quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Cursos cancelados e blogues nomeados

George procura nova pós-graduação
Houve um interessante volte-face em relação a uma notícia de ontem. Como informei a Associação Mulheres em Acção questionou o facto de a Universidade Católica ter como docentes para um pós-graduação a começar em Fevereiro, quatro médicos defensores da despenalização do aborto. Já de madrugada a Renascença foi informada de que o curso, afinal, foi cancelado.

Este assunto levanta importantes questões sobre a identidade e a missão das instituições católicas. Tem estado a ser discutido no Facebook e aqui podem encontrar a minha opinião sobre este assunto.

O Bispo do Porto, D. Manuel Clemente, disse ontem que se há dúvidas em relação à constitucionalidade do Orçamento do Estado, ainda bem que foram pedidos “esclarecimentos”.


Uma simpática leitora destes mails decidiu inscrever o Actualidade Religiosa num concurso para o melhor blogue de 2012. Está na categoria de Religião e Espiritualidade. Sigam este link para ir directamente aos votos e este para mais informação.

6 comentários:

  1. A argumentação mais frágil, neste tema, é a dos fanáticos cristãos (não apenas católicos) que querem impor a todos os cidadãos, em sociedades ditas democráticas - e, portanto, laicas -, onde todas as religiões devem ter o mesmo tratamento e cingir-se às mesmas leis gerais, argumentos de fé e princípios que decorrem da doutrina que afirmam seguir (e que só ganham sentido dentro dela), embora tentem disfarçar a sua origem, invocando um conceito de "vida" pretensamente científico. No caso da interrupção da gravidez, procura-se destituir as mulheres da soberania sobre o seu próprio corpo - algo ainda mais inaceitável quanto é certo que não se atém às crentes, antes se pretende aplicar a quem nem sequer acredita na natureza pecaminosa que tão pias criaturas têm por hábito atribuir às relações sexuais, e muito menos no "castigo" por tal pecado, que seria resignarem-se à aceitação do "fruto" dessa prática. A questão é que estas pretensões têm pouco a ver com a doutrina tolerante e dignificadora da condição humana legada por Jesus de Nazaré e muito de fascistóide, ao intentarem policiar a intimidade individual. Embora estejam ao nível da triste história de uma instituição que chegou a discutir se as mulheres "também" teriam alma, tendo concedido, na altura (se bem me recordo) que tinham mas a dita lhes entrava no corpo uns seis meses depois do que acontecia no caso dos machos. Atitudes discriminatórias à margem da Constituição da RP, como a agora tomada pela Universidade Católica, assemelham-se, noutro plano (mas, quiçá, com nostalgia de um passado de igual e inquisitorial intolerância), às ideias e práticas dos fanáticos muçulmanos, que punem com "fatwas" e ameaças vingativas, em nome de Allah - um deus, pelos vistos, de fracos poderes - as "blasfémias" de quem nem sequer pode blasfemar, porque não se pode desrespeitar algo em que não se acredita ou mesmo se repudia (estou a falar apenas do campo religioso, não de princípios civilizacionais ligados à dignidade do ser humano) - o que é um dos direitos do Homem, universalmente reconhecidos.

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  2. Caro Paulo,
    Obrigado pela sua visita e pelo seu comentário.
    O meu blogue existe, entre outras coisas, para ajudar as pessoas a compreender o papel da religião na actualidade e, dentro das minhas limitações, para as ajudar a compreender também as próprias religiões.
    Sendo assim, recomendo que volte cá assiduamente, pois penso que lhe faz falta tanto uma coisa como a outra.

    A ideia de que a discussão sobre o aborto se limita a uma birra de fanáticos religiosos frígidos e frustrados que apenas querem controlar os corpos das mulheres está ao nível intelectual da sua citação da "doutrina" católica de que as mulheres não têm alma. Ou seja, é um absurdo.

    Se não acredita em mim, veja aqui: http://home.earthlink.net/~mysticalrose/object.html
    ou aqui: http://www.leaderu.com/ftissues/ft9704/opinion/nolan.html

    Um dos piores erros que pode cometer é partir do princípio que as pessoas crentes são, ipso facto, atrasadas mentais. Até porque depois, quando se demonstra que quem está a recorrer a crenças absurdas e falsas é você (eg. mito das mulheres sem alma) é o senhor que fica mal na imagem.

    Cumprimentos,
    Filipe

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    1. (1) Filipe,
      A “notícia” do blogue era suficientemente ambígua para me despertar a curiosidade sobre a ideologia subjacente à sua redação. O meu comentário tinha também a intenção de clarificar essa ambiguidade e só por isso aqui regressei. A minha curiosidade ficou satisfeita, o que era ambíguo tornou-se claro. Não vale a pena voltar. Já vivi e aprendi o suficiente para conhecer as minhas capacidades, bem como as minhas humanas deficiências. Nestas últimas não cabem nem a menoridade intelectual, nem a assunção apriorística da menoridade intelectual de outros. Cabe, no entanto, a apreciação intelectual de um possível interlocutor: já não sou jovem, é mister usar o indefinido tempo que me resta com o que valha a pena e não desbaratá-lo em inutilidades. A sua resposta permite-me concluir que, intelectualmente, não está ao nível dos cristãos, em particular, católicos que admiro e respeito, como, entre nós, Frei Bento Domingues ou o Pe. Anselmo Borges.
      Um dos meus defeitos mais incómodos, neste tipo de debates (se merecem tal nome) é ser irrevogavelmente racional. Outro é ter um conhecimento razoavelmente rigoroso da língua portuguesa, para saber com exactidão o que digo e o que não digo e não admitir interpretações desviantes, por ignorância ou irracionalidade de quem me lê.
      Não encontra nada, no meu comentário, que lhe permita afirmar que parto do princípio de que as pessoas crentes são atrasadas mentais. Erro grave da sua parte, porque denuncia onde intelectualmente se situa: precisamente porque o não considero atrasado mental, sei que teria acesso, se quisesse (ou não lhe fosse inconveniente…), aos instrumentos de análise que evitariam o erro.
      Também não encontra nada que insira a referência histórica que fiz na “doutrina” católica. É uma referência apenas histórica, controversa é certo, mas não facilmente descartável ou redutível a “mito” (até Umberto Eco se lhe referiu, já há uns anos, numa das suas crónicas - admito que, do seu esclarecido ponto de vista, considere Eco um mentecapto, mas será mais um pormenor em que discordamos… e talvez lhe fosse útil ler “In cosa crede chi non crede”, um debate epistolar entre Eco e o cardeal Carlo Martini, publicado, no último decénio do século passado, na revista italiana “Liberal”, para ficar com uma ideia do que são intelectuais crentes e não crentes): não se esqueça de que há mais historiadores, além dos católicos. E, já agora, conviria também recordar-se de que há mais teólogos e exegetas bíblicos, muitos deles de merecido prestígio, do que os católicos; e de que há teólogos, investigadores e filósofos católicos que não se deixam encerrar nas “posições oficiais” da Santa Madre…
      Conheço bem a argumentação com que se pretende, não contradizer a verdade histórica (o que seria admissível), mas “desacreditar” esse e outros episódios da tumultuosa história da ICAR (alguns nem sequer controvertíveis!), argumentação que envereda invariavelmente, como na sua “resposta”, pela conclusão do “absurdo” - que, infelizmente, não é um argumento que, só por si, se aguente numa controvérsia de tema histórico.

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    2. (2) Curiosamente, mas não inesperadamente, a sua “oposição” esgota-se no tal episódio historicamente controverso, passando em silêncio sobre a caracterização atribuível a quem pretende introduzir os seus “princípios” religiosos (de resto, como espero que saiba, construídos sobre um conjunto de textos - a “Vulgata”, de Jerónimo de Stridon - seleccionados de acordo com um critério que nada teve de histórico nem de preocupação com a maior ou menor fiabilidade dos documentos elegíveis, pelo que as “escolhas” de textos canónicos, nos diversos ramos em que se dividiu o cristianismo, não coincidem; acrescendo, ainda, a acumulação, ao longo dos séculos, de erros - involuntários ou não - dos copistas, também objecto de investigações académicas, sobretudo a partir do séc. XIX) nas leis democráticas, necessariamente laicas, que a todos se possam aplicar, abrangendo as opções que são do âmbito individual. Idêntico silêncio estrondeia em torno da atitude - discriminatória, persecutória e violadora dos direitos humanos - tomada pela Universidade Católica, sob pressão de um bando de criaturas fanáticas (lamento, mas não encontro melhor descrição para tão furiosa intolerância).
      Embora não crente, tenho um enorme respeito pelo “corpus” doutrinário, de conteúdo revolucionariamente humanista, para a época, que é possível atribuir a Jesus de Nazaré; e que não se harmoniza com as atitudes que referi, que só injuriam essa doutrina.
      Quanto a si, pode responder, se quiser, em atenção a outros leitores do blogue e ao risco de poderem ser “infectados” pelas minhas ideias daninhas e impuras, quiçá ditadas pelo próprio demo… Na certeza de que, como disse, já não o lerei, confirmada que está a inutilidade de um debate consigo, dado o meu baixo nível intelectual.
      Também pode “eliminar”, é claro…

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  3. Meu caro, a vulgata? Credo! É preciso ir tão longe? As origens e diferentes versões da Bíblia já são sobejamente conhecidas sem que isso tenha colocado em cheque a fé dos crentes.
    Não perdi tempo, de facto, a rebater a sua ideia de que numa sociedade laica uma instituição católica não tem legitimidade para escolher docentes segundo critérios católicos, algo que aparentemente julga ser inconstitucional. De facto não perdi.
    Volte sempre, ou não, como entender. Mas alegro-me por ter percebido, espero que rapidamente, que em relação ao Pe. Anselmo Borges e o Frei Bento Domingues tem toda a razão, não estou ao nível deles, nem sequer no mesmo campeonato.

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  4. O Paulo diz que está velho. Mas mais do que na idade, mostra que é velho nas ideias que defende, e mostra-se ressabiado em relação à Igreja Católica. Para o Paulo, deixo dois conselhos:

    - O Paulo também, pelos vistos há muito tempo, foi um bebé na barriga da sua mãe. A sua dignidade nessa altura era a mesma do que tem agora, o seu desenvolvimento foi contínuo, por isso é irracional dizer que um bebé pode ser morto, e um velho não.

    - Se tem assim tão pouco tempo, vá aproveitar a vida em vez de perder tempo a destilar veneno em blogs.

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