Mostrar mensagens com a etiqueta John Milton. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta John Milton. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 20 de março de 2019

Também o Servem

Conheço uma mulher inteligente, que estudou iconografia com outra mulher inteligente (que por acaso é minha mulher), que esteve recentemente em Florença. Sendo historiadora, estava a dar palestras sobre as antigas obras primas católicas que lá se encontram, objectos estimados há muito, aproveitando também para os rever. Muitas destas obras de arte foram produzidas durante o Renascimento e a contra-reforma, para reforçar as crenças católicas e combater a revolta protestante. (A Elizabeth Lev tem um excelente livro, “How Catholic Art Saved the Faith”, sobre este assunto).

Mas nesta viagem ela esteve particularmente atenta a obras ainda mais antigas que existem na cidade, como os ícones orientais pré-Renascimento e outras em que não tinha reparado durante visitas anteriores. Há aqui uma lição para aqueles de entre nós que se vêem envolvidos em polémicas e activismo que, aliás, são muito importantes. Ganharíamos muito em ter uma maior ligação às nossas ricas tradições. É preciso remediar essa limitação, a bem da acção prática, porque qualquer católico deve compreender que não estamos envolvidos numa luta sobre práticas eclesiais e políticas públicas; estamos em guerra – para citar São Paulo – com principados e potestades diabólicas.

No domingo, antes da missa, estive no restaurante de um hotel, onde vários ecrãs mostravam os programas de debate de domingo de manhã. Há vinte e cinco anos que estou envolvido em muitas das controvérsias sobre os quais falavam, mas subitamente percebi que actualmente existem pessoas – sobretudo em sectores da sociedade que formam a cultura – para quem o domingo de manhã se resume a isto. Este é o momento que consideram mais importante, ou mesmo sagrado (se é que usam termos tão arcaicos).

De vez em quando encorajo as pessoas a afastarem-se, por uns tempos, das guerras culturais na Igreja e no mundo, e a politização de tudo, sugerindo que leiam um livro, ou observem ou escutem alguma coisa que ajude a expandir a alma. Normalmente recebo uma de duas respostas.

Da parte dos tradicionalistas informam-me – quem diria – que “estamos em guerra” e que parar para ler Platão, ou Agostinho, ou dedicar tempo a ler música ou poesia não passa de uma distração. Penso nestes críticos como o Partido Jansenista.

Do lado dos progressistas também me dão lições de moral – sobre intelectualismo e torres de marfim – como se o interesse pela verdade significasse que nunca fazemos, ou nos interessamos por, mais nada. Vai alimentar os pobres, vestir os nus, dar tecto aos sem-abrigo e, hoje em dia, acolher os LGBTs, dizem-me. É evidente, mas sem fazer disso – como o Senhor ordenou – um espectáculo público. Este é o partido da Justiça Social.

Mas se vamos ser melhores a lidar com as forças anti-cristãs, ou a praticar obras de misericórdia espirituais e corporais, então a maioria de nós tem de abrir os olhos a novas formas de ser e de agir – a não ser que queiramos continuar a repetir os mesmos combates de pugilismo na internet, nos debates televisivos e na rádio, obtendo a mesma escassez de resultados.

Na Quaresma, a oração, o jejum e a esmola são forma tradicionais de afastar o enfoque de nós mesmos e virá-lo para os outros, sobretudo para o próprio Deus – só Ele pode evitar que os nossos esforços para fazer o bem se tornem apenas mais uma forma de auto-absorção.

Se é o tipo de pessoa que passa a maior parte do seu tempo a fazer trabalho intelectual, talvez seja boa ideia dedicar-se a outras coisas durante os próximos 40 dias. Se a sua paixão é o ativismo, seja de que tipo for, então talvez esta seja uma boa altura para maior reflexão, ou até contemplação regular. Faz parte dos fundamentos do Catolicismo reconhecer que o que Deus quer num dado momento depende das circunstâncias e do estado das nossas almas individuais.

Os americanos em particular são adeptos da acção, e isso tem dado frutos fantásticos para o mundo inteiro. Mas, sobretudo durante a Quaresma, muitos de nós têm de ser mais passivos – e receptivos – durante uns tempos. O próprio Cristo passou 40 dias no deserto antes de começar o seu ministério público.   

O demónio tentou-o com base nas necessidades físicas, domínio político, exigindo até que Deus revelasse o seu poder. Jesus resistiu e, pelo contrário, manteve-se focado na vontade do Pai. Depois disso não se saiu nada mal – os efeitos continuam a ser sentidos no mundo inteiro.

John Milton ficou cego quando estava na casa dos 40 anos e sentiu-se frustrado por não poder servir a Deus e ao homem de forma mais activa. Mas encontrou algum consolo nestas palavras:

“El´ não precisa
Dos dons de um só em cada humana esfera.

Se El´ convoca os seus fiéis, e com ardência
Que milhar´s correm para onde Ele pisa.
Também O serve aquel´ que fica e espera.”
[Tradução de Jorge de Sena]

Aquele que fica e espera, isto é, se for isso que Ele pede.

Estas tentações, e outras, surgem quando nos tentamos afastar das desordens do mundo. O livro do cardeal Sarah “A Força do Silêncio: Contra a ditadura do barulho”, foi publicado há apenas dois anos, mas parece que já precisamos de nos recordar dessa obra singular, por entre tentações de nos apressarmos ao próximo livro ou controvérsia.

Deixo aqui apenas uma das suas reflexões tão importantes: “Se nos dermos a coisas efémeras e insignificantes, entender-nos-emos como efémeros e insignificantes. Se nos dermos às coisas belas e eternas, então entender-nos-emos como belos e eternos”.

A cultura do barulho domina de tal forma as nossas vidas – mais até do que a cultura do relativismo, seu aliado natural – que ao referir sabedoria deste calibre, quase que nos sentimos obrigados a justificar que isso não significa que nos vamos retirar, deixando o mundo à sua sorte.

Não é bem pelo mundo que abraçamos o silêncio profundo. Fazemo-lo porque o nosso destino final não é o mundo.  

Mas é por nos focarmos naquilo que verdadeiramente interessa, a Realidade (o Reino) que as outras coisas nos serão dadas – não há outra forma de as receber. É dolorosamente evidente neste momento que, apesar de todo o nosso trabalho, estamos a falhar porque nos falta algo de crucial – algo que tem de vir de outro lugar. Caso contrário, não passamos de pelagianos, tal como muitos ativistas modernos, que pensam que tudo depende de nós.  

“Quando nos retiramos em silêncio do barulho do mundo, ganhamos uma nova perspetiva sobre o barulho do mundo… Ao nos retirarmos para o silêncio conhecemo-nos, conhecemos a nossa dignidade.”

Esta é a única perspetiva que produzirá verdadeira revolução, em nós e no mundo.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro é A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century, da Ignatius Press. The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está também disponível pela Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quarta-feira, 13 de Março de 2019)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Quando o Padre se Torna Ateu

Anthony Esolen
Quando John Milton, no seu poema épico “Paraíso Perdido”, identifica e descreve os piores dos anjos caídos, diz-nos em que parte do mundo mediterrânico e do Levante eles se estabeleceram, quais falsos deuses, para serem adorados. Quanto mais perto de Sião, pior o demónio. Nesse sentido Moloch, que é o primeiro a ser referido, é o pior de todos, depois de Satanás e Belzebub.

Não bastava que fosse adorado pelos vizinhos amonitas:

Cioso por ver de Deus o altar vizinho,
Com fraudulenta sedução pôde ele
De Salomão levar o peito egregio
(Salomão, o mais sábio d’entre os homens)
A edificar-lhe um majestoso templo
Na montanha do Opróbrio, bem defronte
Do Templo do grão Deus, e a consagrar-lhe,
Como parque, de Hinom o vale ameno
Que ficou desde então, sob outro nome
De Tofete e Geena, emblema do Orco.[1]

Consegue imaginar algo pior do que seduzir o construtor do templo de Deus, Rei Salomão, a construir um templo para si, colado ao verdadeiro? Pode-se estar mais próximo que isso?

Sim, pode. É aí que Milton quer chegar. O último demónio que ele nomeia, supostamente o oposto do sanguinário e guerreiro Moloch, é o lascivo, efeminado Belial, amante do vício pelo vício.

E onde é que Belial é adorado? A resposta é preocupante:

Em honra desse monstro
Não se erguem templos, nem altares fumam;
Porém, com refinada hipocrisia,
É quem templos e altares mais frequenta
Chegando a ser ateus os sacerdotes,
Bem como de Eli sucedeu aos filhos
Que de Deus os alcáçares encheram
De atroz fereza, de brutal lascívia!
                                
Belial não precisa que lhe construam templos ou altares. Ele já ali está, quando o padre se torna um verdadeiro ateu. Não que isso sirva de desculpa para os leigos, porque Belial também se instalou nas sedes de governo e nos costumes lascivos do povo:

Reina ele pelas cortes, nos palácios,
E nas cidades onde os vícios moram,
Onde a devassidão, a infâmia, o ultraje,
Sobem por cima das mais altas torres.
Ali, assim que tolda a noite as ruas,
Os filhos de Belial n’elas divagam
Pela insolência e pelo vinho insanos.

O vício específico de que disfrutam os filhos de Belial é perverso:

Testemunhas as ruas de Sodoma
E a noite em Gaba quando a virtude,
Por amparar os hóspedes, decide
Dar às torpezas a infeliz matrona,
Para evitar mais feios atentados!

Temos então de um lado Moloch, o devorador de crianças, brutal e sangrento, de templo encostado ao de Deus, e do outro lado o mal sexual e antinatural de Belial, que penetra tanto templos como cortes e que toma conta das ruas pela noite, determinando o estilo de vida das pessoas ou levando-as a esconder-se em casa, se puderem.

Moloch e Belial; infanticídio e sodomia; sangue derramado em vão e semente espalhada em vão; guerra pela guerra, lascívia pela lascívia; um deus da fertilidade que come a sua prole e um deus da esterilidade, cujo vício nem prole chega a conceder.

Como dizia o pregador, não há nada de novo debaixo do Sol.

As pessoas têm perguntado se é possível que os padres que tiveram relações sexuais com jovens, consensuais ou não, acreditavam em Deus. Eu tenho tentado recordar a capacidade ilimitada do homem para o fingimento e autoengano, para não falar de mera contradição. Mas talvez devêssemos olhar a questão de outra perspetiva. Milton não disse que Finéias e Hofni, filhos de Eli, eram ateus quando assumiram o seu cargo em Siló. Ele diz que eles se tornaram ateus.

Algumas pessoas perdem a sua fé em Deus por causa das tribulações que sofrem. Desesperam, sucumbindo à sensação de abandono. Outros perdem a fé em Deus por causa dos sucessos de que gozam. Presunçosos, são seduzidos pelo sentimento de invencibilidade. Qual é o caso do padre?

Não estou a estabelecer uma regra universal. Cada padre é um homem, como qualquer um de nós, e pode sofrer aquilo que qualquer um de nós sofre. Mas se perguntarmos quais as ameaças específicas para a fé dos padres, teremos de concluir que no nosso mundo elas vivem do lado do poder, do conforto e do prestígio, e não do lado da fraqueza, privação física e humilhação.

Isto não é uma acusação. Não estou a sugerir que os padres devam viver a pão e água, e que devem ser agredidos em via pública. Estou apenas a constatar um facto. Não é a perseguição que leva os nossos padres a perder a fé, é a complacência.

A Justa Ana com o Profeta Samuel
E o que acontece se perdem mesmo a fé? Mais uma vez, devemos ter o cuidado de recordar o enlear e as contradições do coração humano. Fugimos das verdades difíceis. Talvez o desgraçado cardeal McCarrick acreditasse que acreditava. Mas o que é que você faria se estivesse a tornar-se ateu e toda a sua vida tivesse sido orientada para uma só coisa, o ministério de Deus?

Não pode voltar à sua antiga profissão, porque não existe. Não pode vender os seus serviços, porque não existem. Não tem recursos para voltar à escola, mesmo que pudesse aguentar a vergonha. Não está preparado para trabalho físico, por isso as obras não são uma opção. Então fica quieto.

Se for sincero, reza, reza e mortifica-se, arranja um bom director espiritual e tenta sobreviver à tempestade. Se for fraco e insincero, deixa a sua fé enfraquecer cada vez mais enquanto tenta robustecer a sua imagem, convencendo-se de que é o arauto de uma nova fé, uma nova forma de crença. Só você sabe o que pertence verdadeiramente à fé e o que não pertence. Destrói. Tem ciúmes de pessoas que têm devoções que não o movem. Secretamente, regozija com o falhanço dos outros.

Segue o mundo, porque tem de seguir alguma coisa. Todos os seres humanos seguem uma bandeira, os ateus não são excepção. Mas o dia do pequeno Samuel está para chegar, e não será para si qualquer conforto. Senhor Deus, que seja em breve!


Anthony Esolen é tradutor, autor e professor no Providence College. Os seus mais recentes livros são:  Reflections on the Christian Life: How Our Story Is God’s Story e Ten Ways to Destroy the Imagination of Your Child. 

(Publicado pela primeira vez no domingo, 16 de Setembro de 2018 em The Catholic Thing)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.



[1] Na versão portuguesa baseei-me nesta edição, modernizando apenas alguma da ortografia

Partilhar