segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Comunhão espiritual e acolhimento de homossexuais

Transcrição integral da entrevista feita ao padre Bernardo Magalhães, antes do início do Sínodo sobre a Família de 2015. Para além de comentar a questão do acolhimento aos homossexuais, o padre Bernardo ajuda-nos a compreender do que se fala quando nos referimos a "comunhão espiritual". A reportagem sobre a questão dos homossexuais pode ser lida aqui, e as referências à comunhão espiritual aqui.

Tem-se falado muito em comunhão espiritual, como opção para as pessoas que não podem receber sacramentalmente. De onde vem este conceito, e o que significa exactamente?
É um conceito muito antigo.

Qualquer sacramento que uma pessoa recebe tem um efeito espiritual. A comunhão tem um efeito espiritual, a união com Cristo, a união na fé e na caridade com Cristo. Portanto toda a comunhão é comunhão espiritual. A comunhão sacramental está ordenada, tem como sentido, esta união espiritual com Jesus Cristo e com o mistério da sua Paixão, morte e Ressurreição. 

Depois, ao longo da história, para prever as situações em que uma pessoa deseja comungar, deseja unir-se a Cristo e ao seu amor levado até ao fim na Cruz, na paixão... Este desejo por vezes não é possível concretizar, porque não tenho acesso aos sacramentos, não posso ir à missa, estou doente, inválido, longe de uma igreja, numa circunstância que, independentemente da minha vontade, me impede de comungar.

O Cardeal Van Thuan, por exemplo, teve anos e anos preso. Algumas vezes conseguia celebrar missa, mas vivia da comunhão espiritual, da união espiritual ao sacrifício de Cristo, que não se concretizava numa união sacramental.

Agora, o problema que se põe com os divorciados e recasados, é um problema diferente. Quando o Papa Bento XVI, o Papa Francisco, o Papa João Paulo II na Familiaris Consortio, falam na Comunhão Espiritual, o que querem dizer é que os divorciados e recasados em concreto, ou qualquer outro cristão nas mesmas circunstâncias que não pode comungar sacramentalmente, deve procurar as disposições interiores para poder unir-se espiritualmente a Cristo, embora não o possa fazer porque a sua vida, livremente escolhida, contradiz de alguma maneira o mistério a que a comunhão nos une. Portanto, a comunhão espiritual também passa a ser entendida como um caminho quase penitencial, um caminho para dispor aqueles fiéis que não estão em Estado de Graça, como se diz na Teologia, em condições de comungar. 

Portanto são duas realidades distintas. A comunhão espiritual para aqueles que não podem receber o sacramento por uma circunstância externa em relação a eles, e independentemente da sua vontade, e que se podem unir espiritualmente àquele mistério e que podem gozar dos efeitos dessa união, serem sustentados na sua fé, na sua caridade e na sua vida cristã, e aqueles que não podem participar plenamente nesse mistério, porque as suas escolhas de vida, de alguma maneira não lhes permitem isso, mas que são chamados como qualquer outro cristão a caminhar nesse sentido. Isto é, no fundo, a comunhão espiritual vivida desta segunda maneira é um apelo à conversão, que é feito a todos e cada um de nós, que cada vez nos aproximemos mais de uma verdadeira comunhão espiritual com Cristo. 

Na prática, esse apelo à conversão poderia levar por exemplo em casos de uniões irregulares, a que os membros do casal vivessem "como irmãos". Sabendo que isso não é comum nem realístico para muitos casais, sobretudo casais em que só uma das pessoas é que manifesta essa vontade, essa disposição para ir-se aproximando é uma coisa que basta... 
Em si mesmo esta disposição é uma coisa óptima e já é uma acção da graça de Deus. Agora, repito, está ordenada à plena comunhão que implica uma adesão, plena também, ao mistério de Cristo, com todas as suas exigências. A fidelidade ao vínculo matrimonial, de fidelidade aos compromissos assumidos, levada até ao fim, até participar e comungar do mistério da paixão de Cristo. Para isso tende toda a vida cristã. Quando se diz que a Eucaristia é o centro e a raiz da vida cristã, é isto que se está a dizer.

Portanto isto não é uma utopia, é uma vocação. O homem tem como vocação comungar com Cristo. Nesta terra, no mistério da sua paixão, que nos conduz à Glória eterna, porque participamos da sua ressurreição também. 

Isto é a nossa vocação que, por vezes, tem traduções práticas difíceis e exigentes. E as pessoas que estão numa situação de casadas depois de um divórcio são pessoas que o experimentam de uma maneira especial e, por isso, justificam tantos cuidados pastorais, tanta atenção, justificam tanto isto que o Papa nos pede, quase que exige aos pastores, acompanhar essas pessoas, sem baixar a bitola, sem baixar a exigência, sem dizer que são chamados a um estado de vida cristã de segunda ordem, acompanhar as pessoas no seu concreto caminhar, como a todos os cristãos é pedido. Façam do mistério pascal de Cristo o centro da vossa vida, aquilo de que se alimenta toda a vossa vida, todas as dimensões da vossa vida. O vosso casamento, o vosso trabalho, tudo. 

Estas pessoas não têm uma vocação específica por estarem nessa situação, têm um problema concreto. E um problema concreto que é possível resolver, com a Graça de Deus, quando as pessoas se deixam transformar. Por isso precisamos todos, e em primeiro lugar os pastores da Igreja, de nos deixarmos transformar pelo mistério de Cristo. Não há nada específico do ponto de vista da vocação cristã para estas pessoas. Há dificuldades concretas para as quais temos de estar mais alerta.

O padre Bernardo (2º da esquerda) no dia da sua ordenação
Imaginemos então o caso de uma pessoa que está verdadeiramente convencida que o seu primeiro casamento era nulo, mas que, por alguma razão, ainda não recebeu um decreto de nulidade. Essa pessoa poderia fazer comunhão espiritual, ou deve ser encorajada a fazê-lo?
O casamento é um acto público, feito diante de Deus e da sua Igreja, e por isso não pode nenhuma pessoa, privadamente, declarar a nulidade do casamento. E por isso uma pessoa pode estar convencida o sacramento é nulo, mas enquanto não for considerado nulo a pessoa não pode ter a certeza e a garantia que o casamento é nulo. Portanto aqui põe-se um caso muito simples de uma consciência que, necessariamente, enquanto não há uma sentença que declare nulo o casamento, é necessariamente dúbia. Que não pode ter a certeza do seu juízo. Se eu não tenho a certeza se sou casado ou não e estou junto a outra pessoa, então aceito a possibilidade de estar a trair o meu primeiro vínculo e, portanto, a possibilidade de estar fora da comunhão plena com Cristo, que a comunhão sacramental significa e torna eficaz. 

Por isso não, não se põe a possibilidade de uma pessoa nessas circunstâncias comungar espiritualmente nesse sentido de adesão plena ao mistério de Cristo.

Outro tema de que se tem falado muito é do acolhimento dado aos homossexuais. Perante as novas realidades sociais, incluindo o chamado casamento entre pessoas do mesmo sexo e a possibilidade de adopção por parte de homossexuais, que é legal em muitos países, que novos desafios é que a Igreja poderá enfrentar, que mereçam discussão no sínodo?
Aquilo a que estamos a assistir, de um crescente número de pessoas que manifestam essa tendência, essa atracção por pessoas do mesmo sexo, de casamentos homossexuais que se tornam legislação comum dos estados, colocam um desafio porque a Igreja tem por missão anunciar o Evangelho da família, que Deus criou o homem e a mulher para se unirem, formarem uma família e geraram novas vidas.

Agora, o Papa Francisco tem sido claro e todos temos de levar muito a sério o que ele nos diz. A nossa missão não é dizer às pessoas para saírem porque têm problemas. A nossa missão é dizer às pessoas: "O senhor tem este problema, vamos olhá-lo à luz de Cristo, vamos olhar para a sua vida à luz de Cristo. O senhor tem esse problema em concreto, outros terão outro, e todos os problemas do homem se resolvem com Cristo. A receita para o homem é o mistério da Encarnação". Por isso isto levanta, do ponto de vista social, problemas gravíssimos mas do ponto de vista pastoral parece-me que nos obriga a olhar para este problema da homossexualidade à luz do Evangelho. Portanto, ver nela uma desordem, um afecto desordenado, mas ver nas pessoas que a têm filhos de Deus chamados a ser santos como qualquer outra pessoa.

O mundo está cheio de desordens, que Cristo vai resolver. Isto põe um problema também à Igreja, porque isto é um problema que põe a Igreja claramente contra a corrente, como o Papa Francisco também nos pede".

A questão é particularmente complexa no que diz respeito a crianças, ou não? Como é que uma escola católica, por exemplo, deve agir se um “casal” homossexual quiser inscrever crianças na escola, ou pedir baptismo, etc? Acredita que do sínodo virão indicações sobre estes casos e outros do género?
Certamente que sim, porque o sínodo é convocado justamente para isso, para marcar as linhas de acção pastoral e ajudar o Papa nessa sua missão, por isso certamente que sim e é um problema realmente complicado.

Mas também tem uma dimensão simples, a que o Papa Francisco também apela muitas vezes. Isto é... era o que faltava não baptizar uma criança, desde que os seus pais, como quaisquer outros, se disponibilizem para a educar na fé. Era o que faltava não lhe permitir uma educação cristã. 

Depois há outras questões. Como há muita propaganda à volta destes temas, há muitos lobbies, corremos o risco de sermos instrumentalizados e usados como propaganda. Mas acho que não vai haver nunca uma resposta prudencial muito fácil e talvez a melhor maneira seja reconhecer que é melhor uma Igreja acidentada que uma Igreja paralisada, a cheirar a bafio. 

A virtude da prudência cresce com a experiência e saber o que é bom em cada momento, que decisão concreta devo tomar em cada momento, é preciso ver caso a caso, com a experiência do tempo, porque isto é tudo muito novo. 

Por isso é que nos faz bem ver um Papa que abre o coração a esta experiência, para que não nos fechemos e simplesmente nos enclausuremos nas nossas convicções e deixemos de anunciar o Evangelho a quem quer que seja, seja homossexual ou o que for. Mas anunciar o Evangelho. 

Portanto acho que o Papa, nesse aspecto tem sido um desafio para todos os pastores, e para todos os cristãos e do sínodo poderão sair indicações sobre isso. Mas acho que mais do que do sínodo, sairá da experiência concreta de tratar destes casos. Experiência essa que tem como trave mestra a disponibilidade para levar o Evangelho e todos.

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