quarta-feira, 27 de março de 2013

O Papa Francisco e o Demónio

Passei todo o conclave, bem como vários dias antes e depois, em Roma, a tentar compreender o significado dos eventos, relatos e boatos. Na minha experiência não devemos levar demasiado a sério os esforços por interpretar as palavras e os gestos iniciais do Papa. Há uma certa falta de fé, ou paranóia, nesta necessidade nervosa de antever o futuro. Em breve saberemos que direcção pretende tomar. É claramente um homem de posições bem medidas e de acção.

Para mais, tudo o que a maioria de nós sabe de certeza sobre Francisco é isto: Um homem santo e inteligente está a conduzir a Igreja, um homem que apoia inteiramente o ensinamento católico – mesmo em questões nevrálgicas como a contracepção, o aborto e o casamento homossexual. Ao mesmo tempo, tem sido próximo dos pobres e apoia os esforços de os ajudar – mas não qualquer esquema social mal pensado e muito menos as tendências marxistas da teologia da libertação.

Resumindo, temos um Papa que não encaixa nas categorias partidárias, mas que encontrou uma forma de pensar e agir inteiramente de acordo com a Igreja nas circunstâncias da Argentina.

É fácil tentar inferir muito a partir de pouco nesta fase. Por exemplo, tem-se empolado muito a questão de ele ter dito, da primeira vez que chegou à varanda de São Pedro: “Sabem que o dever do Conclave é dar um bispo a Roma. Parece que os meus irmãos cardeais o foram buscar ao fim do mundo” [os itálicos são meus].

Os romanos e os italianos em geral interpretaram isto como um desejo do Papa estar mais próximo das pessoas da sua nova diocese – e têm alguma razão. Depois da missa dominical foi um bocado à rua, foram só uns passos, mas sem avisar os seus seguranças. Sabemos que era assim que o Arcebispo Jorge Bergoglio se comportava em Buenos Aires e a prática anterior é normalmente um melhor guia para o futuro do que a mera especulação.

A especulação é fácil, pode ser interessante e por vezes até útil. Mas também pode ser demasiado apressada. Tem-se dito, entre aqueles que desejam tal coisa, que Francisco tem-se referido a si como bispo de Roma precisamente para diminuir o papal do papado. Ficou muito tempo à conversa com o Patriarca Ecuménico de Constantinopla, Bartolomeu I, na terça-feira [dia 19]. É suposto que isso, juntamente com a ênfase no bispo de Roma e não no Papa – sugira de alguma forma que Francisco se considera apenas um de entre várias autoridades cristãs. Não contem com isso. Este Papa é católico.

Em contraste, para mim, uma das coisas mais significativas deste Papa é que já mencionou várias vezes o demónio. Na sua primeira missa papal, na Capela Sistina, durante a homilia aos cardeais eleitores citou o autor francês Léon Bloy: “Quem não reza a Deus, reza ao demónio”. E depois continuou por si: “Quando não professamos Jesus Cristo, professamos a mundanidade do demónio”.

O demónio tenta São José

Dois dias depois, num encontro com os cardeais, pediu: “não cedam à amargura e ao pessimismo que o demónio nos oferece todos os dias”. Esta é linguagem comum para ele. Quando estava a tentar impedir o Governo argentino de legalizar o “casamento” entre pessoas do mesmo sexo, colocou a questão nos seguintes termos:

Não sejamos ingénuos: Esta não é uma mera luta política; trata-se de uma proposta destrutiva do plano de Deus. Não é uma mera proposta legislativa (essa é apenas a forma), mas uma medida do pai da mentira para confundir e iludir os filhos de Deus... Olhemos para São José, Maria e o Menino e peçamos ardentemente que defendam a família argentina neste momento... Que apoiem, defendam e acompanhem-nos nesta batalha de Deus.

Um Papa que fala aberta e repetidamente sobre a linguagem do demónio, o pai da mentira, a guerra contra Deus e oração à Sagrada Família como forma de a travar, claramente não está a tentar cair nas boas graças da imprensa progressista. A presidente da Argentina, Cristina Kirchner, acusou-o de medievalismo por causa destas afirmações, mas isso não o intimidou a ele ou aos outros e ela foi forçada a retrair as críticas.

Talvez seja apenas a minha reacção depois de ouvir tantas opiniões sobre a perspectiva política, litúrgica e teológica do Papa Francisco, mas qualquer Papa que consiga afirmar novamente, de forma clara, que o pecado existe, que é mais do que a mera fraqueza e erros do homem, que toda a história cristã da luta entre Deus e Satanás continua a ser o centro da Fé – e a razão pela qual a Igreja existe – talvez tenha algo de novo para dizer ao mundo.

Admiro a sua vida simples, a sua humildade, a defesa dos pobres e dos marginalizados, a forma cautelosa como lidou com a “guerra suja” na Argentina. Tem experiência. Mas estas coisas facilmente se transformam em polémicas tanto dentro como fora da Igreja e já há muita gente a trabalhar neste campo humanitário.

Toda a gente reconhece a necessidade de se reformar a cúria ou o Banco do Vaticano e outros mecanismos romanos. Mas isso não pode ser o principal para uma Igreja que enfrenta a cegueira e a superficialidade do mundo moderno.

O Papa Francisco deu todas as indicações de acreditar que estas coisas e muitas outras devem ser feitas porque a guerra espiritual que o Cristianismo em tempos trouxe para a atenção do mundo continua a ser uma imagem verdadeira de nós e das nossas vidas, tanto individual como socialmente.

Se ele conseguir devolver a visibilidade a esta luta essa talvez venha a ser a sua contribuição mais surpreendente e revolucionária para um mundo que pensa que essas lutas cósmicas pertencem a um passado longínquo – e que sofre os efeitos dessa crença.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está agora disponível em capa mole da Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez na quarta-feira, 20 de Março 2013 em www.thecatholicthing.org)

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2 comentários:

  1. O papa bento é o Lord Sith..e o Francisco é aquele carinha do rótulo da cerveja Franziskaner

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