaresmal parece apontar nesta direcção. Com o jejum privamo-nos deliberadamente de comida e outros confortos físicos para incentivar o crescimento espiritual. Na primeira semana da Quaresma pedimos a Deus: “Fazei que a nossa alma, purificada pela penitência corporal, resplandeça cada vez mais com a luz da vossa presença”.

Teria Marx razão? Será que a religião é o ópio do povo, destinado a ser erradicado mal se obtenha a quantidade certa de riqueza e bem-estar material? A fé no mundo desenvolvido e cada vez mais abastado está destinada a ser eliminada?

Em primeiro lugar, não há nada de errado com os bens materiais ou confortos físicos, em si. Depois, até ver, a fé tem claramente sobrevivido à disseminação de bens de luxo e à secularização. Muitos continuam a crer, mesmo de forma fervorosa, incluindo algumas das pessoas mais ricas e confortáveis de entre nós. Há paróquias e regiões no mundo desenvolvido onde a prática religiosa é fervorosa e há ricos e pobres que continuam a responder ao chamamento das vocações religiosas. Por isso não parece ser o caso que a riqueza e o conforto sejam incompatíveis com a fé.

Mas parece justo concluir que o estilo de vida do mundo desenvolvido, como o conhecemos agora, tem o potencial para ser hostil à fé. Os nossos corações irrequietos e destinados a Deus, nas palavras de Santo Agostinho, podem facilmente ser distraídos (no sentido literal de “arrastados para longe”) pela disponibilidade geral de confortos, conveniências e remédios que prometem a felicidade. Por entre o ritmo de vida incansável e o barulho de fundo constante do nosso mundo, a voz de Deus, que prefere o silêncio e a quietude, torna-se mais difícil de ouvir.

Generation Smartphone - No need for God?
Mas o primeiro mundo é bem mais do que um aglomerado de coisas, barulhos e actividades. O poder da tecnologia e dos bens materiais deu lugar a um espírito único, uma característica da era moderna que desembocou no mundo moderno: O serviço e a adoração de nós próprios como fim último para o qual estes bens existem. Em vez de encarar o nosso progresso como forma de construir o Reino de Deus, o mundo desenvolvido preferiu usar a tecnologia para banir Deus, numa tentativa de nos tornarmos soberanos auto-suficientes do Universo. Enquanto sociedade, permitimos que os materiais nos conduzissem ao materialismo – a crença de que apenas aquilo que é físico e tangível tem verdadeiro significado.

Neste ambiente, é difícil para uma fé num Deus invisível e imaterial, que não promete a eliminação dos nossos sofrimentos, mas a dádiva de um tipo de união com ele actualmente incompreensível, ganhar raízes em mentes já por si cativadas por bens materiais e as suas promessas. Imaginem a reacção de um adolescente típico à descrição das visões beatíficas enquanto o seu smartphone brilha com todo o tipo de imagens e mensagens. Claro que há adolescentes que perceberam o vazio do materialismo actual e abraçaram a fé, mas são relativamente poucos.

Hoje os inimigos da fé do mundo desenvolvido são tão formidáveis como em qualquer altura da história da salvação. E esta história demonstra que os católicos têm obtido os seus maiores sucessos na evangelização de povos inteiros quando motivados por duas crenças profundas: Um grande amor por Cristo, ao ponto de martírio, e o entendimento de que aqueles que encontram não podem ser salvos se não aceitarem o Evangelho.

Nosso Senhor prometeu que as portas do Inferno não prevalecerão contra a Igreja, mas isso não garante que as almas permaneçam dentro dela. Um número preocupante de concidadãos no mundo desenvolvido ouviram o Evangelho mas não escutaram. Se os nossos esforços de evangelização não forem tão zelosos como os dos missionários do passado, o mundo desenvolvido poderá tornar-se a razão da pergunta preocupante de Jesus: “Quando filho do homem vier, encontrará fé sobre a terra?” (Lc. 18,8).


David G. Bonagura, Jr. é professor assistente de Teologia no Seminário da Imaculada Conceição, em Huntington, Nova Iorque.

(Publicado pela primeira vez no Domingo, 22 de Março de 2015 no The Catholic Thing)

© 2015 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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quarta-feira, 29 de outubro de 2014

A Evolução e a Fé são Irreconciliáveis?

Por David G. Bonagura Jr.
“A verdade não pode contradizer a verdade”. Assim ensinou o Papa Leão XIII e é por essa perspectiva que a Igreja Católica aborda a ciência e a revelação de Deus. Não existe uma única verdade científica que contradiga a palavra de Deus. Se as coisas do mundo natural foram criadas por um Deus omnipotente e reflectem a sua presença, então devem estar de acordo com aquilo que Deus revelou de si mesmo e do Universo, através da sagrada tradição e das sagradas Escrituras.

Às vezes as novas descobertas científicas parecem desafiar a nossa compreensão religiosa do mundo, como quando aprendemos que é o Sol e não a Terra que se encontra no centro do sistema solar. Mas este facto não só não afecta a centralidade do ser humano na criação de Deus (o dogma que supostamente era posto em causa na altura), como acrescenta uma nova perspectiva sobre outra verdade da revelação: que Cristo, representado na iconografia primitiva como o sol, é o verdadeiro centro e fonte de vida da criação e das nossas vidas.

Não há, por isso, qualquer razão para afirmar – como fez um biólogo recentemente no New York Times – que a ciência e a religião são irreconciliáveis. Nem nos devemos contentar em dizer que a ciência e a religião se resumem a “magistérios não coincidentes” que dizem respeito, respectivamente, a factos e a valores. Pelo contrário, os “factos” da ciência são a fundação racional sobre a qual assentam a revelação sobrenatural e os seus “valores”. Claro que a ciência e a fé têm objectos diferentes, que têm em consideração as suas diferenças inerentes mas, com o São João Paulo II, sabemos que não existe “razão para qualquer concorrência entre razão e fé: cada um contém o outro e cada um tem o seu campo de acção”.

Mais do que qualquer outra teoria científica contemporânea, a evolução constitui um feroz ataque à compreensão judaico-cristã da origem da humanidade. Desde os autocolantes nos carros que mostram um peixe, símbolo do Cristianismo, com pernas (às vezes com a legenda “Darwin”) ao recente artigo no Times que tenta explicar porque é que a fé e a teoria da evolução são incompatíveis, certo defensores da evolução têm afirmado publicamente que a sua versão da génese da humanidade é correcta e que o Genesis não passa de uma história parva.  

É fundamental para a Igreja enfrentar os desafios da teoria da evolução e das origens da humanidade, uma vez que ela ensina de forma infalível que os seres humanos são feitos à imagem e semelhança de Deus, que dotou cada um de uma alma imortal. (A Igreja nunca ensinou como é que isto se passou, uma vez que isso nunca nos foi revelado). Algumas teorias da evolução (existem muitas variações) contradizem esta verdade, afirmando que a existência da humanidade é um acidente material resultante de mutações genéticas e não de intervenção divina. Tais teorias devem ser consideradas incompletas, uma vez que excluem Deus do processo de criação.

Num famoso discurso, São João Paulo descreveu a teoria da evolução como “mais do que uma hipótese”, embora tenha usado o mesmo discurso para apontar os problemas com certas abordagens filosóficas da teoria. Mas deixemos de lado os méritos da teoria da evolução em si. O biólogo do Times dá aos seus leitores três razões pelas quais a teoria da evolução exige que se abandone a fé judaico-cristã na criação. Estas razões, que dizem mais respeito a conclusões humanas do que à ciência, podem ser desmontadas dentro do âmbito científico.

Pe. George Lemaitre, autor da
teoria do Big Bang
Em primeiro lugar, o autor argumenta que “um processo inteiramente natural e espontâneo, nomeadamente a variação aleatória e a selecção natural” explica a complexidade de organismos que aparentemente requerem um autor inteligente e sobrenatural. Mesmo que tomemos como boa essa afirmação, este “fenómeno inteiramente mecânico e estatisticamente poderoso”, apenas exclui a criação Deus ex machina defendida por certas leituras fundamentalistas e equivocadas da Bíblia. Este método não exclui a criação física por Deus através da causalidade secundária, o modus operandi normal de Deus no mundo. Quanto à suposta aleatoriedade, São João Paulo ensina-nos que aos olhos de Deus não há coincidências.

Em segundo lugar, o autor aponta para as ligações filogenéticas entre diferentes espécies. Mas este facto também não faz nada para excluir Deus do processo da criação. Na melhor das hipóteses a diferença extraordinária que existe entre os seres humanos e outros primatas com uma estrutura de ADN semelhante (alguma vez se viu um chimpanzé a debater as suas origens?) aponta para a existência de uma alma humana infundida nos humanos por Deus. Esta é a grande diferença entre homens e bestas. O autor tem razão num ponto, porém: “Nenhum traço literalmente sobrenatural foi alguma vez encontrado no Homo sapiens”. A biologia evolutiva, por si, não é capaz de medir a alma imaterial, que é produto de Deus e não da criação material.

Por fim, o problema do mal é colocado de uma perspectiva evolutiva: a predação, a doença e a morte mostram que os humanos “são produzidos por um processo natural e totalmente amoral, sem qualquer indicação da existência de um criador controlador e benevolente”. Mas o esforço levado a cabo pelos homens – em todos os tempos e em todas as culturas e religiões – para encontrar sentido no sofrimento e atribuir códigos morais à procriação, mostram que há muito a dizer sobre estes animais racionais do que meramente a sua natureza animal. Os biólogos têm tentado encontrar um “gene moral”, mas o sentido e a moralidade transcendem os limites daquilo que qualquer outro animal pode fazer. É estranho que uma espécie supostamente gerada pelo acaso, sem qualquer sentido, tenha esta vontade inata tão intensa de encontrar sentido em todas as coisas.

Pedimos desculpa ao nosso professor de biologia, mas os seus alunos e leitores não precisam de abandonar a sua fé judaico-cristã à luz da teoria da evolução. Pelo menos em termos das três críticas que ele propõe, não há nada na dimensão científica da evolução que exclua o papel de Deus na criação dos humanos e na infusão das suas almas. Pelo contrário, talvez o professor é que precisa de reavaliar a sua fé na evolução, interpretada a uma luz intencionalmente ateia. 


David G. Bonagura, Jr. é professor assistente de Teologia no Seminário da Imaculada Conceição, em Huntington, Nova Iorque.

(Publicado pela primeira vez na Quinta-feira, 23 de Outubro de 2014 no The Catholic Thing)

© 2014 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

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quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Que diferença faz ter fé?

David G. Bonagura, Jr
Que diferença é que a fé traz para a vida dos crentes? O que é que os crentes têm que falta aos não crentes?

Há sondagens que indicam que os crentes são mais felizes que os não crentes, e outras que indicam o contrário. Mas a mera experiência diz-nos que nem todos os crentes são felizes (no sentido de bem-estar geral), ou sequer pessoas com quem queiramos passar uma tarde. E há mais do que um caso de não crentes cuja boa-disposição faz deles excelente companhia.

Por isso a fé tem de servir para algo mais do que felicidade individual, embora as duas coisas não se excluam. Se a fé vale mesmo a pena, tem de transcender os limites da pessoa que a possui.

O que é que a fé dá aos crentes? Uma forma de vida e disposição completas. Uma relação pessoal e ilimitada com Deus, seu criador, que lhes fala no interior do coração. A pertença a uma Igreja que os une a todos, vivos ou mortos, como irmãos e irmãs no Espírito Santo. Um compromisso para com a caridade que, quando vivida como deve ser, enaltece a relação com Deus e com os outros. A certeza de que as suas vidas e o universo, criadas com um propósito e um valor intrínsecos, estão nas mãos da providência. Uma verdadeira esperança de que existe uma vida para além deste vale de lágrimas.

Estes dons da fé não são do género que marca pontos nas sondagens seculares, mas continuam a ser atributos indispensáveis daquilo a que Sócrates chama uma vida examinada – imbuída de sentido, direcção e esperança. Mas a vida da fé não é uma mera visão intelectual ou compromisso, como o optimismo ou o humanismo. A fé é uma realidade vivida, não apenas uma ideia que se tem, porque consiste de um encontro dinâmico com um Deus vivo que ama.

Os não crentes não reconhecem esta relação fundamental com Deus que devia, por sua vez dar forma a todas as relações humanas. Sem Deus, estão desprovidos de um sentido para a vida e uma esperança. Em vez disso, são obrigados a criar o seu próprio sentido para a vida, os seus próprios princípios para se relacionarem com outras pessoas, os seus próprios desejos. Com uma estranha ironia, comportam-se como directores executivos de vidas que nunca pediram e para cuja existência nada contribuíram.

Que sentido da vida é que os seres humanos criariam por si? Segundo Henri de Lubac, criam “deuses antropomórficos”, que podem ser os ideais ou os valores de qualquer época. Hoje, pensadores seculares como Steven Pinker defendem o “humanismo científico”, segundo o qual o sentido e a moralidade humanas são determinados pelas conclusões da ciência. Pinker baptiza esta visão do mundo como “a moralidade, de facto, das democracias modernas, organizações internacionais e religiões liberais e as suas promessas por cumprir definem os imperativos morais que enfrentamos actualmente”.
 
Steven Pinker
Mas o que acontece aos não crentes que abraçam (supostamente com bases científicas) as hipóteses filosóficas do darwinismo: que a vida humana não tem qualquer sentido inerente e a vida é apenas o produto do acaso acidental? O que acontece se interpretarem as provas científicas sobre quem deve ser considerado “inteiramente humano” de forma errada, como, por exemplo, os esclavagistas, eugenistas, nazis e abortistas? Afinal de contas foi a ciência que levou Richard Dawkins a dizer, recentemente, que qualquer mulher cujo embrião tivesse trissomia XXI devia: “abortá-lo e tentar de novo. Podendo escolher, seria imoral trazer essa criança ao mundo.”

Por maravilhosa e poderosa que seja a ciência, ela continua a ser um instrumento feito pelo homem para medir a realidade, mas que não a transcende e é a transcendência da nossa condição humana limitada que todos os corações buscam. Mas é também por causa dos nossos limites, diz De Lubac, que o homem “é incapaz de transcender os seus próprios recursos, permanece sempre um prisioneiro da noção muito limitada de individualidade que projectou nos seus deuses”. Logo, o seu “desejo de transcendência… continua sempre a ser ambíguo; um sonho, mas um sonho em que está ameaçado pela ruína e o desespero de acordar”.

Em contraste, os crentes sabem pela sua fé que Deus é simultaneamente a fonte e o objectivo dos desejos dos seus corações. Entre os caprichos da vida – alegria e tristeza, prazer e dor, sucesso e desilusão – mantêm a confiança de que existe uma razão e um propósito para tudo, mesmo que não encontrem respostas para todas as suas questões. Ao aceitar livremente o dom da fé, tornam-se livres para viver as suas vidas, não sem tristeza ou infortúnio, mas sem dúvidas e desespero.

A diferença que a fé traz pode ser vista, então, pela analogia de dois homens deixados sozinhos no meio da Amazónia. O homem de fé tem com ele uma bússola, um mapa, uma mochila, comida, água e botas; o outro insistiu que não precisa senão de si mesmo. Parece evidente qual dos dois está em melhor posição para conseguir regressar a casa.


David G. Bonagura, Jr. é professor assistente de Teologia no Seminário da Imaculada Conceição, em Huntington, Nova Iorque.

(Publicado pela primeira vez na Quarta-feira, 8 de Outubro de 2014 no The Catholic Thing)

© 2014 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Quaresma: Em Direcção ao Deserto

por David G. Bonagura Jr.
O deserto é o local mais árido e estéril do mundo. Falta-lhe as duas fontes necessárias para que haja vida: água e vegetação. Tem pouca população e não poupa a ninguém. É um local vazio de esperança e que recorda a morte. É o sítio ideal para passar a Quaresma.

Todos os anos, em imitação de Nosso Senhor, retiramo-nos para o deserto durante 40 dias – uma época litúrgica consagrada à conversão pessoal e à preparação da celebração dos grandes mistérios da nossa redenção. Mas porque deve a nossa contemplação da esperança final ser precedida de seis semanas num lugar sem esperança? Como é que um local destes pode cultivar a fé?

A resposta encontra-se no outro grande mistério que conduziu à Encarnação e que foi derrotado na Páscoa: o pecado. “O deserto,” escreveu o Papa Bento XVI, “imagem que se opõe ao jardim, torna-se local de reconciliação e cura”. A morte – simbolizada pelo deserto – é a consequência do pecado, o resultado de nos escolhermos a nós sobre Deus.

Para que a reconciliação com Deus tenha lugar, a morte tem de ser vencida. O pecado tem de ser expiado. Para que isso se realize, “Deus o fez pecado por nós” – entrou no deserto – “para que nos tornássemos, nele, justiça de Deus.” (2 Cor 5,21)

Redimidos pelo sacrifício de Cristo, temos ainda assim que esforçar-nos para ultrapassar o pecado que está presente nas nossas vidas. Este desafio, que dura toda a vida, ganha um novo ímpeto na Quaresma, quando recorremos à arma especial do jejum para “despir-vos do homem velho, corrompido por desejos enganadores [e] revestir-vos do homem novo, que foi criado em conformidade com Deus, na justiça e na santidade”. (Ef. 4, 22-24)

“O Jejum”, como explica o pai fundador do Movimento Litúrgico, Dom Prosper Guéranger, “é uma abstinência que o homem se impõe voluntariamente como expiação do pecado”. O pecado traz a dor e a morte ao corpo e à alma, por isso é só quando a alma arregimenta a força do corpo para combater o pecado através do jejum que o pecado pode ser vencido.

A suprema expiação do pecado levou o Filho inocente de Deus a sofrer a mais dura dor no seu corpo e na sua alma, sobre a Cruz. Em imitação de Cristo, o jejum também nos causa dor no corpo e na alma.

Aqui se encontra o paradoxo do pecado e, simultaneamente, o coração da nossa observância quaresmal. Embora tenhamos sido criados em amor por Deus, para gozar dos frutos da terra, estes frutos podem consumir-nos e tornar-se, inclusivamente, objectos de orgulho e de pecado, como ficou demonstrado pelos nossos antepassados no jardim. Ao renunciar temporariamente a estes frutos através do jejum, oferecemo-nos para sofrer a sua ausência na nossa carne, como forma de atacar o pecado.

O jejum acarreta sofrimento, mas, tal como a dor que sentimos quando fazemos exercício físico, é mesmo esse o objectivo. E tal como com o exercício, quanto mais dor sofremos por Deus, maiores os ganhos espirituais.

O deserto é, por isso, o lugar certo para a Quaresma não só porque representa o sofrimento e as consequências do pecado, mas também porque é um local de abstinência dos frutos da terra. Quando nos retiramos espiritualmente para o deserto, o vazio que lá encontramos recorda-nos que, no fim de contas, os frutos da terra não nos podem satisfazer. A nossa verdadeira satisfação é Deus, que na ressurreição nos conduz do deserto para o paraíso eterno.

Mas a nossa observância quaresmal é desafiada por um mundo que abandonou o deserto espiritual em favor de um falso jardim, cheio de tantas atracções que estas se tornaram distracções. A constante percolação de responsabilidades, distracções e brinquedos electrónicos contribuiu para empurrar a nossa fé para as margens da vida. Desistir de comer chocolate ou de ver televisão durante a Quaresma tornou-se apenas mais uma coisa no meio de um dia cheio de ocupações em vez de um acto particular que manifesta uma disposição quaresmal compreensiva, centrada em Deus e na conversão.

Antigamente a sociedade civil e a Igreja ajudavam-nos neste período ao contribuir para o deserto espiritual. Constantino proibiu os exercícios militares à sexta-feira, Teodósio suspendeu os processos judiciais, Eduardo o Confessor proibiu o porte de armas. Divertimentos públicos acabavam, bem como o desporto e a caça. A Igreja exigia um jejum rigoroso durante os 40 dias da Quaresma e proibia a celebração de casamentos cristãos.

Esses tempos já passaram e não vão regressar tão depressa. Cabe-nos a nós, crentes e peregrinos espirituais, o desafio de criar os nossos desertos espirituais por entre todas as distracções. Podemos imitar os nossos antepassados católicos e tornar a Quaresma mais do que apenas o sacrifício de um alimento de que gostamos: podemos tornar o deserto, com toda a sua aridez, o local a partir do qual vemos a nossa vida e as nossas acções. Ao jejuar de comida e abster-nos de entretenimento todos os dias da Quaresma, unimo-nos a Cristo na sua Paixão, dolorosa mas esperançosamente conscientes que para se chegar ao Domingo de Páscoa é preciso passar pela Sexta-feira Santa.

“O salário do pecado é a morte” (Rom 6,23) e a morte é o castigo por excelência. Só podemos combater e expiar os pecados que cometemos se nos permitirmos experimentar a morte através do jejum. Numa divina ironia, a esterilidade do deserto é terra fértil para o nosso arrependimento do pecado e renascimento na Ressurreição. Só podemos percorrer o caminho para a cura e a reconciliação se primeiro passarmos pelas tribulações do deserto.


David G. Bonagura, Jr. é professor assistente de Teologia no Seminário da Imaculada Conceição, em Huntington, Nova Iorque.

(Publicado pela primeira vez na Quarta-feira, 13 de Fevereiro de 2013 em http://www.thecatholicthing.org)

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terça-feira, 12 de junho de 2012

Budistas e muçulmanos em guerra, anglicanos preocupados


You talkin' to me?
Bento XVI teve um dia preenchido ontem, com tempo para falar aos futuros diplomatas da Santa Sé, manifestar-se contra uma cultura em que a mentira se disfarça de verdade, e até da importância de capelas nos aeroportos




Salvo alguma notícia crucial este será o último mail da semana. Aproveito para vos convidar, em nome do autor, para o lançamento do livro: “A Vida Numa Palavra – Uma nova leitura do Evangelho de São João”, do Frei Bernardo Corrêa d’Almeida. Dia 15 em Lisboa, dia 20 no Porto. Cliquem nos convites para aumentar.
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O que significa, e o que não significa, a reconciliação com a SSPX


por David G. Bonagura, Jr. 
Poucas coisas levam os católicos a esqucer o preceito da caridade mais rapidamente do que uma discussão sobre a Sociedade de São Pio X (SSPX), o grupo tradicionalista de padres e bispos que, devido à sua oposição ao Concílio Vaticano II e consequente turbulência, permanecem fora da estrutura canónica da Igreja.

O Papa Bento XVI, tendo tomado o leme no processo de restaurar a comunhão jurídica da SSPX ao longo do último quarto de século, tornou essa reconciliação uma prioridade do seu pontificado. Tudo indica que um anúncio formal de reconhecimento está próximo.

A reconciliação com a SSPX ficará entre as grandes conquistas do pontificado de Bento XVI, com implicações duradouras para a Igreja. Mas na histeria que certamente se seguirá ao anúncio formal, aquilo que é verdadeiramente importante ficará perdido por entre as polítiquices partidárias internas da Igreja.

À direita, alguns católicos tradicionalistas rejubilarão, declarando vitória: Roma modernista voltou a si e apoia o que resta da fé. À esquerda, onde se prefere sentar à mesma mesa que Lutero a partilhar uma Igreja com o líder da SSPX, Bernard Fellay, alguns acusarão Bento XVI de minar, ou desfazer, as reformas do Vaticano II. Ambas as perspectivas são falsas.

Antes de vermos o que significa a reconciliação, vale a pena analisar o que não significa.

Em primeiro lugar, Bento XVI não está a regredir em relação ao Vaticano II. Todo o seu pontificado está dedicado a avançar o Concílio (ver mais abaixo). De facto, como expliquei na altura em que o Papa revogou a excomunhão dos quatro bispos da SSPX, ele está a bater os progressistas no seu próprio terreno: está a fazer gestos concretos no sentido de reunir todos os cristãos, tal como o Vaticano pede no Unitatis Redintegratio (o que é duplamente irónico, pois é um dos documentos que a SSPX contesta). O que está a ser desfeito não é o Concílio em si, mas a ideologia que se agarra a um falso conceito de “espírito do concílio”.

Depois, alguns comentadores mais espertos poderão usar o trunfo do género: o Vaticano retrógrado está a aceitar um grupo de bispos e padres conservadores ao mesmo tempo que ataca as freiras indefesas da Leadership Conference of Women Religious (LCWR). Mas essa dicotomia ou jogo de poder misógeno não existe: Bento XVI está a trabalhar para trazer ambos os grupos afastados – a SSPX de iure, a LCWR de facto – de volta à plena comunhão com a Igreja; a abordagem diferente deve-se à diferença de estatuto de cada grupo.

Por fim, a reconciliação com a SSPX não significa a “vitória da Tradição” no sentido em que a Sociedade e os seus apoiantes a entendem: que o culto e a piedade tradicionais vão ser restaurados como sendo a expressão mais legítima da fé. A teologia e a prática católica tradicional já está a passar por um pequeno renascimento revitalizador um pouco por todo o mundo em comunidades religiosas, paróquias e escolas que se mantém leais ao Papa. Uma SSPX reconciliada trará mais crescimento e vigor a este movimento, mas não o criará de novo nem lhe dará um estatuto mais elevado.

Um jovem Marcel Lefebvre
Então o que significa a reconciliação com a SSPX?

Primeiro, o “Preâmbulo Doutrinário”, a declaração ainda secreta das crenças doutrinárias que a SSPX deve aceitar para ser reconciliada, deverá declarar – na forma mais oficial e autoritária até hoje – que todo o Vaticano II deve ser lido e interpretado à luz da Tradição. Se assim for, então não só moldará os futuros discursos da Sociedade sobre o Vaticano II, mas também o discurso de quem advoga o “espírito do Concílio”.

Os arautos da “hermenêutica de descontinuidade e rupture” não vão simplesmente baixar os braços, mas uma tal declaração retirará a pouca credibilidade que ainda lhes resta entre os leitores e alunos.

Segundo, como já foi referido, uma SSPX em comunhão plena como o Papa trará novo vigor para a prática e culto católico o que, por sua vez, ajudará a restaurar a identidade católica em locais onde já desmoronou. Ao que parece a prática religiosa nas capelas da Sociedade em França tem crescido à medida que as Igrejas regulares se têm esvaziado quase por completo.

Com as graças que decorrem da plena comunhão com Roma – e sem o tom que tem caracterizado muita da retórica contra Roma por parte da Sociedade – a SSPX poderá tornar-se uma peça chave na Nova Evangelização e a Igreja no seu todo deve valorizar o seu contributo.

Terceiro, a reconciliação diz muito sobre a natureza do pontificado de Bento XVI e o carácter dele enquanto homem. Desde o seu almoço em Castel Gandolfo com o bispo Fellay no primeiro Verão do seu pontificado até ao levantamento das excomunhões em 2009, passando pelas discussões formais com os teólogos da SSPX na Congregação para a Doutrina da Fé, e apesar de muitas vozes contrárias na Cúria, Bento XVI está a tornar a reconciliação uma realidade, ao seu ritmo e nas suas condições.

Como escreveu o próprio Fellay, “o Papa disse-nos que a preocupação por remediar a nossa situação, para o bem da Igreja, estava no coração do seu pontificado. Disse também que tinha noção de que tanto para ele como para nós teria sido mais fácil manter o status quo”. Bento XVI, como verdadeiro pastor, está mais que disposto a dar a sua própria vida e a sua reputação pelo bem do seu rebanho.

Permanecem uma série de questões sobre o estatuto da Sociedade; a sua organização futura, a possibilidade de haver uma cisão, com um grupo que rejeita a reconciliação. Mas quando chegar a altura será o próprio Bento XVI, não as facções da Igreja em guerra nem os media seculares, que providenciará a lente interpretativa para este incrível feito.


David G. Bonagura, Jr. é professor assistente de Teologia no Seminário da Imaculada Conceição, em Huntington, Nova Iorque.

(Publicado pela primeira vez no Domingo, 10 de Junho de 2012 em http://www.thecatholicthing.org)

© 2012 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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quarta-feira, 21 de março de 2012

Jejum Quaresmal: Guerra Espiritual

Por David G. Bonagura Jr.
Aguentar este período do meio da Quaresma é um dos maiores desafios da vivência católica. O entusiasmo inicial pela penitência e reforma pessoal esvaneceu, e a Páscoa ainda está no horizonte distante. O estômago começa a dar horas e o corpo acusa a falta de comida, bebida e outros prazeres de que abdicámos. No meio do sofrimento perguntamos, “mas afinal de contas, para o que é que serve o jejum?”

Encontramos a resposta na própria liturgia. No quarto prefácio para a Quaresma (que é igual ao único prefácio da forma extraórdinária do Rito Romano [vulga missa tridentina]), rezamos a Deus: “Pela penitência da Quaresma, corrigis nossos vícios, elevais nossos sentimentos, fortificais nosso espírito fraterno e nos garantis uma eterna recompensa.” Negar os prazeres mundanos ao nosso corpo resulta em benefícios espirituais. Libertos dos desejos do mundo, concentramo-nos mais intensamente em ultrapassar o pecado e caminhar em direcção ao Senhor e às graças prometidas pelo mistério Pascal.

Claro que isto é o ideal. Mas no meio da fome e provação facilmente damos por nós a lamentarmo-nos da nossa miséria em vez de elevarmos os corações a Deus. Pior, o sentido de pena induzido pelos nossos actos de piedade podem mesmo espicaçar os nosso vícios em vez de os suprimir. Como, então, é que o jejum quaresmal pode promover o crescimento espiritual em vez do desejo pelos bens de que temporariamente abdicámos?

Na sua magnífica exegese da Quaresma, em “The Church’s Year of Grace” , o teólogo alemão Pius Parsch compara a Quaresma à guerra espiritual. A Quaresma é, sem dúvida, uma luta entre o reino de Deus e o reino de Satanás. Mas é ao mesmo tempo um combate que se trava noutra frente: dentro da alma de cada um. Neste campo de batalha defrontam-se as nossas naturezas altas e baixas, isto é, o espírito – a vida sobrenatural da alma – e a carne – a natureza humana, enfraquecida pelo pecado original (cf. Gálatas 6,8).

Parsch leu o prefácio quaresmal à luz desta batalha e da afirmação de Jesus de que não podemos servir a Deus e a Mamon. Este inclui os vícios de certos prazeres sensuais, referidos no prefácio quaresmal. O propósito da Quaresma é exirpá-los. A contenda entre Jesus e Satanás no deserto – que lemos anualmente no primeiro Domingo da Quaresma – propõe um modelo para a nossa luta. Como Jesus viria a explicar mais tarde no seu ministério, Satanás – e com ele o pecado – apenas pode ser expulso com uma combinação entre oração e jejum.

Nem todos os prazeres sensuais são vícios, mas mesmo os prazeres mais nobres podem-nos consumir a mente e desviar-nos de Deus. Quando negamos voluntariamente estes prazeres bons o espírito, agora menos sobrecarregado, pode reorientar-se para o divino. A nossa natureza caída, sedenta dos seus desejos, esbracejará em protesto e sentiremos a nossa determinação a fraquejar, mas temos de nos lembrar que estamos em guerra, e continuar a marcha.

O sucesso contra o prazer sensual deve então dar lugar à luta contra um inimigo mais traiçoeiro que é o orgulho. Mais uma vez, Parsch explica como se trava esta batalha:

A abstinência dos prazeres sensuais dá força à alma. Os prazeres do corpo são como chumbos que prendem a alma à terra; quando são removidos a alma eleva-se, qual balão, para as alturas celestiais. Agora percebe-se a importância da moderação, castidade e virgindade para o reino de Deus. O jejum, portanto, eleva a mente e concede à alma o poder de praticar as virtudes e de alcançar a santidade. Por fim, ajuda-nos a atingir a coroa da glória eterna.

Pius Parsch

A vontade é, portanto, a mais importante arma do nosso jejum quaresmal, mas só por si não é capaz da vitória total. A vontade deve ser fortificada pela oração e purificada pela confissão sacramental. As graças recebidas não destroem o inimigo, isto é, a tentação de pecar e de quebrar as nossas resoluções por Deus. Antes, elas ajudam-nos na nossa luta e tornam possível a vitória.

Uma aluna contou-me certa vez que o seu pároco aconselhou-a a não abdicar de nada durante a Quaresma, não fosse, na Páscoa, estar demasiado preocupada em consumir toda a comida de que se tinha abstido para poder concentrar-se na Ressurreição. Esta sugestão bem intencionada ignora a nossa natureza corporal e, como tal, remove a Quaresma do campo de batalha da santidade, optando antes por uma abordagem demasiado espiritual.

Quando jejuamos o nosso corpo reza juntamente com a nossa alma e aprendemos que só o pão celeste pode satisfazer os nossos mais profundos desejos. Nas palavras de Bento XVI, o “verdadeiro jejum significa comer o ‘verdadeiro alimento’, que é cumprir a vontade do Pai (cf Jo 4,34).” A Páscoa é o grande triunfo da vontade do Pai. A nossa alegria por partilhar desse triunfo é enaltecida quando oferecemos ao Senhor ressuscitado a nossa vitória no campo de batalha da Quaresma.

Com cada contracção de fome a que resistimos e com cada acto penitencial que cumprimos, os nossos corpos subjugados gritam por conforto físico. Os gritos apontam-nos a Páscoa, que nos dá a graça de conquistar o pecado e viver a vida do espírito. Orientando os nossos corpos quebrados por esta alma mergulhada em graça, sejamos considerados dignos do jejum que o Senhor empreendeu pela nossa salvação.

David G. Bonagura, Jr. é professor assistente de teologia no Seminário da Imaculada Conceição, em Huntington, Nova Iorque.

(Publicado pela primeira vez no Sábado, 17 de Março 2012 em www.thecatholicthing.org)


© 2012 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing. 

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