terça-feira, 29 de janeiro de 2013

A situação actual das relações com a SSPX

Menos razões para sorrir actualmente...
Neste blogue tenho feito os possíveis por acompanhar a questão da Sociedade Sacerdotal de São Pio X, o grupo tradicionalista que se encontra em ruptura com Roma e que é constituído por seguidores do falecido Arcebispo Marcel Lefebvre.

Durante o ano de 2012 chegou-se a pensar que uma reunificação com Roma estaria iminente, mas em cima da hora isso não se concretizou. Muitos deram então o processo de diálogo por concluído e, de facto, durante muitos meses não se ouviu nada de positivo, apenas silêncio da parte do Vaticano e bocas e insinuações menos simpáticas da parte da SSPX.

Desde então, contudo, deram-se dois desenvolvimentos dignos de nota.

Em primeiro lugar correu o boato, por enquanto não confirmado, de que o bispo tradicionalista Richard Williamson, expulso da SSPX por insistente desobediência ao superior geral Bernard Fellay, estaria a planear viajar para os Estados Unidos para participar num encontro da Sociedade de São Pio X da Estrita Observância, um grupo que se separou da SSPX pela “traição” de Fellay se ter atrevido a entrar em diálogo com Roma e a considerar a possibilidade de reunificar.

Mais, de acordo com este boato, Williamson estará mesmo a planear consagrar um novo bispo para estes tradicionalistas, nomeadamente o padre Joseph Pfeiffer, que tem sido particularmente crítico de Fellay.

Recordo que segundo a doutrina católica um bispo validamente consagrado pode ordenar outros bispos validamente. O facto de o fazer sem autorização do Papa faz com que a ordenação seja ilícita, mas não inválida. Por isso, a confirmar-se este desenvolvimento veremos provavelmente a multiplicação de bispos tradicionalistas ordenados por Williamson e Pfeiffer.

Tradicionalistas há muitos... nesta foto o "Papa"
Miguel I, dos EUA, residente no Kansas.
Será este o futuro da SSPX?
Este efeito de fragmentação da SSPX é tudo menos surpreendente. Quando se abraça a ideia da rebelião contra o poder instituído por não se concordar com o rumo, é apenas natural que o mesmo aconteça no seio do novo grupo. É assim com os protestantes e é assim com os mais diversos grupos tradicionalistas. Se a SSPX não se reunificasse com Roma um desenvolvimento destes seria uma questão de tempo, como eu alertei já em Dezembro de 2011 quando parecia certo que as negociações com Roma iam falhar.

Tomás de Aquino como arma
O outro desenvolvimento recente já não pertence ao mundo das especulações.

O ano passado, quando se percebeu que afinal a reunificação tinha caído por terra, o Papa substituiu o presidente da Congregação para a Doutrina da Fé. Para o lugar foi um homem da confiança de Bento XVI mas que tinha um historial de conflitos com a SSPX, que na Alemanha operava um seminário na sua diocese.

Era claro que Gerhard Muller não era o homem indicado para representar a Santa Sé nestas conversações. Contudo, Bento XVI não dorme e ao mesmo tempo nomeou para vice-presidente da Comissão Ecclesia Dei (sendo que o presidente é sempre o prefeito da CDF, neste caso Muller), o arcebispo Di Noia, ele sim uma figura encarada com muito menos suspeição pelos tradicionalistas. Tornava-se claro quem é que na verdade iria conduzir eventuais diálogos.

Este mês de Janeiro, farto de ver os tradicionalistas a contar apenas a sua versão dos acontecimentos que levaram ao fracassar da última ronda de conversações, Di Noia escreveu uma carta fortíssima endereçada a todos os padres da SSPX.

Nesta carta ele repudia muito claramente o emprego de linguagem e tons críticos por parte dos tradicionalistas, chamando ainda atenção para a carta que Bento XVI escreveu aos seus próprios bispos católicos a lamentar a falta de solidariedade que sentiu quando iniciou esta reaproximação.

Di Noia cita muito São Tomás de Aquino que identificou quatro grandes obstáculos à unidade: Orgulho, ira, impaciência e zelo desordenado. Estes obstáculos apenas podem ser ultrapassados com recurso às virtudes de humildade, mansidão, paciência e caridade.

O arcebispo reconhece que as barreiras que separam Roma da SSPX, apesar de anos de conversações, têm-se mantido basicamente iguais e que por isso torna-se necessário injectar no debate novas perspectivas e uma abordagem mais espiritual e teológica.

Não é fácil resumir a carta e recomenda-se a sua leitura na íntegra, pois é de facto muito boa e forte. Pode ser lida aqui em português do Brasil, numa tradução pela qual evidentemente não me responsabilizo, e aqui em inglês, a versão que eu próprio consultei.

Quanto ao futuro, a Deus cabe. De facto, neste momento se tivesse que apostar não seria na reunificação mas sim numa acelerada auto-destruição da SSPX... contudo, em Dezembro de 2011 estava no mesmo estado de espírito e apenas sete meses mais tarde estava preparado para anunciar uma reviravolta a qualquer momento. Por isso prefiro não arriscar. Em todo o caso, humanamente, diria que as coisas estão neste momento muito difíceis.

2 comentários:

  1. Não creio que seja necessariamente esse o caminho da Fraternidade Sacerdotal São Pio X. A solidez doutrinária e a lucidez canónica legadas por Monsenhor Lefèbvre parecem-me haver subsistido na sua obra. Claro que me parece humanamente improvável a conciliação entre a afirmação quase «dogmática» da absoluta conformidade do Concílio Vaticano II com a Tradição da Igreja, por um lado, e a relutância, por outro lado, em aceitar que a ambiguidade dos seus textos e os «abusos» (para dizer o menos) desenvolvidos à sua sombra, possam considerar-se na linha da mesma Tradição. Talvez que por estas linhas serem escritas por um não-católico romano possam estar mais vazias de juízos negativos apriorísticos sobre a FSSPX.
    O Papa Bento XVI procurou quanto lhe terá sido possível, resolver a encruzilhada. Ao afirmar que o Concílio só podia ser visto em harmonia com a Tradição, concluir-se-iam ilegítimas e a suprimir as leituras desconformes, reconhecendo as ambiguidades dos textos, a depurar na interpretação; mas logo os apologistas do equívoco reagiram, escamoteanto o equívoco, distorcendo os dados da equação e, mais uma vez, vestindo o «abuso» das cores mais alvas... Os «tradicionalistas» perceberam, não me parecem burros, aliás, mau grado a infexibilidade do «neófito» ex-anglicano Mons. Williamson.
    Parece-me ter acertado o Superior-Geral Bernard Fellay quando mencionou a feroz oposição neo-modernista à regularização canónica da FSSPX. Bento XVI foi vencido por força adversa. Aquela que, segundo Paulo VI, abriu fendas nas paredes da Igreja, deixando entrar fumos indesejáveis... Com odor a enxofre...
    A propósito, uma palavra de simpatia pela figura ímpar de Bento XVI (ad mvltos annos!), cuja renúncia, absolutamente respeitável no que ao próprio de reporta, sinto absolutamente deplorável, e preocupante, no que possa significar em plano mais vasto, implicar no futuro...

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  2. Passado um ano, dou comigo a ponderar que talvez seja pertinente admitir não se tratar de um qualquer fenómeno em que «se abraça a ideia da rebelião contra o poder instituído por não se concordar com o rumo». Ora, Mons. Williamson não procedeu - até à data - a qualquer ordenação episcopal. Nem os bispos «tradicionalistas» se multiplicaram. E a Fraternidade Sacerdotal São Pio X não se fragmentou. Talvez que, desta vez, a explicação do fenómeno se encontre não tanto na «rebelião» mas no rumo. É que há rumos e rumos. «Valia a pena pensar nisto», como algumas vezes ouvi a um sacertdode jesuíta, já não me lembro se na rádio ou na televisão.

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