quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

"O Papa tem vontade de cooperar com a verdade"

Transcrição integral da conversa com Pedro Gil, director de comunicação do Opus Dei em Portugal, sobre a mensagem do Papa para o dia das Comunicações Sociais. Ver reportagem aqui.

Na mensagem do Papa lê-se que: “As redes sociais podem reforçar laços de unidade entre as pessoas e promover a harmonia da família humana”: Na sua experiência, é assim?
Falo pela experiência pessoal e de outros. É um dilema. Temos por um lado o facto inovador de uma pessoa de repente, com facilidade poder entrar em contacto com gente a quem quer muito bem, que não tem possibilidade de ver fisicamente e com quem entra em contacto pelas redes sociais. Mas temos também um dado que é dilemático, contrastante e irónico que é de pessoas que estão no mesmo espaço familiar, que estão ligadas a pessoas distantes mas que dentro da mesma casa não têm muito tempo para estar uns com os outros.

Portanto há uma aprendizagem que é preciso ser feita. Mas dentro dos condicionalismos que o Papa apresenta, sim é possível chegar à ideia de que as redes sociais reforçam a unidade e podem promover a harmonia.

O Papa diz também que as pessoas devem esforçar-se por serem autênticas. Há uma maior facilidade em ser falso no mundo digital?
Este é um dos pilares da proposta positiva que o Papa tem. Ele diz que devemos ser o que somos em qualquer circunstância. Tem a ver com a ideia da unidade de vida, segundo alguns autores, que nos deve fazer ser sempre aquilo que somos em qualquer circunstância, portanto não andarmos disfarçados. Concretamente sabemos que é fácil na internet transformar a relação entre as pessoas numa espécie de baile de máscaras em que as pessoas estão mas ao mesmo tempo estão escondidas. O desafio é esse, ser completamente transparente, não quer dizer contar tudo, quer dizer é que cada um deixe mostrar aquilo que realmente é, sem transmitir falsas imagens. Isso já seria o caminho da mentira, que o Papa considera ser o caminho errado. É apenas um risco de liberdade, enquanto oportunidade pode dar-se um ambiente de unidade e até de harmonia.

O Papa pede um “cuidadoso” discernimento, que se evite o sensacionalismo e os “tons demasiado acesos”. No seu caso, enquanto director de comunicação do Opus Dei, como é que mantém a calma quando confrontado com os muitos preconceitos que existem não só em relação à Igreja, mas em particular contra a obra?
Temos que enfrentar sempre essas dificuldades com muita serenidade, em primeiro lugar considerando que é normal que haja pessoas que tenham opiniões diferentes, tenham visões do mundo que não sejam compatíveis ou que simplesmente não se sintam bem com certas propostas, isso é normal. Quando diante de nós aparecem pessoas com atitudes mais hostis ou provocadoras isso é um teste à nossa resistência, a percebermos que também não tem tanta importância assim.

Ao mesmo tempo julgo que é preciso sempre imaginar que quem faz isso pode estar numa posição de fragilidade, por isso há circunstâncias da vida dessa pessoa que facilitam a que tenha essa reacção, por isso o mundo que não conhecemos dentro do universo pessoal de cada um é tão grande que temos de ter um bocadinho de humildade e respeitar, por isso determo-nos diante disso e ter um pouco de paciência e esperar por melhores dias, também é importante.

Bento XVI cita o seu discurso ao mundo da cultura, em Lisboa. “Constatada a diversidade cultural, é preciso fazer com que as pessoas não só aceitem a existência da cultura do outro, mas aspirem também a receber um enriquecimento da mesma e a dar-lhe aquilo que se possui de bem, de verdade e de beleza”. Falta à sociedade esta capacidade de acolher e aprender com a cultura do outro, e não apenas “tolerá-la”?
Falta muito e não falta só naquelas pessoas que têm uma opinião diferente de nós e que são um bocado intransigentes, pode faltar também no mundo do Cristianismo essa abertura.

Este apontamento, além de para nós ser uma simpatia porque a única citação do texto é do seu discurso de Lisboa, é também um apontamento autobiográfico. O Papa é assim. Eu até já ouvi testemunhos de pessoas que o conhecem directamente que dizem que tal como diz o seu lema, ele tem tanta vontade de cooperar com a verdade que assim que a descobre noutros não tem nenhuma dificuldade em se render a isso.

Papa no Twitter, autenticamente
Isto é fácil de dizer mas é mais difícil de fazer, porque muitas vezes construímos as nossas convicções de tal maneira que achamos que fizemos um percurso triunfante até chegar lá, por isso quando alguém põe isso em questão e nos faz perceber que o percurso era outro, temos de nos despir do nosso orgulho para conseguir perceber que ela tem razão. É um processo difícil, não só intelectual, é também volitiva, do coração. Só quero dizer que o Papa aconselha a fazer isso, a ter essa ginástica interior, mas quando o faz é com base na sua experiência pessoal.

O Papa termina num tom positivo, indicando que por causa das redes digitais há muita gente que sente um apelo para participar “em lugares concretos” experiências de oração ou litúrgicas. A sua experiência confirma isto?
Para muita gente tudo pode ter começado na internet. Ainda há pouco tempo conheci uma história de uma rapariga que foi a ouvir uma música no YouTube que teve uma percepção clara que Deus a chamava para dominicana. Isso acontece assim, as pessoas às vezes encontram a curiosidade, o movimento do coração a propósito destes meios.

Sempre será assim, a forma pela qual se dá aquele encontro com Deus é sempre variadíssima. Aqui mais do que a criatividade do homem em encontrar novas plataformas é a criatividade de Deus em serviço de todas as plataformas para se fazer comunicar. Confirmo a experiência de muita gente que conhece o Cristianismo através dos suportes digitais, mas depois chega mesmo a ter um encontro real com Deus.

Recentemente fez-se muito alarido com a chegada de Bento XVI ao Twitter. Na sua opinião, qual é a real importância da presença do Papa nas redes sociais?
A presença é importante porque onde há um espaço bom, aberto, humano, aí deve estar a voz de Deus, a voz da Igreja e a voz do Papa. O Twitter em concreto aproveita um dos aspectos singulares deste Papa de conseguir dizer ideias muito fortes em muito poucas palavras, o Twitter é uma plataforma excelente para isso.

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