quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Dogmas Materialistas e Más Conclusões

Francis J. Beckwith
São Tomás de Aquino disse uma vez, citando Aristóteles, que “um pequeno erro à partida pode levar a grandes erros nas conclusões”.

O que isso significa é que, tendo em conta a natureza da razão, se qualquer uma das suas premissas estiver errada, por mais irrelevante que possa parecer para o projecto em geral, as suas conclusões podem acabar por se revelar muito, muito erradas.

Um bom exemplo disto aparece num TED talk que o meu irmão Jim sugeriu que eu visse. Em “O que explica o domínio dos humanos?” o professor Yuval Noah Harari argumenta que o domínio do homo sapiens na terra se explica pela capacidade que os homens têm de construir certas “histórias” sobre “entidades ficcionais” que fornecem os meios para cooperarmos em grandes números. Entre estas entidades encontram-se Deus, os direitos humanos e o valor do papel-moeda.

Embora o professor Harari seja o orador captivante e o seu discurso tenha sido retoricamente atractivo, as credenciais filosóficas da sua tese deixaram-me com mais perguntas do que aquelas a que a teoria consegue responder.

Comecemos por colocar esta questão: Como é que o professor Harari sabe que estas “histórias” sobre o divino, os direitos nacionais e a moeda são “ficções”? Ele não explica. Tudo o que ele faz é partir do princípio que o materialismo é explicação correcta da realidade, isto é, a crença de que as únicas coisas verdadeiras são aquelas que são sujeitas a medição física quantificável.

Eis o que ele diz sobre os direitos humanos:

“Os direitos humanos, tal como Deus e o Céu, são apenas uma história que inventámos. Não são uma realidade objectiva; não são um efeito biológico do homo sapiens. Se pegarmos num Ser Humano e o abrirmos encontramos um coração, rins, neurónios, hormonas, ADN, mas não encontramos quaisquer direitos. Os únicos sítios onde encontramos direitos são nas histórias que inventámos e espalhámos ao longo dos últimos séculos. Podem ser histórias muito boas, muito positivas, mas não deixam de ser apenas ficções que inventámos.”

Ou seja, só porque não conseguimos detectar os direitos humanos (para nem falar em Deus) através das ciências naturais, devemos concluir que estes não fazem parte da “realidade objectiva”. Mas tal como o cantor de country Johnny Lee, que lamentou andar à procura do amor em bares de solteiros e entre amantes dos bons tempos, o professor Harari está a procurar direitos em todos os sítios errados. Para usar o exemplo do filósofo Edward Feser, ele assemelha o “bêbado que insiste em procurar as chaves do carro debaixo do candeeiro da rua, argumentando que esse é o único sítio onde existe luz suficiente para os poder ver”.

Então onde é que devemos procurar direitos? Não é preciso ir mais longe que a própria conferência de Harari. Ao apresentar a sua versão dos acontecimentos como aquela que ele acredita ser verdadeira, está a deixar implícito que aqueles que discordam dele estão errados. Partindo do princípio que o propósito de um argumento, bem como da utilização de provas para sustentar uma explicação, é de chegar à verdade, ou a algo que se aproxima da verdade, segue-se que a pessoa que se encontra equivocada não tem qualquer direito a afirmar que está correcta.

Segue ainda que uma pessoa que ignore as provas, o bom raciocínio e a reflecção cuidadosa, preferindo abraçar os pensamentos positivos, o raciocínio falacioso e as deambulações parvas está a fazer mal a si mesma. Mas apenas podemos dizê-lo se soubermos ao que é que o Ser Humano está ordenado.

Professor Harari
Mas este fim, ou causa final, não pode ser detectado por instrumentos ou pelos métodos das ciências naturais. Se dissecarmos um Ser Humano, para usar o exemplo de Harari, não conseguimos ver em lado nenhum os bens para os quais estamos ordenados. Se, contudo, isso significa que esses bens não constam da “realidade objectiva, então os próprios praticantes da ciência ficam sem qualquer base para condenar a ignorância e louvar a sabedoria, dois juízos cuja veracidade a “história ficcionada” de uma realidade imaterial, a formado Ser Humano. Afinal de contas, apenas podemos concluir que alguém tem uma deficiência se soubermos antes aquilo que é e como deve ser. Daí dizermos que a um cego falta a visão, mas a uma pedra cega nada falta.

As leis da lógica também são centrais para a investigação. Isto é, para poder fazer investigação científica é necessário saber raciocinar, o que significa não violar as leis da lógica. Mas as regras da lógica não são entidades materiais que se possa encontrar dissecando alguma coisa, muito menos um ser humano. Na realidade, as relações entre as premissas de um argumento são lógicas e não espaciais, o que significa que não são objectos físicos. Vejamos uma forma válida de argumento, modus ponens:

Se P, então Q
P
Logo Q

Esta é uma forma válida, não porque as duas premissas sejam, em conjunto, causa física da conclusão, como a bola branca faz mover a bola preta no bilhar. Antes, funciona por necessidade lógica, a conclusão segue-se às premissas.

Essa relação não é física, embora pareça tão real e parte da “realidade objectiva” como a relação entre as duas bolas de bilhar, ou aquilo que se vê quando se disseca um ser humano. Por isso, aqui temos outra razão para rejeitar o materialismo do professor Harari.

A questão é esta: Se alguém vos propuser uma teoria da realidade que exclui aquilo que parece ser evidente, é capaz de ser boa ideia ser céptico em vez de duvidar do senso comum. Por que é, ironicamente, o nosso senso comum – aquilo que acreditamos sobre o bem, a verdade e a beleza antes de reflectir sobre o assunto – que tornam a teorização, mesmo a má teorização, possível.


(Publicado pela primeira vez na Quinta-feira, 15 de Agosto 2015 em The Catholic Thing)

Francis J. Beckwith é professor de Filosofia e Estudos Estado-Igreja na Universidade de Baylor. É autor de Politics for Christians: Statecraft as Soulcraft, e (juntamente com Robert P. George e Susan McWilliams), A Second Look at First Things: A Case for Conservative Politics.

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