quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Palavras de Graça

Pe. Paul Scalia
Uma das vítimas do Pecado Original foi o dom da fala. Sabemos, através do relato da Torre de Babel, que Deus semeou a confusão das línguas como castigo pelo pecado do orgulho. Mas esse castigo em particular apenas realça os danos que já existiam desde início.

Deus concedeu ao homem o dom da fala como uma espécie de prerrogativa divina. Confiou ao homem a autoridade de poder falar em seu lugar. Deus conduziu-o a todos os animais “para este ver como lhes chamaria; e tudo o que Adão chamou a toda a alma vivente, isso foi o seu nome” (Gen. 2,19). Também havia uma dimensão sacerdotal neste dom da fala. Nas palavras do homem toda a criação encontraria a voz para louvar o seu criador. De facto, as primeiras palavras conhecidas de Adão são um hino de graças pela ajudante que lhe foi dada:

Esta, por fim, é osso dos meus ossos
e carne da minha carne;
Chamar-se-á mulher,
porque foi retirada do homem. (Gen. 2,23)

Depois de o homem se revoltar contra o seu criador, a sua palavra fica ferida e passa a desviar-se facilmente do seu propósito. Logo depois da queda, Adão usa palavras não para louvar, mas para culpar essa mesma ajudante culpando, por extensão, o seu Criador: “A mulher que me deste por companheira, ela me deu da árvore, e comi.” (Gen. 3:12).

No mundo decaído o poder do homem para articular a verdade e louvar o Criador torna-se também um meio de decepção e manipulação. Vemo-lo ao longo das Escrituras, desde a desculpa de Caim – “Sou eu guardador do meu irmão?” (Gen. 4,9) – à insinceridade de Judas: “Salvé, Rabi” (Mt. 26,49). Vemo-lo à nossa volta, na constante distorção das palavras para servir a ganância e o lucro e vez da verdade e o louvor. O mais triste é que vemo-lo até em nós, na forma como usamos as nossas palavras para manipular, culpar e enganar.   

Todas as coisas serão restauradas em Cristo, incluindo a palavra humana. Na Encarnação, a Palavra de Deus redime as nossas palavras. Ao assumir a nossa natureza humana, Ele assume para si o discurso humano. Redime a nossa palavra ao torná-la não apenas sua, mas fazendo dela um veículo da Sua verdade. A fala sempre foi uma coisa sagrada. Mas agora que o próprio Deus falou como nós falamos, carrega consigo um significado divino.

A Santíssima Virgem Maria, enquanto aurora que anuncia a vinda do Senhor, saúda a restauração que Ele traz. Ela “entrou na casa de Zacarias e saudou Isabel” (Lc. 1,39). Não sabemos o que é que ela disse, mas sabemos que pelas suas palavras João é santificado no seio de Isabel, que lhe diz: “Pois eis que, ao chegar aos meus ouvidos a voz da tua saudação, a criancinha saltou de alegria no meu ventre” Lc. 1,44. Em Maria já vemos as palavras humanas redimidas e tornadas veículo de graça.

Nossa Senhora antecipa-se às instruções de São Paulo, dadas a todos os seguidores de Cristo: “Não saia da vossa boca nenhuma palavra torpe, mas só a que for boa para promover a edificação, para que dê graça aos que a ouvem” (Ef. 4,29). Devemos seguir o seu exemplo, porque aquilo que se aplica a Nossa Senhora de forma particular, deve-se tornar verdade para nós também à medida que crescemos na graça. As nossas palavras devem ser também graça, tanto na forma como são ditas como no efeito que produzem.

Maria pode dirigir palavras de graça a Isabel e levar João a regozijar, porque antes dirigiu palavras de fé ao Arcanjo Gabriel: “Eis aqui a serva do Senhor; cumpra-se em mim segundo a tua palavra”, (Lc. 1:38). Esta sua resposta está em claro contraste com as palavras de dúvida expressas por Zacarias: “Como saberei isto?” (Lc. 1,18). Ele ficou mudo, o que é significativo, pois sem fé ficamos sem nada para dizer.

Depois de elogiar a sua saudação, Isabel também reconhece a fé de Maria: “Bem-aventurada a que creu, pois hão de cumprir-se as coisas que da parte do Senhor lhe foram ditas” (Lc. 1,45). Maria profere palavras de fé e, por isso, torna-se portadora da Palavra e de palavras de graça.

Para falar de uma forma que promove a edificação devemos primeiro acreditar no Construtor. É a fé nele que nos permite proferir palavras de verdade, esperança e encorajamento. A confiança nele traz força e gentileza às nossas palavras. Força, porque falamos como filhos do Todo Poderoso. Gentileza, porque sabemos que esse poder radica na sua verdade e não nas nossas próprias ideias. Não temos de recorrer à força, nem cair na brusquidão, porque a sua verdade pode fazer muito com pouco.

Se não confiarmos nas suas palavras e na sua palavra, então as nossas palavras ficam confinadas aos nossos pensamentos e dependem do nosso poder. Rapidamente o medo leva-nos ao silêncio ou a insegurança à brusquidão.

Mas acima de tudo Nossa Senhora revela-nos que as palavras de graça requerem humildade. O orgulho de Adão confundiu o seu falar. A insistência de Zacarias no seu próprio conhecimento roubou-lhe a voz. Maria é a serva do Senhor, disposta a ser encoberta pelo Espírito. Não está cheia de si. O seu auto-esquecimento perfeito revela que há espaço no seu coração e na sua mente para a palavra de Deus.

E por isso ela tem algo para partilhar. Nós, por outro lado, não gostamos de ser encobertos. Estamos cheios de nós e deixamos pouco espaço para que a sua palavra actue em nós, temos pouco para partilhar com os outros.

Na sua visita a Isabel, as palavras de Maria levaram a graça a quem a escutou. Nas nossas visitas, sobretudo nesta quadra, peçamos que a Verdade de Deus e a nossa humildade nos ajudem a fazer o mesmo.


O Pe. Paul Scalia (filho do falecido juiz Antonin Scalia, do Supremo Tribunal americano) é sacerdote na diocese de Arlington e é o delegado do bispo para o clero.

(Publicado pela primeira vez no domingo, 23 de Dezembro de 2018 em The Catholic Thing)

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