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quarta-feira, 13 de março de 2013

Surpresa!


Tinha de ser. Passámos todos os último mês a estudar todos os “candidatos” a Papa, eu fiz mais de uma dúzia de perfis de potenciais papas e a escolha foi recair sobre um homem que, honestamente, ninguém esperava. Bom, assim também é mais giro!

Que dizer então desta eleição e deste novo Papa? Em primeiro lugar destaca-se o facto de ele ser um Papa de estreias. O primeiro jesuíta, o primeiro sul-americano e o primeiro Francisco. Notável.

Confesso que fiquei muito bem impressionado com a apresentação dele. É claro que não é nem vai ser um homem muito carismático, mas a humildade que demonstrou, pedindo oração e não só incitando à oração, como rezando mesmo as orações mais básicas do Cristianismo com a multidão, foi muito tocante. Achei-o trémulo nas orações, será que não domina o italiano? Ao que parece não será um poliglota, poderá ser uma dificuldade. Por outro lado, talvez fosse só emoção.

Do que sabemos dele parece um homem que leva muito a sério os seus votos de pobreza e que, sendo jesuíta, não é da ala liberal pela qual essa ordem tem-se tornado conhecida nos últimos anos. Vive de forma humilde, cozinha para si mesmo e anda de transportes públicos. Acima de tudo parece que odeia o “carreirismo eclesiástico”, tendo evitado sempre cargos na Cúria, por exemplo.

Um conhecido vaticanista citou, no início de Março, um cardeal anónimo que teria dito que se a Igreja queria limpar a Cúria romana, então que chamassem o Bergoglio que ele tratava do assunto como ninguém. Ao que parece os outros cardeais estavam atentos e não me parece ser exagero dizer que foi mesmo para isso que o elegeram. Vejamos se isso se confirma ou não.

Este facto pode estar reflectido no nome. É preciso coragem para estrear um nome no Vaticano. Imediatamente pensámos todos em São Francisco de Assis, não só um exemplo de humildade mas o exemplo de um homem que reformou e restaurou uma Igreja a atravessar uma fase de decadência. Também já vi referências a São Francisco de Xavier, que também era jesuíta, mas pelo perfil arrisco-me a dizer que o nome é uma referência mais explícita ao primeiro.

Falemos agora da eleição propriamente dita. De facto ninguém acreditava que Bergoglio seria uma possibilidade forte, apesar de se dizer que no último Conclave ele tinha sido o segundo classificado, sobretudo por causa da sua idade, 76 anos, e tendo em conta que todos falavam de um Papa mais novo.

Não acredito que Bergoglio tenha sido um nome forte logo à entrada para o Conclave. Inclino-me mais para outra interpretação, ressalvando que isto é tudo especulação. Penso que nas primeiras votações poderá ter acontecido como no Conclave de 1978 que elegeu João Paulo II. Dois blocos aparentemente irreconciliáveis, a dividir os eleitores.

Perante este cenário, e sem soluções ao fim de um dia e meio de votações, os cardeais poderão ter optado por um candidato de compromisso, alguém que tem, sim, fama de reformador, e que não é nem demasiado liberal nem demasiado conservador. Até a idade poderá ter-se tornado, neste caso, uma vantagem, uma vez que sendo assim não é de se esperar um pontificado muito longo. Surgirão, como sempre surgem, alegados relatos do que se passou mesmo no Conclave, mas certezas nunca teremos.

O que podemos esperar de Sua Santidade Francisco para os próximos anos?

Diálogo inter-religioso: O Papa vem do país sul-americano com maior número de judeus e de muçulmanos. Os primeiros, em particular, têm-no em alta estima. A julgar pelo nome que escolheu, estará certamente disposto a estender a mão aos muçulmanos também.

Ecumenismo: Tem fama de promover diálogo e encontros ecuménicos no seu país. Ao ponto de alguns tradicionalistas o acusarem de ir longe de mais, (os tradicionalistas têm muito mais a dizer sobre ele... já lá vamos). Espero dele uma abertura ao diálogo e disposição a abordá-lo de forma “desarmada”, o que pode ser muito bom. Por outro lado, a sua própria falta de sentido de tradição poderá levantar suspeitas do lado ortodoxo.

Relação com os meios de comunicação social: É dúbio. Aparentemente, mesmo como bispo, não dava entrevistas. Não antevejo uma alteração em relação à linha latina que tem dominado o Vaticano desde... sempre. Isto é, forte desconfiança dos jornalistas, pouco à vontade, falta de sentido de oportunidade e de timing. Claro que isto não depende só dele... Será que vai dar espaço aos profissionais, como Greg Burke, contratados para gerir a comunicação do Vaticano? Espero que sim, mas não é uma esperança muito grande, sinceramente.

Papa Francisco, Sócio do San Lorenzo
Questões “fracturantes”: Pelo que tenho visto estamos perante um homem de convicções firmes mas com flexibilidade pastoral. Penso que se isso se confirmar será uma boa notícia. Li, mas não posso confirmar, que defende o uso de preservativo para evitar contágios, mas que se opõe à mentalidade contraceptiva, o que me parece sensato. A comunidade pró-vida na Argentina ficou contente com a sua eleição, o que me parece positivo e já envolveu em “conflitos” com o Governo da Argentina por ter condenado a adopção por “casais” homossexuais, pese embora reafirme a posição católica de que as pessoas com tendências homossexuais devem ser acolhidas com amor pela Igreja.

Liturgia: Aqui não prevejo novidades muito boas. Com Bento XVI estávamos a assistir a uma “reforma da reforma” que procurava recuperar a solenidade que em muitos locais se tinha perdido com a reforma litúrgica dos anos 60. A reabilitação do rito tridentino era uma parte desse esforço, mas uma das coisas de que os tradicionalistas o acusam é de ter feito tábua rasa do “Sumorum Pontificum” na sua diocese e de ter “perseguido” os padres tradicionalistas que, por exemplo, queiram andar de batina.

São críticas que devem ser lidas precisamente com um sentido crítico, mas admito que fiquei francamente chocado com o tom da reacção num dos blogues católicos tradicionalistas mais fiáveis e influentes da Igreja. Para terem ideia, o título é “O Horror” e o texto é escrito por um argentino. Dito isto, se tivesse sido eleito D. José Policarpo, consigo imaginar muito boa gente a escrever um texto idêntico sobre ele, mas nós que vivemos mais perto, sabemos que um homem é mais do que a soma das suas falhas.

Contudo, isto leva-me ao último ponto, um que terá de ser tratado pelo Papa Francisco. A questão do diálogo com a Sociedade de São Pio X... Penso que os herdeiros de Lefebvre ainda se vão arrepender de não terem agarrado com unhas e dentes o ramo que Bento XVI lhes estendeu. Não prevejo qualquer cedência do Vaticano para eles nos próximos anos. Se isso é bom ou mau, cada um que decida, mas tenho pena pela oportunidade perdida, mais que tudo.

Finalizo com duas ideias que me parecem importantes. Não terei sido o único a sentir até um picozinho de decepção quando na varanda de São Pedro surgiu um homem inesperado, por quem não tinha nenhuma em particular. A primeira reacção de muitos terá sido algo do género: “Ah?!”

Mas embora não tenha sido nascido na altura, recordo que com João Paulo II se passou exactamente a mesma coisa. Consta que todos esperavam que surgisse um africano depois de terem ouvido pronunciar o seu nome... No entanto ele foi quem foi. João Paulo o Grande.

Pelo que citarei agora o meu bom amigo padre Arsénio que, quando questionado sobre este assunto num debate televisivo recentemente, disse apenas: “Nós [os portugueses] gostamos muito do Santo Padre. Não é por ser este ou aquele, é por ser o Santo Padre”. Parece-me a atitude certa.

Não quero terminar sem agradecer a todas as pessoas que durante este último mês me enviaram mensagens de agradecimento, felicitações, conselhos e perguntas. Tem sido um tempo de muito trabalho, mas tem sido também muito recompensador. É para isto que cá estou e espero que as muitas pessoas que se juntaram a mim no blogue, mailing list e grupo do Facebook, não desapareçam agora que termina este “circo mediático”. 

P.S. uma última nota em relação às críticas que vêm da ala direita da Igreja... eu bem me lembro do que se dizia, pela outra ala, quando Ratzinger foi eleito Bento XVI. Acabou por desarmar todos os críticos e é universalmente amado e respeitado. Só posso esperar que o Papa Francisco consiga fazer o mesmo com os seus críticos agora.

HABEMUS PAPAM!


terça-feira, 12 de março de 2013

Fumo negro e entronização no Egipto

Uma das imagens do dia... um peregrino a rezar em São Pedro
Como se esperava, saiu fumo negro da chaminé da Capela Sistina neste primeiro dia de votações. Amanhã há mais! Atenção por volta das 09h30, 11h00, 16h30 e 18h00, ou por aí…

Quer isto dizer que a primeira votação é “só fumaça”? Pelo contrário… é crucial!

Agora que os cardeais estão reunidos vale a pena desmistificar: Afinal é o Espírito Santo que escolhe o Papa, ou não? Podem ver aqui a transcrição completa da entrevista a Maria Cortez de Lobão sobre este assunto.

Como sabemos, todos os cardeais e conclavistas juram guardar silêncio. Contudo há quem desconfie de fugas de informação neste conclave… veremos se se confirma ou não. Podem ver aqui a transcrição completa da entrevista.


Ontem a Renascença fechou o ciclo de “retratos” da Igreja no mundo. Com a ajuda do padre Duarte da Cunha, olhámos mais de perto para a Europa. Mais uma vez, aqui pode ver a transcrição completa da entrevista.

O dia começou com uma missa presidida pelo Cardeal Angelo Sodano. Na homilia ele pediu unidade e amor para a Igreja. Banal? Não se tivermos em conta os recentes escândalos e recados internos de Bento XVI sobre o assunto.

Enfim, por aqui e na RR terão sempre acesso às novidades. Entretanto podem ler aqui o perfil do segundo cardeal português no Conclave, D. Manuel Monteiro de Castro.

"As dissidências são problemas sérios"

Transcrição na íntegra da entrevista a monsenhor Duarte da Cunha, secretário do Conselho das Conferências Episcopais da Europa, sobre o estado da Igreja na Europa. Notícia aqui.

Bento XVI fez da reevangelização da Europa uma prioridade. Passados estes anos todos, contudo, continuamos a ver a Igreja quase em retirada perante a secularização. Pode-se falar em sucesso ou falhanço?
Dificilmente utilizaria termos como esses. Foram oito anos de muitos sucessos e de outros momentos menos bem-sucedidos. O Papa, no início do pontificado, fez aquela alerta, o juízo sobre a situação do mundo europeu com aquela referência que ficou famosa, sobre a ditadura do relativismo, o relativismo para quem tudo é igual e o bem e o mal parecem desaparecer, pelo que viver com Deus ou sem Deus parece tudo igual, e que isso tem consequências sociais gravíssimas. Penso que é um facto.

Aí o juízo do Papa foi um grande sucesso, porque abriu os olhos a muita gente e fez com que a Igreja começasse a enfrentar a questão da evangelização não só pela perspectiva de ter mais gente na missa mas como a relação pessoal de cada um com Deus, que temos de ser uma Igreja capaz de proporcionar às pessoas um encontro pessoal com Deus, mesmo que seja uma Igreja com dificuldades e perseguida por fora, ou, como o Papa também disse, com muitos pecados e perseguições internas, pelas nossas maldades.

Mas julgo que o juízo do Papa que se manteve e que foi importante. Dizer que ele fez a avaliação mas não conseguiu encontrar a cura, não é assim tão simples, porque a cura não seria a curto prazo. Pôs a Igreja numa dinâmica de preocupação sobre a fé e este Ano da Fé é um testemunho disso, e toda a Europa, a Igreja e os bispos, as paróquias e os movimentos, tomaram isto do Ano da Fé e da Nova Evangelização, muito a sério. Há uma acção que foi despertada pelo pensamento e o desejo e a proposta do Papa que se tornou um sucesso.

Se a Europa deveria estar mais evangelizada? É um facto. As leis sobre o matrimónio, sobre a vida, sobre a família, sobre a presença da religião no espaço público, não valorizam o legado da tradição e da cultura cristã, pelo contrário Às vezes são contra. Mas são duas coisas diferentes. Uma é verificar que a sociedade e o Estado e a maneira como as coisas estão a ser organizadas ao nível do mundo se afastam da Igreja, outra é pensar se a Igreja, enquanto povo de Deus, está ou não está a reavivar a sua fé.

Temos de verificar, caso a caso, mas há muitos sinais de entusiasmo da fé. As Jornadas Mundiais da Juventude são um exemplo, mas o Papa também fez referência na sua última catequese à multidão e à esperança e a certeza da esperança que via na Igreja. Há uma verdade da Igreja viva que não se pode esconder. Há uma Igreja viva, que não se pode hoje esconder, que não é só uma Igreja deprimida, é uma Igreja entusiasmada, mas que não é maioritária e não tem a influência nos governos, nas leis e na cultura que gostaríamos de ter e que, se tivéssemos, acreditamos que ajudaria o mundo.

Antes de ser Papa, Joseph Ratzinger falou num futuro em que a Igreja fosse minoritária mas mais fiel, uma aposta mais na qualidade do que na quantidade. Este pode ser o futuro da Igreja, e devemo-nos conformar com esta ideia?
Julgo que estamos numa fase de viragem cultural e histórica e a Europa de hoje é muito diferente do que será daqui a 10 anos, não só a nível da religião, mas da demografia e da imigração, as crises todas… dificilmente sei o que vai ser.

Mas tenho a certeza que a Igreja será uma presença daqui a 10 ou 20 anos se núcleos duros de pessoas convictas mantiverem a sua fé, individual, mas também comunitária e cultural, fortes. Podemos não ser grupos maioritários, não ter uma influência enorme, mas à imagem dos primeiros tempos da Igreja poderemos dar mais aquela alma, espiritualidade e seriedade que o mundo decadente vai procurar, estou convencido. A Igreja ganhará se não for mais mundana, no sentido de ser bem recebida pelo mundo, mas no sentido de ser mais fiel à sua raiz, à sua identidade, à sua fé, para depois servir o mundo.

A ideia que uma Igreja, para poder estar presente no mundo, precisa de ser bem recebida por este mundo para ser ouvida, vai tendo cada vez menos sucesso. Pelo contrário, uma Igreja que é fiel torna-se uma espécie de farol, chama atenção, desperta, cria interesse, é atractiva. Por isso se calhar às vezes é mais combativa, mais difícil de ser compreendida no mundo, mas é mais eficaz, ao longo do tempo, sobretudo naquilo que é específico da sua missão, que é levar Deus às pessoas, não tanto de fazer um mundo melhor, assim neutro, mas um mundo mais cristão.

Se o próximo Papa lhe pedisse conselhos sobre a pastoral para a Europa, que diria?
Certamente terá muitos melhores conselheiros, sei que há lá muitos cardeais de grande sabedoria e de interesse. Mas julgo que temos assistido, com os Papa dos últimos tempos, a uma experiência do reforço da Fé e da revitalização da fé, que temos de continuar, não há muito por onde escolher. A Igreja tem de ser cada vez mais um povo que reconhece a sua chamada à santidade, como recordava o Concílio Vaticano II. Essa deve ser a grande missão da Igreja, desde o Papa ao pai de família, que é tentar que cada um de nós seja mais fiel na sua experiência de fé e de encontro com Cristo.

Nesse sentido espero que o próximo Papa possa continuar a levar-nos nesse caminho, com a sua palavra, o seu exemplo, porque os últimos não foram só palavra, foram também muito testemunho, uma maneira de estar perante os acontecimentos da vida pessoal e da vida da Igreja e da vida do mundo que também nos ensinaram pelo simples facto de estarem desta maneira.

Bento XVI, diante das alegrias e dos pecados da Igreja tinha uma atitude que nos levava a dizer “eu quero viver estes acontecimentos como ele os vive, com a mesma intensidade, com a preocupação, mas também com a mesma misericórdia e aquela caridade. Espero que o próximo Papa nos ajude a sermos mas santos. Depois, que seja um Papa capaz de Governar a Igreja neste mundo cada vez mais difícil.

Há também problemas internos, de dissidência, penso particularmente nos “Manifestos de desobediência”, na Áustria e na Alemanha. Como lidar com esta questão?
São problemas muito duros e muito difíceis, que devem ser levados muito a sério, porque estamos a falar de pessoas que são boas pessoas e que até podem ser bem-intencionadas. A Igreja ganha na sua identidade vivendo uma experiência forte de comunhão, e para viver essa comunhão entre nós temos de viver uma comunhão forte com Deus.

Estou convencido que a resolução das dissidências não vai ser uma questão de negociação, essa pode ser uma tentação da lógica do mundo, mas não é certamente eficaz. A resolução das dissidências, que sempre houve, mas que agora têm mais impacto até pelo papel da comunicação social, mas que infelizmente não são novas. Julgo que a parte que o Papa e os bispos podem ir fazendo é exactamente darem mais visibilidade à própria fé, à fé deles enquanto pessoas e pastores, mas também da comunidade e da Igreja. Porque uma comunidade viva que faz uma celebração litúrgica em que se percebe que se está a adorar a Deus, portanto onde Deus é visível, uma comunidade que faz uma transmissão da fé não inventando a fé, não adaptando a fé, mas sendo fiel à fé recebida, uma comunidade que reforça os seus laços nas famílias, nas relações de amizades, é uma comunidade que atrai à conversão de todos nós, porque todos nós somos um bocadinho dissidentes em pequenas coisas. Algumas são mais visíveis e outras são mais destrutivas.

Não julgo que a Igreja ganhe com estas dissidências, pelo contrário, acho que perde. Embora ache que alguns destes que querem mudanças radicais, no fundo têm boa intenção, mas não é um bom caminho. A ideia deles é que a Igreja chegue a mais gente, ser mais recebida. Pensam por exemplo que se os padres casarem, se as mulheres puderem ser padres, se o divórcio passar a ser concedido na Igreja, que estas coisas aumentem.

Mas a pergunta deve ser, estas coisas aumentam a fé das pessoas ou aligeiram o peso moral e por isso essas pessoas ficam não por convicção mas porque não é complicado ficar. Se pelo contrário acharmos que as pessoas ficam porque encontraram Cristo, elas serão capazes de pegar na cruz e levá-la até ao fim.

As dissidências são problemas sérios, que têm a ver com a doutrina, com a moral, com a fé, com a doutrina da Igreja. E estou convencido que um Papa que seja capaz de gerar uma comunhão à volta de si ganha, como estes últimos papas conseguiram. Essa comunhão gera depois franjas que não os aceitam mas ao mesmo tempo cria um núcleo fortíssimo que é depois a semente para o futuro.

Há outras regiões onde parece, pelo contrário, que a Igreja está a regenerar. Quer falar um pouco desses pontos mais positivos?
É interessante ver que a Igreja perseguida, dos países comunistas, que há 20 anos encontraram a liberdade, é uma Igreja que não tem grandes estruturas, tem pouco dinheiro, em geral, está agora a recuperar alguns edifícios confiscados no tempo do comunismo, mas é uma Igreja de gente pobre, não é uma Igreja rica, mas é uma Igreja dinâmica.

Pode-se dizer que tinha pouca gente e por isso é puderam recrudescer, mas não é só isso. É uma Igreja que sentiu na pele o que significa uma cultura ateia, uma pressão do ateísmo, do esconder Deus, do ofuscar Deus, de tornar Deus uma coisa escondida no coração de cada um. Estas comunidades católicas, mesmo as ortodoxas, com a liberdade começaram a poder evangelizar e a poder reunir-se e congregar as pessoas e, ao mesmo tempo, sem tanta influência de uma certa modernidade relativista e liberal do mundo ocidental, acabaram por dar um alicerce de convicção e segurança ao seu povo que é muito respeitada. Naqueles países a ideia do ateísmo, mesmo ao nível político, é assustadora, e isso pode dar um certo impulso à Igreja.

Por isso é bonito poder ver as Igrejas greco-católicas, de ritos orientais, a crescerem, a ganhar consistência, a terem muitas vocações, as famílias a terem filhos e os filhos serem uma esperança para esta Europa, mas depois como são países pobres há muitas crises, durante muitos anos houve o ateísmo e há um tecido social muito frágil, há muitas desconfianças, as pessoas não têm uma abertura de confiança grande, há aí um grande trabalho humano e eclesial a fazer, mas há um crescimento de experiência da fé, e de experiência comunitária.

Mas mesmo no nosso mundo ocidental vale a pena ver que estamos numa fase de transição, se formos à França, Holanda, Bélgica, mesmo certos locais na Alemanha e na Áustria, vemos que um certo tipo de Igreja mais preocupada com a cultura do mundo, de diálogo com o mundo, acabou por ser uma Igreja que não teve um grande sucesso, as Igrejas esvaziaram-se. Há uma geração idosa que ainda frequenta a Igreja, depois uma geração intermédia que abandonou a Igreja, e hoje há um recuperar da fé por parte de alguns movimentos, grupos de jovens e paróquias mais vivas, que ajuda a compreender que esta mudança cultural que os países ex-comunistas viveram, nós por outras razões vivemos, por isso também a esperança que o futuro da Igreja não seja uma decadência continua.

Não penso que o próximo Papa venha tratar da falência, vem continuar o caminho de altos e baixos que a Igreja tem, mas com vitalidade. É uma mudança cultural que vale a pena acompanhar agora e esperemos que o Papa seja, nesse sentido, um farol, uma luz e um indicador forte e claro.

Por isso a Igreja tem focos vivos, são esses focos que temos de ver. Bento XVI dizia para olhar para os lugares onde a Igreja está viva, dar-lhes espaço e segui-los. Porque é que a Igreja está viva ali? Porque há uma boa liturgia? Porque há um anúncio da fé forte? Porque há relações humanas intensas e sérias? Porque há empenho na caridade? Porque as pessoas estão preocupadas umas com as outras? Porque há empenho intelectual e há estudo? As razões estão um bocado à vista e vale a pena olhar para essas comunidades e segui-las.

As Igrejas reformadas ou Ortodoxas na Europa podem ser aliadas neste caminho? Isso poderá ser importante para o diálogo ecuménico?
O Papa João Paulo II já o tinha feito bastante, mas julgo que Bento XVI ainda o reforçou mais. Diante deste secularismo e laicismo militante que vivemos na Europa a dimensão ecuménica é fundamental. Os cristãos não têm o direito de não se preocupar com a unidade interna, entre si. Por isso o esforço de diálogo, mas não simplesmente um diálogo de não-agressão, mas um diálogo que procure a construção de uma unidade visível, uma unidade que possa depois ser experiência comum, ainda estamos longe, mas penso que o Papa Bento XVI insistiu muito nisto.

A nível de diálogo com os ortodoxos, pelas questões da fé, talvez seja mais fácil, mas há muitas igrejas reformadas, luteranas e não só, onde o diálogo mesmo doutrinal tem dado muitos passos. Penso que vai ser importante os próximos tempos. Vai ser importante 2017 quando fizer os 500 anos do início do protestantismo na Europa. Vamos ver qual é o futuro da Igreja Anglicana em Inglaterra, da Igreja Protestante na Suécia… o ecumenismo é de facto fundamental para a evangelização. Não podemos separar as duas coisas.

Não podemos é pensar num ecumenismo relativista, em que cada um pensa como quer e somos todos amigos. Não, esta amizade tem de ser séria, profunda e chegar mesmo à raiz dos problemas. Pedir perdão onde for preciso, perdoar onde for preciso perdoar, dizer que não tínhamos razão numas coisas, não poder ceder na convicção nas outras, para poder chegar a uma unidade visível.

“I wouldn’t be surprised if there were leaks from the Conclave”

Full transcript of interview with Robert Royal, editor of The Catholic Thing and author of a book about the Swiss Guard. News story here (in Portuguese)

Transcrição integral da entrevista a Robert Royal, editor de The Catholic Thing e autor de um livro sobre a Guarda Suíça. Notícia aqui.


Who is in charge of security during the Conclave?
As I always the case the Swiss Guard, who are a military corps, not a police, are the ones who guarantee the security of the cardinals. They make sure they are locked securely into the Sistine Chapel, they accompany them as they go back and forth between the Casa de Santa Marta and the Chapel.

This is only the second conclave, by the way, in which the Cardinals are not locked into the Sistine chapel for the duration of the conclave. It was after John Paul’s election that he realized it was not the ideal circumstance, especially for the older men, to be in the chapel where there were no proper toilets or beds. So that is when they built Santa Marta and now they go back and forth. So the Swiss Guards are there for the physical security.

The actual security for the secrecy of the operations falls on the gendarmeria, the police force of the Vatican State, and there is some doubt as to whether they are doing a very good job. They are supposed to be jamming electronic signals, and people take oaths of secrecy, but even in the General Congregations we are hearing almost a day by day transcription of what is going on, so it’s going to be curious to see if when they enter the conclave these same leaks occur.

Could technology be being employed to eavesdrop on the General Congregations, or is it a question of the Cardinals telling their sources what is going on?
It’s hard to say. The Italian cardinals are notorious for leaking to the press. In 2005 it seemed to be the interpreters, who also take oaths of secrecy, who were leaking to the press, but there is virtually a daily account here in Italy of what is transpiring every day. So it’s hard to say, and the fact that the cardinals are, for the second time, going to be leaving and re-entering the Sistine chapel twice a day… it’s not very hard to have a smart phone record something and then, in the course of walking outside the area without electronic jamming, being able to transmit some things. We’ll know in the first day or two because we will start to see if there are reports of the actual voting in the Conclave, it wouldn’t surprise me at all if somehow there were electronic devices that will be doing that.

What would be the penalty for someone trying to pass this information out?
In theory all the cardinals take an oath on pain of excommunication if they disclose any of the proceedings, even after the Conclave has occurred. And yet we know that things have leaked out about voting in the past. We know that with John Paul II the Italians divided among two Italian candidates and allowed the Polish cardinal to become John Paul II. Similarly we know that in 2005 it was just a matter of several ballots before he was elected and we know pretty much how the different national voting blocks begin to move. Somehow this information comes out, it usually is after the fact and the Cardinals, in talking, reveal some things, sometimes not even intentionally. But this time I think we might see a somehow more electronically porous Conclave.

But it is also possible that journalists are just making it up?
Obviously there are a lot of people who do just make things up. But there are a lot of quite reputable professional journalists whose predictions and analyses have proven true. There are things which the Vatican spokesman would have denied. It was revealed in the last few days that the role of women had been discussed, and Islam, and specific cardinals had been named. If that had not been the case I think there would have been a denial, but there wasn’t.

You wrote a book on the Swiss Guard. They are seen as playing a largely ceremonial role, is that the case?
It has changed a little bit. Some of the security functions have been shifted off to the gendarmeria because they have more expertise, for example with electronic surveillance. But the Swiss Guard are still the last physical line of protection of the Holy Father. They may appear to be ceremonial but they also guard the outskirts of the Vatican City state. Many people who have been in Rome have seen the Swiss Guards who are at the various check points where people and vehicles enter and exit.

Since Paul VI the Swiss Guard have not been allowed to openly carry weapons. When I was writing my book about the 500th anniversary of the Swiss Guard, which took place in 2007, I asked the commandant and some of the others whether they were satisfied that they had the physical ability to defend the Vatican after 9/11. They wouldn’t quite tell me what else they were doing, but they did say that the re-evaluated the kind of protection they could provide at the checkpoints and they were satisfied, so I have to assume that they have some very serious weapons, should they have to use them. As you know the Swiss love guns, they love target shooting. Contrary to the image people have they appreciate guns, they know how to use them and they are skilled at it. They know what they are doing.

Inspiração do Espírito Santo não é magia

Transcrição integral da entrevista a Maria Cortez de Lobão sobre o papel do Espírito Santo no Conclave. Reportagem aqui.

Como é que funciona a inspiração do Espírito Santo no Conclave?
O Espírito Santo é o amor de Deus e a teologia da encarnação diz que aquilo que acontece na perfeição e definitivamente em Jesus, que é a encarnação do próprio Deus, acontece em nós de maneira progressiva, se o deixarmos.

Isso é o que permite a São Paulo dizer Deus habita em mim e, à comunidade nascente, vós sois Templo do Espírito Santo.

Esta realidade faz com que este amor de Deus que habita em nós não funcione contra a nossa natureza, nem apesar da nossa natureza, mas com a nossa natureza. Isto porque Jesus prometeu que ficava connosco até ao fim dos tempos e que nos enviaria o espírito. O Espírito é este amor com que o pai e o filho se amam e que é de tal forma grande e total que pode ser partilhado por nós, sobretudo os que foram baptizados e vivemos desta realidade.

Se pensarmos, até o nosso amor humano faz coisas deste género. Duas pessoas que se amam podem estar longe fisicamente mas sentem se está a acontecer alguma aflição ao outro, se há um momento de especial alegria.

Este amor que partilhamos já é indício deste amor que Deus quer partilhar connosco e que partilha através dessa presença a que chamamos o Espírito Santo.

O que se pretende aqui perceber é que temos os cardeais, que são pessoas que dedicam a vida à procura da vontade de Deus e que, com as suas características, feitios, capacidades e dons querem por isso ao serviço de Deus. Essa escuta, a que chamamos oração, essa atitude, que é a que tem Nossa Senhora, permite-nos grandes coisas. O Espírito Santo é por vezes inesperado e temos grandes exemplos disso na história da Igreja. O primeiro concílio de Jerusalém é exemplo disso. Havia uma divergência entre Pedro e Paulo sobre como acolher quem vinha de fora do Judaísmo e o que parecia lógico era que se pedisse que primeiro fizessem um trajecto dentro da fé judaica para compreenderem a promessa, a fidelidade de Deus e onde é que se caminhava para compreender o que era o Messias.

São Paulo dizia que não faz sentido porque Em Cristo somos homens novos.

Foi preciso juntarem-se em oração e depois de explicadas as razões de cada um chegaram à conclusão na oração que o caminho era não pedir aos gentios que se convertessem ao judaísmo e surge uma frase nos Actos dos Apóstolos que diz “pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não vos impor outras obrigações que não estas.

A força do Amor de Deus naquela comunidade que procura sinceramente a vontade de Deus é tão real que é possível dizer uma coisa dessas.

Aqui, cada um dos Cardeais, com as suas características e os seus dons, quer pôr esses dons ao serviço de Deus. Portanto, como o Espírito Santo trabalha através dos Dons e não contra os dons, com certeza que podemos dizer, compreendendo bem isto, que o Espírito está presente no Conclave e faz com que o coração de cada um se abra àquilo que é a perspectiva do que é preciso para a Igreja neste momento.

Não intervém contra a liberdade dos cardeais, nem por magia…
A liberdade é sempre preservada. São Tomás de Aquino diz que isso é o mais importante. A liberdade de consciência, uma consciência formada, educada e informada, muito rezada, é o nosso reduto precioso e ninguém força a mão a ninguém. O Espírito Santo não funciona através da violência, mas sim do amor, e o amor consegue coisas inesperadas, mas sempre de uma maneira positiva e criativa, que é o seu apanágio.

Já houve maus papas, mas nem estes conseguiram atentar contra o depósito da fé…
Bento XVI disse a certa altura que da promessa que temos de Jesus, que fica connosco até ao fim dos tempos, e que as portas do Inferno não prevalecerão contra a Igreja, temos a certeza que o erro não vai ser ensinado e não vai prevalecer. É uma certeza pela negativa, mas muito importante. Deus não se impõe. Espera que sejamos dóceis a esse amor, ao Espírito Santo, mas de qualquer maneira daquilo que é importante, e até os Papas menos desejáveis nunca ensinaram nada contra o depósito da fé, isso dá-nos uma grande confiança, saber que quem conduz a Igreja, de facto, é Jesus, como o Papa disse antes de ir para Castel Gandolfo antes da última audiência. Por isso temos de ter toda a confiança e serenidade, apesar dos nossos erros.

Mas da mesma maneira que o Espírito Santo apoia-se nas nossas qualidades para ir à frente com o projecto de amor que tem para nós, os nossos defeitos às vezes até servem para algumas coisas que seriam inesperadas de perceber e através dos nossos defeitos podemos perceber o que não devemos fazer.

Há épocas históricas que explicam certos acontecimentos. Hoje em dia o Papado não tem poder temporal, não é apetecível, e isso é uma grande vantagem para a acção do Espírito Santo se poder fazer com maior liberdade e com maior amor. 

D. Manuel Monteiro de Castro

Nascido: 29 de Março de 1938
Ordenado padre a 9 de Julho de 1961
e bispo a 23 de Março de 1985
D. Manuel Monteiro de Castro foi ordenado padre na arquidiocese de Braga mas logo foi estudar para Roma e nunca mais voltou para Portugal, prosseguindo todo o seu ministério eclesiástico fora do país.

Ingressou no serviço diplomático da Santa Sé em 1967 e serviu nessa capacidade em vários países do mundo, incluindo as Antilhas, Honduras, El Salvador, África do Sul e países circundantes.

Em 2000 foi nomeado núncio apostólico para Espanha, um cargo muito importante para a Igreja, que desempenhou até 2009, altura em que foi chamado para servir de secretário na Congregação para os Bispos, em Roma.

Finalmente, em 2012 foi nomeado penitênciário-mor da Santa Sé. No mesmo ano foi escolhido por Bento XVI para fazer parte da lista de novos cardeais, criados em Fevereiro desse ano, tornando-se o terceiro cardeal português vivo. Uma vez que D. José Saraiva Martins já ultrapassou os 80 anos, apenas D. Manuel e o Patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, têm direito a voto no conclave convocado após a resignação de Bento XVI.

Praticamente desconhecido dos portugueses, D. Manuel Monteiro de Castro atraíu alguma polémica com uma entrevista concedida ao “Correio da Manhã”, na altura em que se deu o consistório em que foi elevado a Cardeal. Na entrevista D. Manuel afirmou que faltavam políticas de incentivo à família e à natalidade, dizendo que, por exemplo “A mulher deve poder ficar em casa, ou, se trabalhar fora, num horário reduzido, de maneira que possa aplicar-se naquilo em que a sua função é essencial, que é a educação dos filhos.”

Contudo, o jornal deturpou as suas palavras e colocou em manchete o título: “Mulher deve ficar em casa”. A mesma entrevista foi depois citada pelo jornal “Público”, num artigo com o título “Novo cardeal português defende que função ‘essencial’ da mulher é educar os filhos”. Meses mais tarde, em resposta a uma queixa de um leitor, a Entidade Reguladora da Comunicação Social condenou ambos os jornais por má prática jornalística. Mas o mal estava feito e para a posteridade, para muitos, ficou a ideia criada inicialmente pelos jornais e circulado pelas redes sociais.

segunda-feira, 11 de março de 2013

A horas do Conclave

No Paquistão as preocupações são outras...
Antes de mais, e para quem puder, não esquecer a interessantíssima conferência desta noite no Centro Cultural de Cascais sobre a Espiritualidade na Infância! É às 21h30.


A partir de amanhã à tarde o site da Renascença terá imagem em directo da chaminé de onde sairá fumo… branco ou preto. Amanhã olhos a postos por volta das 18h00, mas não deve ser branco.

Ontem D. José Policarpo celebrou missa na Igreja de Santo António dos Portugueses e referiu algumas das características que o próximo Papa terá de ter. Com quase toda a certeza o próximo Papa não será o Patriarca, que já é visto por muitos como sendo demasiado velho, contudo a lista dos perfis dos cardeais não estaria completa sem os dois portugueses! Hoje é mesmo para o Cardeal Patriarca de Lisboa que olhamos. Os outros perfis que tenho feito podem ser vistos na barra lateral direita do blogue.

Esta noite na Renascença continuamos a olhar para a Igreja no mundo. Depois de África e América é a vez da Europa. Esta noite, no noticiário das 23h, com entrevista ao padre Duarte da Cunha. O mesmo padre Duarte que hoje, em Roma, foi também entrevistado pela equipa da WebTV.


Ao longo dos próximos dias enviarei mails cada vez que sair fumo da chaminé da Capela Sistina e sempre que houver algum detalhe de última hora que considere crucial. Se quiserem adicionar amigos ou familiares aos mails façam-no à vontade.

A Renascença, evidentemente, acompanhará todos os desenvolvimentos de perto.

D. José da Cruz Policarpo

Nascido: 26 de Fevereiro de 1936
Ordenado padre a 15 de Agosto de 1961
e bispo a 29 de Junho de 1978
O Cardeal D. José da Cruz Policarpo, Patriarca de Lisboa, nasceu a 26 de Fevereiro de 1936 em Alvorninha, concelho das Caldas da Rainha. Estudou filosofia e teologia no Seminário Maior do Cristo-Rei, dos Olivais.

Doutorou-se em teologia dogmática pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma e dirigiu o Seminário de Penafirme e o Seminário dos Olivais. Foi também, mais tarde, nomeado reitor da Universidade Católica Portuguesa para o quadriénio 1988/1992, por Decreto da Santa Sé, e reconduzido nessas funções, até 1996.

Anos antes, em 1978, D. José Policarpo havia já sido ordenado Bispo titular de Caliabria e auxiliar de Lisboa, tendo recebido a Ordenação Episcopal, em Lisboa, a 29 de Junho do mesmo ano.

Em Março de 1997, D. José da Cruz Policarpo foi nomeado Arcebispo Coadjutor do Patriarca de Lisboa, D. António Ribeiro, a quem sucedeu como Patriarca em 24 de Março de 1998. É actualmente o patriarca católico há mais anos em funções e também o mais velho, desde a resignação de Bento XVI.

Já foi várias vezes presidente da Conferência Episcopal portuguesa e tem uma vasta produção literária, tanto a nível de livros como de artigos académicos.

Apesar da importância histórica da arquidiocese de Braga, cujo bispo tem o título “Primaz das Espanhas”, Lisboa, com o seu estatuto de patriarcado e de capital do país, goza de uma influência muito importante. D. José Policarpo é, por isso, uma figura de realce na vida nacional, sendo frequentemente convidado para momentos solenes de Estado.

Ao longo da última década a Igreja viu-se várias vezes em conflito com o Governo, sobretudo com os executivos socialistas, aquando da liberalização do aborto e também da legalização do “casamento” entre homossexuais. Em todos estes casos o Patriarca de Lisboa, bem como o resto da Igreja, deixou bem clara a orientação da Igreja, embora alguns o tenham criticado de falta de intervenção nos debates que se desenrolaram à volta destes assuntos.

Aos 75 anos apresentou a sua resignação, como é próprio para bispos diocesanos da Igreja romana, mas o Santo Padre respondeu a pedir que prolongasse o seu mandato durante mais dois anos.

Em Junho de 2011 deu uma entrevista em que afirmou que não havia razões teológicas de fundo para não ordenar mulheres ao sacerdócio. Esse comentário originou alguma polémica e levou a uma retracção oficial, em que o Patriarca afirmava desconhecer um documento escrito por João Paulo II que afirma categoricamente que a Igreja não tem autoridade de fazer essa reforma.

D. José Policarpo é Cardeal há muitos anos, tendo participado no conclave que elegeu Bento XVI. Durante esse conclave o seu nome foi avançado como possível sucessor de João Paulo II, o que não se veio a concretizar.

Em 2013, quando Bento XVI anunciou a sua resignação, D. José disse aos jornalistas que se considerava demasiado velho para vir a ser escolhido Papa e que ele mesmo preferia um homem mais novo para o cargo. 

sexta-feira, 8 de março de 2013

Conclave: Porquê tão tarde?

Sem pressa!
Ora já temos data para o Conclave.

Muitos se questionam, contudo, sobre porque é que levou tanto tempo para começar, se o Papa já tinha anunciado a sua resignação a 11 de Fevereiro… Essa dúvida associa-se ao do atraso dos cardeais, o último dos quais apenas chegou a Roma quatro dias depois do início das congregações gerais. É de facto estranho.

Claro que os cinco cardeais eleitores que levaram mais tempo a chega podem ter razões perfeitamente válidas, mas nalguns casos o atraso parece estranho. Uma explicação é de que o fizeram de propósito para atrasar a marcação do conclave.

E porque é que se interessariam por atrasar o início do conclave? Bom, aí entramos em especulação sobre politiquices internas…

Convém não esquecer que a maioria dos cardeais eleitores não vive nem trabalha em Roma. Por isso não se conhecem tão bem uns aos outros como os que são funcionários da Cúria. Haveria, entre os “forasteiros”, o medo de que os “romanos” tentassem condicionar a votação, tendo já blocos de apoio formados. É fácil compreender que para um Cardeal que vem de longe e participa pela primeira vez num conclave, ao ver no primeiro dia 40 cardeais a votar no mesmo sentido, se sinta impelido a fazer o mesmo, sobretudo quando não conhece bem nenhum dos “candidatos”.

Terá sido para tentar impedir isso que os “de fora”, que ainda assim são maioria, fizeram por atrasar o início do conclave exigindo, logo a abrir, que as tardes fossem livres de congregações gerais para que o trabalho decorresse mais lentamente e todos tivessem mais oportunidades para se encontrarem, conversarem, conhecerem e estreitarem ideias.

Uma coisa parece consensual entre os observadores: quanto mais tarde começa o Conclave, mais curto será. Isto porque os cardeais irão lá para dentro já com alianças bem formadas e uma melhor noção do que querem no candidato escolhido. Vamos a ver, a partir de dia 12, se essa previsão se confirma ou não.

Conclave marcado

Nada a ver com as notícias, mas uma belíssima
foto da entronização do Patriarca da Etiópia

Apesar de todos os cardeais serem homens, o dia da mulher não lhes passou despercebido. Hoje na congregação geral discutiu-se o papel da mulher na Igreja.

Continuamos a olhar para a Igreja no mundo. Ontem na edição da noite da Renascença vimos o continente africano, com entrevistas com um bispo na Guiné, uma portuguesa que já trabalhou em quatro PALOP diferentes e um padre nigeriano que fala do mal que é o tribalismo na Igreja. Na segunda-feira viramos a atenção para a Europa.

A data do Conclave parece escolhida de propósito para mim porque dá-me tempo para publicar todos os perfis de cardeais que “vale a pena ter debaixo de olho”. Hoje olhamos novamente para um brasileiro, o Cardeal D. João Bráz de Aviz.


João Bráz de Aviz

Nascido: 24 de Abril de 1947
Ordenado padre a 26 de Novembro de 1972
e bispo a 31 de Maio de 1994
D. João Bráz de Aviz é bispo emérito de Brasília, capital federal do Brasil.

Ao longo do seu percurso esteve em várias dioceses, antes de ir para Brasília, e em 2011 foi nomeado prefeito da Congregação para os Religiosos, que supervisiona as ordens religiosas católicas em todo o mundo.

Numa entrevista feita em Fevereiro de 2011 o cardeal confessou que quase que abandonou o seminário, quando era novo, por causa das correntes liberais que acompanharam a época da teologia da libertação, sobretudo depois do Concílio Vaticano II, apesar de reconhecer a importância da “opção preferencial pelos pobres”, que serve de lema para os teólogos da libertação.

Quando era novo D. João viu-se envolvido num assalto à mão armada em curso e foi atingido por balas que lhe trespassaram os intestinos e um olho. Apesar de os cirurgiões lhe terem salvo a vista, ainda tem estilhaços das balas no corpo.

Enquanto membro da curia responsável pelas ordens religiosas tem tido que lidar com alguns problemas, nomeadamente o inquérito feito às ordens religiosas femininas, nos EUA, mas disse várias vezes que prefere abordar os assuntos através do diálogo e não por imposições.

Aos 65 anos há quem veja em D. João Bráz de Aviz, que tem fama de ser discreto, um eventual sucessor de Bento XVI, tendo a vantagem de representar o país com maior número de católicos no mundo, ainda por cima um ano antes da realização das Jornadas Mundiais da Juventude, no Rio de Janeiro. 

quinta-feira, 7 de março de 2013

D. Odilo Pedro Scherer

Nascido: 21 de Setembro de 1949
Ordenado padre a 7 de Setembro de 1976
e bispo a 2 de Fevereiro de 2002
Quando se fala na possibilidade de um Papa oriundo do “terceiro mundo”, como era conhecido, o Brasil surge logo como uma das possibilidades mais fortes, até por ser o maior país católico do mundo, em termos demográficos.

D. Odilo Scherer é arcebispo de uma das maiores e mais importantes dioceses do Brasil. A isso acresce o facto de o actual arcebispo do Rio de Janeiro não ser Cardeal, o que não impossibilita a sua escolha, mas torna-a muito pouco provável. Para além disso D. Odilo tem experiência curial, sem ser um "homem da cúria", e conhece bem o Banco do Vaticano, pertencendo ao comité de 15 cardeais encarregues de acompanhar mais de perto a situação financeira da Santa Sé.

O Cardeal brasileiro é bastante novo, com apenas 63 anos, o que poderá desmotivar mesmo alguns cardeais que já manifestaram querer um Papa mais novo do que era Bento XVI quando foi eleito. Por outro lado, João Paulo II tinha 58 quando foi eleito.

Do ponto de vista teológico Scherer apresenta visões equilibradas. Critica os excessos da Teologia da Libertação, que tantos adeptos tem ainda na América do Sul, mas louva por exemplo a acentuação da justiça social da mesma corrente teológica. Tem criticado as tentativas de legalizar o aborto no Brasil e, do ponto de vista liturgico tende para o conservador, tendo criticado as missas “espectáculo” do padre Rossi, por exemplo. Permite na sua arquidiocese a celebração da forma extraordinária do rito romano, conhecido frequentemente como rito tridentino.

Recentemente viu-se envolvido numa polémica por causa da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) quando, na qualidade de magno-chanceler, vetou o nome do reitor eleito por alunos e professores, nomeando antes a terceira classificada, mas a única candidata que considerava adequada à chefia de uma instituição católica. A decisão foi mal recebida por muitos alunos, mas louvada por sectores mais conservadores da população, preocupados com a deriva liberal da universidade.

Nos últimos dias tem-se falado na existência de uma “campanha” por parte da comitiva brasileira em torno de D. Odilo. Não é certo se a intenção existe mesmo, se está a ser empolada pela imprensa brasileira ou se é invenção mesmo. Certo é que frases como “vocês podem divulgar, dos cardeais brasileiros, elementos que podem apresentá-lo como um bom candidato”, atribuída pela Folha de São Paulo ao assessor dos cardeais brasileiros, só prejudicam as hipóteses do Arcebispo de São Paulo.

É de notar que o segundo nome de D. Odilo é Pedro, o que seria uma dádiva a todos os crentes nas “profecias” de São Malaquias e coisas do género.

quarta-feira, 6 de março de 2013

Cardeais calados e nada de conclave

Peter Erdö, papabile?
A esta hora os cardeais em Roma estão a rezar diante do túmulo de Pedro, pedindo pela Igreja e pela decisão que têm de tomar nas próximas semanas. Sobre a data do conclave… nada.

Entretanto os cardeais americanos foram, aparentemente, silenciados. Acabaram-se as conferências de imprensa diárias que faziam. Quanto aos restantes cardeais, o último eleitor deve chegar amanhã. Imagino que até sexta seja anunciada a data do Conclave.



Tenho notado que esta coisa das Congregações Gerais, conclave e cardeais ainda faz confusão a algumas pessoas. É natural, não são eventos de todos os dias, e nem todos têm a oportunidade de acompanhar as novidades como gostariam. Para essas pessoas escrevi ontem um pequeno texto que deve ajudar a compreender o que se está a passar em Roma nestes dias. Dei-lhe um título muito imaginativo!

Peter Erdö

Nascido: 25 de Junho de 1952
Ordenado padre a 18 de Junho de 1975
e bispo a 5 de Novembro de 1999
O Cardeal Peter Erdö é o caso de um homem da Igreja pouco conhecido pelos fiéis fora do seu país de origem, a Hungria, mas muito bem conhecido e muito estimado pelos bispos e cardeais de todo o mundo.

Isso deve-se a duas razões principais. Uma é o facto de ter sido feito cardeal muito novo, pelo que, apesar de ter apenas 60 anos, já conhece bem o colégio dos cardeais e participa agora no seu segundo conclave. A outra prende-se com o facto de ser presidente do Conselho das Conferências Episcopais da Europa, o que lhe dá um contacto próximo com bispos de todo o velho continente, mas não só, uma vez que regularmente o CCEE encontra-se com a sua congénere africana, o que faz dele muito conhecido dos bispos africanos também.

Enquanto presidente da CCEE tem como seu braço direito o padre português monsenhor Duarte da Cunha.

Erdö tem fama de ser um trabalhador eficiente, muito inteligente e um homem de espiritualidade forte.

O seu papel à frente da diocese de Budapeste também tem sido muito reconhecido. A Hungria é dos poucos países europeus onde o Cristianismo não está em retrocesso e onde politicamente se tem feito esforços para proteger a religião em vez de a silenciar. A recentemente aprovada constituição do país levantou muita polémica, em parte porque reconhece as raízes cristãs da nação húngara e faz referência a Deus.

Sem deixar de apontar algumas falhas ao documento, Erdö defendeu-o na sua essência por se tratar de uma Constituição que respeita alguns valores que a Igreja defende.

Erdö é ainda novo, talvez novo de mais para aquilo que os cardeais eleitores procuram, mas não deixa de ser falado como um eventual candidato a ocupar a Sé de Pedro. A sua formação em direito canónico daria ao seu pontificado um enfoque diferente das de João Paulo II e de Bento XVI, mais pastorais e teológicos.

O que se tem estado a passar em Roma?


Têm saído muitas notícias de Roma nos últimos dias, mas nem toda a gente poderá estar a acompanhar tão bem como queria, por isso este artigo serve para fazer um resumo breve e, se possível, ajudar a interpretar alguns dos factos.

O que se está a passar agora é que os cardeais, todos os que estão em Roma e não só os eleitores, estão a reunir diariamente nas Congregações Gerais. Podemos ver isto como uma Assembleia Geral da Igreja, que na ausência do "chefão" tem a seu cargo o Governo da Igreja.

As congregações são importantes por várias razões. Em primeiro lugar porque é lá que se decidem as questões práticas para o Governo da Igreja em Sede Vacante. Regra geral, sem Papa, passa-se muito pouca coisa, mas há decisões que têm de ser tomadas e essas são discutidas e votadas aqui.

Informalmente, contudo, esta é também uma excelente oportunidade para os cardeais se conhecerem melhor. Não esqueçamos que embora muitos cardeais trabalhem em Roma, a maioria vive e trabalha nas suas dioceses, por isso não têm muitas oportunidades para se conhecerem. É importante, por isso, este período em que podem falar, trocar ideias e ainda beneficiar dos conselhos e opiniões dos não eleitores que, na altura do Conclave, estarão, como nós, sem acesso ao interior. É por isso significativo que tenham decidido que, ao contrário do que estava planeado, apenas reunirão de manhã e as tardes serão livres precisamente para se poderem encontrar num ambiente em que estejam mais à vontade.

É também nas congregações que os cardeais vão decidir a data do próximo conclave e muita gente tem sido apanhada de surpresa pelo facto de que, aparentemente, os cardeais não têm grande vontade de acelerar as coisas. Incrivelmente, e apesar de todo o tempo que tiveram para preparar as coisas, ao segundo dia das congregações ainda há cardeais eleitores que não apareceram em Roma! Tudo indica, porém, que ao terceiro dia lá estarão e imagino que até ao fim da semana tenhamos data para o Conclave.

Do que é que se tem falado dentro das congregações? Os cardeais evitam falar sobre isso. Na primeira congregação todos os cardeais juraram cumprir as normas estabelecidas pela Igreja e guardar segredo sobre tudo o que tenha a ver com a eleição do próximo Papa. À medida que cada novo cardeal chega tem de fazer o mesmo juramento antes de se juntar aos trabalhos.

Isto significa que tudo o que se passará no Conclave é segredo, mas não significa que todos os assuntos nas Congregações sejam segredo, particularmente os que não estão directamente relacionados com a eleição do próximo Papa. Neste sentido, todos os dias há uma conferência de imprensa na qual o padre Federico Lombardi explica por alto do que é que se falou naquele dia.

Foi assim que soubemos que na Terça-feira os cardeais decidiram redigir um telegrama para enviar a Bento XVI, mas foi também assim que soubemos, sem grandes elaborações, que muitos cardeais exigem ter acesso ao dossier secreto sobre o caso vatileaks, que Bento XVI colocou sob segredo pontifício, apenas para ser visto pelo próximo Papa. Terão os cardeais o direito de revelar o seu conteúdo integral? Duvido. Contudo, há três cardeais presentes que fizeram o relatório e esses, certamente, conhecem o seu conteúdo. Poderão falar sobre isso? Fá-lo-ão? Ao que parece as exigências são muitas e, estritamente falando, falar sobre o dossier não é o mesmo que mostrá-lo aos outros. Se o Papa colocou o documento sob segredo mas não pediu aos cardeais que guardassem segredo em relação ao que sabiam, haverá espaço de manobra. Não faço ideia o que se passará...

O que mais me tem surpreendido, a mim que sou novato a cobrir conclaves, é a “rebeldia” dos cardeais. Na verdade, muitos deles estão a participar pela segunda vez neste processo e por isso sentem-se mais à vontade para reivindicar e colocar questões e mudar as regras.

Claramente, os cardeais não estão com pressa. Por um lado ainda bem. Claro que todos nós estamos ansiosos para saber quem será o próximo Papa, mas mais importante que isso é que, de facto, a escolha seja acertada. Se para isso é preciso mais tempo, mais convívio, mais conversa e mais informação, que seja. 

Filipe d'Avillez

terça-feira, 5 de março de 2013

Leonardo Sandri

Nascido: 18 de Novembro de 1943
Ordenado padre a 2 de Novembro de 1967
e bispo a 11 de Outubro de 1997
À entrada de mais um conclave os analistas falam de duas correntes entre os cardeais: Uma que prefere o regresso a um Papa italiano, depois de o posto ter sido ocupado há décadas por um polaco e depois por um alemão, e outra que preferia um candidato que rompesse de vez com o monopólio de papas europeus.

Nesse aspecto, curiosamente, Leonardo Sandri surge como um candidato conciliador, uma vez que é argentino de ascendência italiana. A sua idade, 70 anos quase feitos, pode também ser uma vantagem, uma vez que não será considerado nem demasiado velho nem demasiado novo para chefiar a Igreja.

Actualmente o cardeal é prefeito da Congregação para as Igrejas Orientais, o que lhe confere um contacto muito próximo com uma realidade da Igreja Católica que poucos dos seus pares podem gabar, a dos cristãos pertencentes às mais de 20 igrejas orientais em comunhão com a Igreja Católica, muitos dos quais estão em situações críticas, como por exemplo todos os que vivem no Médio Oriente.

Sandri fez toda a sua carreira no serviço diplomático da Santa Sé, faltando-lhe por isso experiência pastoral, algo que os cardeais poderão estar a procurar no próximo Papa, depois de oito anos com um académico ao leme da Igreja. Por outro lado, conhece muitíssimo bem o Vaticano e o funcionamento da Curia, tendo chegado mesmo a desempenhar o cargo de Substituto para os Assuntos Gerais na Secretaria de Estado do Vaticano, o que na prática corresponde ao terceiro posto mais importante da Santa Sé, depois do Papa e do próprio Secretário de Estado.

Para além de vários outros postos na Curia, tem também um cargo na Congregação para os Bispos, o que lhe dá alguma influência na nomeação de bispos para as dioceses católicas de quase todo o mundo.

Deu bastante nas vistas durante o fim do pontificado de João Paulo II. Lia os textos do Papa quando este já não era capaz e foi ele quem anunciou ao mundo a morte do Papa polaco.

Em entrevista à Reuters, já em tempo de congregações gerais, Sandri defendeu um papel mais alargado para as mulheres no Vaticano e no Governo da Igreja, sem contudo mencionar a possibilidade de ordenação de mulheres.

O Cardeal diz que não há razões para não haver mais mulheres em altos cargos nos Conselhos Pontifícios e disse que mesmo no dia-a-dia da Igreja elas devem desempenhar um papel mais activo, destacando a importância que podem ter na formação dos padres.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Fátima, Benghazi, Roma e Hong Kong

Começaram hoje as congregações gerais, mas ainda não há data para o próximo conclave. Esta só pode ser decidida com a presença de todos os cardeais eleitores, mas hoje faltavam 12… é compreensível, afinal de contas só sabemos desde dia 11 de Fevereiro que nesta altura estaríamos em Sede Vacante…

Estas congregações gerais juntam também os cardeais que não podem votar, por serem maiores de 80 anos. Mas nem por isso estes homens serão menos influentes… três deles, em particular, podem ser decisivos nesta fase.

O Cardeal Keith O’Brien, que resignou por ver o seu nome envolvido num escândalo sexual, admitiu a sua culpa e pediu perdão às pessoas que ofendeu.

Um Cardeal chinês vai participar no Conclave. É uma figura interessantíssima, para quem olhamos hoje com mais atenção. Se ganhar, ainda por cima, vamos poder ouvir os jornalistas a tentar dizer: “Cardeal John Tong Hon de Hong Kong”, o que é sempre divertido.


E ainda mais longe de Roma, D. António Marto continua o seu périplo pela diocese para tentar “reacender a fé”. Já vão 74 paróquias visitadas pessoalmente. (Sim, Fátima fica mais longe de Roma do que Benghazi…)

John Tong Hon

Nascido: 31 de Julho de 1939
Ordenado padre a 6 de Janeiro de 1966
e bispo a 9 de Dezembro de 1996
No lote de cardeais da Ásia, o actual arcebispo de Hong Kong é uma figura preponderante.

John Tong Hon é um homem que tem demonstrado considerável coragem ao denunciar abertamente o regime chinês, sobretudo pela forma como restringe a liberdade dos seus cidadãos e, especialmente, os cristãos.

É muito crítico não só do regime como dos padres e bispos que aceitam participar nas associações criadas pelo regime para tentar controlar os católicos e removê-los da esfera de influência do Vaticano.

Apesar disto o cardeal não se tem ficado apenas pelas críticas e várias vezes tem insistido no desejo de ser um ponte entre Roma e a Igreja chinesa, oferecendo-se para contribuir para a formação do clero chinês, entre outras coisas.

Esta sua coragem, a que se associa uma inteligência invulgar e algum carisma pessoal, têm contribuído para elevar o seu perfil no Colégio dos Cardeais. Contudo, a sua eleição poderia ser vista como um pau de dois bicos. Por um lado seria um enorme encorajamento para os católicos chineses que não vacilam na sua fidelidade a Roma e um sinal interessante para todo o mundo que não é tradicionalmente cristão, mas por outro poderia funcionar mais como obstáculo do que como ponte para com o regime chinês, com o qual a Santa Sé está a tentar estabelecer relações.

Para além de todo o seu trabalho eclesiástico, o cardeal é também um desportista e adepto de basquetebol, que pratica sempre que possível.

Tem pelo menos um livro publicado em português: “Desafios e Esperança: Histórias da Igreja Católica na China”, uma edição da Fundação Ajuda à Igreja que Sofre, com apoio da Renascença.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Albert Malcolm Ranjith

Nascido: 15 de Novembro de 1947
Ordenado padre a 29 de Junho de 1975
e bispo a 17 de Junho de 1991
O actual arcebispo de Colombo, a mais importante diocese do Sri Lanka, é uma das grandes figuras da Igreja asiática.

Foi o primeiro bispo daquele país a servir no corpo diplomático do Vaticano, tendo sido núncio apostólico na Indonésia e Timor Leste, e também o primeiro a chefiar uma congregação na Santa Sé.

Teologicamente Ranjith apela a vários sectores da Igreja. Os conservadores apreciam a sua vigorosa defesa da liturgia, que inclui um gosto particular pelo rito tridentino, mas junta a isso uma vocação pelo trabalho social ao serviço dos mais pobres. Chegou a dizer, certa vez, que “o amor pela liturgia e o amor pelos pobres têm sido a bússola da minha vida de padre”.

Depois de ter chefiado a Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos, regressou ao Sri Lanka para se ocupar da arquidiocese da capital. Uma das medidas que tomou foi ordenar que todos os fiéis comunguem de joelhos e na boca, proibiu os leigos de pregar nas igrejas e os padres de utilizar aspectos de culto de outras religiões.

É um grande promotor do diálogo inter-religioso, o que é muito importante num país com historial de conflito, onde os cristãos são uma minoria e onde convivem com duas outras grandes religiões, o Budismo e o Hinduísmo.

Todo este historial torna Ranjith um homem com experiência pastoral e administrativa ao nível da curia romana o que, juntamente com a sua idade de 65 anos e o facto de vir de um país asiático em vias de desenvolvimento, o torna uma figura de relevo no Colégio dos Cardeais.

Ranjith é também um poliglota, sendo fluente em dez línguas.

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