quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Como é que a História nos vai Julgar?

Pe. Mark A. Pilon
Passo a apresentar um pouco de história revisionista, claramente inventada, mas que vale a pena contemplar nos dias que correm.

Suponhamos que do início da década de 30 até 1945 a Alemanha tinha-se mantido uma democracia, em vez de se transformar numa ditadura de partido único, como foi com o Terceiro Reich. Suponhamos ainda que muitos representantes democraticamente eleitos de partidos liberais e conservadores tinham juntado forças com os Nazis de Hitler no que diz respeito às políticas antissemitas. Por fim, imaginemos que mesmo alguns deputados católicos da oposição tinham votado em conjunto com o Partido Nazi para levar a cabo a chamada “solução final” para a questão judaica e que tinham apoiado publicamente a sua implementação. Suponha, por agora, que tudo isto eram factos históricos.

Vamos então um bocado mais longe. Imagine que os bispos alemães não tinham tomado qualquer acção disciplinar contra esses políticos católicos, seja de que partido fossem, quer excomungando-os, quer negando-lhes os sacramentos. (Sabendo hoje que estas medidas já foram aplicadas pelos bispos alemães nos nossos dias apenas por não se pagar o chamado imposto da Igreja ou para com católicos que não se registam como tal com o Governo). Mas imaginemos que naqueles dias negros não se tinha feito nada do género e imaginemos ainda que as sondagens mostravam cada vez mais católicos alemães confusos sobre estas questões moralmente graves ou decididamente a favor das medidas racistas e genocidas.

Como é que acha que um historiador julgaria esses bispos e esses líderes religiosos? Alguém acreditaria que os bispos alemães tinham desempenhado fielmente o seu papel de proteger a fé dos seus rebanhos – incluindo dos políticos católicos – sem pressionar os católicos no parlamento para defender as vítimas inocentes, fazendo tudo o que estivesse ao seu alcance para impedir as atrocidades do Governo? Será que a Igreja local teria, mais tarde, que se arrepender e pedir perdão, mais até do que os papas têm feito nos últimos anos em reconhecimento de erros do passado?

Talvez se considerasse que os leigos católicos tinham sido apanhados pelos tempos e pela mentalidade tão sagazmente difundida pela máquina de propaganda Nazi. E poderia ser considerada uma atenuante o facto de terem ficado naturalmente confusos com o facto de verem os políticos católicos a evitar serem disciplinados pelos líderes eclesiais e a receber publicamente a comunhão e outros sacramentos, enquanto se continuavam a apelidar de católicos fiéis e alinhados com a Igreja.

Mas voltemos à nossa realidade e ao nosso mundo actual. Durante os últimos 50 anos os leigos católicos na América ouviram os seus bispos a condenar muito claramente o crime monstruoso do aborto. Mas ao mesmo tempo têm visto políticos católicos a apoiar abertamente o chamado direito ao aborto e a combater as medidas para o restringir – com alguns até a defender os horrores da Planned Parenthood, sobre a qual vários bispos já falaram, mas pouco mais. Entretanto estes políticos continuam a apelidar-se de católicos e a receber a comunhão publicamente, por vezes das mãos dos próprios bispos.  

Ao longo deste tempo mais de 55 milhões de seres humanos foram chacinados, o que supera até as terríveis monstruosidades do Terceiro Reich. Entretanto, mais de metade da população católica deste país passou a apoiar o direito ao aborto. Devemos acreditar que não existe ligação entre este distanciamento em massa da verdade e prática moral do Catolicismo e a recusa dos bispos em disciplinar os políticos católicos?

Na verdade, a maioria dos políticos pró-aborto, católicos ou não católicos, são vistos frequentemente a receber homenagens de instituições católicas. Universidades que se dizem católicas contratam professores que divergem publicamente do ensinamento moral católico e, mais uma vez, os leigos não vêem qualquer acção disciplinar. Não surpreende, por isso, que exista muita confusão, sobretudo entre jovens, acerca do ensinamento católico relativo ao aborto e ao casamento. Será que os bispos vão assumir a responsabilidade por esta perda de fé católica em questões tais como o aborto, o casamento, a eutanásia e outros temas morais que se deve à ausência de censura pública de políticos católicos ou de instituições cujos funcionários apoiam estes desvaneios morais?

Como é que a história vai julgar esta geração de líderes da Igreja quando a carnificina chegar finalmente ao fim? Como é que as gerações futuras de católicos julgarão os líderes espirituais desta geração se olharem para trás e virem que nenhum político católico foi alguma vez disciplinado por apoiar e votar favoravelmente não só o aborto como a perversão do casamento? Os mesmos políticos católicos que apoiaram o direito a acabar com vidas humanas inocentes estão agora a apoiar o direito ao casamento homossexual e até a pedir à Igreja que mude os seus ensinamentos. A seguir virá, sem dúvida, a eutanásia, disfarçada de misericórdia.

Até parece que a democracia se tornou um absoluto que supera tudo. Se o aborto é imposto democraticamente, ou legalizado por juízes que trabalham num enquadramento democrático, então os líderes da Igreja ficam como que paralisados quando toca a disciplinar os seus próprios fiéis políticos ou juízes. Se agem no contexto de uma democracia, têm carta branca, é isso? Não podemos dar a ideia de estar a minar a democracia disciplinando sequer católicos que votam pelo direito a matar os inocentes?

Um abortista católico está automaticamente excomungado, mas com o político católico que vota de forma a permitir que o abortista possa exercer o seu trabalho, não se passa nada? Se o juiz [do Supremo Tribunal] Anthony Kennedy atropelar o ensinamento católico com uma decisão bizarra no caso Obergefell [que legalizou o casamento homossexual nos EUA], com ele também não se passa nada. Os políticos e os juízes católicos não podem ser beliscados pela disciplina católica, porque agem a coberto da democracia e da separação entre a Igreja e o Estado e tudo isso. Por isso o juiz Kennedy continua a ser tratado como homem honrado e – mais ainda – pode continuar a afirmar-se um bom católico sem demais consequências.

Questiono-me se um futuro Papa terá de pedir perdão por toda esta hesitação da parte dos bispos de exercer a sua liderança através da disciplina pública, e não só por palavras, mas cobrindo-se de saco e sentando-se em cinzas, penitenciando-se pela fraca resposta dos líderes da Igreja enquanto dezenas de milhões de novos e velhos pagavam o preço dessa inacção com as suas próprias vidas.


O padre Mark A. Pilon, sacerdote da Diocese de Arlington, Virginia, é doutorado em Teologia Sagrada pela Universidade de Santa Croce, em Roma. Foi professor de Teologia Sistemática no Seminário de Mount St. Mary e colaborou com a revista Triumph. É ainda professor aposentado e convidado no Notre Dame Graduate School of Christendom College. Escreve regularmente em littlemoretracts.wordpress.com

(Publicado pela primeira vez na quarta-feira, 19 de Agosto de 2015 em The Catholic Thing)

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