quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Grandes Homens e Perdedores

Pe. Jerry J. Pokorsky
Quando pensamos nos grandes homens da história, quem é que nos vem à cabeça? E quais são os atributos dessa grandeza? Nos tempos de Cristo, os Césares eram grandes homens. Conquistaram muito território, que mantinham a grande custo. Para serem grandes homens gastaram muito dinheiro dos tributos pagos pelos seus súbditos e derramaram, em batalha, muito sangue de pessoas normais.

De igual modo, Herodes o Grande também foi considerado “grande” porque mandou construir um magnífico Templo para os Judeus e era implacável na defesa do seu poder. Na sua velhice assassinou os Santos Inocentes, comprovando novamente que a fasquia terrena de grandeza pode ser medida pela quantidade de dinheiro dos seus súbditos que um líder gasta e quanto do seu sangue derrama. 

Quando os Apóstolos discutiam entre eles quem era o maior, provavelmente não estavam a pensar em termos de gastar os rendimentos de outros ou de derramar muito sangue. Mas poderão ter estado a pensar nalgumas das regalias da grandeza. Afinal de contas, os grandes líderes, antes de pensarem em conseguir grandes feitos, precisam de pensar um pouco naquilo que vão obter, pessoalmente, com essa grandeza.

Cristo ouve a sua discussão e utiliza essa ocasião para lhes ensinar algo sobre a verdadeira grandeza: “Se alguém desejar ser o primeiro, será o último e o servo de todos”. E “quem receber uma criança como esta em meu nome, recebe-me a mim; e quem me recebe a mim, recebe-me não a mim mas ao que me enviou”.

Lendo sobre os grandes homens da história, não me parece que isto seja matéria de grandeza, pelo menos aos olhos do mundo.

Mas a grandeza cristã não pode ser medida em termos mundanos. O maior homem nascido de uma mulher (antes da inauguração do Reino), de acordo com Jesus, é João Baptista. Ele confrontou Herodes sobre a moralidade do seu casamento e em resultado disso foi decapitado. Em termos terrenos foi um perdedor.

São Tomás Moro limitou-se a manter silêncio quando enfrentado com o adultério de Henrique VIII, mas o seu silêncio era testemunho que chegue e por isso também ele perdeu a cabeça. Em termos terrenos, Tomás Moro era um perdedor.

São Isaac Jogues pregou Cristo aos indígenas dos Grandes Lagos, em Nova Iorque. Brutalmente torturado, fugiu apenas para pedir para ser enviado novamente para a América para pregar novamente. Foi trucidado. Tanto quanto consigo perceber da leitura da história, muito poucos índios Iroquois se converterem ao Catolicismo. Os peditórios continuam a render pouco dinheiro. Em termos terrenos – e mesmo, talvez, em termos puramente eclesiais – São Isaac Jogues era um perdedor.

Compreendo bem essa situação. Na minha primeira missão como padre houve uma altura em que me deliciava com as boas sensações que nos chegam da alegria dos fiéis quando um pároco novo, recém-ordenado, chega à paróquia. Por isso imaginarão como me perturbou o facto de encontrar resistência quando proclamei o Evangelho. Certa vez o Evangelho de domingo era o ensinamento de Jesus, “Mas eu vos digo, quem se divorciar da sua mulher e casa com outra comete adultério”. O ensinamento de Cristo é suficientemente claro, e por isso a minha homilia foi toda sobre a primeira leitura.

Verdadeira grandeza
Depois da missa fui confrontado por um paroquiano zangado. Quem era eu para dizer: “Aquele que se separa da sua mulher e casa com outra comete adultério”?! Defendi-me dizendo que me tinha limitado a ler o Evangelho. “Não me crucifique a mim! Crucifica Jesus!” (Ok, talvez não tenha dito exactamente isso.)

Essa foi das primeiras lições salvíficas que tive enquanto padre. Se verdadeiramente aspirava a ser grande, devia aspirar a pegar na minha cruz e sofrer com Cristo. “Em verdade vos digo, nenhum servo é maior que o seu mestre e nenhum mensageiro é maior que aquele que o enviou” (Jo. 13,16).

Suponho que a grandeza, como o mundo a compreende, sempre foi medida por popularidade e sondagens. Mas se um candidato político, hoje, baseasse o seu programa e campanha nos Dez Mandamentos e no Evangelho, quanto tempo levaria até que fosse cercado pelas multidões, gritando “Crucifica-o! Crucifica-o!”? Jesus avisa-nos – incluindo aqueles de entre nós que pregamos o Evangelho: “Ai de vós quando todos falarem bem de vós, pois foi assim que os seus antepassados trataram os falsos profetas”. (Lc 6,26)

Há razões pelas quais os maiores dos santos cristãos foram assassinados, tal como Cristo foi assassinado no Madeiro sagrado. Se eles tivessem escolhido a via da grandeza do mundo, talvez escapassem às masmorras, ao fogo e à espada. Mas a sua grandeza não era deste mundo. Eles escolheram a via estreita da Verdade e da Cruz, o único caminho seguro para a verdadeira grandeza da Ressurreição.


O padre Jerry J. Pokorsky é sacerdote na diocese de Arlington e pároco da Igreja de Saint Michael the Archangel em Annandale, Virgínia.

(Publicado pela primeira vez na sexta-feira, 9 de Outubro de 2015 em The Catholic Thing)

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