sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Vera Charitate*


Hoje o Papa publicou a sua mensagem de Quaresma para 2013. Nela ele fala da problemática da caridade e da fidelidade à missão da Igreja, ou seja a evangelização.

Não é a primeira vez que Bento XVI fala deste assunto. Em Dezembro publicou um “motu proprio” em que se exigia às organizações sociais católicas uma maior adesão à doutrina da Igreja.

Este é um problema grave e que, no meu entender, será uma das grandes questões que a Igreja terá de enfrentar nos próximos anos.

Pode parecer que estou a exagerar, mas é um problema que se põe recorrentemente. Por um lado a Igreja é chamada a ajudar os mais pobres, os mais fracos, os famintos, os sem-abrigo etc. Mas o Papa lembra que essa ajuda, do ponto de vista católico, deve-se distinguir por ser também um trabalho evangélico. Ou seja, é importante dar de beber a quem tem sede, mas mais importante é dar a conhecer a existência daquela água viva que mata a sede de eternidade.

Frequentemente, porém, assistimos a um divórcio entre os dois aspectos. Vemos pessoas a fazer um trabalho meritório na área social, mas que se envolvem de tal forma no aspecto social das questões que perdem o norte no que diz respeito à fé. Escrevi sobre isto o ano passado quando escrevi sobreas freiras e assistentes sociais que ajudam prostitutas na zona do Intendente.

O problema também se pode pôr ao contrário e não é raro ver pessoas a criticar o trabalho de outras, escudando-se numa fidelidade absoluta ao magistério, mas que não traduzem essa fé toda em caridade de qualquer género. O Papa chama a isso uma “árvore sem frutos”.

Para colocar a questão em perspectiva, e para ter noção do dilema que apresenta, vejamos o seguinte caso prático.

Imaginemos um país onde a adopção por “casais” homossexuais é legal e onde é proibido discriminar com base na orientação sexual. O que faz uma agência de adopção católica se o Estado a quer obrigar a contemplar os ditos casais para colocação de crianças? Vejamos que o Estado tem aqui poder de influência precisamente porque estas instituições funcionam sempre com algum financiamento público.

Deve fechar portas em vez de comprometer a sua identidade católica, ou deve continuar a trabalhar, com base na ideia de que o serviço que presta a todas as outras crianças pesa mais que o mal que deriva de ter de colocar algumas com homossexuais?

O mesmo se pode aplicar a hospitais e a escolas, então, que dizer? Uma escola católica deve ensinar aos seus alunos que o “casamento” entre homossexuais é legítimo, só porque recebe financiamento do Estado?

As indicações que têm vindo do Vaticano nos últimos tempos são muito claras. As instituições jamais devem sacrificar a sua identidade. O argumento é bastante simples, Jesus não disse “Ide por toda a Terra e abri escolas e orfanatos”, mas sim “Ide por toda a Terra e fazei discípulos entre todas as nações”. As escolas e os orfanatos são importantes, mas é preciso que esse trabalho caritativo decorra do sentido de missão, e não seja falsamente separado dela, sob pena de se tornar mero “activismo moralista”.

Já agora, e para terminar, o exemplo dos orfanatos não é rebuscado. No Reino Unido já não existe um único orfanato católico, por exactamente essa razão. Não se pense que o problema não chegará a Portugal nos próximos tempos.

Filipe d’Avillez


*Verdadeira Caridade. É o que dá trabalhar na área de religião durante alguns anos, ficamos com estes tiques e começamos a dar títulos em latim aos nossos textos…

2 comentários:

  1. Caro Filipe,

    Raciocínio escolástico e com a noção clara do processo histórico!

    Cumprimentos

    In Domino

    Ibsen

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  2. Muito bem, Caro Filipe. Não há qualquer dúvida. Se os católicos não são coerentes com a doutrina da fé cristã, na sua acção social, dão um contra-testemunho de que essa doutrina é descartável ou secundária. E se é, então os católicos são os mais infelizes dos homens.
    Fernando C.

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