quarta-feira, 30 de setembro de 2015

As Viúvas e os Órfãos dos Nossos Tempos

Howard Kainz
O cuidado pelas viúvas e pelos órfãos é um tema constante tanto no Antigo como no Novo Testamento. Há exortações e provisões sobre como devem ser tratados no livro de Deutoronómio e do Êxodo. O livro de Job, dos Psalmos e, em particular, dos profetas, aponta continuamente para o mau trato das viúvas e dos órfãos como um mal que será vingado por Deus.

No Novo Testamento Jesus critica os fariseus pelas suas injustiças para com as viúvas (Mt. 23,14). São Tiago sublinha o cuidado pelas viúvas e pelos órfãos como uma das grandes “obras” que deve caracterizar a fé dos cristãos (Ti. 1,27). Os convertidos gregos queixaram-se aos apóstolos de que as suas viúvas não estavam a ser tratadas da mesma forma que as hebraicas (Actos 6,1) e São Paulo aponta vários factores que devem orientar o tratamento das viúvas na congregação de Timóteo (1Tim. 5,3).

Nos primeiros anos do Cristianismo a esperança média de vida era cerca de 35 anos, sobretudo devido aos níveis extremamente altos de mortalidade infantil. Se ajustarmos a estatística tendo isso em conta, a esperança de vida aos 10 anos era cerca de 45 ou 47 anos. As mulheres, claro está, sempre viveram mais tempo que os homens, em média. Logo, as viúvas, incluindo viúvas com filhos, eram mais do que os viúvos. E para as comunidades cristãs iniciais a justiça social para com as necessidades de viúvas e seus filhos era um desafio constante.

Nos tempos modernos, apesar da maior esperança de vida, e das redes sociais que existem nos países industrializados, o problema de assistência a viúvas e suas famílias mantém-se. Mas talvez um problema ainda maior seja, agora, tanto para a Igreja como para os governos (no seguimento da revolução sexual e da era do divórcio fácil), o número enorme de divorciados que se tornam encarregados pobres de famílias monoparentais. As domésticas, que dependiam dos maridos para o sustento financeiro, são particularmente afectadas quando os seus maridos as abandonam. E depois há as trabalhadoras cujo rendimento após o divórcio é insuficiente para sustentar uma casa, filhos e tudo o resto.

Hoje a Igreja está a debater se as mulheres católicas, que se encontravam nestas situações e voltaram a casar, podem receber a comunhão. Às vezes estes casos envolvem divorciadas que foram abandonadas por maridos que decidiram que são homossexuais, ou que abusam fisicamente das mulheres e dos filhos, ou que simplesmente decidiram que querem ser livres dos filhos, ou para poder recasar. Certamente estas mulheres estão numa posição vulnerável para recasar, não apenas por amor e para ter companhia, mas também pelo motivo adicional de sobreviver e poderem criar as suas famílias, sobretudo onde não existe qualquer tipo de assistência estatal.

Em certo sentido, as mulheres recém-divorciadas são para nós o que eram as viúvas para os primeiros cristãos. Algumas paróquias têm organizações para pais solteiros, para ajudar a enfrentar o problema. Mas se a Igreja se vai manter fiel à indissolubilidade do casamento sacramental para pessoas que foram abandonadas pelos esposos, existe alguma medida efectiva para ajudar essas mães solteiras a manter a sua dignidade, manterem-se celibatárias e ao mesmo tempo sustentar os seus filhos e a sua educação?

Jesus cura o filho de uma viúva
Na minha própria família já vi casos em que mulheres divorciadas, com três filhos ou mais, acabaram por ter de ir viver para casa de parentes durante anos, depois de terem falhado todas as tentativas de independência económica. Mas estas combinações por vezes não existem e esta é uma causa que sem dúvida merece uma assistência organizada por parte da Igreja. Para muitas destas mulheres, não basta dizer “fiquem bem e sustentem as vossas famílias – mas se tiveram um casamento sacramental, lembrem-se que é indissolúvel”. Existem também as versões modernas dos “órfãos” dos cristãos primitivos. Provavelmente os exemplos mais visíveis são as crianças vítimas de divórcio, indesejados, sujeitos a negligência ou crueldade, por vezes fugitivos, passados de uma família de acolhimento para outra.

Hoje os orfanatos estão fora de moda, provavelmente devido aos efeitos de histórias como o “Oliver Twist”. E há casos reais verídicos, como as revelações recentes de escândalos nos orfanatos geridos pelos Irmãos Cristãos e as Irmãs da Misericórdia, na Irlanda, ou casos de abusos sexuais praticados contra órfãos, como no orfanato de St. Joseph, em Burlington, Vermont. Se for ao orphanage.org, verá que ainda há alguns orfanatos de católicos, protestantes ou privados. Mas muitos deles mudaram a designação ou então especializaram-se só em encontrar famílias adoptivas ou em tratamento para crianças com deficiência. Noutros casos os sites que aparecem quando se pesquisa por orfanatos são apenas para ex-alunos de orfanatos que entretanto deixaram de existir.

Antes de o aborto se ter tornado a solução fácil para crianças indesejadas, uma familiar minha colocou todos os seus filhos num orfanato católico gerido por freiras, na Califórnia. Mas agora, tal como com as escolas católicas, praticamente não existem freiras suficientes para dar seguimento a um ministério tão exigente.

Existem muitas organizações pró-vida que merecem o nosso apoio, mas quase nenhuma se dedica à adopção – o que parece ser a resposta positiva mais evidente para quem está a pensar abortar. Poucas organizações especializam-se em ajudar mulheres durante as suas gravidezes e também em ajudá-las a encontrar pais adoptivos bons e competentes.

Há muitos casais que querem adoptar crianças – um processo que envolve longos processos, custos consideráveis e burocracia. O Papa Francisco acabou de simplificar os processos de nulidade. Tornar a adopção mais fácil é não menos importante e pode ajudar a reduzir as nossas estatísticas de aborto assustadoras. Talvez alguns dos manifestantes à porta das clínicas de aborto deviam levar sinais a dizer que ajudam a completar um processo de adopção.

Claro que ainda existem muitas viúvas e órfãos no sentido tradicional, mas as mudanças na moral dos nossos dias e a existência de divórcios fáceis criaram problemas que são em tudo parecidos.


Howard Kainz é professor emérito de Filosofia na Universidade de Marquette University. Os seus livros mais recentes incluem Natural Law: an Introduction and Reexamination (2004), The Philosophy of Human Nature (2008), e The Existence of God and the Faith-Instinct (2010)

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Sábado, 26 de Setembro de 2015)

© 2015 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

1 comentário:

  1. bom dia. creio, eu. quando nos é dado referencias biblicas sobre cuidado. é Jesus, Deus falando para todos. aquele que não me quiser é órfão e os que não me querer como noivo estarão mortos em seus delitos. havia um número grande de viuvas e órfãos sim no literal. mas eu creio que o sentido é outro da expressão.

    ResponderEliminar

Partilhar