terça-feira, 12 de março de 2013

Inspiração do Espírito Santo não é magia

Transcrição integral da entrevista a Maria Cortez de Lobão sobre o papel do Espírito Santo no Conclave. Reportagem aqui.

Como é que funciona a inspiração do Espírito Santo no Conclave?
O Espírito Santo é o amor de Deus e a teologia da encarnação diz que aquilo que acontece na perfeição e definitivamente em Jesus, que é a encarnação do próprio Deus, acontece em nós de maneira progressiva, se o deixarmos.

Isso é o que permite a São Paulo dizer Deus habita em mim e, à comunidade nascente, vós sois Templo do Espírito Santo.

Esta realidade faz com que este amor de Deus que habita em nós não funcione contra a nossa natureza, nem apesar da nossa natureza, mas com a nossa natureza. Isto porque Jesus prometeu que ficava connosco até ao fim dos tempos e que nos enviaria o espírito. O Espírito é este amor com que o pai e o filho se amam e que é de tal forma grande e total que pode ser partilhado por nós, sobretudo os que foram baptizados e vivemos desta realidade.

Se pensarmos, até o nosso amor humano faz coisas deste género. Duas pessoas que se amam podem estar longe fisicamente mas sentem se está a acontecer alguma aflição ao outro, se há um momento de especial alegria.

Este amor que partilhamos já é indício deste amor que Deus quer partilhar connosco e que partilha através dessa presença a que chamamos o Espírito Santo.

O que se pretende aqui perceber é que temos os cardeais, que são pessoas que dedicam a vida à procura da vontade de Deus e que, com as suas características, feitios, capacidades e dons querem por isso ao serviço de Deus. Essa escuta, a que chamamos oração, essa atitude, que é a que tem Nossa Senhora, permite-nos grandes coisas. O Espírito Santo é por vezes inesperado e temos grandes exemplos disso na história da Igreja. O primeiro concílio de Jerusalém é exemplo disso. Havia uma divergência entre Pedro e Paulo sobre como acolher quem vinha de fora do Judaísmo e o que parecia lógico era que se pedisse que primeiro fizessem um trajecto dentro da fé judaica para compreenderem a promessa, a fidelidade de Deus e onde é que se caminhava para compreender o que era o Messias.

São Paulo dizia que não faz sentido porque Em Cristo somos homens novos.

Foi preciso juntarem-se em oração e depois de explicadas as razões de cada um chegaram à conclusão na oração que o caminho era não pedir aos gentios que se convertessem ao judaísmo e surge uma frase nos Actos dos Apóstolos que diz “pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não vos impor outras obrigações que não estas.

A força do Amor de Deus naquela comunidade que procura sinceramente a vontade de Deus é tão real que é possível dizer uma coisa dessas.

Aqui, cada um dos Cardeais, com as suas características e os seus dons, quer pôr esses dons ao serviço de Deus. Portanto, como o Espírito Santo trabalha através dos Dons e não contra os dons, com certeza que podemos dizer, compreendendo bem isto, que o Espírito está presente no Conclave e faz com que o coração de cada um se abra àquilo que é a perspectiva do que é preciso para a Igreja neste momento.

Não intervém contra a liberdade dos cardeais, nem por magia…
A liberdade é sempre preservada. São Tomás de Aquino diz que isso é o mais importante. A liberdade de consciência, uma consciência formada, educada e informada, muito rezada, é o nosso reduto precioso e ninguém força a mão a ninguém. O Espírito Santo não funciona através da violência, mas sim do amor, e o amor consegue coisas inesperadas, mas sempre de uma maneira positiva e criativa, que é o seu apanágio.

Já houve maus papas, mas nem estes conseguiram atentar contra o depósito da fé…
Bento XVI disse a certa altura que da promessa que temos de Jesus, que fica connosco até ao fim dos tempos, e que as portas do Inferno não prevalecerão contra a Igreja, temos a certeza que o erro não vai ser ensinado e não vai prevalecer. É uma certeza pela negativa, mas muito importante. Deus não se impõe. Espera que sejamos dóceis a esse amor, ao Espírito Santo, mas de qualquer maneira daquilo que é importante, e até os Papas menos desejáveis nunca ensinaram nada contra o depósito da fé, isso dá-nos uma grande confiança, saber que quem conduz a Igreja, de facto, é Jesus, como o Papa disse antes de ir para Castel Gandolfo antes da última audiência. Por isso temos de ter toda a confiança e serenidade, apesar dos nossos erros.

Mas da mesma maneira que o Espírito Santo apoia-se nas nossas qualidades para ir à frente com o projecto de amor que tem para nós, os nossos defeitos às vezes até servem para algumas coisas que seriam inesperadas de perceber e através dos nossos defeitos podemos perceber o que não devemos fazer.

Há épocas históricas que explicam certos acontecimentos. Hoje em dia o Papado não tem poder temporal, não é apetecível, e isso é uma grande vantagem para a acção do Espírito Santo se poder fazer com maior liberdade e com maior amor. 

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