Wednesday, 24 October 2012

Outros actos eleitorais a que os católicos devem estar atentos

George J. Marlin
No dia das eleições, 6 de Novembro, há uma série de eleições locais e referendos estaduais a que os católicos devem estar atentos. Aqui farei um resumo dos principais:

Eleições para o Senado de Nova Iorque: Em 2011 o líder da maioria no Senado, o Republicano Dean Skelos, de Long Island, quebrou a sua promessa eleitoral e permitiu que se votasse uma medida para legalizar o casamento entre homossexuais.

Quatro republicanos, (três dos quais baptizados católicos), que tinham merecido o apoio do Partido Conservador de Nova Iorque nas últimas eleições, forneceram os votos necessários para que a legislação passasse.

Na altura Mike Long, o secretário-geral do Partido Conservador, avisou os senadores de que o conceito de casamento tradicional é um dos pontos fulcrais para se conseguir o apoio do seu partido: “Se disserem que não são a favor do casamento tradicional não recebem o apoio. É tão simples quanto isso”.

Fiel à sua palavra, Long garantiu que esses quatro senadores não contassem com a sua nomeação para as eleições deste ano.

O resultado é que o Senador Jim Alesi, de Rochester, percebendo que não conseguia ganhar sem o apoio dos conservadores, decidiu não se recandidatar.

O senador Roy McDonald, de Troy, perdeu nas primárias republicanas de Setembro contra um candidato que tinha o apoio dos conservadores.

O senador de Buffalo, Mark Grisanti, que foi eleito por uma margem de 519 votos em 2010 graças aos 4,368 votos que recebeu dos conservadores, está a lutar pela sua sobrevivência num círculo eleitoral que é 83% democrata.

Já o senador Stephen Saland, de Poughkeepsie, que está no senado há 32 anos, conseguiu a sua nomeação, mas apenas por uma margem de 107 votos num total de 10,469. O candidato que derrotou nas primárias republicanas está a concorrer pelo Partido Conservador e poderá conseguir apoio suficiente para garantir que Saland não é reeleito no dia 6.

Se os três senadores perderem os seus lugares por terem votado a favour do “casamento homossexual” os republicanos poderão perder a maioria e a Conferência do Senado do Partido Republicano poderá bem demitir Skelos da liderança.

Maryland: O Governador Martin O’Malley, baptizado católico, promulgou uma lei no dia 1 de Março de 2012 conhecido como a Lei de Protecção do Casamento Civil, que permitirá “casamentos” entre homossexuais a partir do dia 1 de Janeiro de 2013.

A legislação, a que o então Arcebispo de Baltimore, Edwin O’Brien, se opôs ferozmente, tem sido apoiada por um grupo de dissidentes que se apelidam de “Católicos pela Igualdade”. Este grupo desviado considera que a medida “melhora não só a vida dos casais lésbicos e gays e dos seus filhos, como as vidas de famílias católicas em todo o Estado.”

No dia 6 de Novembro os eleitores terão a possibilidade de decidir se a lei do casamento é para se manter. Um voto a favor da “Questão 6”, conhecida como o Referendo do Casamento Entre Pessoas do Mesmo Sexo, é um voto pela manutenção da lei, inalterada.
Bispos da Florida a favor das emendas 6 e 8 à constitição do Estado
Embora a lei proteja os clérigos de terem de presidir a qualquer cerimónia de casamento que viole as suas crenças religiosas e afirme que “cada confissão religiosa tem total controlo sobre a sua doutrina teológica em relação a quem se pode casar nessa confissão”, a conferência católica de Maryland está a pedir um voto no “Não”, avisando os eleitores de que “estamos enganados se pensamos que podemos redifinir o casamento e, ainda assim, proteger a liberdade religiosa”.

Embora também haja referendos sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo no Maine, Minnesota e Washington, os defensores deste conceito estão focados em Maryland, local da primeira diocese católica da América, que esperam vir a ser o primeiro Estado abaixo da Linha Mason-Dixon a aceitar o casamento homossexual nas urnas.

Várias celebridades têm descido sobre a cidade para defender a medida, incluindo o reverendo Al Sharpton.

O Presidente da Câmara de Nova Iorque, Michael Bloomberg, que fez donativos significativos para os republicanos que aprovaram a mesma lei no seu Estado, está agora a encher Maryland de dinheiro, tendo feito a maior contribuição individual, na ordem de $250,000, para uma Comissão de Acção Política a favor do “casamento” gay.

Massachussetts: A Questão 2, ou o “Referendo de Morte Digna”, aparecerá no boletim de voto nestas eleições. Se for aprovada permitirá a um doente, cujos médicos diagnosticaram menos de seis meses de vida, receber medicamentos letais.

O doente terá de ser considerado capaz de tomar a decisão e terá de “fazer o pedido duas vezes oralmente e por escrito na presença de testemunhas”. O pedido verbal inicial deve ter lugar 15 dias antes do pedido por escrito e do segundo pedido verbal.

A iniciativa permitirá também o envolvimento de parentes de sangue no processo de suicídio. Eles poderão ajudar a preparar as papeladas, “desde que uma das testemunhas do pedido não seja parente do doente nem por sangue, casamento ou adopção”.

A Conferência Católica de Massachussetts já condenou a medida, insistindo que ela serve apenas para estigmatizar “toda uma classe como não sendo dignos da protecção e cuidado do Estado nem dos seus familiares”.

O Cardeal Sean O’Malley, de Boston, disse que: “Quando envelhecemos ou ficamos doentes tendemos a desanimar. Devemos estar rodeados de pessoas que nos querem ajudar. Merecemos poder envelhecer numa sociedade que vê os nossos cuidados e as nossas necessidades com uma compaixão enraizada no respeito, oferecendo-nos um verdadeiro apoio para os nossos últimos dias”.

Florida: Duas das 11 propostas de emendas à constituição estadual que aparecerão no boletim de voto na Florida são de interesse para os católicos.

A emenda 6 proíbe o uso de fundos públicos para o aborto “excepto nos casos em que a lei federal a isso obriga ou para salvar a vida da mãe”.

Afirma ainda que a Constituição da Florida “não pode ser interpretada de forma a incluir um direito ao aborto mais alargado do que aquele que está contido na Constituição dos Estados Unidos”.

A ser aprovada, a Emenda 8, revogaria a “Emenda Blaine”, que proibe quaisquer fundos estaduais de serem usados directa ou indirectamente para auxiliar qualquer Igreja ou instituição religiosa.

O novo texto da lei seria: “Nenhum indivíduo ou entidade deve sofrer discriminação ou ser impedido de receber fundos com base na sua identidade ou crenças religiosas.”

A Conferência Católica da Florida apoia a passagem de ambas estas emendas.

As corridas eleitorais e os referendos que acabei de descrever merecem a atenção de todo e qualquer católico que viva naqueles Estados. Cada voto poderá ser decisivo para ajudar a moldar a paisagem moral da América.


George J. Marlin é editor de “The Quotable Fulton Sheen” e autor de “The American Catholic Voter”. O seu mais recente livro chama-se “Narcissist Nation: Reflections of a Blue-State Conservative”.

(Publicado pela primeira vez em www.thecatholicthing.com na Quarta-feira, 17 de Outubro de 2012)

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Concílio é uma ruptura histórica, não necessariamente doutrinal, com o passado

Edição de Caminhos Romanos
Transcrição integral da entrevista a Roberto de Mattei acerca do seu livro “O Concílio Vaticano II – Uma história nunca escrita”. O livro é lançado esta quarta-feira às 18h30 nos Jerónimos. Veja aqui a notícia.

Em que sentido é que o seu livro é uma “história nunca escrita do Concílio”?
Nesta obra pretendi reconstituir o que se passou em Roma durante os três anos do Concílio, durante os quais 2500 padres conciliares se reuniram sob a orientação de João XXIII e Paulo VI, no 21º Concílio da história da Igreja. Nunca até hoje foi escrita uma história compreensiva sobre este período. A única que está escrita, por Giussepe Alberigo, em cinco volumes, na verdade é uma colecção de textos, mas não é uma história sintética.

Falta-lhe o aspecto de interpretação dos factos?
Exactamente, a ideia é também uma nova interpretação dos factos. Tem um nível de análise a respeito da história que tem como critério da verdade a verificação e apreciação dos factos. Depois há um segundo nível, que compete ao teólogo, ao pastor, mas trata-se de dois planos distintos, mas dependentes. Só depois da reconstrução histórica dos factos é que os pastores, os teólogos, podem intervir para formular os seus juízos teológicos e morais. Os dois níveis, o histórico e o hermenêutico, não podem ser confundidos, a não ser que consideremos que a história se confunde com uma interpretação da história. Mas o meu nível é o histórico.

Passaram 50 anos sobre o início do Concílio. Será cedo para fazer já um balanço do seu efeito na Igreja?
Acho que é o momento de se fazer este balanço. Sublinho que se tratou do 21º concílio. O Concílio Vaticano II não foi o primeiro nem o último concílio, foi um ponto, um momento da longa história da Igreja. Ao longo da história houve 21 concílios. Alguns deles, Niceia, Trento, Vaticano I, são inesquecíveis, por causa do alcance teológico dos documentos que deles emanaram. Outros foram esquecidos. Um concílio entra na história pela qualidade dos documentos que produziu.

Por exemplo no século XVI houve dois concílios, o de Latrão V e o de Trento. Toda a gente se recorda do Concílio de Trento, mas ninguém se recorda do Concílio de Latrão V. Nesse sentido acho que temos uma grande liberdade crítica para analisar e fazer um balanço do Concílio Vaticano II.

Na sua opinião daqui a 400 anos as pessoas vão-se lembrar do Concílio Vaticano II?
Não posso dizer isso, mas o que posso dizer é que o Concílio Vaticano II foi um concílio diferente de todos os que o precederam, neste a característica mais importante foi a pastoral. Claro que nem o Concílio de Trento nem o Vaticano I tinham sido privados do elemento pastoral, mas no Vaticano II o lado pastoral não foi apenas um facto, a natural explicação do conteúdo dogmático do concílio de uma forma adaptada aos tempos, como sempre foi feito. Este elemento pastoral foi elevado a princípio alternativo ao elemento dogmático, subentendendo-se a prioridade do primeiro relativamente ao segundo. A dimensão pastoral acabou por se tornar prioritária, introduzindo uma revolução na linguagem e na mentalidade. A Igreja despojou-se das suas vestes dogmáticas e revestiu-se de um novo fato pastoral e exortativo que deixou de ser obrigatório e definitivo. Mas usar termos diferentes do passado significa levar a cabo uma transformação mais profunda do que se possa pensar. Essa seria a característica principal, essa revolução. Não no conteúdo, não dogmática, mas uma revolução na linguagem, na mentalidade, na maneira de apresentar a doutrina da Igreja.

A grande discussão sobre o Concílio é à volta da questão de ter representado uma ruptura ou não. Qual é a sua opinião?
O Papa Bento XVI declarou que existe uma hermenêutica da reforma cuja verdadeira natureza consiste numa conjugação de continuidade e descontinuidade a níveis diferentes. Parece-me que é justamente da constatação da existência de níveis diferentes de continuidade e descontinuidade que devemos partir, a continuidade e descontinuidade do Vaticano II nos confrontos com a Igreja anterior, que pode ser considerada sobre dois aspectos, a dimensão histórica-humana da Igreja e a dimensão ontológica. Acho que houve continuação na dimensão ontológica que corresponde à dimensão divina da Igreja, porém houve descontinuidade na dimensão humana que corresponde à natureza humana da Igreja.

Roberto de Mattei
Os ultratradicionalistas, como por exemplo a Sociedade de São Pio X, apontam para a hipótese de ruptura, mas essa ideia também é comum na ala liberal da Igreja, ou não?
Talvez seja assim, mas eu acho que o erro é concentrar a atenção sobre o aspecto dos documentos do Concílio, ou seja do conteúdo dogmático. O Concílio, antes de ser uma série de documentos, foi um evento histórico. Esse é que é o problema central, os juízos sobre a natureza do Vaticano II ao nível histórico. Nesse sentido podemos dizer, acho, que houve uma ruptura, mas uma ruptura histórica não é necessariamente uma ruptura doutrinal e dogmática.

Há a ideia de que a Igreja mudou muito depois do Concílio, mas folheando o seu livro percebe-se que muitas das ideias que saíram já existiam fortemente implantadas na Igreja pré-conciliar, talvez até mais extremas… Qual era o clima na Igreja antes do Concílio?
Houve uma crise na Igreja antes do Concílio Vaticano II, mas certamente o clima do Concílio favoreceu a explosão dessa crise. Algumas expressões dessa crise apareceram depois do Concílio, por exemplo basta pensar na Humanae Vitae, a encíclica que reafirmou, em 1968, a doutrina católica em matéria de moral conjugal. A Humanae Vitae foi contestada por um grupo de bispos da Europa Central, entre os quais o Cardeal Suenens. Mas o Cardeal Suenens era um padre conciliar que no Concílio tinha estabelecido um pacto de ferro com Monsenhor Hélder Câmara, do Brasil, e foi escolhido pelo Papa Paulo VI para orientar o Concílio. O mesmo Suenens já tinha colocado no Concílio o problema do controlo de natalidade, proferindo na Basílica de São Pedro as palavras “não repitamos o processo de Galileu”.

Hoje temos de perguntar se a voz profética que se fez ouvir na aula conciliar foi essa do Cardeal Suenens, que contestou publicamente o Papa Paulo VI, ou a voz dos padres conservadores que no Concílio combateram o cardeal Suenens e anteciparam o Humanae Vitae. O problema é que a minoria conservadora do Concílio é hoje apresentada como a parte derrotada e o Cardeal Suenens e outros são apresentados como profetas, como vencedores. O que faço no meu livro é ser a voz dos vencidos do Concílio, que é a voz da tradição.

Acredita que essa voz poderá ser reabilitada e tornar-se a vencedora a longo prazo?
Acho que sim, porque hoje temos necessidade da tradição, porque a tradição não é o passado, esse acabou, não pode voltar. A tradição são os elementos do passado que vivem no presente e que têm de viver para que o nosso presente tenha futuro. Pessoalmente acredito que no nosso futuro está escrito, graças à intervenção de Deus, o retorno da tradição, a restauração da Igreja e da Civilização Cristã.

Cardinal Suenens, uma das
vozes liberais do Concílio
Mas se essas vozes forem reabilitadas, há incompatibilidade entre elas e os textos propriamente ditos do Concílio? Ou seja, há alguma coisa nos documentos que seja incompatível com a tradição?
Eu acho que o juízo último sobre os documentos do Concílio compete aos pastores e em última análise ao supremo pastor que é o Papa. Há alguns documentos que colocam problemas, por exemplo a declaração Dignitatis Humanae, que não é infalível nem tem valor obrigatório. Muito recentemente o Cardeal Walter Brandmüller [presidente emérito da Pontifícia Comissão das Ciências Históricas] o disse. Essa declaração tem passagens equívocas, que têm de ser clarificadas.

É o caso da liberdade religiosa, não no sentido do acto interior de fé, que sempre foi defendida pela Igreja, mas o direito não só de expressar mas de praticar a fé religiosa, seja qual for. A Igreja sempre condenou essa liberdade religiosa que leva ao indiferentismo. Nesse sentido acho que é preciso uma palavra definitiva da Igreja sobre esse ponto. É só um exemplo.

À medida que investigou o Concílio, o que é que o surpreendeu mais?
Talvez o silêncio do Concílio sobre o comunismo. Porque quando o Concílio se reúne, o Muro de Berlim acabara de desferir uma profunda ferida na Europa. O Comunismo estendia a sua sombra ameaçadora sobre todos os continentes. Porque foi que a solene assembleia dos padres conciliares, reunidos em Roma para tratar das relações entre a Igreja e o mundo moderno, ignorou o fenómeno mais macroscópico da sua era, que era o imperialismo comunista? Esse é talvez o mistério mais profundo do Concílio Vaticano II.

Bento XVI referiu-se recentemente à existência de “luzes e sombras” no legado do Concílio. Na sua opinião quais as maiores luzes e quais as sombras?
Não sei a que o Papa se refere, mas recentemente, no dia da recordação do Concílio, a 11 de Outubro, num discurso que Bento XVI fez, ele falou de como esteve, enquanto jovem teólogo, na Praça de São Pedro quando João XXIII abriu o Concílio e em todo o mundo havia um clima de entusiasmo, parecia haver um clima de aurora, de Pentecostes para toda a Igreja.

Mas, diz o Papa, o que depois aconteceu foi muito diferente porque houve problemas, erros, maus homens na Igreja. O Papa descreve uma situação de crise na Igreja depois do Concílio, que não corresponde às expectativas do Papa João XXIII e dos pastores.

Veja-se esse contraste entre o clima entusiástico, talvez optimista e um pouco utópico na abertura do Concílio e a situação da Igreja que se apresenta nos discursos dos padres sinodais, reunidos em Roma para o sínodo da Nova Evangelização. A voz dos padres sinodais é uma voz dolente, pessimista, descrevem nas próprias dioceses uma situação de profundo sofrimento da Igreja, uma igreja que é perseguida em todos os continentes, incluindo na Europa, pelo laicismo e o secularismo, mas que ainda por cima conhece uma divisão interna profunda. Essa é a situação actual.

Uma das questões que mais afectou os fiéis foi a reforma da liturgia. Acha que a nova missa corresponde ao que os padres conciliares tinham em mente?
A nova missa de Paulo VI foi promulgada no ano 1969, quatro anos depois do fim do Concílio. No documento Sacrosanctum Concilium, que trata a liturgia, não se fala de uma nova missa. Só está presente a possibilidade, dada às Conferências Episcopais, de se introduzir o vernáculo na liturgia da Igreja. A mesma constituição recomenda fortemente a utilização da língua latina na liturgia.

Nesse sentido, o que aconteceu depois não corresponde às indicações do Concílio, mas também existe uma certa continuidade. O problema é o papel desenvolvido pelas conferências episcopais, esse é um problema muito sério, porque a aplicação das decisões do Concílio foi feita em grande medida pelas conferências episcopais.

Há quem diga que o Papa pense, a médio prazo, fazer uma reforma da reforma, criar por assim dizer uma síntese entre a missa antiga e a missa nova… Concorda? E que poderíamos esperar de tal síntese?
Não acho que ele entenda fazer uma síntese das duas liturgias. O que entendo é que em 2007, com o motu proprio Summorum Pontificum, Bento XVI restituiu plena liberdade para a missa tradicional, impropriamente chamada Missa Tridentina, mas a ideia do Santo Padre é que a missa tradicional, o Vetus Ordo, deva manter a sua identidade, sem confusões com o novo rito. O Papa certamente deseja uma ressacralização da nova missa, por isso ele recomenda uma reorientação dos altares, o fim da comunhão nas mãos e outras coisas, mas ele pensa que o Vetus Ordo vai exercer uma pressão indirecta sobre a nova missa, sem a necessidade de fazer uma terceira missa que misture os dois ritos. O Papa fala de uma reforma da reforma, mas acho que é uma reforma do novo rito, o Vetus Ordo vai manter a sua identidade, sem combinar…

Mas essa reforma do novo rito poderia ser uma aproximação do antigo?
Nesse sentido sim.

Como é que o seu livro tem sido recebido?
Já foi traduzido na Alemanha, também vai sair em França, na Polónia e nos Estados Unidos.

Em Itália foi bem recebido, recebi muitas cartas de bispos e cardeais porque eles compreendem que o meu nível é o nível histórico e que compete ao teólogo, em última instância ao Papa, que é o guardião supremo da fé e da moral, resolver os problemas teológicos. Esses problemas existem. Eu, como baptizado, como historiador e leigo tenho a liberdade de realçar os problemas, mas só os pastores é que podem intervir no sentido de definir, porque que não tenho essa autoridade.

Mas o meu contributo é talvez oferecer uma descrição nova do Concílio, porque hoje em dia toda a gente se apercebe do alcance revolucionário do Maio de 68, uma revolução cultural mais profunda e incisiva que uma revolução política. Contudo, antes de 68 houve o triénio 1962-1965, os anos durante os quais teve lugar o Concílio Vaticano II, e eu acho que essa foi uma revolução que modificou profundamente a história dos anos seguintes, a história contemporânea, a começar pelo próprio Maio de 68 que foi influenciado pelo Vaticano II. Há uma componente católica na revolução de 68 e devemos reconhecer isso para melhor resolver os problemas contemporâneos.

É claramente crítico do concílio e próximo da tradição, o que o separa daqueles como a Fraternidade São Pio X (seguidores de Marcel Lefebvre) que recusam o concílio e estão fora de comunhão com o Papa?
A principal distinção é a distinção canónica, no sentido de que a Fraternidade São Pio X encontra-se numa situação irregular, mas não acho que do ponto de vista doutrinal tenham erros, o que é irregular é a situação canónica. Eu sou leigo, estou dentro da Igreja Canónica e tenho uma situação canónica perfeitamente regular.

Mas acontece o contrário, há na Igreja correntes progressistas que têm uma posição canónica regular, por exemplo o padre Hans Küng não é excomungado e celebra missa regularmente, mas ele é notoriamente um herético, mas um herético com uma posição canónica regular. Tem outros que são ortodoxos mas têm uma posição irregular. Eu penso que sou ortodoxo com uma posição canónica regular.

Filipe d'Avillez

Tuesday, 23 October 2012

Dois anos de selecção, apartheid no Médio Oriente

The boys in yellow
É já hoje o lançamento do livro “Auto de Fé – A Igreja na Inquisição da Opinião Pública”, de Zita Seabra e o padre Gonçalo Portocarrero. Aura Miguel conversou com os dois para esta reportagem.


O Vaticano vai continuar a investigar a fuga de documentos secretos. Hoje foi publicada a sentença do ex-mordomo Paolo Gabrielle.

Ainda em Roma faz hoje dois anos que se formou a selecção de futebol do Vaticano. O saldo não é mau, quatro jogos, duas vitórias e duas derrotas.

Pelo Médio Oriente motivos de preocupação. Em Israel uma maioria de judeus parece convencida de que o Estado pratica apartheid, mas pior que isso, muitos pensam que é pouco.

No Irão são os Bahá’i que mais sofrem, mas a perseguição toca a todas as minorias religiosas, segundo as Nações Unidas.

Por fim um convite da Renascença para todos os interessados. É lançado na quinta-feira o CD “Missa Brevis” de autoria de João Gil. Aqui podem ouvir um excerto da música que vos deixará certamente com vontade ir à Igreja de São Roque no dia 25, às 18h30. Apareçam.

Friday, 19 October 2012

Mais 20 dias pela vida, perigo no Médio Oriente

Conferência amanhã. Clicar para aumentar
Estamos precisamente a meio dos 40 Dias Pela Vida. Conversei com uma das organizadoras que explicou qual o objectivo desta iniciativa que decorre diante da maior clínica de aborto em Lisboa. Aqui podem ler a entrevista na íntegra.

Notícias preocupantes do Médio Oriente. Uma catedral católica na cidade Síria de Homs foi totalmente destruída e no Líbano um atentado num bairro cristão matou o líder dos serviços secretos. Já há manifestações e o caldo pode muito bem entornar…


Decorre amanhã, no Colégio São Tomás, uma conferência de Mariella Carlotti sobre “O Trabalho e o Ideal”. Ver imagem.

Mesmo que nenhuma mulher desista de abortar, a oração é um fim em si mesmo

Iniciativa nasceu nos EUA, em 2004
Transcrição integral da entrevista a Paula Pimentel, organizadora da iniciativa 40 Dias Pela Vida. Notícia aqui.

Em que consiste a iniciativa?
Os 40 dias pela vida são 40 dias em que pessoas de várias religiões, que tenham como objectivo único defender a vida e defender as mulheres que sofrem com esta situação, se juntam para rezar num lugar simbólico, a porta da clínica dos Arcos, a maior clinica abortista de Lisboa, para se juntarem ao sofrimento destas mães e tornarem-se mais próximas das pessoas.

A oração faz duas coisas, por um lado torna melhores as pessoas que rezam e por outro que consigamos aproximar-nos mais do sofrimento das pessoas e não as julgar nem criticar. Se não tivermos este processo podemos cair na tentação de julgar as pessoas e não é isso que queremos, queremos apoiá-las e estarmos próximos delas.

Os 40 dias vêm das histórias bíblicas de pessoas que rezaram ao longo de quarenta dias.
Temos um evangélico a rezar connosco, uma muçulmana, católicos dos mais diversos caminhos e carismas, todos aqui juntos para tentar que estas mães não caiam neste sofrimento profundo que é saber que marcaram a hora da morte de um filho.

Rezam dentro ou fora da casa?
É um evento visível. Deixamos tudo muito à liberdade das pessoas. Já passaram aqui centenas de pessoas e todas têm estilos diferentes. Há pessoas que nos disseram logo que não querem rezar na rua. A casa foi-nos cedida pelas Mãos Erguidas e fica mesmo em frente à clínica. Está sempre de porta aberta e vê-se lá para dentro. Mas há quem não goste de rezar nas escadas cá fora, porque a sua sensibilidade não o permite, outros gostam de rezar cá fora, mais perto possível da clínica. Deixamos ao critério de cada um.

A oração que se reza mais é o terço, até se reza o Terço de Raquel, mais própria para os recém-nascidos. Mas este rapaz evangélico, por exemplo, junta-se a nós e reza outras coisas.

Ao longo de 40 dias temos cá pessoas das 08h às 22h. Gostávamos que fossem 24h mas já foi complicado o suficiente garantir estas 16h. Cada pessoa fica responsável por um turno de duas horas, não quer dizer que tenha de ficar cá as duas horas mas tem de se responsabilizar por ter cá pessoas durante essas duas horas.

Hoje estamos no dia 18 de 40, para o resto dos 22 dias, que houvesse uma família responsável por cada um desses dias e arranjasse quem esteja cá essas 16 horas, a organização ficava mais tranquila e podia-se chegar a mais gente. Há muito mais gente do que pensamos que gosta de rezar e pessoas que gostariam de rezar e já pensaram em sair de si mesmos para rezar por alguém e não sabem como, aqui há espaço para todos e podem vir ter connosco. Se se quiserem inscrever pela internet podem, se quiserem só aparecer também podem.

Que reacções têm?
Eu não estou cá o tempo todo, mas há pessoas que ficam incomodadas. Pessoas que vão à clínica e vêem isto provavelmente ficam incomodadas, outras ficam tocadas. Há de tudo. O que sei é que a oração é um fim em si mesmo. Mesmo que nenhuma mulher desistisse de abortar, nem nenhum profissional desistisse do seu trabalho, já teria valido a pena porque a oração é um fim em si mesmo, não precisamos que tenha nenhum efeito visível. Mas a verdade é que Nosso Senhor tem sido muito sensível e estamos muito agradecidos por isso e têm acontecido coisas muito boas.

Abby Johnson atribui a sua
conversão aos 40 dias pela vida.
Alguma história que possa partilhar?
Por respeito à privacidade das pessoas com quem lidamos, não vou contar nenhuma história das passadas aqui, mas há uma história de Abby Johnson, uma ex-directora de clínica de abortos da Planned Parenthood nos Estados Unidos. Ela foi durante nove anos directora da clínica e agora é das maiores activistas pró-vida que existem. Ela atribui isto às campanhas dos 40 dias que se organizaram durante anos à porta da clínica dela. As pessoas rezavam todos os dias por ela, estavam ali em turnos. Ela só dirigia a clínica, era psicóloga e não fazia abortos. Uma vez pediram para ela conduzir uma ecografia, porque estavam com falta de pessoal, e ela viu pela primeira vez como era um aborto, através da ecografia, e com tanta oração que tinha havido por ela, e todos os contactos que tinham tido com ela, deu a volta completamente.

Aprendi muito com esta história e temos todos que aprender com este aspecto, porque ela diz que isto não é tudo branco e preto. Não há por um lado os pró-escolha e do outro os pró-vida. Há pessoas boas, eu acredito que há mesmo pessoas boas na clínica, que estão convencidas que estão a ajudar as mulheres. Ela estava convencida que estava a ajudar as mulheres em dificuldades e percebeu que nem toda a gente que está do outro lado são más pessoas, provavelmente não estão esclarecidas, e esta oração que fazemos é também por estas pessoas, rezamos pelos profissionais que trabalham nas clínicas, para ver se se dão conta da realidade.

A pressão para abortar, com a crise, deve ser ainda maior. Tem algum recado para essas pessoas?
Acho que um bebé não vai aumentar a crise. Estamos na crise independentemente do bebé vir ou não. Os grandes homens e as grandes mulheres na história vêem-se nos momentos difíceis. A pior crise que pode haver, mais do que a cirse de não haver dinheiro ou emprego, é a crise em que as mulheres sãem numa angústia e numa tristeza profundas depois de passarem por uma situação destas. Isso é que é muito mais difícil de ultrapassar. Também tem cura, mas é mais difícil de ultrapassar. Dizemos sempre às mulheres, no aborto há um morto e um ferido. Há um bebé que não nasce mas há uma mãe que fica ferida para sempre. Mais cedo ou mais tarde essa mulher vai ter esse sofrimento. Isso é que é uma grande crise. De resto o bebé até pode complicar as coisas, mas não é isso que vai colocar os pais numa situação ainda pior.

Há aqui pessoas que oferecem ajuda às mulheres que vão à clinica…
Isso não tem nada a ver com a iniciativa dos 40 dias. O trabalho que se faz aqui, a associação Mãos Erguidas é feita com voluntários, quantos mais houver, melhor, o que fazem é oferecer às mulheres ajuda. A verdade é que nenhuma mulher quer abortar, nem nenhuma mulher que sai daqui a dizer que já passou por isto várias vezes e que é indiferente… não é indiferente. O erro muito comum é que as pessoas pensam que vêm aqui e depois de abortarem voltam a ser quem eram antes, porque já resolveram o problema, tiraram aquilo que as incomodava. Uma mulher, depois de engravidarem nunca mais volta a ser a mesma, quer tenha um bebé, porque nos tornamos mães de um filho, quer não deixemos a criança nascer, embora venha aqui e aparentemente possa sair com alívio, a angústia vai depois ser muito maior. Pode não ser logo, mas eventualmente nota-se.

O que se tenta fazer aqui é, sempre com o suporte da oração, porque sabemos que é Deus quem move o coração das pessoas, é tentar oferecer às pessoas alternativas e para isso as Mãos Erguidas colaboram com uma série de instituições de apoio à grávida, porque não é só estar aqui a dizer Às grávidas para não abortarem, temos de nos preocupar com os problemas delas e dar apoio. Vão a um médico nosso amigo que as vê a preço zero do princípio ao fim da gravidez, ajuda-se com enxovais, fraldas, legalização. Toda essa ajuda é dada, embora já fosse muito só dizer a uma mulher para ficar com o seu filho, não pode ser só assim, porque há pessoas que vêm aqui em situações muito complicadas.

Thursday, 18 October 2012

Nomeações, empossamentos eventos






Dois eventos nos próximos dias. Amanhã o bispo John Barwa, que entrevistei ontem, vai falar à paróquia de São Tomás de Aquino sobre a perseguição dos cristãos. Segue-se uma vigília de oração.

Sábado realiza-se uma conferência do teólogo José María Castillo, no Convento dos Dominicanos, organizado pelo núcleo português do movimento Nós Somos Igreja.

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