quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Quaresma: Em Direcção ao Deserto

por David G. Bonagura Jr.
O deserto é o local mais árido e estéril do mundo. Falta-lhe as duas fontes necessárias para que haja vida: água e vegetação. Tem pouca população e não poupa a ninguém. É um local vazio de esperança e que recorda a morte. É o sítio ideal para passar a Quaresma.

Todos os anos, em imitação de Nosso Senhor, retiramo-nos para o deserto durante 40 dias – uma época litúrgica consagrada à conversão pessoal e à preparação da celebração dos grandes mistérios da nossa redenção. Mas porque deve a nossa contemplação da esperança final ser precedida de seis semanas num lugar sem esperança? Como é que um local destes pode cultivar a fé?

A resposta encontra-se no outro grande mistério que conduziu à Encarnação e que foi derrotado na Páscoa: o pecado. “O deserto,” escreveu o Papa Bento XVI, “imagem que se opõe ao jardim, torna-se local de reconciliação e cura”. A morte – simbolizada pelo deserto – é a consequência do pecado, o resultado de nos escolhermos a nós sobre Deus.

Para que a reconciliação com Deus tenha lugar, a morte tem de ser vencida. O pecado tem de ser expiado. Para que isso se realize, “Deus o fez pecado por nós” – entrou no deserto – “para que nos tornássemos, nele, justiça de Deus.” (2 Cor 5,21)

Redimidos pelo sacrifício de Cristo, temos ainda assim que esforçar-nos para ultrapassar o pecado que está presente nas nossas vidas. Este desafio, que dura toda a vida, ganha um novo ímpeto na Quaresma, quando recorremos à arma especial do jejum para “despir-vos do homem velho, corrompido por desejos enganadores [e] revestir-vos do homem novo, que foi criado em conformidade com Deus, na justiça e na santidade”. (Ef. 4, 22-24)

“O Jejum”, como explica o pai fundador do Movimento Litúrgico, Dom Prosper Guéranger, “é uma abstinência que o homem se impõe voluntariamente como expiação do pecado”. O pecado traz a dor e a morte ao corpo e à alma, por isso é só quando a alma arregimenta a força do corpo para combater o pecado através do jejum que o pecado pode ser vencido.

A suprema expiação do pecado levou o Filho inocente de Deus a sofrer a mais dura dor no seu corpo e na sua alma, sobre a Cruz. Em imitação de Cristo, o jejum também nos causa dor no corpo e na alma.

Aqui se encontra o paradoxo do pecado e, simultaneamente, o coração da nossa observância quaresmal. Embora tenhamos sido criados em amor por Deus, para gozar dos frutos da terra, estes frutos podem consumir-nos e tornar-se, inclusivamente, objectos de orgulho e de pecado, como ficou demonstrado pelos nossos antepassados no jardim. Ao renunciar temporariamente a estes frutos através do jejum, oferecemo-nos para sofrer a sua ausência na nossa carne, como forma de atacar o pecado.

O jejum acarreta sofrimento, mas, tal como a dor que sentimos quando fazemos exercício físico, é mesmo esse o objectivo. E tal como com o exercício, quanto mais dor sofremos por Deus, maiores os ganhos espirituais.

O deserto é, por isso, o lugar certo para a Quaresma não só porque representa o sofrimento e as consequências do pecado, mas também porque é um local de abstinência dos frutos da terra. Quando nos retiramos espiritualmente para o deserto, o vazio que lá encontramos recorda-nos que, no fim de contas, os frutos da terra não nos podem satisfazer. A nossa verdadeira satisfação é Deus, que na ressurreição nos conduz do deserto para o paraíso eterno.

Mas a nossa observância quaresmal é desafiada por um mundo que abandonou o deserto espiritual em favor de um falso jardim, cheio de tantas atracções que estas se tornaram distracções. A constante percolação de responsabilidades, distracções e brinquedos electrónicos contribuiu para empurrar a nossa fé para as margens da vida. Desistir de comer chocolate ou de ver televisão durante a Quaresma tornou-se apenas mais uma coisa no meio de um dia cheio de ocupações em vez de um acto particular que manifesta uma disposição quaresmal compreensiva, centrada em Deus e na conversão.

Antigamente a sociedade civil e a Igreja ajudavam-nos neste período ao contribuir para o deserto espiritual. Constantino proibiu os exercícios militares à sexta-feira, Teodósio suspendeu os processos judiciais, Eduardo o Confessor proibiu o porte de armas. Divertimentos públicos acabavam, bem como o desporto e a caça. A Igreja exigia um jejum rigoroso durante os 40 dias da Quaresma e proibia a celebração de casamentos cristãos.

Esses tempos já passaram e não vão regressar tão depressa. Cabe-nos a nós, crentes e peregrinos espirituais, o desafio de criar os nossos desertos espirituais por entre todas as distracções. Podemos imitar os nossos antepassados católicos e tornar a Quaresma mais do que apenas o sacrifício de um alimento de que gostamos: podemos tornar o deserto, com toda a sua aridez, o local a partir do qual vemos a nossa vida e as nossas acções. Ao jejuar de comida e abster-nos de entretenimento todos os dias da Quaresma, unimo-nos a Cristo na sua Paixão, dolorosa mas esperançosamente conscientes que para se chegar ao Domingo de Páscoa é preciso passar pela Sexta-feira Santa.

“O salário do pecado é a morte” (Rom 6,23) e a morte é o castigo por excelência. Só podemos combater e expiar os pecados que cometemos se nos permitirmos experimentar a morte através do jejum. Numa divina ironia, a esterilidade do deserto é terra fértil para o nosso arrependimento do pecado e renascimento na Ressurreição. Só podemos percorrer o caminho para a cura e a reconciliação se primeiro passarmos pelas tribulações do deserto.


David G. Bonagura, Jr. é professor assistente de Teologia no Seminário da Imaculada Conceição, em Huntington, Nova Iorque.

(Publicado pela primeira vez na Quarta-feira, 13 de Fevereiro de 2013 em http://www.thecatholicthing.org)

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