quarta-feira, 13 de março de 2013

Atrevêmo-nos a sonhar com Burke?

Estava na missa com a minha mulher na Igreja de St. Peter, no Missouri, na época de Natal, e o celebrante estava a ler uma carta do arcebispo local. Enquanto o fazia a senhora ao nosso lado abanava furiosamente a cabeça. Era só uma saudação de Natal, mas levou esta mulher a desaprovar desta forma pública.

A carta era do então Arcebispo de Saint Louis, Raymond Burke, hoje Cardeal Burke, responsável pela Signatura Apostólica, o supremo tribunal da Igreja Católica.

O Cardeal Burke passou por tempos difíceis em St. Louis. Quando foi anunciado que se ia embora os católicos dissidentes festejaram aquilo que pensavam ser um castigo – mas esses festejos tornaram-se tristeza e até fúria quando se soube que afinal se tratava de uma promoção.

No pouco tempo que lá esteve, Burke enfrentou o que todos os bispos têm enfrentado nos últimos anos. Fechou escolas e fundiu paróquias. Os mesmos católicos que usam contracepção culpam sempre o bispo quando não existem católicos suficientes para manter as escolas e as paróquias abertas.

Também teve de pagar dos cofres da Igreja pelos crimes praticados por padres homossexuais, mas aquilo que mais ofendeu muitos dos fiéis da diocese foi a disputa que teve com a Igreja Católica polaca.

Cem anos antes a paróquia tinha recebido um estatuto quase independente por parte da Igreja. Tinha uma administração independente e era dona da sua propriedade. O antecessor de Burke, Arcebispo Justin Rigali, tentou controlá-los e mais tarde Burke também tentou. Chegou a retirar os padres diocesanos que cuidavam da paróquia, mas esta rapidamente arranjou um de outra diocese, sem autorização, que acabou por ser excomungado pelo seu bispo.

A paróquia tornou-se um ponto de encontro para dissidentes de St. Louis e de todo o país. Afinal de contas, aqui estava uma paróquia que estava a resistir aos chefões e a safar-se. Então Burke excomungou o conselho paroquial.

O Cardeal também enfureceu muitos dissidentes quando – seguindo a dica de Ratzinger – excomungou umas senhoras que tinham sido “ordenadas” padres – uma chegou a afirmar-se bispa. A sua carta de excomunhão é uma obra prima de direito canónico e parece um documento de outra era. Quase que se ouve o barulho dos candelabros a tombar enquanto os cismáticos são expulsos da Igreja.

Edward Peters, especialista em direito canónico, descreveu-a assim:
Gostaria de dizer que a excomunhão, por parte do Arcebispo Raymond Burke, de três mulheres que participaram recentemente numa pseudo-ordenação em St. Louis é uma ilustração perfeita de como os manuais ensinam que deve ser aplicada uma excomunhão (não-judicial) na Igreja de hoje. Mas não posso. Porquê? Porque a atenção prestada aos detalhes jurídicos e as provisões pastorais extendidas às pessoas encarregadas ao seu cuidado excedem de tal forma aquilo que vem nos manuais, que são os manuais que deviam estar a seguir o seu exemplo, e não o contrário.

Nem toda a gente era contra o Arcebispo Burke, nem por sombras. Muitos dos fiéis de Saint Louis ainda têm saudades dele e têm-no na mais alta estima. Quem gostava mais dele e, provavelmente, sentem mais saudades são os seminaristas.
O  Cardeal Arcebispo Raymond Burke
O seminário de St. Louis estava repleto de aspirantes de todo o país que queriam estar perto de Burke, e ele queria estar perto deles também. Diz-se que passava muito mais tempo do que é habitual com os seus seminaristas e regularmente tinha tempo para cada um em particular.

Um alto funcionário do Vaticano disse-me que quando tinha sido aluno no Colégio Norte Americano, em Roma, o então bispo Burke teve cuidado especial para dar atenção a padres de dioceses pequenas que poderiam estar sozinhos. Levava-os a jantar fora e zelava pelas suas necessidades espirituais.

Eu e a minha mulher também o conhecemos assim, como um pastor gentil, generoso e calmo.

No nosso primeiro ano de casados a minha mulher teve três abortos espontâneos. Como eu sou de St. Louis e ambos fazemos trabalho pró-vida, o Arcebispo sabia quem éramos e das nossas dificuldades. Nesse ano convidou-nos a visitá-lo por altura do Natal. Disse que nos queria abençoar com um pedaço do vestido de noiva de Santa Gianna Molla.

Encontrámo-nos com ele na residência episcopal, perto da Basílica de St. Louis, provavelmente a mais bonita Igreja dos Estados Unidos. Recebeu-nos atenciosamente e falámos durante algum tempo sobre o nosso casamento, a nossa vontade de ter filhos e as nossas dificuldades. Ele contou-nos da sua grande devoção a Santa Gianna, elevada aos altares por João Paulo Magno – e que ela nos poderia ajudar.

Molla era médica e morreu depois de dar à luz em 1962, tendo recusado abortar ou fazer tratamento médico que teria morto o seu bebé. Disse repetidamente aos seus médicos para escolherem a vida do bebé acima da sua.

O Arcebispo fez-nos ajoelhar e abençoou-nos com um bocado do vestido de noiva de Santa Gianna. Depois sorriu e disse: “É a oitava vez que faço isto. Resultou oito vezes”, enquanto irradiava uma intensidade que só podia vir de bem lá no fundo. Ele queria emprestar-nos a relíquia para levarmos e venerarmos em casa, mas infelizmente era a única que tinha com ele, todas as outras tinham sido já emprestadas.

Acontece que naquele momento a Cathy estava grávida de duas semanas com a nossa primeira filha, Lucy. Nunca mais sofremos abortos. A Lucy foi a primeira das nossas bebés Gianna Molla. A nossa segunda filha chama-se Gianna-Marie.

No Natal seguinte levámos a Lucy, com seis meses, a conhecer o Arcebispo Burke, e temos as mais fantásticas fotografias do nosso pequeno bebé nos grandes mas carinhosos braços de um pastor que tem todos os dons – eclesiais, espirituais e temporais – para ser Bispo de Roma. Oremus.


Austin Ruse é presidente do Catholic Family & Human Rights Institute (C-FAM), sedeado em Nova Iorque e em Washington D.C., uma instituição de pesquisa que se concentra unicamente nas políticas sociais internacionais. As opiniões aqui expressas são apenas as dele e não reflectem necessariamente as políticas ou as posições da C-FAM.

(Publicado pela primeira vez em www.thecatholicthing.com na Sexta-feira, 11 de Março de 2013)

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2 comentários:

  1. Deus te abençoe, Filipe, por estas tuas esforçadas contribuições para uma mais forte comunhão de fé e de esperança entre nós, católicos portugueses - que nos sentimos, talvez, algo abandonados de conforto e de força pelos nossos distantes pastores.
    FC

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