quarta-feira, 6 de março de 2013

O que se tem estado a passar em Roma?


Têm saído muitas notícias de Roma nos últimos dias, mas nem toda a gente poderá estar a acompanhar tão bem como queria, por isso este artigo serve para fazer um resumo breve e, se possível, ajudar a interpretar alguns dos factos.

O que se está a passar agora é que os cardeais, todos os que estão em Roma e não só os eleitores, estão a reunir diariamente nas Congregações Gerais. Podemos ver isto como uma Assembleia Geral da Igreja, que na ausência do "chefão" tem a seu cargo o Governo da Igreja.

As congregações são importantes por várias razões. Em primeiro lugar porque é lá que se decidem as questões práticas para o Governo da Igreja em Sede Vacante. Regra geral, sem Papa, passa-se muito pouca coisa, mas há decisões que têm de ser tomadas e essas são discutidas e votadas aqui.

Informalmente, contudo, esta é também uma excelente oportunidade para os cardeais se conhecerem melhor. Não esqueçamos que embora muitos cardeais trabalhem em Roma, a maioria vive e trabalha nas suas dioceses, por isso não têm muitas oportunidades para se conhecerem. É importante, por isso, este período em que podem falar, trocar ideias e ainda beneficiar dos conselhos e opiniões dos não eleitores que, na altura do Conclave, estarão, como nós, sem acesso ao interior. É por isso significativo que tenham decidido que, ao contrário do que estava planeado, apenas reunirão de manhã e as tardes serão livres precisamente para se poderem encontrar num ambiente em que estejam mais à vontade.

É também nas congregações que os cardeais vão decidir a data do próximo conclave e muita gente tem sido apanhada de surpresa pelo facto de que, aparentemente, os cardeais não têm grande vontade de acelerar as coisas. Incrivelmente, e apesar de todo o tempo que tiveram para preparar as coisas, ao segundo dia das congregações ainda há cardeais eleitores que não apareceram em Roma! Tudo indica, porém, que ao terceiro dia lá estarão e imagino que até ao fim da semana tenhamos data para o Conclave.

Do que é que se tem falado dentro das congregações? Os cardeais evitam falar sobre isso. Na primeira congregação todos os cardeais juraram cumprir as normas estabelecidas pela Igreja e guardar segredo sobre tudo o que tenha a ver com a eleição do próximo Papa. À medida que cada novo cardeal chega tem de fazer o mesmo juramento antes de se juntar aos trabalhos.

Isto significa que tudo o que se passará no Conclave é segredo, mas não significa que todos os assuntos nas Congregações sejam segredo, particularmente os que não estão directamente relacionados com a eleição do próximo Papa. Neste sentido, todos os dias há uma conferência de imprensa na qual o padre Federico Lombardi explica por alto do que é que se falou naquele dia.

Foi assim que soubemos que na Terça-feira os cardeais decidiram redigir um telegrama para enviar a Bento XVI, mas foi também assim que soubemos, sem grandes elaborações, que muitos cardeais exigem ter acesso ao dossier secreto sobre o caso vatileaks, que Bento XVI colocou sob segredo pontifício, apenas para ser visto pelo próximo Papa. Terão os cardeais o direito de revelar o seu conteúdo integral? Duvido. Contudo, há três cardeais presentes que fizeram o relatório e esses, certamente, conhecem o seu conteúdo. Poderão falar sobre isso? Fá-lo-ão? Ao que parece as exigências são muitas e, estritamente falando, falar sobre o dossier não é o mesmo que mostrá-lo aos outros. Se o Papa colocou o documento sob segredo mas não pediu aos cardeais que guardassem segredo em relação ao que sabiam, haverá espaço de manobra. Não faço ideia o que se passará...

O que mais me tem surpreendido, a mim que sou novato a cobrir conclaves, é a “rebeldia” dos cardeais. Na verdade, muitos deles estão a participar pela segunda vez neste processo e por isso sentem-se mais à vontade para reivindicar e colocar questões e mudar as regras.

Claramente, os cardeais não estão com pressa. Por um lado ainda bem. Claro que todos nós estamos ansiosos para saber quem será o próximo Papa, mas mais importante que isso é que, de facto, a escolha seja acertada. Se para isso é preciso mais tempo, mais convívio, mais conversa e mais informação, que seja. 

Filipe d'Avillez

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