quarta-feira, 6 de março de 2013

Todos os Reinos do Mundo

Anthony Esolen
Há poucos meses o povo Americano chegou ao fim de um carnaval de dois anos. Uma caravana louca de marreteiros, burlões, vendedores de banha da cobra, palhaços, homens fortes, mulheres barbudas e domadores de leões sem dentes. Gastámos milhares de milhões de dólares no espectáculo, para não falar dos milhares de milhões de horas colectivas para o ver. O resultado foi a eleição de um Supremo Animador que, sem qualquer noção do absurdo, define “pecado” como “não ser fiel aos meus ideais”.

O homem pecador tem dificuldade em não ser seduzido por essa meretriz que é o Poder. Mesmo os apóstolos, sentados à mesa com Jesus na última ceia, esqueceram-se por momentos que Ele tinha dito que um deles o iria trair. Começaram a discutir sobre quem seria o maior de entre eles. Então Jesus repreendeu-os com o que deve ter sido um suspiro de infinita paciência.

Aquele homem do interior da Galileia sabia bem do vazio que é a busca do poder. “Os reis deste mundo”, explicou “têm poder sobre o povo, e os governadores são chamados ‘Amigos do Povo’”. Eis que as pessoas são levadas a agradecer aos simpáticos benfeitores que lhes colocam cargas sobre os ombros: “Mas entre vocês não pode ser assim. Pelo contrário, o mais importante deve ser como o menos importante; e o que manda deve ser como o que é mandado.”

Nas próximas semanas os cardeais da Igreja Católica elegerão um novo sucessor de São Pedro. Não demorará muito tempo. Haverá alguns custos com voos, estadias e refeições. É tudo. Os cardeais vão rezar pela orientação do Espírito Santo. Sem dúvida haverá preferências diferentes e muitas ocasiões para discussão.

Os representantes do carnaval vão encher as ruas de Roma, frustrados com o silêncio do Vaticano. Se o novo Papa for como Bento XVI, sentir-se-á humilhado pela sua “vitória”. “Simão, Simão, escute bem”, disse Jesus, tendo admoestado os apóstolos para que o maior se fizesse mais pequeno, “Satanás já conseguiu licença para vos pôr à prova. Ele vai peneirar-vos como o lavrador peneira o trigo a fim de separá-lo da palha. Mas eu tenho orado por ti, Simão, para que não te falte fé. E, quando te voltares para mim, anima os teus irmãos.”

Não sei quem é que o Espírito levará os cardeais a escolher. Mas isto sei: que o mundo não o vai compreender, independentemente de quem seja. O mundo fala a linguagem do carnaval; do desejo de riqueza, fama e poder. O mundo considera um “erro” se Pedro fala a verdade, dentro e fora de época. O mundo só conhece uma forma de contabilizar o sucesso: corpos a passar pelos torniquetes.

O mundo riu-se quando a Igreja, na pessoa do seu esposo, morreu no Calvário. A Igreja morrerá de novo, e o mundo rir-se-à de novo; e a Igreja ressuscitará de novo, e o mundo negá-lo-á; e assim será até ao fim dos tempos. Aqui, o carnaval; ali os santos e os pecadores, dedicando-se aos trabalhos da fé, esperança e caridade.


Às vezes o carnaval e a Igreja misturam-se com demasiado à-vontade; às vezes a Igreja consegue acalmar a sede de sangue do carnaval, tornando-o um pouco mais humano; às vezes é o carnaval que consegue colocar um palhaço ou um bobo numa posição de autoridade na Igreja; mas “tudo o que há no mundo - a cobiça da carne, a cobiça dos olhos e a ostentação dos bens - não provém do Pai, mas do mundo.”

A Igreja pode amar o mundo estando nele, mas não é do mundo; renuncia ao carnaval, contentando-se em ser apelidado de louco, para bem dos palhaços com as suas caras pintadas e os sapatos de palhaço que se atropelam para chegar aos lugares reservados aos VIPs.

Os marreteiros continuarão a especular sobre “Porque é que o Papa Resignou”. Porque é que algum homem desistiria assim da meretriz Poder? Julgá-lo-ão de acordo com os seus corações. O homem ou está de tal forma incapacitado que já não tem prazer na meretriz, ou foi obrigado a abandoná-la contra a sua vontade.

Farão ouvidos moucos ao que o Papa Bento XVI disse. Ele não procurou o trono de Pedro. Servir a Igreja fielmente é, em qualquer altura, uma responsabilidade assombrosa; quanto mais assombrosa não será nestes tempos loucos? Ele vai fazer exactamente o que disse que ia fazer; nem os seus inimigos o podem acusar de falsidade. Vai subir à montanha, procurar a face de Deus, e rezar incessantemente até ao fim dos seus dias, para o bem da noiva a quem foi chamado a servir.

João Paulo II deu ao mundo um testemunho eloquente do amor que o sofrimento paciente pode soltar. A sua fragilidade foi uma repreensão firme à idolatria mundana da força. O mundo não compreendeu os seus últimos dias; o carnaval teme tanto o silêncio da oração como o silêncio da morte.

Agora o Papa Bento XVI vai dar ao mundo o testemunho eloquente de uma ascensão ao silêncio. Os palhaços do carnaval, quando retirados do palco principal, não sabem estar quietos, têm de se pôr em bicos dos pés, misturando-se com o público, posando e dando nas vistas e procurando roubar a atenção ao novo Supremo Animador.

Bento XVI não o fará. Enquanto o carnaval toca o seu ruído patético e incessante, o Servo dos Servos de Deus estará de joelhos, tremendo de velhice, mas em paz, em comunhão com aquele que é Ele mesmo uma comunhão de amor.

E quem sabe, talvez alguns dos que passeiam na feira virem os olhos na sua direcção.


Anthony Esolen é tradutor, autor e professor no Providence College. O seu mais recente livro é: Ten Ways to Destroy the Imagination of Your Child.

(Publicado pela primeira vez na Quinta-feira, 28 de Fevereiro 2013 em http://www.thecatholicthing.org/)

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