 |
| Menos razões para sorrir actualmente... |
Neste blogue tenho feito os possíveis por acompanhar a questão
da Sociedade Sacerdotal de São Pio X, o grupo tradicionalista que se encontra
em ruptura com Roma e que é constituído por seguidores do falecido Arcebispo
Marcel Lefebvre.
Durante o ano de 2012 chegou-se a pensar que uma reunificação
com Roma estaria iminente, mas em cima da hora isso não se concretizou. Muitos
deram então o processo de diálogo por concluído e, de facto, durante muitos
meses não se ouviu nada de positivo, apenas silêncio da parte do Vaticano e
bocas e insinuações menos simpáticas da parte da SSPX.
Desde então, contudo, deram-se dois desenvolvimentos dignos
de nota.
Em primeiro lugar correu o boato, por enquanto não
confirmado, de que o bispo tradicionalista Richard Williamson, expulso da SSPX
por insistente desobediência ao superior geral Bernard Fellay, estaria a
planear viajar para os Estados Unidos para participar num encontro da Sociedade
de São Pio X da Estrita Observância, um grupo que se separou da SSPX pela “traição”
de Fellay se ter atrevido a entrar em diálogo com Roma e a considerar a
possibilidade de reunificar.
Mais, de acordo com este boato, Williamson estará mesmo a
planear consagrar um novo bispo para estes tradicionalistas, nomeadamente o
padre Joseph Pfeiffer, que tem sido particularmente crítico de Fellay.
Recordo que segundo a doutrina católica um bispo validamente
consagrado pode ordenar outros bispos validamente. O facto de o fazer sem
autorização do Papa faz com que a ordenação seja ilícita, mas não inválida. Por
isso, a confirmar-se este desenvolvimento veremos provavelmente a multiplicação
de bispos tradicionalistas ordenados por Williamson e Pfeiffer.
 |
Tradicionalistas há muitos... nesta foto o "Papa"
Miguel I, dos EUA, residente no Kansas.
Será este o futuro da SSPX? |
Este efeito de fragmentação da SSPX é tudo menos
surpreendente. Quando se abraça a ideia da rebelião contra o poder instituído
por não se concordar com o rumo, é apenas natural que o mesmo aconteça no seio
do novo grupo. É assim com os protestantes e é assim com os mais diversos
grupos tradicionalistas. Se a SSPX não se reunificasse com Roma um
desenvolvimento destes seria uma questão de tempo,
como
eu alertei já em Dezembro de 2011 quando parecia certo que as negociações
com Roma iam falhar.
Tomás de Aquino como arma
O outro desenvolvimento recente já não pertence ao mundo das
especulações.
O ano passado, quando se percebeu que afinal a reunificação
tinha caído por terra, o Papa substituiu o presidente da Congregação para a
Doutrina da Fé. Para o lugar foi um homem da confiança de Bento XVI mas que
tinha um historial de conflitos com a SSPX, que na Alemanha operava um seminário
na sua diocese.
Era claro que Gerhard Muller não era o homem indicado para
representar a Santa Sé nestas conversações. Contudo, Bento XVI não dorme e ao
mesmo tempo nomeou para vice-presidente da Comissão Ecclesia Dei (sendo que o
presidente é sempre o prefeito da CDF, neste caso Muller), o arcebispo Di Noia,
ele sim uma figura encarada com muito menos suspeição pelos tradicionalistas. Tornava-se
claro quem é que na verdade iria conduzir eventuais diálogos.
Este mês de Janeiro, farto de ver os tradicionalistas a
contar apenas a sua versão dos acontecimentos que levaram ao fracassar da última
ronda de conversações, Di Noia escreveu uma carta fortíssima endereçada a todos
os padres da SSPX.
Nesta carta ele repudia muito claramente o emprego de linguagem
e tons críticos por parte dos tradicionalistas, chamando ainda atenção para a
carta que Bento XVI escreveu aos seus próprios bispos católicos a lamentar a
falta de solidariedade que sentiu quando iniciou esta reaproximação.
Di Noia cita muito São Tomás de Aquino que identificou
quatro grandes obstáculos à unidade: Orgulho, ira, impaciência e zelo
desordenado. Estes obstáculos apenas podem ser ultrapassados com recurso às virtudes
de humildade, mansidão, paciência e caridade.
O arcebispo reconhece que as barreiras que separam Roma da
SSPX, apesar de anos de conversações, têm-se mantido basicamente iguais e que
por isso torna-se necessário injectar no debate novas perspectivas e uma
abordagem mais espiritual e teológica.
Não é fácil resumir a carta e recomenda-se a sua leitura na íntegra,
pois é de facto muito boa e forte.
Pode
ser lida aqui em português do Brasil, numa tradução pela qual evidentemente
não me responsabilizo,
e
aqui em inglês, a versão que eu próprio consultei.
Quanto ao futuro, a Deus cabe. De facto, neste momento se
tivesse que apostar não seria na reunificação mas sim numa acelerada
auto-destruição da SSPX... contudo, em Dezembro de 2011 estava no mesmo estado
de espírito e apenas sete meses mais tarde estava preparado para anunciar uma
reviravolta a qualquer momento. Por isso prefiro não arriscar. Em todo o caso,
humanamente, diria que as coisas estão neste momento muito difíceis.