quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Instituições católicas e a fidelidade à missão


Decorreu nos últimos dias um caso que dá muito que pensar sobre o papel de uma instituição católica na sociedade. Neste caso é a Universidade Católica Portuguesa, mas a situação podia-se colocar (e coloca-se com alguma frequência) em relação à Renascença, onde trabalho.

A UCP publicitou uma pós-graduação sobre Saúde Mental para o Serviço Social. Na lista de docentes estavam os nomes de quatro médicos que são publicamente defensores de posições contrárias às da Igreja Católica, por exemplo na questão do aborto.

Um movimento pró-vida, a Associação Mulheres em Acção, emitiu um comunicado a denunciar a situação. A Renascença fez notícia com base nisso e contactou a Universidade que, mais tarde, veio dizer que afinal o curso não se iria realizar, devido a erros processuais na aprovação do mesmo.

Claro que todo o caso levantou muita discussão. Deve uma instituição católica empregar e dar voz a pessoas que defendem posições incompatíveis com as cristãs?

Do meu ponto de vista depende, de várias coisas. A matéria que o docente vai leccionar toca nestes pontos sensíveis? Deve-se rejeitar um professor de Comunicação Social por ser defensor da liberalização do aborto? Deve-se rejeitar um professor de Segurança Social que seja defensor do capitalismo desregrado? Não me parece que seja o caso, a não ser que essas posições sejam defendidas de forma pública e obstinada ao ponto de poder causar escândalo. Por exemplo, até um bibliotecário que seja aberta e publicamente Neo Nazi não deve trabalhar numa instituição católica, isso parece-me evidente.

Mas o caso é diferente quando o docente em questão vai leccionar matérias sensíveis. Nesse caso não concordaria que um professor de Economia na UCP fosse comunista, nem concordo que um médico que vai falar de saúde mental na área de Serviço Social seja defensor de posições éticas contrárias às da Igreja, como por exemplo o aborto e a eutanásia.

Fazendo o paralelo com a Renascença, uma rádio católica, não me parece mal que se coloque em antena um destes mesmos médicos para comentar assuntos da actualidade de saúde, como acontece frequentemente com o Dr. Francisco George, que é Director Geral da Saúde, mas já me chocava se ele fosse convidado a fazer opinião para a rádio e usasse o seu lugar para defender a liberalização do aborto, por exemplo.

Da mesma maneira eu tenho vários colegas que não são católicos, ou até defendem posições contrárias em muitos sentidos, mas desde que isso não interfira no seu trabalho de fazer jornalismo numa instituição com identidade católica, não vejo problema.

A questão aqui é de fidelidade à missão. Uma UCP ou uma RR não são apenas mais uma universidade ou mais uma emissora. Têm princípios claros, católicos, e um sentido de missão social e evangélica. Os seus ouvintes e estudantes têm o direito a esperar e a receber uma educação ou programação condizentes com esse espírito. Ainda por cima, num país como Portugal, será complicado encontrar pessoas mais bem enquadradas na doutrina católica a quem se possa recorrer? Duvido.

É verdade que as instituições não são perfeitas, a Igreja também não a é, na sua vertente humana. Penso que é importante, em casos destes, evitar promover o escândalo, procurar resolver os assuntos de forma cordial e sensata em vez de vir logo a público atirar pedras aos alegados pecadores. Isto não é uma crítica ao comunicado das Mulheres em Acção, que até me pareceu respeitoso, é só uma consideração porque esta não será a última vez que a situação se coloca.

Por fim, um aspecto importante. No artigo no site da Renascença em que se dá conta do cancelamento do curso existe um comentário de um leitor a dizer que se é verdade então o Estado deve deixar de financiar a Católica.

É isto que acontece quando as instituições começam a tentar ser fiéis a si mesmas. Já aconteceu em muitos outros países, está a acontecer neste momento nos EUA e no Reino Unido também. Esta ideia de que as instituições, neste caso católicas, têm de abdicar dos seus princípios para poderem receber dinheiro público é talvez uma das maiores ameaças à liberdade religiosa nos nossos tempos e nas nossas sociedades. Podem esperar muito mais deste género de argumentos, preparem-se.

Filipe d’Avillez

2 comentários:

  1. Esta é uma questão procedente...as instituições com cariz confessional (neste caso católicas)devem ser coerentes com a sua opção. Ainda recentemente S.S. Bento XVI se referiu a este assunto, em relação às instituições com fins sociais pertencentes à Igreja e afirmou que elas não se podiam limitar a prestar serviços a quem precisa mas tinham tambem que dar um testemunho assumidamente cristão.

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  2. E no grupo da RR haver ofertas de fins-de-semana para namorados?
    Escandaloso, não?

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