quarta-feira, 26 de setembro de 2018

O Valor do Trabalho

Randall Smith
“Meus irmãos, não tenhais a fé de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor da glória, em acepção de pessoas. Porque, se no vosso ajuntamento entrar algum homem com anel de ouro no dedo, com trajes preciosos, e entrar também algum pobre com sórdido traje, e atentardes para o que traz o traje precioso, e lhe disserdes: Assenta-te tu aqui num lugar de honra, e disserdes ao pobre: Tu, fica aí em pé, ou assenta-te abaixo do meu estrado,
Porventura não fizestes distinção entre vós mesmos, e não vos fizestes juízes de maus pensamentos?” (Tiago 2, 1-4)

Na semana passada assistimos à humilhação pública do ator Geoffrey Owens, ex-estrela do “Cosby Show”. Owens, que desempenhava o papel do genro de Cosby no programa, viu serem publicadas fotografias suas a empacotar compras no supermercado onde trabalha atualmente. Quando as fotografias se tornaram virais foi inundado com comentários insultuosos.

Mas outros saíram em sua defesa. O antigo jogador de futebol americano, e agora actor, Terry Crews, escreveu no Twitter: “Eu trabalhei em limpezas já depois de ter jogado. Se fosse preciso, voltava a fazê-lo. Não há qualquer vergonha em fazer trabalho honesto.”

As reacções iniciais às fotografias sugerem, porém, que muitas pessoas julgam o valor do trabalho de acordo com o dinheiro que rende. Segundo esta visão, a prostituição de luxo vale mais do que limpar quartos num hotel.

No “Laborem Exercens”, a sua encíclica sobre o trabalho humano, o Papa João Paulo II critica a ideia, comum no mundo antigo, de que o trabalho físico é indigno de homens livres, sendo por isso reservado aos escravos. O Cristianismo introduziu uma mudança fundamental a esta perspectiva, porque Cristo, Deus incarnado, passou “a maior parte dos anos da vida sobre a terra junto de um banco de carpinteiro, dedicando-se ao trabalho manual.”

“Em tal concepção quase desaparece o próprio fundamento da antiga diferenciação dos homens em grupos, segundo o género de trabalho que eles faziam”, escreve o Papa. “Em última análise, a finalidade do trabalho, de todo e qualquer trabalho realizado pelo homem — ainda que seja o trabalho mais humilde de um ‘serviço’ e o mais monótono na escala do modo comum de apreciação e até o mais marginalizador — permanece sempre o mesmo homem.”

Seria de esperar que os católicos se distinguissem por abraçar esta visão da nobreza do trabalho bom e honesto. Mas será assim? Quantos pais católicos sentem orgulho quando os seus filhos ou filhas aceitam empregos de salário baixo? Quantos não preferiam que o seu filho ou filha fosse um executivo bem remunerado em vez de professor num liceu católico?

Quando eu era novo o estereótipo do católico era operário. Agora parece que muitos valorizam tanto os trabalhos de executivo como o meu pai, que era um típico protestante anglo-saxónico.

Quantos pais católicos não preferem enviar os seus filhos para as universidades de topo em vez de uma escola católica qualquer, porque querem tanto ver os seus filhos a ter “sucesso” segundo os padrões normais de sucesso financeiro e estatuto social?

Por mim, todas as universidades católicas obrigariam os seus alunos a ter formação em alvenaria ou canalização. Não porque acho que deviam todos tornar-se canalizadores ou trabalhar nas obras, mas simplesmente porque todos os alunos tirariam proveito em trabalhar com materiais reais, em vez de simplesmente mudar imagens de um lado para o outro em realidades “virtuais”. 

Para além disso, os construtores e os canalizadores são cidadãos desta democracia e também merecem todos os benefícios de uma educação católica que respeite a sua vocação. Como é que os católicos deixaram que a cultura protestante os convencesse de que o objectivo de uma educação católica em artes liberais serve apenas para preparar futuros executivos?

Geoffrey Owens - nada de que se envergonhar
Ontem fui com a minha mulher ao sapateiro local. O homem não só domina a sua profissão, como é honesto. Consegue arranjar praticamente tudo, incluindo carteiras ou fivelas de cabedal, e não hesita em avisar se algo não vai ficar tão bem como queremos. É um homem que fornece valor real.

Podia dizer o mesmo sobre o nosso mecânico. Os advogados caros da universidade onde trabalho só parecem dar conselhos maus, mas um mecânico honesto e capaz é uma dádiva do céu. O meu mecânico não só consegue arranjar praticamente tudo, como o faz de forma honesta. A primeira vez que o procurei foi porque um limpa-vidros tinha enlouquecido. Nas outras oficinas tinham-me dito que seria preciso mudar o mecanismo inteiro, e que custaria mais de 400 dólares. Mas o Jim desmontou-o e apontou para uma bucha partida. “Quanto?” perguntei. “Se conseguirmos encontrar uma igual, cerca de um dólar e meio”, respondeu. Noutra ocasião arranjou o meu carro na véspera do meu casamento. É o meu herói.

Temos ainda um homem que arranja coisas cá por casa. Nunca deixo de me espantar com todas as coisas de que ele é capaz. Tem um valor inestimável e já nos poupou centenas de dólares em reparações. Provavelmente até salvou a casa mais do que uma vez. Também ele é o meu herói.

Recentemente um escritor católico expressou preocupação pelo futuro do trabalho, dizendo que “alguns especialistas até prevêem que dentro em breve todo o trabalho de que precisamos será feito por uma pequena elite cognitiva, em colaboração com máquinas geniais”. Serão estes os mesmos especialistas que previram que por esta altura estaríamos todos a morrer à fome por causa da explosão demográfica, e que seríamos substituídos por computadores inteligentes?

Não acreditem em nada disso. Há trabalhos que simplesmente não podem ser transferidos para países em desenvolvimento ou dados a um robot. Tomar conta do seu bebé, por exemplo, ou assentar tijolos para fazer uma parede. Arranjar os seus canos ou ainda instalar uma tomada em sua casa. Mais uma? Fazer a cama no seu quarto de hotel. Todos os executivos do mundo podem ser substituídos antes de substituirmos as pessoas que fazem esses trabalhos.

Pensem por momentos em todas as pessoas que fazem esses trabalhos – trabalhos que fornecem valor real para as pessoas, empregos que melhoram tanto a sua qualidade de vida – e dê graças a Deus.

As pessoas dizem para sermos como Cristo. Muito bem. Ele começou como carpinteiro. Começemos, então, em casa. Ou melhor, no trabalho.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quinta-feira, 15 de Setembro de 2018)

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