segunda-feira, 5 de outubro de 2015

"Dificuldades da família levam a sensação de solidão"

Transcrição integral da entrevista a Assunção Guedes, católica e mediadora familiar credenciada. A Assunção trabalha no acompanhamento de mulheres grávidas em dificuldade e suas famílias, com o Vida Norte, no Porto. A reportagem desta entrevista pode ser lida aqui.

Da sua experiência a trabalhar com famílias, quais são as principais dificuldades que estas enfrentam actualmente?
Há dificuldades internas e dificuldades externas. 

Nas dificuldades internas incluo sobretudo as dificuldades de relação, quer entre o casal quer entre gerações. Essas dificuldades têm sobretudo a ver com dificuldades de comunicação, de incompreensão, de dificuldade de entrega uns aos outros.

Para usar uma expressão do Papa, que acho muito certeira, nós temos dificuldade em gastarmo-nos uns com os outros. Numa relação de família, conjugal ou até de relação entre pai e filho, irmãos e irmãs, sogros e noras, há dificuldade nisto, em gastarmo-nos uns com os outros, de nos dedicarmos uns aos outros. É difícil porque isso implica esquecer-me de mim e pôr o outro à frente.

Por outro lado há dificuldades externas e que têm impacto directo e evidente nas relações familiares e aí vejo mais as questões da sociedade actual, de ritmo de vida, de exigências laborais, exigências de consumo e uma necessidade de consumo extremada, exagerada, que é difícil corresponder e que tem estragos evidentes nas relações. 

Depois, ao mesmo tempo, uma dificuldade que é externa mas que também é muito interna é o cansaço. O cansaço provocado por este ritmo de vida acelerado mas que implica falta de tempo e de disponibilidade para o outro, ou seja, a sociedade actual é de tal forma frenética que não nos permite estarmos uns com os outros; estamos desaprendidos de estar uns com os outros, de simplesmente estar, sem um programa estipulado, mas simplesmente para dar tempo à relação para estarmos juntos. Isto acontece de forma mais grave nas relações conjugais, mas na família no seu todo. 

São portanto dificuldades externas e internas, mas com implicações mútuas e que, de certa forma, só para concluir, ambas acabam num factor mais grave, que é a solidão. Ou seja, esta confusão toda termina numa sensação individual de solidão, que vejo muito nas famílias que acompanho. 

Ouvimos muito dizer que o conceito de família está a mudar. Concorda? E isso é bom, ou mau?
Acho que há aspectos que são novos e que são fruto de há umas décadas para trás. Podemos pegar se calhar na revolução francesa como pontapé de saída para estas mudanças familiares, mas desde então as mudanças são a um ritmo alucinante, da geração dos nossos pais para a nossa, da nossa para os nossos filhos, as mudanças são de uma riqueza e de uma violência enormes. 

Agora, se há benefícios? Claro que há benefícios, sem dúvida. Um dos benefícios mais evidentes que vejo é uma maior proximidade das relações dos pais com os filhos. Se calhar há duas gerações as relações dos pais com os filhos era de uma distância muito grande. O papel de educar cabia à mulher, ponto final. Hoje em dia não, há uma envolvência pais-filhos muito maior, que por um lado dá um acompanhamento e um carácter afectivo e emocional à relação pais-filhos muito mais próxima da nossa relação com Deus, por isso muito mais verdadeira e muito mais rica. Isso também é um benefício dessas mudanças todas, por isso efectivamente houve um papel muito grande sobretudo nas funções da mulher, na sua entrada no mercado de trabalho, mas a verdade é que o pai é muito mais tido e achado no seu papel de educador e de membro no seio de uma família.

Acha que o sínodo tem dado demasiada importância a questões fracturantes, e não o suficiente a famílias ditas normais, mas que também enfrentam problemas?
É preciso distinguir duas coisas. Uma é o que são os assuntos em cima da mesa no sínodo dos bispos, outra é o que se fala mais através da comunicação social. Aquilo que a comunicação põe mais em cima da mesa é o que acaba por ser mais falado e, por isso, atenção porque podemos estar a descurar e a descredibilizar o papel que os bispos têm em relação às famílias ditas normais e que, sim, precisam de imensa atenção, têm problemas concretos e que têm de ser vistos e pensados e reflectidos. Acredito, sim, que o sínodo não ignora essas questões.

Agora, que efectivamente a comunicação social também dá mais ênfase às questões fracturantes é natural, porque é o que está mais quente neste momento e que, de certa forma, não é disparatado. De facto há muitos assuntos que são fracturantes e que são gravíssimos - no sentido de importantes - e que estão em cima da mesa e que são de uma seriedade inegável, por isso não acho que se esteja a desvirtuar importâncias, acho que o sínodo dará certamente importância às questões de ordem normal das famílias, mas acho que não pode deixar de olhar com muita seriedade, tempo e com muita reflexão para os assuntos mais quentes. 

Acho que é evidente que no momento que estamos a passar agora, tem de ser olhado com muita seriedade, precaução e cautela. 

Perante os desafios que a família enfrenta hoje em dia, a proposta da Igreja é adequada? 
A resposta adequada encontraremos sempre no Evangelho, sempre. Abertos à acção do Espírito Santo, olhando para o Evangelho, certamente encontraremos a resposta ao desafio que temos em mãos em determinado momento. 

Também acredito que entre a doutrina social da Igreja e esta abertura dinâmica à acção do Espírito Santo, a seu tempo, na Igreja se vão encontrar as resposta que cada sociedade e cada tempo da história do mundo precisa. 

Portanto acho que neste momento, e digo isto por experiência de ter à minha frente inúmeras vezes situações difíceis e dramáticas de determinadas famílias, ou de determinado conjunto de pessoas, em que é difícil o que a Igreja propõe. É difícil muitas vezes a adesão ao que a Igreja propõe. Mas daí a dizer que a proposta que a Igreja nos faz é errada, é um caminho longuíssimo, uma coisa não é a outra. Que a proposta seja difícil é um caminho, que a proposta seja errada, é diferente. 

No limite a resposta está no Evangelho, e com oração e abertura ao Espírito Santo encontramos a resposta de certeza absoluta. Aliás, o próprio Papa é a isso que nos convida. Acredito que no momento em que vivemos, entre a Doutrina Social da Igreja e a abertura ao Espírito Santo, encontraremos para cada caso uma resposta adequada. 

O Papa Francisco tem falado do perigo para a família que representa a “colonização ideológica”. Como é que entende este termo e, concorda que a ameaça existe?
Acho o termo genial para explicar o que se passa. Acho que é uma expressão desafiadora. 

De certa forma o que o Papa nos quer dizer é que esta colonização vem de fora. Quem coloniza é quem vem de fora. Aquilo que o Papa nos explica é que há ideologias diversas, inúmeras, que vêm procurar desvirtuar o conceito de família, o objectivo número um da família e aquilo que Deus planeou para as famílias, que é o sonho de Deus da construção de uma família fundada no amor. Há inúmeras ideologias que vêm deturpar isso, e deturpar a origem da família é, no limite, deturpar a construção da sociedade.

Concordo completamente com a expressão do Papa. Temos de estar atentos, porque há imensas ideologias subtis, em nome de uma felicidade enganosa.

Por exemplo?
A forma como muito facilmente, na sociedade encontramos a promoção do divórcio em vez de uma luta por um casamento feliz. Um casamento feliz não significa um casamento baseado em alegrias e gargalhadas, mas sim um casamento fundado na confiança, no amor e na capacidade de em conjunto ultrapassar dificuldades e obstáculos, isso é possível. Mas o que na maioria das vezes encontramos na sociedade é o contrário, o que é claramente enganador. Promover que uma família se destrua em vez de promover que a família lute pelo seu casamento e pela sua felicidade verdadeira é enganador. Não é encaminhar para o bem.

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