Depois das emocionantes notícias de Abril, de que poderiater sido encontrado o entendimento entre a Sociedade de São Pio X (SSPX) e a Santa Sé, penso que será agora em Maio que é revelada a decisão final.
Um leitor deste blogue sugeriu o dia 13. Seria uma data
interessante, sobretudo se tivermos em conta que o bispo Bernard Fellay, o
actual líder desta sociedade fundada pelo Arcebispo Marcel Lefebvre que se
encontra em ruptura com Roma desde 1988, convocou há poucos anos uma “cruzada
de terços” pela reunificação.
A data certa é um mistério. Se o Vaticano trabalhar ao seu
ritmo, que não é o ritmo do mundo (como já sabemos pelas negociações a
propósito dos feriados religiosos), então bem podemos esperar. Mas penso que o
Papa não quererá perder muito mais tempo a este respeito. Esta unificação, a
confirmar-se, configurará a concretização de um sonho e uma reconciliação
pessoal. Ratzinger era prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé na altura
em que se deu a ruptura e, então, foi incapaz de a evitar.
E se os tradicionalistas forem recebidos de volta à Igreja,
como se espera, o que se passará?
Em termos de organização, o Papa certamente lhes oferecerá
uma estrutura que lhes dá bastante autonomia. Alguma coisa do género da
prelatura pessoal do Opus Dei ou do ordinariato pessoal dos ex-anglicanos.
Assim os membros da SSPX ficarão em larga medida a salvo das interferências dos
bispos liberais que, em muitos locais da Europa Ocidental, são muito contrários
a esta reunificação. Exactamente qual será essa estrutura não se sabe, mas o
Papa tem total liberdade para inventar a estrutura que bem quiser, portanto não
adianta muito tentar adivinhar.
Ou não... |
Qual será a reacção da SSPX? Em primeiro lugar quero
esclarecer que embora conheça uns quantos católicos de pendor tradicionalista,
não conheço pessoalmente ninguém da SSPX. Em Portugal não são propriamente
numerosos. Por isso tudo o que escrevo a seguir diz respeito ao que vou lendo,
no meu esforço de acompanhar esta situação.
Com base nessas leituras, que incluem artigos, blogues e
comentários aos mesmos feitos por simpatizantes e/ou membros da SSPX, penso que
se engana quem pensa que os tradicionalistas regressam a Roma quais filhos
pródigos, humildemente agradecidos pela magnanimidade do pai.
Há excepções, e já li alguns comentários de tradicionalistas
a elogiar a benevolência de Bento XVI, mas a tendência geral é de um enorme
triunfalismo, eventualmente de missão, de quem vem salvar Roma dos seus
desvios. Os tradicionalistas não são conhecidos pela sua flexibilidade e,
enquanto grupo, penso que o convívio debaixo do mesmo tecto nem sempre será
fácil. A verdade, também, é que raramente estarão mesmo debaixo do mesmo tecto,
uma vez que terão a sua estrutura autónoma.
Poderei estar a ser injusto com esta análise, se for o caso
peço desculpa.
Who cares?
Finalmente, alguns poderão perguntar mas, afinal de contas,
o que é que isto interessa?
Interessa muito, e basta olhar à nossa volta para ver o que
se está a passar na Igreja actualmente para perceber porquê.
Sem querer fazer juízos de valor, o que é que vemos? O mesmo
Papa que abriu as portas aos anglicanos conservadores (esvaziando, na prática,
o diálogo ecuménico com uma igreja que insiste em cavalgar rumo ao liberalismo
extremo) abre agora as portas aos católicos tradicionalistas que estavam
afastados. No mesmo mês sabemos que a Congregação para a Doutrina da Fé
criticou duramente as religiosas americanas pelos seus desvios à doutrina
católica e a insistência em promover causas contrárias ao magistério.
Na Europa, onde a SSPX é mais forte, os tradicionalistas regressam
a uma Igreja em que está a ocorrer, debaixo dos nossos olhos, uma rebelião
liberal nos países germânicos. Centenas de padres assinam “manifestos pela
desobediência”.
Aos 85 anos, e depois de sete na Cadeira de Pedro, o Papa está
a tomar medidas concretas para reforçar a sua posição, que é conservadora e
tradicionalista, sem ser extremista. Os resultados levarão tempo a fazer-se
notar, mas penso que a atitude dos bispos americanos no seu “conflito” comObama já é um reflexo desta nova realidade.
Portugal não é um bom espelho desta realidade, mas a
clivagem entre uma Igreja conservadora e uma Igreja liberal é demais evidente
em várias partes do mundo.
Quando foi eleito muitos vaticinaram um duro pontificado do
“Pastor Alemão”. Bento XVI tem surpreendido os mais críticos e, até certo
ponto, desiludido os seus defensores mais ferozmente conservadores.
Afinal, ao que parece, o “Pastor Alemão” ainda sabe ladrar.
Filipe d’Avillez
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