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quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Reconstruir o Cristianismo no Iraque: Agora ou Nunca

Brad Miner
O início de Setembro marca o regresso às aulas para milhões de crianças. Este ano, Graças a Deus, será marcado também pelo regresso às aulas de crianças cristãs iraquianas que, juntamente com as suas famílias, estão a regressar à planície de Nínive para reclamar as suas casas e as suas vidas, tão brutalmente afectadas pelo terrorismo e pela guerra. A fundação Ajuda à Igreja que Sofre, e em particular o seu ramo americano, têm sido instrumentais em ajudar a tornar isto possível. (Nota: Eu faço parte da direcção a AIS nos Estados Unidos e o nosso colega aqui no The Catholic Thing, George J. Marlin, é presidente.)

Num artigo anterior eu escrevi sobre um discurso do Sr. Marlin em que ele pedia um novo Plano Marshall para o Médio Oriente. É com alegria que anuncio que já se estão a dar os primeiros passos para a implementação de tal plano no Iraque.

Estamos felicíssimos por saber que este mês a AIS espera repatriar 15 mil pessoas na cidade cristã de Qaraqosh, no Iraq. São três mil famílias.

Esta planta, com as casas danificadas a amarelo, mostra quão extensivos foram os danos.



Ao todo, na Planície de Nínive, mais de 1200 casas foram destruídas pelo Estado Islâmico. Mais de 3000 foram danificadas pelo fogo e ainda mais de 8000 foram danificadas de outras formas e precisam de ser reparadas. O número de igrejas nas mesmas situações é respectivamente 34, 132 e 197. É aquilo a que se pode chamar um desastre não natural.

Mas como eu escrevi anteriormente, a repatriação dos cristãos para as suas terras ancestrais depende da existência de paz. E embora o Estado Islâmico tenha sido expulso de Nínive, resta saber se é possível garantir o regresso dos cristãos em segurança para Nínive e outros lados.

A história é esta:

Quando o mais recente problema de refugiados começou a aparecer nas notícias costumava ser em termos de combates entre o Estado Islâmico e várias milícias e exércitos nacionais, na maioria no Iraque e na Síria. A maioria de nós já viu fotografias de longas filas de deslocados internos, a fugir dos combates ou dos ultimatos que o Estado Islâmico fez aos cristãos: Converter-se ao Islão, abandonar as suas terras, ou morrer. Muito poucos cristãos optaram por converter-se e alguns foram mortos. Mas a maioria – juntamente com muitos, muitos muçulmanos – simplesmente fugiu, ou para países estrangeiros, ou para campos de refugiados.

As manchetes costumam referir-se ao influxo de Muçulmanos para a Europa, e em muitas situações lidam com a infiltração de militantes do Estado Islâmico, ou outros terroristas, que desde o 11 de Setembro de 2001 já mataram, pelo menos, 20,000 pessoas no mundo, com muitos milhares de feridos.

Mas estes são apenas assassinatos em ataques terroristas. A guerra – em larga medida islamita – na Síria, quase 400 mil pessoas morreram. Dezanove mil civis morreram no Iraque desde 2014 (acima de 60 mil combatentes perderam a vida), mas número mais devastador diz respeito ao número de deslocados internos no Médio Oriente: 4,525,968.

A Ajuda à Igreja que Sofre tem trabalhado em prole destes refugiados desde o início da crise, e sempre tivemos dois objectivos mente.

Temos procurado fornecer ajuda humanitária imediata a todos aqueles que foram expulsos das suas casas: água, comida, roupa e medicina – os essenciais – mas também educação para as crianças, ajudando a garantir que não se perde uma geração inteira de crianças.

E sempre acreditámos que um dia – tal como aconteceu no fim da Segunda Guerra Mundial – estes deslocados voltariam para retomar as suas casas, empregos e herança antiga. Os eventos mais recentes provam que tínhamos razão – e estamo-nos a preparar para enfrentar o desafio.

Recentemente o jornalista John L. Allen Jr. escreveu na revista “Columbia”, dos Knights of Columbus, que desde 2011 que a Ajuda à Igreja que Sofre “gastou 35.5 milhões de dólares a ajudar refugiados cristãos no Iraque e na Síria, em particular os que se encontram em Erbil e noutros pontos do Curdistão. O ramo americano da AIS têm contribuído de forma decisiva para este esforço.”

Allen encontrou um termo maravilhoso para este trabalho que estamos agora a começar: Dunkirk ao contrário.

Regresso a casa, aos olhos de uma criança cristã do Iraque
Tendo passado os últimos seis anos a ajudar as pessoas que fogem das suas casas, a AIS está agora, juntamente com outros grupos, entre os quais os Knights of Columbus, a Catholic Near East Welfare Association e a Catholic Relief Services, a ajudar os refugiados a regressar. Este esforço colectivo tem sido apelidado de Comité de Reconstrução de Nínive (CRN).

O objectivo da CRN é, de forma simples: “Ajudar os Cristãos Iraquianos que queiram regressar às suas aldeias na Planície de Nínive, onde vivem há séculos, e a fazê-lo de forma digna e em segurança”.

Como é evidente estas pessoas (na maioria católicas e ortodoxas) carregam com elas a sua dignidade, que nunca perderam, não obstante os sofrimentos e perigos que enfrentaram. Uma ajuda a essa dignidade passa pela reconstrução e renovação urgente das suas casas, escolas e meios económicos.

Claro que a segurança é uma preocupação constante e algo que a AIS/CRN não podem fornecer. Para isso é necessária a colaboração entre oficiais locais e nacionais do Iraque bem como de terceiros interessados. Na medida em que há paz na área, cabe a esses governos e aos terceiros (isto é, outras nações que têm interesses no Iraque e que têm consciência moral) desenvolver formas de proteger os cidadãos recém regressados, sejam católicos, ortodoxos, yazidis ou muçulmanos.

Os muçulmanos que anteriormente viviam em relativa paz com os seus vizinhos cristãos não podem se não agradecer os esforços dos cristãos para reconstruir Nínive, porque também eles serão beneficiários da renovada actividade económica e, sobretudo, da paz.

Aquilo que a NRC está a estabelecer em Nínive é uma espécie de lança em África – uma prova de que é possível reestabelecer comunidades multireligiosas onde diferentes fés podem coexistir de forma amigável.

Se for possível aqui, pode ser possível noutros lados. Seja como for, é agora ou nunca. 


(Publicado pela primeira vez na terça-feira, 5 de Setembro de 2017 em The Catholic Thing)

Brad Miner é editor chefe de The Catholic Thing, investigador sénior da Faith & Reason Institute e faz parte da administração da Ajuda à Igreja que Sofre, nos Estados Unidos. É autor de seis livros e antigo editor literário do National Review.

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

O Papa e Hitler: Notícias Falsas e Mentiras

George J. Marlin
Na sua mensagem de Natal “Urbi et Orbi”, no dia 24 de Dezembro de 1940, o Papa Pio XII condenou a Alemanha Nazi pelo seu “uso ilegal de forças destrutivas contra não-combatentes, fugitivos, idosos e crianças; um desprezo pela dignidade, liberdade e vida humana que dá lugar a actos que clamam a Deus por vingança…”

No dia de Natal, um editorial do New York Times reconheceu que “a ordem moral do Papa, numa palavra, está em total contradição com a de Hitler”.

Um ano mais tarde, o discurso de Natal do Santo Padre para o Colégio de Cardeais denunciou os nazis pela violação dos direitos das minorias. Não podia haver lugar, disse, para “(1) opressão aberta ou subtil das características culturais e linguísticas de minorias nacionais; (2) contradição das suas capacidades económicas; (3) limitação ou abolição da sua fecundidade natural”.

Mais uma vez o editorial do dia de Natal do New York Times não só aplaudiu as afirmações do Papa, mas declarou que “a voz de Pio XII é uma voz solitária no silêncio e na escuridão que envolvem a Europa neste Natal… Ele é dos únicos líderes no continente europeu que ainda se atreve a erguer a voz sequer… Não deixou qualquer dúvida de que os objectivos dos nazis são também irreconciliáveis com a sua própria concepção de uma paz cristã”.

Na sua mensagem de Natal de 1942, afirmou: “A Igreja não seria verdadeira consigo mesma, deixaria de ser mãe, se fosse surda ao choro das crianças sofredoras, de todas as classes da família humana, que lhe chega aos ouvidos”. Exigiu que os opositores dos nazis jurassem solenemente “nunca descansar até que as legiões das almas corajosas de todos os povos e todas as nações se ergam, resolvidas a trazer a sociedade de volta para o seu centro de gravidade amovível na Lei Divina e se dediquem ao serviço da pessoa humana e de uma sociedade humana nobre e divina.” Este juramento, concluiu, devia ser feito em nome das vítimas da guerra, “as centenas de milhares que, sem qualquer culpa, mas apenas por causa da sua nação ou raça, foram condenadas à morte ou à extinção progressiva”.

Mais uma vez a direcção editorial do Times louvou o Papa: “Nenhuma homilia de Natal chega a mais gente que a mensagem que o Papa Pio XII endereça a um mundo devastado pela guerra nesta época. Este Natal, mais do que nunca, ele é uma voz solitária a clamar do silêncio de um continente. O púlpito de onde fala assemelha-se mais do que nunca à rocha sobre a qual a Igreja foi fundada, uma ilha minúscula fustigada e cercada por um mar em guerra”.

O editorial referiu ainda que o Papa não é um líder político, mas um “pregador, destinado a erguer-se acima da batalha, imparcialmente ligado… a todas as pessoas prontas a colaborar numa nova ordem que traga uma paz justa”. E concluiu, “o Papa Pio expressa com tanta paixão como qualquer outro líder do nosso lado os objectivos de guerra desta luta pela liberdade, quando diz que todos os que trabalham para construir um novo mundo devem lutar pela liberdade de escolha de Governo e de religião.”

Aquilo que acaba de ler não são “notícias falsas”. A verdade é que a Igreja foi uma opositora incansável de Hitler. O que é falso é a propaganda anticatólica que chegou primeiro dos soviéticos e mais recentemente de intelectuais.

Se mais provas fossem necessárias, o novo livro de Peter Bartley, “Catholics Confronting Hitler”, que é de muito fácil e agradável leitura, descreve os movimentos de resistência católicos e as operações de salvamento levados a cabo no Vaticano e em toda a Europa ocupada pelos nazis. Muitas vezes este trabalho foi feito em colaboração com judeus e protestantes.

Os católicos pagaram o preço pela sua resistência. Bispos foram exilados ou assassinados, padres e leigos detidos ou executados em campos de morte. Com a bênção do Papa, a hierarquia católica alemã denunciou repetidamente dos púlpitos o programa de eutanásia nazi, bem como o seu neopaganismo e anti-semitismo. Ajudaram e esconderam judeus e, em 1943, os bispos “emitiram uma declaração conjunta a lamentar o despejo e assassinato de judeus”.

Em França os jornais clandestinos escritos por jesuítas e aprovados pelo Papa expuseram os males dos nazis, em particular as teorias raciais, e encorajaram a resistência, inclusivamente contra o Governo fantoche de Vichy. Os núncios papais na Eslováquia, Hungria, Balcãs e países ocupados da Europa ocidental, fiéis às ordens do Papa, protestaram publicamente cada vez que os judeus eram detidos ou arrebanhados para serem deportados. Os seus actos causavam frequentemente atrasos e suspensão de ordens de deportação, permitindo a dezenas de milhares de judeus encontrar refúgio nas casas e edifícios da Igreja.

O futuro Papa São João XXIII era delegado apostólico na Turquia e na Grécia durante a guerra e salvou a vida a incontáveis judeus na Hungria, Eslováquia, Bulgária e Roménia. Salvou pelo menos 50 mil judeus, emitindo certificados de baptismo.

Para além destes esforços clandestinos, a Pontifícia Comissão de Assistência, criada pelo Papa Pio XII, distribuía comida, artigos médicos e roupa a centenas de milhares de pessoas desalojadas. O Gabinete de Informação do Vaticano, segundo Bartley, “permitiu a dois milhões de pessoas manterem-se em contacto com entes queridos, pessoas que se julgavam desaparecidas, presos de guerra e pessoas em campos de concentração”. Países amigos “tinham de exceder as suas quotas de refugiados judeus quando estes chegavam às suas fronteiras munidos de documentos assinados por oficiais do Vaticano”.

Estas respostas à opressão nazi levaram Albert Einstein a reconhecer que “só a Igreja Católica se opôs ao ataque hitleriano contra a liberdade”.

E em Setembro de 2008, numa conferência internacional, académicos judeus e rabinos disseram ao Papa Bento XVI que o Papa Pio XII tinha ajudado a salvar perto de um milhão de vidas judaicas.

Então porque é que persiste este mito sobre o “silêncio” da Igreja? Pela mesma razão que outros mitos anticatólicos se alojaram na nossa cultura. Neste caso não se trata apenas de “notícias falsas”. Porque quando os esforços heroicos de salvamento da Igreja são ignorados ou até mesmo transformados no seu contrário, estamos perante mentiras claras, motivadas pelo Pai da Mentira.  



George J. Marlin é editor de “The Quotable Fulton Sheen” e autor de “The American Catholic Voter”. O seu mais recente livro chama-se “Narcissist Nation: Reflections of a Blue-State Conservative”.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quinta-feira, 15 de Dezembro de 2016)

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quarta-feira, 10 de agosto de 2016

O Leão de Münster

George J. Marlin
Faz hoje [3 de Agosto] 75 anos que o bispo de Münster, Clemens August Graf von Galen, condenou do púlpito da sua catedral o programa de eutanásia dos nazis: “Se estabelecer-se e aplicar-se o princípio de que se pode ‘matar’ seres humanos improdutivos, então ai de nós quando nos tornarmos velhos e frágeis! Será que eu e vós temos apenas direito a viver enquanto formos produtivos? Ninguém se sentiria seguro. Quem poderia confiar no seu médico? É inconcebível que conduta depravada, que suspeição poderia entrar na vida familiar se esta doutrina terrível for tolerada, adoptada e executada”.

Tendo testemunhado a ascensão do nazismo e das suas tácticas brutais, von Galen passou à ofensiva pouco depois de Hitler se tornar chanceler. Numa carta pastoral da Quaresma de 1934, avisou os seus fiéis sobre a ideologia nazi infiel. Dois anos mais tarde comentava a perseguição anti-cristã: “Existem na Alemanha campas novas que contêm as cinzas daqueles que o povo alemão vê como mártires”.

Grande defensor da liberdade católica, apoiou petições a exigir o direito de crianças a serem educadas em instituições católicas. Também juntou um grupo de cientistas católicos para refutar as doutrinas raciais, anticristãs e antissemíticas, formuladas pelo ideólogo nazi Alfred Rosenberg, no seu livro “O Mito do Século XX”.

Em 1937 Pio XI chamou von Galen a Roma para, juntamente com o cardeal Eugenio Pacelli, mais tarde Pio XII, o ajudar a escrever a encíclica Mit Brennender Sorge, que condenava o “mito da raça e do sangue” do nazismo.

Mas von Galen é mais bem lembrado por batalhar os esforços do regime para eliminar os “inaptos”. A classe médica alemã abraçou em larga medida o Nacional Socialismo. Para eles, o racismo Nazi era “biologia aplicada” que lhes fornecia as ideias e as técnicas que levariam a um genocídio sem paralelo.

O próprio Hitler era um forte apoiante da eutanásia. Ainda em 1935 disse a Gerhard Wagner, líder da Liga de Médicos Nacional Socialistas que “a eutanásia em larga escala teria de esperar pela guerra, porque aí seria mais fácil de administrar”.

Nos primeiros anos da guerra abriram seis centros de eutanásia, apelidados de “Fundações Caritativas para o Cuidado Institucional”. Como se vê pelo nome, a matança era racionalizada como um acto de compaixão.

Galen condenou imediatamente estes “centros” numa série de sermões. No domingo, dia 13 de Julho de 1941 avisou que ninguém estava a salvo de ser “fechado nas celas e nos campos de concentração da Gestapo. O direito à vida, à inviolabilidade, à liberdade é uma parte indispensável da ordem moral da sociedade. Exigimos justiça!”

Uma semana mais tarde condenou o encerramento recente, por parte da Gestapo, de escolas, conventos, mosteiros, abadias e a confiscação de propriedades:

Permaneçam firmes! Vemos e experimentamos claramente o que está por detrás das novas doutrinas que há anos nos têm impingido, por causa das quais a religião tem sido banida das escolas, as nossas organizações têm sido suprimidas e agora as creches católicas estão prestes a ser abolidas – existe um profundo ódio ao Cristianismo, que estão determinados a destruir.

Pouco depois, von Galen levou a cabo o seu golpe de mestre. O Artigo 31 do Código Penal alemão dizia que “quem quer que tenha conhecimento da intenção de cometer um crime contra a vida de qualquer pessoa e não informe as autoridades, ou a pessoa cuja vida está ameaçada, no devido tempo … comete um crime punível por lei”. Von Galen foi às autoridades para dizer que alguns pacientes “classificados como improdutivos” num hospital local estavam a ser transferidos para um hospital psiquiátrico, onde “serão intencionalmente mortos”.

Leão de Münster
Ninguém ligou à sua queixa, por isso von Galen - corajosamente - tornou a sua queixa pública:

Devemos esperar, então, que estes pobres pacientes indefesos serão mortos, mais cedo ou mais tarde. Porquê? Não por terem cometido alguma ofensa, mas porque na opinião de alguma comissão se tornaram “indignos de viver” porque são classificados como “membros improdutivos da comunidade nacional”.

Pediu então aos fiéis que erguessem a voz “sob pena de nos deixarmos infectar pelas suas formas infiéis de pensar e de agir, sob pena de partilharmos da sua culpa”.

O sermão tornou-se “viral”. As forças anti-Nazis clandestinas circularam-no pelo Reich e aviões britânicos largaram exemplares por cima de cidades alemãs. Muitos oficiais nazis exigiram que o bispo fosse julgado por traição e enforcado. Mas Goebbels discordou. Ele avisou que a exposição da eutanásia por parte de Galen já tinha virado muitos nazis contra o regime e seria “praticamente impossível” ao partido manter a sua popularidade se von Galen fosse punido.

Hitler concordou. Ordenou que a eutanásia fosse travada e que acabassem os ataques à propriedade da Igreja. Era claro, todavia, que quando a Alemanha ganhasse a guerra Galen “teria de pagá-las” e que então começaria um novo programa de eutanásia.

Em 1941 Pio XII escreveu uma carta a outro bispo alemão. “Os bispos que, com tanta coragem e, ao mesmo tempo, conduta exemplar, se erguerem em defesa das causas de Deus e da Santa Igreja, como fez o bispo von Galen, contarão sempre com o nosso apoio”.

Logo no primeiro consistório do seu pontificado, Pio XII elevou von Galen ao cardinalato, “pela sua resistência destemida ao Nacional Socialismo”. Durante o evento, os alemães na Praça de São Pedro aplaudiram-no, chamando-o “Leão de Münster”.

Um mês mais tarde, von Galen morreu.

O presidente da associação alemã de comunidades judaicas comentou: “O Cardeal von Galen foi um dos poucos homens rectos e conscienciosos que lutou contra o racismo num tempo muito difícil. Honraremos sempre a memória do falecido bispo.”

Quarenta anos mais tarde, o Papa São João Paulo II visitou a Catedral de Münster para rezar junto ao seu túmulo.

O lema episcopal de von Galen era “Nec Laudibus, Nec Timore” – literalmente: “Nem elogios nem medo”, mas que significa algo como “nem os elogios nem as ameaças me distanciarão de Deus”. Se a Igreja de hoje precisa de um modelo a seguir, tem um exemplo excelente no Cardeal von Galen e a sua defesa inquebrantável das verdades e das liberdades cristãs, perante o regime mais homicida dos tempos modernos.


George J. Marlin é editor de “The Quotable Fulton Sheen” e autor de “The American Catholic Voter”. O seu mais recente livro chama-se “Narcissist Nation: Reflections of a Blue-State Conservative”.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 3 de Agosto de 2016)

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Cristãos Perseguidos no Médio Oriente em 2015

George J. Marlin
Em 2015 houve mais cristãos perseguidos do que membros de qualquer outra religião no mundo. A perseguição religiosa tem sido também a principal causa do grande aumento de migração forçada a nível global. De acordo com as Nações Unidas, o número de deslocados internos e refugiados atingiu um pico, no ano passado, de 60 milhões de pessoas.

Este ciclo persecutório cada vez maior criou também o mais significativo êxodo de cristãos na história do Médio Oriente.

Com populações inteiras a fugir das suas casas, os cristãos estão rapidamente a desaparecer de regiões inteiras – e não é só no Médio Oriente, mas também em África, onde várias dioceses se esvaziaram.

Em grande parte, esta migração é causada pela limpeza étnica motivada por ódio religioso. Os responsáveis por esta violência e intimidação sistemática são principalmente grupos terroristas islâmicos, em particular o Estado Islâmico.  

A perseguição levada a cabo pelo Estado Islâmico encaixa perfeitamente na definição de genocídio das Nações Unidas:

quaisquer dos seguintes actos cometidos com a intenção de destruir, em todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso, como por exemplo: matar membros do grupo e causar danos sérios corporais ou mentais aos membros do grupo…

Os actos de genocídio do Estado Islâmico são dirigidos em primeiro lugar contra os cristãos. Na sua revista online “Dabiq”, os militantes afirmam que vão “conquistar a vossa Roma, quebrar as vossas cruzes e escravizar as vossas mulheres, se Allah o permitir.”

O Estado Islâmico é liderado por fanáticos ideológicos que aderem a uma forma extremista de Islão salafita, que afirma que apenas eles são verdadeiros muçulmanos. Esta seita requer a criação de um califado para purificar o Islão do xiismo e da presença de infiéis. De acordo com Abu Bake Naji, um conhecido intelectual do Estado Islâmico, isto significa que os terroristas devem recorrer à jihad, definida como “nada se não violência, brutalidade, terrorismo, o aterrorizar de pessoas e massacres”.

Na Síria, esta política do Estado Islâmico e a guerra civil são responsáveis pela morte de mais de 250 mil pessoas e a deslocação de 11,6 milhões – metade da população do país. Pelo menos 3,9 milhões destas pessoas estão retidas no Líbano, na Jordânia, no Iraque e na Turquia. Incrivelmente, 25% da população do Líbano é agora composta por refugiados sírios. Porém, a maioria dos cristãos exilados recusam-se a ir para campos de refugiados ou a registarem-se com as agências de ajuda humanitária, com medo de serem raptados ou hostilizados por muçulmanos. Em vez disso dependem da ajuda de agências de auxílio internacional católicas, como a Ajuda à Igreja que Sofre, ou outros cristãos que os alimentem, vistam e ajudem a educar os seus filhos.

O Estado Islâmico espera apagar o passado, presente e futuro do Cristianismo. Em 2015 foram destruídas igrejas, locais de interesse histórico e manuscritos antigos. Um rico património está em perigo – uma herança que é séculos mais antiga que o próprio Islão.

Mais de 150 igrejas, centros pastorais e mosteiros foram danificados ou destruídos na Síria, incluindo a histórica igreja de São Jorge, em Qaber Shamiya, que foi pilhada antes de ser incendiada. A Igreja Apostólica Arménia dos Quarenta Mártires, em Alepo, foi destruída em resposta a eventos dos cristãos para comemorar o 100º aniversário do genocídio arménio.

As 45 igrejas cristãs em Mosul, no Iraque, ou foram destruídas ou transformadas em instalações militares ou então convertidas em mesquitas. Em Janeiro de 2016, imagens de satélite confirmaram que o mais antigo mosteiro do Iraque, Santo Eliseu, localizado no topo de um monte nos arredores de Mossul desde o ano 590 tinha sido reduzido a um monte de entulho pelo Estado Islâmico.

Estado Islâmico e cristãos coptas
Outros países do Médio Oriente também têm assistido a uma intensa perseguição, como podemos ver:

Irão: Os cristãos têm sido atingidos por rusgas e detenções em cada vez maior número. O número de cristãos atrás das grades duplicou em 2015, apesar de promessas do Governo para promover a tolerância religiosa.

Arábia Saudita: Esta nação, que não permite a construção de qualquer igreja cristã e continua a ter o pior registo de abusos em relação à liberdade religiosa. O novo rei já augurou uma abordagem ainda mais severa.

Sudão: O Presidente Omar al-Bashir elevou a intensidade da sua promoção do Islão de ala dura. O número de cristãos no país continua a diminuir a um ritmo acelerado.

Turquia: Apesar de promessas de reformas por parte do Governo, os cristãos ainda são tratados como cidadãos de segunda. Os cristãos temem ainda o aumento do Islão radical na Turquia.

Egipto: Os ataques a igrejas diminuíram desde que o Presidente Morsi abandonou o cargo, mas os cristãos continuam a ser alvo de ataques ao nível individual. A 7 de Janeiro de 2015 o Presidente el-Sisi deu um forte sinal de apoio quando participou numa celebração de Natal ao lado do Papa copta Tawadros II, na Igreja de São Marcos. Também condenou a violência do Estado Islâmico e de outros grupos radicais numa celebração do nascimento de Maomé. “É inconcebível que a ideologia que nos é mais cara transforme todo o mundo islâmico numa fonte de ansiedade, perigo, morte e destruição para o resto do mundo”. Foram palavras e gestos de importância monumental. Infelizmente, têm tido pouco eco no resto do Governo egípcio, em termos de garantir direitos básicos aos cristãos. 

Em relação aos governos ocidentais, enquanto muitos condenaram os crimes contra a humanidade dos radicais islâmicos, não implementaram quaisquer planos efectivos para pôr termo à violência ou para assegurar que os cristãos e outras minorias recebam protecção ou um espaço seguro onde viver. Contudo, ainda o outro dia o Parlamento Europeu declarou que o Estado Islâmico está a levar a cabo um genocídio e pediu aos estados-membro que façam chegar a todos os grupos que são alvo desta crime “protecção e ajuda, incluindo ajuda militar e humanitária” em conformidade com o direito internacional.

Mas enquanto grande parte do Ocidente continua a olhar, muitos cristãos do Médio Oriente continuam a manter-se firmes, independentemente das dificuldades. A posição dos cristãos em dificuldade foi bem descrita pelo Arcebispo Melquita de Alepo, Jean-Clement Jeanbart:

Estamos a confrontar um dos desafios mais importantes da nossa história bi-milenar. Lutaremos com todas as nossas forças e agiremos com todos os meios possíveis para dar ao nosso povo razões para ficar e não abandonar; sabemos que o caminho que temos pela frente será muito difícil; não obstante, estamos convencidos que o nosso amado Senhor Jesus está presente na Sua Igreja e que jamais nos abandonará. Sabemos que nada pode intrometer-se entre nós e o amor de Jesus Cristo – e que através de todos estes desafios triunfaremos através do poder daquele que nos ama.


(Publicado pela primeira vez no Sábado, 6 de Fevereiro de 2016 em The Catholic Thing)

George J. Marlin é editor de “The Quotable Fulton Sheen” e autor de “The American Catholic Voter”. O seu mais recente livro chama-se “Narcissist Nation: Reflections of a Blue-State Conservative”.

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

A Guerra Secreta de Pio XII Contra Hitler

George J. Marlin
Há muitos anos – pelo menos desde o teatro de 1963 de Rolf Hochhuth “O Deputado" – que o mundo tem aturado a conversa de que Pio XII foi o “Papa de Hitler”. Há décadas que pessoas bem informadas suspeitam que isso se trata de uma distorção deliberada, mas agora temos a certeza, sem margem para dúvidas, de que tais acusações não só estavam erradas como são precisamente o oposto da verdade.

Quando o Cardeal Eugenio Pacelli se tornou Pio XII, em 1939, o chefe das SS, Heinrich Himmler, ordenou a Albert Hartl, um padre laicizado, que preparasse um dossier sobre o novo Papa. Hartl documentou como Pacelli tinha usado a Concordata que tinha negociado com o Governo de Hitler em 1933 de forma vantajosa para a Igreja, fazendo pelo menos 55 queixas formais por violações da mesma.

Pacelli também acusou o Estado nazi de conspirar para exterminar a Igreja e “convocou todo o mundo para lutar contra o Reich”. Pior, pregava a igualdade racial, condenava a “superstição do sangue e da raça” e rejeitou o anti-semitismo. Citando um oficial das SS, Hartl concluiu a sua análise dizendo “a questão não é saber se o novo Papa vai lutar contra Hitler, mas sim como”.

Entretanto, Pio XII estava a reunir-se com cardeais alemães e a discutir o problema de Hitler. As transcrições mostram que ele se queixou que “os Nazis tinham frustrado os ensinamentos da Igreja, banido as suas organizações, censurado a sua imprensa, fechado os seminários, confiscado as suas propriedades, despedido os professores e fechado as escolas”. Citou um oficial nazi que gabou que “depois de derrotar o bolchevismo e o judaísmo, a Igreja Católica será o único inimigo restante”.

O Cardeal Michael von Faulhaber, de Munique, retorquiu que os problemas tinham começado depois da encíclica de 1937 “Com Grande Ansiedade” (Mit Brennender Sorge, publicada em alemão e não em latim). O texto, escrito em parte por Pacelli antes de este se ter tornado Papa, enfureceu o Hitler. O Papa disse a Faulhaber, “a questão alemã é a mais importante para mim. O seu tratamento está reservado directamente para mim… Não podemos abdicar dos nossos princípios… Quando tivermos tentado tudo, e ainda assim eles quiserem absolutamente a guerra, lutaremos… Se eles recusarem, então teremos de lutar”.

Faulhaber recomendou “intercessão de bastidores”. Propôs que os bispos alemães encontrassem “uma forma de fazer chegar a Sua Santidade informação precisa e actualizada.” O Cardeal Adolf Bertram acrescentou que “é preciso fazê-lo de forma clandestina. Quando São Paulo se fez descer num cesto das muralhas de Damasco, também não contava com a autorização da polícia local”. O Papa concordou.

Assim nasceu o plano para construir uma rede de espionagem que apoiaria, entre outras coisas, planos para assassinar Hitler.

No seu interessantíssimo livro “Church of Spies: The Pope’s Secret War Against Hitler”, Mark Riebling recorre a documentos do Vaticano e actas secretas acabadas de divulgar que descrevem detalhadamente as tácticas clandestinas usadas por Pio XII para tentar derrubar o regime nazi.

Depois de Hitler ter invadido a Polónia em 1939 o Papa reagiu aos relatos de atrocidades contra judeus e católicos. A sua encíclica “Summi Pontificatus” rejeitou o racismo, dizendo que a raça humana está unificada em Deus. E condenou também os ataques ao judaísmo.

O Papa foi amplamente louvado por isto – um título do New York Times dizia “Papa condena ditadores, violações de tratados, racismo” – mas ele próprio sentia que era pouco.

Convencido de que o regime nazi cumpria os requisitos para justificar o tiranicídio, conforme os ensinamentos da Igreja, Pio XII permitiu aos jesuítas e aos dominicanos, que respondiam directamente a ele, que colaborassem com acções clandestinas. O seu principal agente – a quem os nazis se referiam como “o melhor agente dos serviços de informação do Vaticano” – era um tal Josef Muller, advogado e herói da Primeira Guerra Mundial.

Muller organizou uma rede de “amigos das forças armadas, escola e faculdade, com acesso a oficiais nazis e que trabalhavam em jornais, bancos e até mesmo nas SS”. Eles forneciam o Vaticano com informação vital, incluindo planos de batalha que eram depois passados aos aliados. Em 1942 Muller conseguiu introduzir Dietrich Bonhoeffer no Vaticano para planear uma estratégia cujo objectivo era “fazer as pontes entre grupos de diferentes religiões, para que os cristãos pudessem coordenar a sua luta contra Hitler”.

As tentativas de assassinato de Hitler falharam todas, devido ao que Muller apelidou de “sorte do diabo”. Mas em relação a estes planos, Riebling comenta: “Todos os caminhos vão de facto dar a Roma, a uma secretária com um simples crucifixo, com vista sobre as fontes da Praça de São Pedro”.

Depois do falhanço do plano Valquíria a Gestepo prendeu Muller. Descobriram uma nota escrita em papel timbrado do Vaticano por um dos assistentes de topo do Papa, o padre Leiber, que dizia que “Pio XII garante uma paz justa em troca da ‘eliminação de Hitler’”.

Muller foi enviado para Buchenwald. No dia 4 de Abril de 1945, juntamente com Bonhoeffer, foi transferido para Flossenburg. Depois de um julgamento fantoche foram condenados à morte.

Bonhoeffer foi imediatamente executado. Mas temendo a aproximação de forças americanas, as SS transferiram Muller e outros reclusos para Dachau, depois para a Áustria e, finalmente, para o Norte de Itália. Foram então libertados pelo 15º Exército dos EUA.

Agentes dos serviços de informação dos EUA levaram Muller para o Vaticano. Quando o viu, o Papa abraçou-o e disse que se sentia “como se o próprio filho tivesse regressado de uma situação de grande perigo”.

Riebling revela que durante a visita de Muller ao Vaticano o diplomata americano Harold Tillman perguntou porque é que Pio XII não tinha sido mais interventivo durante a guerra.

Muller disse que durante a guerra a sua organização anti-Nazi na Alemanha tinha insistido muito que o Papa evitasse fazer afirmações públicas dirigidas especificamente aos nazis e condenando-os, tendo recomendado que as afirmações públicas do Papa se confinassem a generalidades (…) Se o Papa tivesse sido específico os alemães tê-lo-iam acusado de ceder às pressões das potências estrangeiras e isso teria colocado os católicos alemães ainda mais na mira dos nazis do que já estavam, tendo restringido imensamente a sua liberdade de acção na resistência ao regime. O Dr. Muller disse que a política da resistência católica in interior da Alemanha era de que o Papa se colocasse nas margens enquanto a hierarquia alemã levasse a cabo a luta contra os nazis. Disse ainda que o Papa tinha seguido sempre este seu conselho durante a guerra.

Graças à pesquisa incansável de Riebling, agora podemos finalmente descartar as alegações absurdas sobre Pio XII. Ele não era o “Papa de Hitler”, era o seu nemesis.

Pode adquirir um exemplar de “Church of Spies” da loja do The Catholic Thing na Amazon, clicando aqui.


(Publicado pela primeira vez na Quarta-feira, 13 de Janeiro de 2016 em The Catholic Thing)

George J. Marlin é editor de “The Quotable Fulton Sheen” e autor de “The American Catholic Voter”. O seu mais recente livro chama-se “Narcissist Nation: Reflections of a Blue-State Conservative”.

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

A Civilização do Espectáculo

George J. Marlin
Em 1948 o grande poeta anglo-americano e vencedor do prémio Nobel T.S. Eliot publicou uma curta obra chamada “Notas para uma Definição de Cultura”, onde argumentou que a cultura é “essencialmente a encarnação da religião de um povo” e que na Europa a religião que influenciava a cultura era o Cristianismo:

Foi no Cristianismo que as nossas artes se desenvolveram; foi no Cristianismo que as leis da Europa tinham – até recentemente – as suas raízes. É com o Cristianismo como pano de fundo que todo o nosso pensamento tem significado. Um europeu individual pode não acreditar que a fé cristã é verdadeira, porém o que diz, e produz e faz jorrará da sua herança de cultura cristã e dependerá dessa cultura para ganhar significado. Só uma cultura cristã poderia ter produzido um Voltaire ou um Nietzsche. Não creio que a cultura da Europa possa sobreviver ao desaparecimento completo da fé cristã.

Agora, num livro recém-traduzido [para inglês], “A Civilização do Espectáculo”, outro laureado com o Prémio Nobel da literatura, o romancista Mario Vargas Llosa, revisita a tese de Eliot e critica a era actual da cultura ocidental como sendo não só sub-cristã, mas por se ter tornado uma espécie de não-cultura.

Nascido em Arequipa, no Peru, em 1936, Vargas Llosa foi educado em colégios católicos e recebeu o seu doutoramento da Universidade Complutense de Madrid. Desde os 16 anos que foi jornalista amador e acabou por se mudar para Paris depois de terminados os seus estudos, onde tentou a sua sorte como escritor a tempo inteiro.

A Cidade e os Cães”, o seu primeiro romance, publicado em 1963 e que descreve a vida numa academia militar peruana, atraiu muitos elogios nos círculos literários e recebeu o Prémio da Crítica Espanhola, mas foi descartado como a obra de uma “mente degenerada” pela estrutura militar autoritária do Peru.

Rejeitando o marxismo e o socialismo, Vargas Llosa – que foi eleito presidente da PEN International em 1975 e concorreu, sem sucesso, à presidência do Peru em 1990 – sublinhou nos seus romances que se a América Latina quer sobreviver, as suas nações-estado devem abraçar a democracia liberal.

Em 2010, quando foi anunciado que Vargas Llosa ia receber o Prémio Nobel, o comité elogiou-o pela sua “cartografia de estruturas de poder e imagens mordazes da resistência, revolta e derrota do indivíduo”. Revendo a sua carreira, o conhecido crítico literário Clive James disse que ele “exemplificava da melhor maneira a relação entre a literatura e a política no final do século XX na América Latina”.

Tal como Eliot, Vargas Llosa acreditava que a cultura “nasce no seio de uma religião” e que apesar de a cultura ocidental ter evoluído para longe do Cristianismo nos tempos modernos, “estará sempre ligada, por uma espécie de cordão umbilical, à sua fonte de alimentação”.

As proclamações feitas por ideólogos do século XX de que Deus morreu, diz Vargas Llosa, “não significaram a advir do paraíso na terra, mas antes um inferno que já tinha sido prefigurado no pesadelo dantesco da Comédia… O mundo, liberto de Deus, tornou-se gradualmente dominado pelo demónio, um espírito do mal, da crueldade e da destruição que culminaria nas guerras mundiais, os crematórios nazis e os gulags soviéticos”.

Vargas Llosa revela desespero pelo facto de ter testemunhado, na sua vida, a diminuição da cultura à mão de vigaristas. As elites sociais já não se devotam a promover e preservar a alta cultura, mas são apenas snobs. Os artistas, músicos e autores raramente procuram criar obras que “transcendam o mero tempo presente” e “permaneçam vivos para futuras gerações”. Em vez disso as suas obras são “consumidas instantaneamente e desaparecem como bolo ou pipocas”. Os empreendimentos culturais têm de ter um valor comercial e não um valor intrínseco: “O que tem sucesso e vende é bom e o que falha ou não chega ao público é mau”.

Esta cultura gasta, conclui Vargas Llosa com tristeza, “privilegia a esperteza em vez da inteligência, as imagens sobre as ideias, o humor sobre a gravidade, a banalidade sobre a profundidade e a frivolidade sobre a seriedade”. Em resultado disso, mostra-se preocupado que os teólogos e os filósofos, que tradicionalmente ajudavam a formar a visão de uma sociedade, tenham sido substituídos por publicitários.

Lamenta que os concertos a abarrotar tenham substituído as cerimónias litúrgicas: “Nestas festas e concertos lotados os jovens de hoje comungam, confessam, alcançam redenção e encontram a realização através desta experiência intensa e elementar de se perderem de se próprios.”

Quanto à utilização de drogas, Vargas Llosa afirma que elas permitem às pessoas gozar de “prazer rápido e fácil”, evitando a busca de conhecimento que apenas se consegue através do pensamento introspectivo: “Para milhões de pessoas as drogas desempenham agora o papel, previamente desempenhado pela religião e pela alta cultura, de apaziguar as dúvidas e as questões sobre a condição humana, a vida, morte, o além, o sentido ou a falta de sentido da existência”.

Mas apesar destes declínios das normas culturais tradicionais e da crença de livres-pensadores, agnósticos e ateus de que os avanços científicos irão tornar a religião obsoleta, Vargas Llosa nota que a religião está viva e muito activa. Os secularistas não “conseguiram purgar Deus do coração dos homens e das mulheres, nem acabar com a religião”.

O facto de tantas pessoas ainda pertencerem a religiões estabelecidas e de os hippies e outros boémios dos anos sessenta, terem abraçado os ensinamentos religioso-psicadélicos de Timothy Leary ou voltado para a Igreja da Unificação Moonie, ou a Cientologia ou Budismo ou Hinduísmo apenas demonstra, na perspectiva de Vargas Llosa, que as pessoas precisam de alguma forma de consolo ou salvação.

Embora Vargas Llosa tenha abandonado a sua fé católica, ele admite que está constantemente em busca de uma nova. Isto porque está convencido que “uma sociedade não pode alcançar uma cultura democrática sofisticada – por outras palavras, não consegue ser verdadeiramente livre ou respeitadora da lei – se não for profundamente saturada de vida moral e espiritual, que para a imensa maioria dos seres humanos é indissociável da religião”.

Devemos esperar que quando o Mario Vargas Llosa chegar ao fim da sua busca a sua mente tenha redescoberto a religião da sua juventude.


(Publicado pela primeira vez na Quarta-feira, 2 de Setembro de 2015 em The Catholic Thing)

George J. Marlin é editor de “The Quotable Fulton Sheen” e autor de “The American Catholic Voter”. O seu mais recente livro chama-se “Narcissist Nation: Reflections of a Blue-State Conservative”.

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quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

A Igreja Perseguida na Índia

George J. Marlin
Depois de romper com os seus laços coloniais com o Reino Unido, em 1947, a Índia, uma nação de 1,2 mil milhões de pessoas, organizou-se como uma república secular que assegura a liberdade de culto e de propagação da fé.

O Cristianismo na Índia data dos Actos dos Apóstolos, mas apenas 2,5% da população actual professa esta fé. O número total de católicos ascende aos 19,5 milhões.

Infelizmente, durante o século XXI a cláusula da liberdade religiosa na constituição indiana tem sido ignorada por fundamentalistas hindus que têm planeado, coordenado e levado a cabo perseguições anticristãs. No dia de Natal de 2008, por exemplo, mais de 100 igrejas e edifícios cristãos foram pilhados, danificados ou destruídos e mais de 400 casas de cristãos foram arrasadas.

Desde 2008 o centro dos terroristas hindus tem sido na aldeia de Kandhamal, situada junto à selva, no Estado de Orissa. Mais de 56 mil dos 117 mil cristãos que lá vivem foram expulsos das suas casas, com seis mil destas casas a serem incendiadas. Trezentas igrejas ou locais de culto foram profanadas ou destruídas.

Os cristãos estão a ser perseguidos não só por causa da sua fé, como acontece no Egipto e na Síria, mas porque se recusam a renunciá-la e a abraçar o Hinduísmo. O resultado e que milhares de indianos, incluindo padres, freiras e pastores, têm sido torturados de forma sádica. Muitos ficaram sem membros, outros foram queimados vivos. Mais de 100 perderam a vida pela fé.

Perante estes crimes hediondos, o arcebispo de Bombaím, Oswald Gracias, afirmou: “O sangue dos mártires sempre foi semente de cristãos. Este é o mistério da Cruz! Não tenho dúvidas de que Deus enviará muitas bênçãos sobre as pessoas de Orissa e da Índia em consequência do sofrimento dos cristãos de Kandhamal.”

Mas o preço é pesado. Na sua obra “Early Christians of the Twenty-first Century”, o jornalista premiado Anto Akkara, que visitou Kandhamal 16 vezes, relata a forma como a violência anticristã foi orquestrada e os testemunhos de vítimas e as suas famílias. O livro contém “uma colecção de mais de 100 verdadeiros testemunhos cristãos encharcados em sangue, testados e purificados através de um sofrimento inaudito”.

Akkara explica que a polícia limitou-se a observar enquanto as igrejas eram destruídas e como, em muitos casos, as autoridades se recusaram a registar a causa da morte como homicídio. Para evitar processos judiciais os terroristas hindus esconderam as provas. Os corpos dos mártires foram cremados ou lançados aos pântanos ou ribanceiras no meio da selva. Nos poucos casos que chegaram a tribunal, os fundamentalistas hindus foram rapidamente absolvidos por falta de provas.

Depois de meia dúzia de líderes cristãos, chefiados pelo Arcebispo Raphael Cheenath, de Cuttack-Bhubaneswar, ter confrontado o primeiro-ministro Manmohan Singh sobre a violência, Singh reconheceu publicamente que o que se passava era uma “vergonha nacional”, mas tomou poucas medidas no sentido de restaurar a confiança da comunidade cristã.

Cristãos em Kandhamal

Para os fiéis, a garantia constitucional de liberdade religiosa e igualdade perante a lei continua a ser um “slogan” vazio.

Há muitas histórias dramáticas no livro de Akkara, mas aquela que mais me marcou é a de um padre de 56 anos e uma freira de 28.

O padre Thomas Chellan, director do Centro Pastoral Divyajyoti e a sua assistente, a irmã Meena, conseguiram fugir por cima do muro do centro enquanto os terroristas hindus destruíam o complexo, que incluía uma igreja, um dormitório e outros serviços.

Mas no dia seguinte foram capturados. A cabeça de Chellan foi regada com petróleo mas no instante antes de lhe pegarem fogo decidiu-se não avançar. Em vez de o matarem, um grupo de 50 hindus espancou o padre e a freira. “Parecia uma via-sacra”, afirmou mais tarde o sacerdote.

Os seus carrascos despiram-nos e começaram a violar a irmã Meena. Depois conduziram os seus prisioneiros pelas ruas antes de tentarem obrigar o padre Chellan a violar a freira: “Quando recusei, continuaram a espancar-me e levaram-me até um gabinete governamental. Infelizmente, um grupo de cerca de 12 polícias estava a observar tudo sem fazer nada”.

Finalmente, um oficial da polícia levou-os para outra esquadra, a 12 quilómetros, onde acabou o seu suplício. No dia seguinte foram libertados e levados para Bombaím para serem tratados.

A irmã Meena, depois de recuperada da sua experiência traumática, recusou-se a permanecer em silêncio. Convocou uma conferência de imprensa em Nova Deli e, diante de 200 câmaras de televisão, exigiu que a sua violação fosse investigada. Descreveu tudo, cada detalhe grotesco, incluindo a forma como a polícia a tentou dissuadi-la de apresentar queixa depois dos exames médicos terem confirmado a violação.

“Talvez Deus quisesse que eu sofresse com o meu povo, tornando-me um instrumento para falar em nome das pessoas sem voz de Kandhamal”, afirmou à imprensa. Concluiu a conferência agradecendo publicamente a Deus “por me ter escolhido para sofrer esta humilhação, dando-me a oportunidade de sofrer pelas pessoas de Kandhamal. Tive a oportunidade de viver a experiência da crucifixão”.

A fé sólida da irmã Meena e de milhares de outros foi o que inspirou Anto Akkara a escrever o seu livro. Ele acredita que estas pessoas merecem ser conhecidas como “Cristãos Primitivos do Século XXI” porque se mantiveram fiéis “no meio da crueldade diabólica, da impunidade e da apatia do Estado”.


George J. Marlin é editor de “The Quotable Fulton Sheen” e autor de “The American Catholic Voter”. O seu mais recente livro chama-se “Narcissist Nation: Reflections of a Blue-State Conservative”.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 30 de Outubro de 2013)

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quarta-feira, 3 de julho de 2013

Eutanásia: O Fundo do Poço

George J. Marlin
Pouco depois da invasão da Polónia, em 1939, Hitler autorizou os médicos alemães a empregar medidas de suicídio assistido involuntário. Foram abertos seis centros de eutanásia, designados, eufemisticamente, Fundações Caridosas para Cuidados Institucionais. Como o nome indica, a matança foi racionalizada como sendo um acto de compaixão.

Os julgamentos de Nuremberga revelaram que este programa inicial, limitado à Alemanha, tinha sido responsável pela morte de 70 mil adultos e cinco mil crianças, apesar de outras estimativas apontarem para os 400 mil. O programa foi encerrado em 1941 por ordem do Führer, porque estava a despertar oposição no país.

O bispo católico de Múnster, August von Galen, causou grande impacto público quando denunciou as políticas de eutanásia a partir do púlpito, em 1941:

Se estabelecermos e aplicarmos o princípio de que se pode “matar” seres humanos improdutivos, então ai de nós quando formos velhos e frágeis! Se podemos matar os improdutivos, então ai dos inválidos que esgotaram, sacrificaram e perderam a sua força e a sua saúde no processo produtivo... Pobres, doentes, improdutivos, e daí? Acaso eles perderam o direito à vida? Vocês e eu temos o direito a viver apenas enquanto formos produtivos?... Ninguém estaria a salvo. Quem poderia confiar no seu médico? O comportamento depravado e a suspeição que entrariam na vida familiar caso esta doutrina terrível seja tolerada, adoptada e praticada são inconcebíveis.

Houve protestos públicos – uma raridade na Alemanha nazi.

A resposta dos nazis foi de transferir os programas para os países conquistados, a leste, onde acabaram por se transformar na Solução Final. O suicídio assistido involuntário tornou-se a “solução médica” para eliminar não só os doentes, mas também os judeus, ciganos e eslavos, que eram considerados raças “doentes”.

Depois da Segunda Guerra Mundial o movimento para o suicídio assistido voltou à clandestinidade. Mas nos anos 60 e 70 estava a regressar, levando o comentador britânico Malcolm Muggeridge a dizer: “Podem submeter isto ao livro dos recordes do Guinness: leva apenas trinta anos para a nossa sociedade humanista transformar um crime de guerra num acto de compaixão.”

Eis que a Euthanasia Education Council mudou de nome para Concern for Dying, Inc.; e a Euthanasia Society of America se transformou na Society for the Right to Die, Inc. Apareceram outras organizações, como a Choice in Dying.

Não deixa de ser preocupante que as mesmas nações que fazem fronteira com a Alemanha e que testemunharam as políticas grotescas de Hitler – A Bélgica, Holanda e o Luxemburgo – tenham legalizado a eutanásia, consagrando-a como direito humano fundamental.

Desde a década de 70 que os tribunais holandeses têm estado a aumentar a quantidade de candidatos à eutanásia. No início dos anos 90 o poder judicial já permitia o suicídio assistido para doentes psiquiátricos que estavam fisicamente sãos. Num caso um psiquiatra foi ilibado de ajudar um doente mental a suicidar-se porque o tribunal concluiu que o doente, embora mentalmente doente, era competente e livre de decidir que queria morrer. O tribunal considerou que seria discriminatório permitir o suicídio assistido apenas para pessoas que sofriam de forma física. A dor psicológica ou mesmo a infelicidade não podem ser excluídas como razões válidas para o suicídio.

Os tribunais holandeses decidiram que quando a consciência de um médico está em conflito com a lei, ele está autorizado a receitar a eutanásia para aliviar o sofrimento. É apresentado como um exemplo de força maior, uma série de eventos imprevistos que anulam as necessidades legais normais.

Propaganda nazi pela eutanásia.
"Negro deficiente mental (inglês). 16 anos a cargo
do Estado a um custo de 35 mil marcos"

Num artigo do “Wall Street Journal”, publicado no dia 14 de Junho de 2013, Naftali Bendavid informa que os casos de eutanásia na Bélgica, onde o procedimento foi legalizado em 2002, aumentaram de 200 em 2002 para 1133 em 2011.

Actualmente, segundo Bendavid, “A lei belga reserva a eutanásia para doentes com sofrimento insuportável e condições incuráveis. Mas o sofrimento não precisa de ser físico nem a doença terminal. A lei também não requer que o doente informe a sua família da decisão.”

Para piorar a situação, é esperado que o Parlamento belga aprove uma lei que permita a eutanásia para menores desde que “um psiquiatra determine que a criança tem capacidade de discernimento” e “desde que os seus pais concordem”.

O Conselho para os Direitos dos Doentes comentou, acerca disto: “Se pôr fim ao sofrimento é uma boa prática médica, porque não há-de o ser para quem tem três anos, cinco ou oito?”

Em resposta, o Arcebispo de Bruxelas, André-Joseph Léonard, disse: “Os menores são considerados incapazes para certos actos, como comprar e vender, casar, e por aí fora. E agora, de repente, são suficientemente maturos aos olhos da lei para poderem pedir a alguém que lhes tire a vida?”

A Bélgica e a Holanda já chegaram ao fundo de um poço. Estão a matar, voluntariamente, os nascituros, os doentes, os novos e os velhos – tudo em nome da compaixão.

João Paulo II já nos avisava para isto na sua encíclica de 1995, “O Evangelho da Vida”:

Mesmo quando não é motivada pela recusa egoísta de cuidar da vida de quem sofre, a eutanásia deve designar-se uma falsa compaixão, antes uma preocupante “perversão” da mesma: a verdadeira “compaixão”, de facto, torna solidário com a dor alheia, não suprime aquele de quem não se pode suportar o sofrimento. E mais perverso ainda se manifesta o gesto da eutanásia, quando é realizado por aqueles que — como os parentes — deveriam assistir com paciência e amor o seu familiar, ou por quantos — como os médicos —, pela sua específica profissão, deveriam tratar o doente, inclusive nas condições terminais mais penosas.

Se deixarmos de cultivar um sentido da sacralidade da vida humana até ao seu fim natural – e neste momento a reforma do sistema de saúde de Obama parece apontar nessa direcção – então não se admirem se os nossos hospitais e lares se transformarem em matadouros “compassivos”.


(Publicado pela primeira vez na Quarta-feira, 26 de Junho de 2013 em The Catholic Thing)

George J. Marlin é editor de “The Quotable Fulton Sheen” e autor de “The American Catholic Voter”. O seu mais recente livro chama-se “Narcissist Nation: Reflections of a Blue-State Conservative”.

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quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Outros actos eleitorais a que os católicos devem estar atentos

George J. Marlin
No dia das eleições, 6 de Novembro, há uma série de eleições locais e referendos estaduais a que os católicos devem estar atentos. Aqui farei um resumo dos principais:

Eleições para o Senado de Nova Iorque: Em 2011 o líder da maioria no Senado, o Republicano Dean Skelos, de Long Island, quebrou a sua promessa eleitoral e permitiu que se votasse uma medida para legalizar o casamento entre homossexuais.

Quatro republicanos, (três dos quais baptizados católicos), que tinham merecido o apoio do Partido Conservador de Nova Iorque nas últimas eleições, forneceram os votos necessários para que a legislação passasse.

Na altura Mike Long, o secretário-geral do Partido Conservador, avisou os senadores de que o conceito de casamento tradicional é um dos pontos fulcrais para se conseguir o apoio do seu partido: “Se disserem que não são a favor do casamento tradicional não recebem o apoio. É tão simples quanto isso”.

Fiel à sua palavra, Long garantiu que esses quatro senadores não contassem com a sua nomeação para as eleições deste ano.

O resultado é que o Senador Jim Alesi, de Rochester, percebendo que não conseguia ganhar sem o apoio dos conservadores, decidiu não se recandidatar.

O senador Roy McDonald, de Troy, perdeu nas primárias republicanas de Setembro contra um candidato que tinha o apoio dos conservadores.

O senador de Buffalo, Mark Grisanti, que foi eleito por uma margem de 519 votos em 2010 graças aos 4,368 votos que recebeu dos conservadores, está a lutar pela sua sobrevivência num círculo eleitoral que é 83% democrata.

Já o senador Stephen Saland, de Poughkeepsie, que está no senado há 32 anos, conseguiu a sua nomeação, mas apenas por uma margem de 107 votos num total de 10,469. O candidato que derrotou nas primárias republicanas está a concorrer pelo Partido Conservador e poderá conseguir apoio suficiente para garantir que Saland não é reeleito no dia 6.

Se os três senadores perderem os seus lugares por terem votado a favour do “casamento homossexual” os republicanos poderão perder a maioria e a Conferência do Senado do Partido Republicano poderá bem demitir Skelos da liderança.

Maryland: O Governador Martin O’Malley, baptizado católico, promulgou uma lei no dia 1 de Março de 2012 conhecido como a Lei de Protecção do Casamento Civil, que permitirá “casamentos” entre homossexuais a partir do dia 1 de Janeiro de 2013.

A legislação, a que o então Arcebispo de Baltimore, Edwin O’Brien, se opôs ferozmente, tem sido apoiada por um grupo de dissidentes que se apelidam de “Católicos pela Igualdade”. Este grupo desviado considera que a medida “melhora não só a vida dos casais lésbicos e gays e dos seus filhos, como as vidas de famílias católicas em todo o Estado.”

No dia 6 de Novembro os eleitores terão a possibilidade de decidir se a lei do casamento é para se manter. Um voto a favor da “Questão 6”, conhecida como o Referendo do Casamento Entre Pessoas do Mesmo Sexo, é um voto pela manutenção da lei, inalterada.
Bispos da Florida a favor das emendas 6 e 8 à constitição do Estado
Embora a lei proteja os clérigos de terem de presidir a qualquer cerimónia de casamento que viole as suas crenças religiosas e afirme que “cada confissão religiosa tem total controlo sobre a sua doutrina teológica em relação a quem se pode casar nessa confissão”, a conferência católica de Maryland está a pedir um voto no “Não”, avisando os eleitores de que “estamos enganados se pensamos que podemos redifinir o casamento e, ainda assim, proteger a liberdade religiosa”.

Embora também haja referendos sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo no Maine, Minnesota e Washington, os defensores deste conceito estão focados em Maryland, local da primeira diocese católica da América, que esperam vir a ser o primeiro Estado abaixo da Linha Mason-Dixon a aceitar o casamento homossexual nas urnas.

Várias celebridades têm descido sobre a cidade para defender a medida, incluindo o reverendo Al Sharpton.

O Presidente da Câmara de Nova Iorque, Michael Bloomberg, que fez donativos significativos para os republicanos que aprovaram a mesma lei no seu Estado, está agora a encher Maryland de dinheiro, tendo feito a maior contribuição individual, na ordem de $250,000, para uma Comissão de Acção Política a favor do “casamento” gay.

Massachussetts: A Questão 2, ou o “Referendo de Morte Digna”, aparecerá no boletim de voto nestas eleições. Se for aprovada permitirá a um doente, cujos médicos diagnosticaram menos de seis meses de vida, receber medicamentos letais.

O doente terá de ser considerado capaz de tomar a decisão e terá de “fazer o pedido duas vezes oralmente e por escrito na presença de testemunhas”. O pedido verbal inicial deve ter lugar 15 dias antes do pedido por escrito e do segundo pedido verbal.

A iniciativa permitirá também o envolvimento de parentes de sangue no processo de suicídio. Eles poderão ajudar a preparar as papeladas, “desde que uma das testemunhas do pedido não seja parente do doente nem por sangue, casamento ou adopção”.

A Conferência Católica de Massachussetts já condenou a medida, insistindo que ela serve apenas para estigmatizar “toda uma classe como não sendo dignos da protecção e cuidado do Estado nem dos seus familiares”.

O Cardeal Sean O’Malley, de Boston, disse que: “Quando envelhecemos ou ficamos doentes tendemos a desanimar. Devemos estar rodeados de pessoas que nos querem ajudar. Merecemos poder envelhecer numa sociedade que vê os nossos cuidados e as nossas necessidades com uma compaixão enraizada no respeito, oferecendo-nos um verdadeiro apoio para os nossos últimos dias”.

Florida: Duas das 11 propostas de emendas à constituição estadual que aparecerão no boletim de voto na Florida são de interesse para os católicos.

A emenda 6 proíbe o uso de fundos públicos para o aborto “excepto nos casos em que a lei federal a isso obriga ou para salvar a vida da mãe”.

Afirma ainda que a Constituição da Florida “não pode ser interpretada de forma a incluir um direito ao aborto mais alargado do que aquele que está contido na Constituição dos Estados Unidos”.

A ser aprovada, a Emenda 8, revogaria a “Emenda Blaine”, que proibe quaisquer fundos estaduais de serem usados directa ou indirectamente para auxiliar qualquer Igreja ou instituição religiosa.

O novo texto da lei seria: “Nenhum indivíduo ou entidade deve sofrer discriminação ou ser impedido de receber fundos com base na sua identidade ou crenças religiosas.”

A Conferência Católica da Florida apoia a passagem de ambas estas emendas.

As corridas eleitorais e os referendos que acabei de descrever merecem a atenção de todo e qualquer católico que viva naqueles Estados. Cada voto poderá ser decisivo para ajudar a moldar a paisagem moral da América.


George J. Marlin é editor de “The Quotable Fulton Sheen” e autor de “The American Catholic Voter”. O seu mais recente livro chama-se “Narcissist Nation: Reflections of a Blue-State Conservative”.

(Publicado pela primeira vez em www.thecatholicthing.com na Quarta-feira, 17 de Outubro de 2012)

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