quarta-feira, 20 de março de 2013

Um Homem Singular

Anthony Esolen
Ao longo dos últimos meses tenho feito algo que, tanto quanto sei, mais ninguém nos Estados Unidos está a fazer. Tenho estado a aprender galês através da leitura do Novo Testamento.

Isso não faz de mim excepcional. As pessoas fazem coisas estranhas a toda a hora; ser peculiar de uma maneira ou de outra é perfeitamente banal. Mas quando tentamos lidar com as palavras de Cristo uma a uma, como quebra-cabeças, apesar de se saber o que dizem os versículos, compreendemos que expressões como comum ou pouco comum não se colocam em relação a Jesus.

Não é como se Jesus estivesse no vértice de um espectro de mestres do mundo antigo. Ele ensina “com autoridade”, como as pessoas referiam, espantadas e até confusas. Não se submete a qualquer profeta ou rei, nem a Moisés. Não tenta convencer as pessoas a levar um estilo de vida benigno, como Buda, nem abraça as tradições do cavalheirismo, como Confúcio.

Somos chamados a imitar Jesus, mas Jesus nunca nos imita. Ele conhece o coração do homem, diz São João, e é em tudo semelhante a nós excepto no pecado, diz São Paulo. Compadece-se das nossas fraquezas, diz o autor da Epístola aos Hebreus, mas seria quase blasfemo atribuir a Jesus um elogio, chamando-o invulgarmente perceptivo. Seria como dizer que a luz é invulgarmente iluminadora, ou que a beleza é invulgarmente atraente.

No fundo estou a dizer que não há ninguém na história do mundo a quem Jesus se assemelha; embora muitos santos, pela graça de Deus, tenham vindo a assemelhar-se a Jesus. O Senhor é singular. Como são as grandes coisas que lhe são associadas. Não há nada no mundo antigo como os Evangelhos – e isso inclui a tontice dos evangelhos falsos, tão inconsistentes e derivados.

Não há nada no mundo que se assemelhe à Pessoa ou aos eventos que eles descrevem. As grandes epístolas de São Paulo são únicas. A transformação de pessoas normais em santos, prontos a espalhar a Boa Nova, única; as pessoas em que se transformaram, únicas; mesmo o Sudário de Turim é único – não há qualquer artefacto antigo que se assemelhe, nem que se aproxime.

Por isso aqui estou, a ler os Evangelhos devagarinho, em galês, e sinto-me compelido a meditar sobre palavras pelas quais passo a correr em inglês. “Quando deres esmola”, diz Jesus, “não anuncies isso com trombetas, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, a fim de serem honrados pelos outros. Eu te garanto que eles já receberam sua plena recompensa. Mas quando deres esmola, que a tua mão esquerda não saiba o que está a fazer a direita” (Mt. 6, 2-3)

Se atentarmos bem nestas palavras experimentaremos o choque de algo totalmente inesperado mas que, quando expresso, se nos apresenta, caso tenhamos presente toda a sabedoria da lei e dos profetas, como o cumprimento de todo o Antigo Testamento, embora ninguém no Antigo Testamento diga algo parecido.

E os pagãos antigos? Aristóteles louvava a virtude da magnificência, a prática de boas obras visíveis, sobretudo através da generosidade pública, porque ele partia do princípio que todos os homens desejam a honra. O autarca mais labrego da parvónia procura imitar Júlio César – encontrando a sua cidade feita de tijolo quer deixá-la, se não em mármore, pelo menos em ardósia reluzente, como novos passeios; e quer que isso seja conhecido, de preferência com direito a placa comemorativa num local público.

A Bíblia em Galês
Mas aqui está Jesus a dizer “Na wyped dy law aswy pa beth a wna dy law ddehau”, “Que a tua mão esquerda não saiba o que está a fazer a direita”. Nunca ninguém disse nada assim.

Façamos aqui uma pausa. Não partamos do princípio que estamos diante de uma metáfora peculiar que diz respeito a uma sabedoria também fora do comum. Partamos do princípio que este Jesus singular, ao dizer esta coisa nunca dita, o fez de uma forma também singular. Assim não estaremos a reduzir a metáfora a algo parecido com senso comum “cristão”.

Aí não diremos, “Jesus recomenda que sejamos discretos quando damos esmola”. Afinal de contas há formas de ganhar a admiração dos homens de forma discreta, duplicando a aura de prazer, gozando não só da glória da generosidade como também do conhecimento de que os beneficiários não nos podem acusar de orgulho.

Não, se a esquerda não deve saber o que faz a direita, então devemos esconder as nossas boas acções do público mais babado e mais lisonjeiro que existe – nós mesmos. Mas como é que isto é possível? Acusamos os discípulos de serem lentos a compreender Jesus, e é verdade, foram-no. E nós, somos mais lestos? Não tinham eles razão para serem lentos? Como nos podemos esconder de nós mesmos? Como podemos não saber o que sabemos?

Nem eu sei a resposta a esta pergunta, mas Jesus dá-nos uma pista sobre onde se encontra a solução. “O vosso Pai”, diz ele, “que vê o que está oculto, recompensar-vos-á”. Devemos ser, explica Jesus, como aquele Pai que faz chover sobre justos e injustos, no mistério da sua sabedoria e solicitude.

Este é o Pai que conhece os recantos do coração. É o Deus que deseja habitar esses recantos, para retirar o coração de pedra, mesmo que se trate de mármore resplandecente, e substituí-la por um coração de carne, um coração que bate com a sua vida.

Se é para gozarmos de uma recompensa, o que pode ser melhor que Deus? Por isso Jesus não está simplesmente a alertar para os perigos da ostentação. Ele está a convidar-nos a render-nos ao Pai, para não permanecermos no nosso conhecimento ignorante e na nossa generosidade alienante. Chama-se a isto nascer de novo. E que é isso? Seremos capazes de dar mais um ou dois passos para além disso?


Anthony Esolen é tradutor, autor e professor no Providence College. O seu mais recente livro é: Ten Ways to Destroy the Imagination of Your Child.

(Publicado pela primeira vez na Quarta-feira, 13 de Março 2013 em http://www.thecatholicthing.org/)

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