quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Nove Séculos de Cavalheirismo

Tracey Rowland
Nota do Editor: Amigos, depois do anúncio chocante do Papa de anteontem de que ele tenciona resignar, surgiu um verdadeiro tsunami de opinião e comentário. Em vez de contribuir para aquilo que se tornou um procura repetitiva e por vezes bizarra de algo para se dizer, decidimos continuar com a nossa rotina diária, por enquanto, aqui no The Catholic Thing. Esperamos que com o passar do tempo tenhamos ainda mais razões para ter confiança de que Bento XVI fez o que é melhor para o mundo e para a Igreja. E esperamos que estes esforços vagos para ligar a sua decisão à crise dos abusos sexuais, escândalos no Vaticano e ataques de dissidentes católicos sejam remetidos ao esquecimento que merecem. Mais tarde traremos reflexões sobre isto, quando isso nos parecer mais útil. Entretanto, rezamos pelo nosso querido Santo Padre e pelos cardeais que irão escolher o seu sucessor. – Robert Royal


De 9 a 15 de Fevereiro a Ordem Soberana e Militar Hospitalária de São João de Jerusalém, de Rodes e de Malta celebra o seu 900º aniversário.

A Ordem de Malta, como é normalmente conhecida, é a mais antiga Ordem Cavalheiresca do mundo e a quarta ordem religiosa mais antiga da Igreja.

O aniversário assinala a data em que o Papa Pascoal II emitiu a bula Pie Postulatio Voluntatis, dando a sua aprovação à fundação do hospital de São João, em Jerusalém. A bula teve o efeito de transformar os responsáveis do hospital em membros de uma ordem religiosa de leigos.

Hoje a Ordem de Malta funciona como uma ordem religiosa, uma ordem cavalheiresca e como um sujeito jurídico à luz do direito internacional. As suas duas principais missões são o serviço aos mais pobres e a defesa da fé.

Em determinados períodos da história esta defesa da fé assumiu contornos militares. Em 1565 os cavaleiros da ordem derrotaram uma força sarracena muito superior no Grande Cerco de Malta. A vitória removeu o risco imediato de uma invasão da Sicília e até, mais grave, da própria Cidade Eterna.

Seis anos mais tarde, na batalha de Lepanto, membros da Ordem contribuíram com três galés para as forças da coligação que combateram sob o nome Santa Liga. Apesar de os turcos, que atacaram numa ameaçadora formação em forma de crescente, estarem em muito maior número, uma súbita mudança no sentido do vento ajudou grandemente à vitória das forças cristãs.

Pio V, o pontífice da altura, atribuiu a vitória à intercessão de Nossa Senhora, a quem reinos cristãos inteiros estavam a oferecer terços, rezando pela sua maternal protecção. É por causa deste evento que hoje temos a solenidade de Nossa Senhora do Rosário e o título Nossa Senhora da Vitória.

A Ordem tem relações diplomáticas com 104 países e está representada nas Nações Unidas e no Parlamento Europeu. Tem 13.500 membros e 80.000 voluntários permanentes. Está particularmente activa no auxílio a vítimas de conflitos armados e de desastres naturais, através do fornecimento de ajuda médica.

Gere hospitais gerais na Alemanha, França, Inglaterra e Itália e uma maternidade em Belém. Financia também centros médicos no Benim, Burkina Faso, Camarões, Madagáscar, Togo e Líbano. No Senegal e no Camboja a Ordem estabeleceu centros para leprosos e está a desenvolver programas de tratamento de vítimas de HIV tanto em África como na América Central. Há ainda instituições especiais para tratar mães e os seus filhos, vítimas de HIV, na África do Sul e nas Filipinas.

Nos países mais desenvolvidos os cuidados paliativos estão a tornar-se uma preocupação central para a Ordem. Compreensivelmente os doentes católicos não querem morrer em hospitais geridos com critérios utilitaristas. Querem capelas e não salas de oração, crucifixos e não velas de lavanda, padres com o poder de administrar sacramentos e não trabalhadores sociais com cursos em gestão de sofrimento.

Membros portugueses da Ordem de Malta
Médicos e advogados que pertencem à Ordem estão nas linhas da frente, a defender a ética cristã de instituições médicas contra as ideologias da cultura da morte.

A Ordem financiou também o Fundo Global para Pessoas Esquecidas. Estas incluem pessoas com doenças negligenciadas, filhos de reclusos, crianças nascidas com deficiência e mães de recém-nascidos sem cobertura médica.

Em Madrid e São Petersburgo a Ordem opera cantinas sociais para os pobres e sem-abrigo e os membros parisienses da ordem amarraram duas barcas no Sena para dar guarida a sem-abrigo e aos seus cães. Para muitos sem-abrigo um cão é literalmente o melhor amigo e não alguém de quem se querem separar à noite. Os franceses estão muito orgulhosos do facto de terem pensado nos cães.

Vale a pena por isso, nesta semana em que a Ordem celebra 900 anos, reflectir sobre quanta falta faz o cavalheirismo.

Popularmente o termo cavalheirismo é sempre associado à prática de um homem oferecer o seu lugar a uma senhora ou a um idos num transporte em hora de ponta. Mas fundamentalmente o cavalheirismo é uma questão de pessoas com força e poder a usar os dons que a educação ou a natureza lhes deram para ajudar pessoas menos fortes. É a completa antítese dos princípios de sobrevivência dos mais fortes, que governa vida dos primatas.

As feministas tendem a ser contra o cavalheirismo porque não gostam de pensar que as mulheres possam ser o sexo fraco, mesmo que fraco, neste contexto, signifique algo como “fisicamente menos capaz de mover uma árvore caída ou mudar um pneu” e não intelectualmente menor. Do mesmo modo os ideólogos liberais não gostam do conceito simplesmente porque sugere que existem pessoas na sociedade que são mais fortes e capazes que outras. A mera existência destas personagens significa que um século de engenharia social falhou na criação de uma utopia sem classes.

Em contraste, a ideia cristã de cavalheirismo afirma simultaneamente o talento e a habilidade enquanto defende que tais talentos deve ser colocados ao serviço pessoal de quem for menos capaz.

Talvez uma afirmação mais firme de cavalheirismo nos nossos currículos escolares possa ajudar a ultrapassar uma série de patologias sociais, incluindo o feminismo, o machismo o igualitarismo irreflectido e a ideia de que o serviço aos pobres e a defesa da fé é algo que se consegue melhor pela burocracia do que através de pessoas reais.

É algo paradoxal que a defesa da fé no século XXI implique também uma defesa do valor antigo de cavalheirismo.


Tracey Rowland é reitora e membro permanente do Instituto João Paulo II para o Casamento e para a Família em Melbourne, Austrália. É autora de Culture and the Thomist Tradition after Vatican II (2003) e Benedict XVI: A Guide for the Perplexed (2010), entre outras obras.

(Publicado pela primeira vez no Domingo, 10 de Fevereiro 2013 em www.thecatholicthing.org)

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