domingo, 10 de novembro de 2019

Sobre o caso do bebé abandonado no ecoponto

Tenho acompanhado com atenção e emoção o caso do bebé que foi abandonado num ecoponto em Lisboa, salvo, graças a Deus, por um homem sem-abrigo que o ouviu chorar. Muito se tem falado sobre este caso, e muito se tem escrito.

Inevitavelmente surgiram comparações com o caso do aborto, com várias pessoas pró-vida a notar que é paradoxal que se considere uma tragédia que uma mulher ponha um bebé recém-nascido no lixo, mas que se defenda com unhas e dentes o seu direito a tratar como lixo o mesmo bebé antes de nascer.

Eu até concordo com esta perspetiva, mas por alguma razão, que no futuro irá encher de espanto os nossos descendentes, uma grande parte da nossa sociedade continua a achar que as salas de partos são locais carregados de poderes mágicos que conseguem transformar um aglomerado de células num bebé merecedor de todos os direitos humanos. Enquanto essa ideia absurda não se dissipar, não adianta estar a fazer comparações, porque não serão compreendidas.

Gostava, por isso, de sublinhar outra coisa. Tenho notado com satisfação que o que inicialmente parecia ser uma onda de indignação e revolta contra a mãe desta criança (já repararam como ninguém fala no pai?) se tem transformado sobretudo em compaixão. De facto, só uma mulher desequilibrada, em profundo desespero ou absolutamente corrompida pelo mal consegue fazer o que ela fez. Como eu e a maioria das pessoas continuamos a pensar que pessoas absolutamente corrompidas pelo mal são poucas, graças a Deus, tendemos a acreditar que se tratou de desequilíbrio e/ou desespero, agravados pela situação social da rapariga em causa.

Mas existe aqui uma outra ligação com a questão do aborto que importa sublinhar. Aquando da primeira discussão no Parlamento, em 1997, do primeiro referendo em 1998 e do segundo em 2007 os defensores da liberalização do aborto fizeram uma campanha de demonização dos defensores do “não”, dizendo que estes queriam ver as mulheres presas e que consideravam assassinas as que abortavam. Ficou famoso o cartaz do Bloco de Esquerda que mostrava uma mulher atrás das grades, numa altura em que as mulheres presas em Portugal por abortar eram exatamente zero.

Quando os defensores do “não” respondiam que não queriam ver mulheres punidas, mas que achavam ainda assim que a proibição fazia sentido enquanto mensagem social e dissuasora, eram impiedosamente gozados. Ficou famoso o sketch de Ricardo Araújo Pereira a caricaturar o atual Presidente da República.

Mas partindo do pressuposto de que os defensores da liberalização do aborto são a favor da penalização do infanticídio, deviam agora estar a pedir a condenação e prisão desta mulher. É uma questão de coerência.

Afinal, como estão a ver, é possível achar que um acto é mau e condenável, mas compreender que possam existir atenuantes para quem o cometeu sem, com isso, chegar ao extremo de exigir que o acto seja legalizado.

Afinal, como estão a ver, os defensores do “não” ao aborto legal estavam a ser perfeitamente razoáveis, tanto que desde o referendo foram esses – e apenas esses – que continuaram a trabalhar no terreno para ajudar e acompanhar estas mulheres que se encontram em situações de desespero.

O aborto foi legalizado em Portugal através de uma campanha de mentiras, demonizações e más intenções. Esta foi apenas mais uma. Perdemos todos.

Filipe d'Avillez

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