quarta-feira, 20 de maio de 2020

A Religião Causa Divisão?

David G. Bonagura

Na nossa sociedade secular e selectivamente crítica, a religião tem má fama. Os Ditadores do Relativismo afirmam que a religião – e normalmente referem-se ao Cristianismo – devia ser descartada por ser “divisiva”, causando separação entre as pessoas por obrigá-las a tomar partido. Nos últimos tempos, aos trunfos antigos das Cruzadas, Inquisição, as antigas Guerras Religiosas e as motivações religiosas do imperialismo, têm-se juntado as afirmações de que os serviços religiosos são imorais durante a pandemia e que os apelos à oração distraem do trabalho real de conter o vírus. 

Com base nestas acusações, antigas e novas, os Ditadores do Relativismo concluem que a sociedade seria mais pacífica e mais unida sem a religião e sem opiniões religiosas que dividem os cidadãos uns dos outros.

Tendo em conta que os conflitos religiosos existiram de facto, e a actual ameaça do coronavírus, vale a pena considerar a questão: A religião causa divisão social?

Claro que não adianta nada, quando dialogamos com os Ditadores do Relativismo, sublinhar que o Cristianismo tem sido a maior força unificadora que o mundo alguma vez viu, juntando em harmonia todo o género de pessoas que não tinham mais nada em comum. Por cada guerra religiosa que existiu encontramos uma dúzia de exemplos do Cristianismo como factor unificador de sociedades inteiras e dos povos que nelas habitam. Mesmo nestes últimos tempos temos visto o altruísmo de tantos trabalhadores e voluntários que têm estado a trabalhar no sentido de travar o coronavírus e ajudar os doentes, motivados precisamente pela sua fé.

Também não adianta dizer que os princípios morais do Cristianismo – a obediência ao Decálogo, a adopção das virtudes cardeais, a caridade para com o próximo, o cultivo da vida familiar e da educação, o cuidado com o ambiente – são precisamente aquilo que qualquer sociedade são quereria – e precisa – para poder florescer.

Nem os conseguimos mover com a verdade evidente de que as sociedades seculares geraram mais do que a sua quota parte de conflito ao longo dos séculos. A Revolução Francesa, Comunismo e o Nacional Socialismo são ideias seculares que alegavam unir todos debaixo de uma causa comum, mas ao invés acabaram por gerar conflitos terríveis, divisão profunda e muito sangue derramado.

Não, temos mesmo de fazer o jogo no campo deles, por entre as minas antipessoais que colocaram.

Como disse o profeta Isaías, Jesus Cristo é o “Príncipe da Paz” que, como é conhecido, pregou – e depois mostrou durante a sua Paixão – que devemos “dar a outra face” e “amar o próximo como a nós mesmos”. Melhor fórmula para paz cívica é difícil de encontrar.

Mas antes de morrer Jesus avisou os apóstolos: “não sois do mundo, antes eu vos escolhi do mundo, por isso é que o mundo vos odeia”, (João 15:19). O que causa divisão é o ódio, uma atitude prescrita em muitas partes do mundo actual, e Cristo claramente se apercebeu da animosidade que os seus discípulos iriam enfrentar. Caso contrário não teria rezado ao Pai para que “eles sejam um, como nós somos um” (João 17,11).

Finalmente, o Senhor, que se descreveu como sendo “manso e humilde de coração”, também fez a seguinte afirmação, que nos dá que pensar:

“Não pensem que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada. Pois vim para fazer que ‘o homem fique contra seu pai, a filha contra sua mãe, a nora contra sua sogra; os inimigos do homem serão os da sua própria família’. Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim não é digno de mim; quem ama seu filho ou sua filha mais do que a mim não é digno de mim; e quem não toma a sua cruz e não me segue, não é digno de mim.” (Mateus 10, 34-38).

Divisão? Sim, um bocadinho
Será que Jesus está a dizer, branco no preto, que veio para causar divisão e que aqueles que professam o seu nome também o são?

Bem vista, a resposta é que sim.

A paz de Jesus não é uma espécie de tolerância cívica fácil, em que toda a gente finge dar-se bem, com medo de ser castigada. A sua paz, como explicou São João Crisóstomo, é “quando a doença é removida, quando o cancro é retirado. Só com uma cirurgia radical é que é possível o céu ser reunificado com a terra”. A paz que Jesus traz é a verdade, e essa é a única base para uma unidade cívica justa. Só a verdade tem o poder autêntico para guiar a sociedade, porque permite pôr de parte ideias perigosas que podem conduzir à ruína.

Então devemos banir o Cristianismo da sociedade, uma vez que, como admite o seu próprio fundador, ele é divisivo?

O verdadeiro problema não é a religião, mas nós mesmos que, com as nossas mentes toldadas pelo pecado (a verdadeira causa de divisão no nosso mundo), nem sempre percebemos claramente – ou não queremos perceber – a verdade. A verdadeira unidade é a casa construída sobre a rocha, que é personificada em Jesus Cristo.


Conhecendo as nossas fraquezas, Cristo enviou o Espírito Santo para guiar a Sua Igreja, para podermos compreender bem os seus ensinamentos. Os indivíduos podem compreender mal a verdade, incluindo os que estão dentro da Igreja, mas a Igreja enquanto entidade não falhará. As guerras religiosas não são causadas pela verdadeira religião, mas por indivíduos a agir de forma errada, em nome da religião.

Respondemos, portanto, aos Ditadores do Relativismo: Não querem divisão porque não querem a verdade. E não querem a verdade porque querem o mundo a jeito dos vossos caprichos pessoais, que é precisamente a doença que a verdade procura remover. O lema popular, articulado em primeiro lugar pelo Papa Paulo VI, diz: “Se queres a paz, trabalha pela justiça”. Mas não pode haver justiça sem a verdade em que a justiça assenta. Jesus Cristo, conclui o Papa, é a nossa paz.

O Cristianismo é causa de divisão precisamente porque existe para curar o mundo de uma divisão maior ainda: o divórcio da sociedade e da verdade. A acusação feita pelos Ditadores do Relativismo está precisamente ao contrário: Uma sociedade que rejeita o Cristianismo é uma casa dividida contra si mesma que não pode permanecer de pé, e eventualmente cairá.


David G. Bonagura, Jr. leciona no Seminário de São José, em Nova Iorque. É autor de Steadfast in Faith: Catholicism and the Challengesof Secularism, que será lançado no próximo inverno pela Cluny Media.

(Publicado pela primeira vez no sábado, 16 de maio de 2020 no The Catholic Thing)

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