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quinta-feira, 22 de junho de 2017

Novo Patriarca Melquita e Abusos Anglicanos

Joseph Absi, terceiro a contar da esquerda, novo patriarca
As autoridades egípcias anunciaram hoje a morte de sete militantes islâmicos que teriam estado envolvidos nos recentes massacres contra cristãos naquele país.

Foi ontem eleito o novo Patriarca da Igreja Melquita. A Renascença, ao que parece, foi a primeira a dar a notícia no mundo lusófono. Rezem por ele, tem um trabalho muito complicado pela frente!

Ainda pelo Médio Oriente, o Estado Islâmico está prestes a ser erradicada em Mossul, mas antes disso fizeram questão de explodir a mesquita onde tudo começou.

O arcebispo de Cantuária admite que a Igreja Anglicana ajudou a esconder abusos sexuais durante vários anos.

O Papa não desiste do Sudão do Sul e envia ajuda em três frentes: Saúde, educação e agricultura.

E ainda os incêndios, os bispos dizem que o problema tem de ser resolvido “de raiz”.

Ontem foi publicado o mais recente artigo do The Catholic Thing em português, com o Pe. Mark Pilon a arrasar o senador Bernie Sanders por cristofobia e, indirectamente, islamofobia. Leiam, porque caminhamos a passos largos para esta nova realidade.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Bernie Sanders: Cristófobo e (Indirectamente) Islamófobo

Pe. Mark A. Pilon
Nota prévia: Este artigo do Pe. Mark A. Pilon é importante na medida em que realça uma questão crucial do nosso tempo, nomeadamente a ideia crescente de que os cristãos são indignos de exercerem cargos públicos de responsabilidade simplesmente porque professam certas crenças, mesmo que elas em nada afectem o seu trabalho. O exemplo do interrogatório do senador Bernie Sanders a Russ Vought, aqui descrita, é claro a esse respeito.

Dito isso, o facto de ter escolhido este artigo para traduzir não significa que eu concorde nem com a posição de Vought nem com a posição que o autor parece defender, de que os cristãos e os muçulmanos não adoram o mesmo Deus. Que o fazem já foi repetido não só pelos últimos Papas mas por outros na história da Igreja e está escrito preto no branco em documentos do Concílio Vaticano II.

Filipe


Quando ouvimos falar na perseguição aos cristãos pensamos normalmente nos cada vez mais frequentes ataques levados a cabo por extremistas islâmicos radicais em países de maioria muçulmana no mundo. Mas estas perseguições também acontecem em países ocidentais, embora não assumam a forma de violência física que vemos noutras partes. É mais subtil e acontece ao nível do Governo e de empresas privadas, normalmente sem atenção mediática.

Mas recentemente um exemplo desta perseguição foi filmado durante uma audiência de confirmação no Senado americano. Só causou uma pequena polémica, porque os grandes meios de comunicação não se interessam e não é natural que o Senado faça alguma coisa sobre o assunto. Isto porque o autor das palavras é um menino bonito dos media e de muitos senadores: Bernie Sanders. E para muitos é impensável comparar Sanders a um qualquer Joe McCarthy – ainda que o seu ataque a um candidato cristão, que não é cristão ao modo que Sanders aprova, tenha sido desprezível segundo os padrões do próprio Senado.

O alvo do seu ataque foi Russell Vought, nomeado pelo Presidente Trump para ocupar o cargo de Vice-director do Gabinete de Gestão e do Orçamento. Vought tem ocupado vários cargos no aparelho do Partido Republicano e foi assessor do senador Phil Gramm, o democrata vira-casacas que não é muito popular entre políticos como Sanders. Só isso já teria sido o suficiente para o desclassificar aos olhos de Sanders, mas ele optou por perseguir Vought por causa das suas convicções religiosas, expressas num blog chamado The Resurgent. Um dos assessores de Sanders deve ter desenterrado a informação e entendido que seria um dado capaz de descarrilar a sua nomeação.

Nesse texto Vought defendia a decisão da universidade em que se formou, Wheaton College, uma instituição abertamente cristã, de suspender a professora assistente de ciências políticas Larycia Hawkins, que postou uma fotografia de si mesma no Facebook com um véu islâmico dizendo que o iria usar no trabalho, em aviões e eventos sociais durante as semanas do Advento em solidariedade com os muçulmanos que enfrentavam discriminação religiosa.

Na altura escreveu: “Estou solidária com os muçulmanos porque eles, como eu, que sou cristã, são povos do livro… E como o Papa Francisco afirmou a semana passada, adoramos o mesmo Deus.”

Ainda que o Papa Francisco “pense” que cristãos e muçulmanos adorem exactamente o mesmo Deus, há literalmente milhões de outros cristãos e católicos que “pensam” o contrário, com base nas suas crenças num Deus que é uma trindade de pessoas e de que Jesus Cristo é o único mediador da salvação da humanidade. Francisco não fala em nome de todos os católicos nesta matéria, menos ainda em nome dos milhões de protestantes evangélicos – incluindo a Wheaton College.

Em relação a isto Vought escreveu simplesmente: “Os muçulmanos não têm apenas uma teologia deficiente. Eles não conhecem Deus porque rejeitaram o seu Filho, Jesus Cristo, e por isso estão condenados”.

Sanders revoltou-se: “Do meu ponto de vista a afirmação feita pelo Sr. Vought é indefensável, é odiosa, é islamofóbica e um insulto a mais de mil milhões de muçulmanos em todo o mundo”. Tentou provocar Vought a negar a sua fé. Vought tentou responder, dizendo, “Senador, eu sou cristão.” Mas Sanders interrompeu: “Acha que os não-cristãos vão ser condenados?” e mais tarde perguntou “está a sugerir que todas estas pessoas estão condenadas?” e, enfurecido, “e os judeus? Eles também estão condenados?”

Vought limitou-se a reafirmar a sua crença cristã de que a salvação vem apenas por Jesus Cristo. Mas Sanders concluiu que esta crença era incompatível com uma função pública. “Diria, senhor presidente, que este candidato não tem nada a ver com aquilo que este país representa”.

Incrível é pouco… Vought nunca sugeriu que as suas opiniões religiosas o levariam a negar aos muçulmanos os seus direitos humanos ou sociais e Sanders nem lhe perguntou. Aliás, Vought disse acreditar que “todas as pessoas são criadas à imagem de Deus e são dignas de respeito, independentemente das suas crenças religiosas”. Mas isso não chegou para Bernie, que argumentou que devia ser chumbado precisamente por causa dessa sua fé.

Sanders não é uma pessoa particularmente bem informada no que diz respeito a religiões mundiais e não é muito perspicaz quando sai da redoma da guerrilha política. O que ele não percebe é que ao excluir cristãos como Vought deve, logicamente, excluir a maioria dos muçulmanos também. Para os muçulmanos ortodoxos todos os não-muçulmanos são infiéis, mushrikun (politeístas, idólatras, pagãos, etc.), e como tal não podem entrar no Paraíso. Quase todos os muçulmanos acreditam que todos os infiéis são condenados.

Sobre os infiéis, por exemplo, o Alcorão diz, “São aqueles, cujas obras se tornaram sem efeito, e que morarão eternamente no fogo infernal” (9:17). Quando Hussain Nadim, professor da Universidade Quaid-e-Azam em Islamabad, Paquistão, perguntou aos seus alunos se a Madre Teresa de Calcutá iria para o Céu, “para minha grande surpresa, mais de 80% desta elite académica respondeu claramente que não. Todos os que responderam assim explicaram que embora a Madre Teresa fosse uma mulher nobre, não era muçulmana e, por isso, não podia entrar no Céu”.

A crença de que só os muçulmanos podem entrar no Céu não é professada propriamente por uma minoria de muçulmanos educados, mas é a opinião geral, o que significa que de acordo com o Bernieismo a maioria dos muçulmanos nos Estados Unidos não estão em condições de ocupar um cargo público.

Será que ele os apelidaria de cristófobos que insultam mais de mil milhões de cristãos? Duvido, seria perigoso.

Não, pessoas como Bernie Sanders vêem os cristãos que defendem posições impopulares como “o aborto é homicídio” e “o casamento é apenas entre um homem e uma mulher” como a única verdadeira ameaça ao paraíso secular que quer edificar. Há demasiados poucos muçulmanos neste país para serem uma verdadeira ameaça, mesmo que defendam as mesmas posições. Contudo, servem perfeitamente como instrumentos para classificar os cristãos como inimigos do sistema político americano.


O padre Mark A. Pilon, sacerdote da Diocese de Arlington, Virginia, é doutorado em Teologia Sagrada pela Universidade de Santa Croce, em Roma. Foi professor de Teologia Sistemática no Seminário de Mount St. Mary e colaborou com a revista Triumph. É ainda professor aposentado e convidado no Notre Dame Graduate School of Christendom College. Escreve regularmente em littlemoretracts.wordpress.com

(Publicado pela primeira vez na quarta-feira, 17 de Junho de 2017 em The Catholic Thing)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

A Crise Não é de Culto, mas de Fé


Pe. Mark A. Pilon
As seguintes estatísticas são - ou deviam ser - preocupantes para a a Igreja toda, uma vez que não são exlusivas à diocese de Pittsburgh:


O número de católicos activos na diocese de Pittsburgh diminuiu rapidamente nas últimas décadas, de 914.000 em 1980 para 632.000 em 2015, segundo dados da própria diocese.


Desde 2000, a frequência da missa dominical diminuiu 40%, havendo agora menos cerca de 100.000 praticantes regulares. A matriculação em escolas católicas caiu 50% e o número de sacerdotes no activo passou de 338 para 225. A manter-se este ritmo, a diocese calcula que haverá apenas 112 padres em actividade em 2025.


Qualquer análise honesta nos diz que estes números representam problemas graves e o bispo de Pittsburgh expressou a sua grande preocupação numa entrevista a um jornal secular daquela cidade. Toda a conferência episcopal americana deveria estar gravemente preocupada, porque este tipo de estatística é comum à maioria das dioceses e arquidioceses do país, salvo raras excepções.


Mas as propostas apresentadas pelo senhor bispo para tentar inverter este declínio não são particularmente encorajadoras e fazem lembrar os fúteis planos quinquenais da União Soviética, que acabavam por repetir sempre as mesmas soluções falhadas. “A principal prioridade tem de ser tornar o nosso culto melhor”, afirma o bispo David Zubik ao Tribune-Review. “Em segundo lugar, temos de fazer o melhor possível para conseguir mais líderes ordenados, mas não só, temos também de abrir muitas posições de liderança na Igreja para leigos.”


Segundo se lê na entrevista, “melhor culto” significa “homilias e música melhores” e ainda “tornar as igrejas mais acolhedoras para quem vem de fora”. O bispo apresenta ainda outras soluções possíveis, como “mais leigos em posições de liderança e melhor formação para diáconos; estilos de ministério mais apelativos para os jovens e, em simultâneo, fortalecer o cuidado pastoral dos idosos”.


Não ouvimos tudo isto antes? Mais leigos em posições de liderança, diáconos permanentes com melhor formação, melhores programas para os jovens, melhores cuidados pastorais para os idosos?


É habitual dizerem-nos que as razões pelas quais há cada vez menos católicos praticantes nas nossas paróquias são sobretudo programáticas e estruturais. Melhores programas pastorais, melhor culto e melhor acolhimento são tudo o que precisamos para inverter a devastação que ninguém poderia ter previsto depois do Concílio Vaticano II. Talvez seja tempo de considerar outras opções.


A verdadeira razão de fundo é simples: Trata-se de uma enorme perda de fé. Há muitas explicações para essa perda de fé, mas os católicos estão a desaparecer aos molhos porque perderam a fé na Igreja e na verdadeira natureza dos seus sacramentos, ou porque na verdade nunca a tiveram. Não é por haver homilias fracas, antigamente também as havia e as igrejas estavam cheias. Não tem a ver com a qualidade da música, nos anos 40 e 50 não tínhamos música, salvo em missas solenes de Domingo e nos dias santos. Mas as igrejas estavam cheias. O problema é simplesmente uma enorme perda de fé.


Há uns 30 anos uma sondagem credível revelava que apenas cerca de 30% dos católicos continuava a acreditar na presença real de Cristo na Eucaristia. Porque é que os bispos não convocaram uma reunião de emergência para lidar com esse problema de falta de fé, como fizeram em 2002 para lidar com a crise dos abusos sexuais? Se as pessoas não acreditam na presença real de Cristo na Eucaristia ou na Eucaristia como verdadeiro sacrifício oferecido a Deus para benefício dos pecadores, então não será uma melhoria da música a convencê-los a ir para a Igreja aos domingos de manhã.


Esta perda de fé reflecte ainda uma perda do sentido de pecado e da sua gravidade e por sua vez ambos estão associados a uma rejeição dos ensinamentos morais da Igreja, pois todos os aspectos da fé estão interligados. A obrigação da missa domincal não tem qualquer sentido e não levará as pessoas a participar se estas não crêem na gravidade de faltar à missa ao domingo. Na verdade, mesmo que exista tal coisa como um pecado grave, como é que se pode entender que isso se aplica a faltar à missa quando se acredita que a missa não é mais do que música, leituras e uma encenação memorial em vez de uma coisa real, um verdadeiro sacrifício, a verdadeira presença de Cristo.


Mesmo os adeptos da Forma Extraordinária [conhecida vulgarmente como rito tridentino], que tendem a pensar que restaurando a liturgia restaurar-se-á a fé, devem compreender que não é assim tão simples. Muitas coisas contribuíram para esta crise e devem ser analisadas: má catequese, maus exemplos, escândalos e, também, sem dúvida, má liturgia. Mas também a falta de proclamação do Evangelho na praça pública. Se a Igreja for apenas mais uma “denominação” na praça pública, e o Evangelho não for proclamado abertamente como a solução para os problemas da sociedade, então estamos verdadeiramente a caminho de um longo inverno eclesial.


Na verdade o bispo Zubik referiu-se ao problema da fé quando disse que “ao mesmo tempo compreendi que eles [os paroquianos] estavam entusiasmados sobre a razão principal pela qual estamos a fazer tudo isto: para reavivar a fé das pessoas.”


Senhor bispo, a verdade é que para se reavivar a fé de alguém, é preciso que essa fé já exista. A principal prioridade, então, deve ser esta questão básica: A que é que se deve esta monumental perda de fé, e como é que a podemos ressuscitar?

O padre Mark A. Pilon, sacerdote da Diocese de Arlington, Virginia, é doutorado em Teologia Sagrada pela Universidade de Santa Croce, em Roma. Foi professor de Teologia Sistemática no Seminário de Mount St. Mary e colaborou com a revista Triumph. É ainda professor aposentado e convidado no Notre Dame Graduate School of Christendom College. Escreve regularmente em littlemoretracts.wordpress.com
(Publicado pela primeira vez na quarta-feira, 24 de Agosto de 2016 em The Catholic Thing)
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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Como é que a História nos vai Julgar?

Pe. Mark A. Pilon
Passo a apresentar um pouco de história revisionista, claramente inventada, mas que vale a pena contemplar nos dias que correm.

Suponhamos que do início da década de 30 até 1945 a Alemanha tinha-se mantido uma democracia, em vez de se transformar numa ditadura de partido único, como foi com o Terceiro Reich. Suponhamos ainda que muitos representantes democraticamente eleitos de partidos liberais e conservadores tinham juntado forças com os Nazis de Hitler no que diz respeito às políticas antissemitas. Por fim, imaginemos que mesmo alguns deputados católicos da oposição tinham votado em conjunto com o Partido Nazi para levar a cabo a chamada “solução final” para a questão judaica e que tinham apoiado publicamente a sua implementação. Suponha, por agora, que tudo isto eram factos históricos.

Vamos então um bocado mais longe. Imagine que os bispos alemães não tinham tomado qualquer acção disciplinar contra esses políticos católicos, seja de que partido fossem, quer excomungando-os, quer negando-lhes os sacramentos. (Sabendo hoje que estas medidas já foram aplicadas pelos bispos alemães nos nossos dias apenas por não se pagar o chamado imposto da Igreja ou para com católicos que não se registam como tal com o Governo). Mas imaginemos que naqueles dias negros não se tinha feito nada do género e imaginemos ainda que as sondagens mostravam cada vez mais católicos alemães confusos sobre estas questões moralmente graves ou decididamente a favor das medidas racistas e genocidas.

Como é que acha que um historiador julgaria esses bispos e esses líderes religiosos? Alguém acreditaria que os bispos alemães tinham desempenhado fielmente o seu papel de proteger a fé dos seus rebanhos – incluindo dos políticos católicos – sem pressionar os católicos no parlamento para defender as vítimas inocentes, fazendo tudo o que estivesse ao seu alcance para impedir as atrocidades do Governo? Será que a Igreja local teria, mais tarde, que se arrepender e pedir perdão, mais até do que os papas têm feito nos últimos anos em reconhecimento de erros do passado?

Talvez se considerasse que os leigos católicos tinham sido apanhados pelos tempos e pela mentalidade tão sagazmente difundida pela máquina de propaganda Nazi. E poderia ser considerada uma atenuante o facto de terem ficado naturalmente confusos com o facto de verem os políticos católicos a evitar serem disciplinados pelos líderes eclesiais e a receber publicamente a comunhão e outros sacramentos, enquanto se continuavam a apelidar de católicos fiéis e alinhados com a Igreja.

Mas voltemos à nossa realidade e ao nosso mundo actual. Durante os últimos 50 anos os leigos católicos na América ouviram os seus bispos a condenar muito claramente o crime monstruoso do aborto. Mas ao mesmo tempo têm visto políticos católicos a apoiar abertamente o chamado direito ao aborto e a combater as medidas para o restringir – com alguns até a defender os horrores da Planned Parenthood, sobre a qual vários bispos já falaram, mas pouco mais. Entretanto estes políticos continuam a apelidar-se de católicos e a receber a comunhão publicamente, por vezes das mãos dos próprios bispos.  

Ao longo deste tempo mais de 55 milhões de seres humanos foram chacinados, o que supera até as terríveis monstruosidades do Terceiro Reich. Entretanto, mais de metade da população católica deste país passou a apoiar o direito ao aborto. Devemos acreditar que não existe ligação entre este distanciamento em massa da verdade e prática moral do Catolicismo e a recusa dos bispos em disciplinar os políticos católicos?

Na verdade, a maioria dos políticos pró-aborto, católicos ou não católicos, são vistos frequentemente a receber homenagens de instituições católicas. Universidades que se dizem católicas contratam professores que divergem publicamente do ensinamento moral católico e, mais uma vez, os leigos não vêem qualquer acção disciplinar. Não surpreende, por isso, que exista muita confusão, sobretudo entre jovens, acerca do ensinamento católico relativo ao aborto e ao casamento. Será que os bispos vão assumir a responsabilidade por esta perda de fé católica em questões tais como o aborto, o casamento, a eutanásia e outros temas morais que se deve à ausência de censura pública de políticos católicos ou de instituições cujos funcionários apoiam estes desvaneios morais?

Como é que a história vai julgar esta geração de líderes da Igreja quando a carnificina chegar finalmente ao fim? Como é que as gerações futuras de católicos julgarão os líderes espirituais desta geração se olharem para trás e virem que nenhum político católico foi alguma vez disciplinado por apoiar e votar favoravelmente não só o aborto como a perversão do casamento? Os mesmos políticos católicos que apoiaram o direito a acabar com vidas humanas inocentes estão agora a apoiar o direito ao casamento homossexual e até a pedir à Igreja que mude os seus ensinamentos. A seguir virá, sem dúvida, a eutanásia, disfarçada de misericórdia.

Até parece que a democracia se tornou um absoluto que supera tudo. Se o aborto é imposto democraticamente, ou legalizado por juízes que trabalham num enquadramento democrático, então os líderes da Igreja ficam como que paralisados quando toca a disciplinar os seus próprios fiéis políticos ou juízes. Se agem no contexto de uma democracia, têm carta branca, é isso? Não podemos dar a ideia de estar a minar a democracia disciplinando sequer católicos que votam pelo direito a matar os inocentes?

Um abortista católico está automaticamente excomungado, mas com o político católico que vota de forma a permitir que o abortista possa exercer o seu trabalho, não se passa nada? Se o juiz [do Supremo Tribunal] Anthony Kennedy atropelar o ensinamento católico com uma decisão bizarra no caso Obergefell [que legalizou o casamento homossexual nos EUA], com ele também não se passa nada. Os políticos e os juízes católicos não podem ser beliscados pela disciplina católica, porque agem a coberto da democracia e da separação entre a Igreja e o Estado e tudo isso. Por isso o juiz Kennedy continua a ser tratado como homem honrado e – mais ainda – pode continuar a afirmar-se um bom católico sem demais consequências.

Questiono-me se um futuro Papa terá de pedir perdão por toda esta hesitação da parte dos bispos de exercer a sua liderança através da disciplina pública, e não só por palavras, mas cobrindo-se de saco e sentando-se em cinzas, penitenciando-se pela fraca resposta dos líderes da Igreja enquanto dezenas de milhões de novos e velhos pagavam o preço dessa inacção com as suas próprias vidas.


O padre Mark A. Pilon, sacerdote da Diocese de Arlington, Virginia, é doutorado em Teologia Sagrada pela Universidade de Santa Croce, em Roma. Foi professor de Teologia Sistemática no Seminário de Mount St. Mary e colaborou com a revista Triumph. É ainda professor aposentado e convidado no Notre Dame Graduate School of Christendom College. Escreve regularmente em littlemoretracts.wordpress.com

(Publicado pela primeira vez na quarta-feira, 19 de Agosto de 2015 em The Catholic Thing)

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quarta-feira, 1 de julho de 2015

João Baptista e Escândalo Público

Pe. Mark Pilon
Quando os homens fingem favorecer o Evangelho, mas vivem no mal, não devemos encorajar a sua ilusão, mas obedecer às nossas consciências, como fez João. O mundo pode chamar a isto falta de educação ou zelo cego. Os professores falsos, ou os cristãos tímidos, poderão censurá-lo como sendo falta de civismo; mas os inimigos mais poderosos não podem ir mais longe do que aquilo que o Senhor permite. – Comentário de Matthew Henry a Mateus 14,1

João Baptista seria bem-vindo na Igreja de hoje? Em primeiro lugar, o seu estilo de vida era tão ascético que incomodaria certamente muitas consciências, mesmo entre a hierarquia. Depois havia a pregação, que incluiu uma condenação pública de Herodes Antipas por viver em incesto com a mulher do seu meio-irmão Filipe. Essa tomada de posição seria alvo de muita crítica, se não mesmo censura, nos dias de hoje.

A missão de João tinha basicamente duas vertentes. Era o último dos profetas que anunciaria a presença do Messias. Mas primeiro tinha de preparar o povo de Israel para acolher o Messias, que já estava entre eles, através de uma chamada firme para o arrependimento do dos pecados. Esta última parte da sua missão dirigia-se a uma nação inteira e não se dirigia a algum pecado em particular, até confrontar Herodes. Foi aí que as coisas se tornaram pessoais.

Herodes fazia parte de Israel, era Rei, nomeado pelo imperador romano. Mas era um membro apenas parcialmente comprometido com a religião judaica. Não era devoto, de todo, mas era bastante ecléctico. Claramente preocupava-se com algumas práticas ou costumes judaicos, mas claramente, também, não acreditava muito em doutrinas.

Tal como o seu pai, Herodes o Grande, não ia muito com a conversa de um messias. Do resto das suas crenças, se as tinha, não sabemos nada. Mas sabemos que era desprezado por todas as facções religiosas que tinham de lidar com ele. Sabemos também, através dos historiadores, que metia o dedo em práticas pagãs, ligadas aos deuses dos seus mestres, os romanos. Quando era politicamente oportuno fazia o que era preciso do ponto de vista religioso, tanto para os judeus como para os pagãos.

Mas João trata-o como correligionário judeu e não como pagão. E João respeita-o ao ponto de lhe dizer para se arrepender e mudar de vida, tal como fazia com outros judeus. Mais, porque Herodes fazia parte do povo judeu, independentemente da forma morna como o fazia, e porque desempenhava um papel importante para o povo, João não pode permitir que o seu comportamento escandaloso (a sua união incestuosa com Herodíade) passe em claro. Por isso denunciou-o, e custou-lhe a vida.

É difícil imaginar algo do género a passar-se hoje em dia. Herodes faz lembrar muitos políticos católicos que praticam a sua religião apenas na medida em que está de acordo com as suas ambições políticas. Quantos políticos católicos prestam culto, hoje em dia, aos deuses contemporâneos dos pagãos? Quantos “católicos” no congresso e noutras legislaturas e cargos de responsabilidade, apoiam os “sacramentos” sagrados da religião secular; o sacramento do aborto, há décadas, e o mais moderno sacramento do “casamento” homossexual?

Simplesmente já não há ninguém como João Baptista entre os líderes da Igreja actual que, por inerência dos seus cargos, receberam um mandato profético de Cristo. Que político católico que trabalha abertamente contra os ensinamentos morais de Cristo tem sido denunciado publicamente por isso? Sei de apenas um caso nos últimos cinquenta e três anos, quando o arcebispo Joseph Rummel, de Nova Orleans, excomungou o líder democrata Leander Perez, em 1962, por se opor à integração racial das escolas.

O preço a pagar por denunciar os poderosos
Desde essa altura tenho quase a certeza que não houve um único caso. Suponho que estas traições políticas modernas, contribuindo para o assassinato em massa e para a perversão do casamento, não merecem sequer uma condenação pública, quanto mais uma excomunhão.

Devemos, talvez, acreditar que os bispos estão a repreender estas pessoas em privado? Essa era a desculpa dada frequentemente a pais de crianças abusadas por membros do clero: “O bispo está a tratar do assunto discretamente, para evitar escândalo”. Mas depois foi-se a ver e raramente isso correspondia à verdade.

O diálogo discreto nunca pode ser a resposta adequada a uma situação de escândalo público grave. São João sabia que não podia apenas falar com Herodes em privado, porque Herodes era um escândalo público. O Arcebispo Rummel sabia que não bastava falar secretamente com Perez, embora o tenha feito também, porque Perez era obstinado no seu comportamento escandaloso.

Hoje os políticos semi-católicos são igualmente persistentes no seu escândalo. Independentemente de os bispos terem falado com eles em privado, chamando-os à conversão, não tem funcionado. O escândalo público continua e os leigos ficam mais e mais confusos.

Não basta que os líderes da Igreja dialoguem com estes políticos. As suas acções pedem arrependimento e esse arrependimento tem de ser de natureza pública para que o escândalo público seja removido.

Enquanto ainda era cardeal, o Papa Bento XVI disse que o principal dever de um bispo é de proteger a fé dos simples fiéis católicos. Quando os políticos católicos defendem males graves na sociedade, pelas suas acções, claramente estão a causar escândalo grave entre os fiéis. Quantos católicos comuns, ao longo das últimas décadas, concluíram – compreensivelmente, tendo em conta as acções dos seus pastores – que qualquer pessoa pode ser um católico fiel e ainda assim defender o aborto na praça pública e até na sua vida privada?

Não só nunca vêem os Herodes dos nossos dias censurados pelos actuais guardiões da fé, mas vêem-nos mesmo a receber a Comunhão das suas mãos. Que mais haviam de concluir?

Leander Perez acabou por regressar à Igreja antes de morrer, o que significou que teve de rejeitar e arrepender-se do seu racismo. Se o seu arcebispo o tivesse deixado passar como uma repreensão discreta temos de pensar se esse arrependimento, necessário para a salvação, teria ocorrido. Gosto de pensar que Perez ficará eternamente grato ao seu velho inimigo e que hoje gozam juntos da beatitude, tal como Paulo e Estêvão.


O padre Mark A. Pilon, sacerdote da Diocese de Arlington, Virginia, é doutorado em Teologia Sagrada pela Universidade de Santa Croce, em Roma. Foi professor de Teologia Sistemática no Seminário de Mount St. Mary e colaborou com a revista Triumph. É ainda professor aposentado e convidado no Notre Dame Graduate School of Christendom College. Escreve regularmente em littlemoretracts.wordpress.com

(Publicado pela primeira vez no sábado, 27 de Junho de 2015 em The Catholic Thing)

© 2015 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Muito Mais que Uma Crise de Natalidade

Pe. Mark Pilon
Recentemente um amigo, bom católico e bom homem, discordou de mim quando eu argumentei que a contracepção e a mentalidade contraceptiva não só mudaram os conceitos sociais de casamento e família, como poderão ter minado fatalmente as culturas e as nações previamente cristãs. É uma visão negativa, admito, mas também acho que é bastante realista e penso que é crucial que a enfrentemos como cristãos.

Ele contra-argumentou que a minha visão é demasiado simplista e que ignora o facto de a queda do índice de natalidade anteceder em pelo menos um século a invenção da pílula. Mais, existem por detrás disto muitas causas complexas para além dos contraceptivos, causas de natureza económica, social, geográfica, etc. Tudo isto é verdade.

Mas esta visão deixa de fora o factor essencial. A contracepção não é a única causa da queda demográfica radical, mas é, sim, o meio pelo qual essa queda foi conseguida de forma tão eficiente em tantos sítios. Obviamente as correntes ideológicas, como o movimento contra o crescimento populacional, também desempenharam um papel fundamental e há certamente outros factores envolvidos, mas estes não explicam o que há de verdadeiramente diferente e novo neste decréscimo demográfico secular.

Historicamente tem havido várias razões, tanto pessoais como sociais, para que as pessoas limitem o tamanho das suas famílias. Mas quando as pessoas limitavam o tamanho das suas famílias no passado – normalmente através da abstinência ou do uso de métodos de barreira – não estavam a negar, em si, o plano de Deus para o casamento, estavam simplesmente a recusar-se a segui-lo por razões pessoais, boas ou más.

Também não afirmavam, como fazem cada vez mais pessoas hoje, que a esterilidade é mesmo preferível em relação à fertilidade, nem que a esterilidade no casamento é igual a, se não mesmo preferível à, fertilidade no casamento. Por outras palavras, não tomavam parte numa redefinição da relação essencial entre o casamento e a procriação.

Mas esse já não é o caso. E a crescente aceitação do conceito de casamento homossexual é, a este respeito, um poderoso sinal dos tempos, a último desenvolvimento das implicações da contracepção para o casamento e para a sociedade.

A mentalidade contraceptiva não é apenas uma construção mental, nem uma questão secundária. Esta mentalidade é precisamente aquilo que há de novo na tendência histórica da infertilidade, a tendência para separar radicalmente a fertilidade do casamento, para negar que a procriação é um factor essencial de um verdadeiro casamento.

Essa tendência chegou agora ao seu ápice na afirmação, tanto legal como na opinião pública, de que o exemplo extremo de união sexual infértil, o acto homossexual, deve ser reconhecido como base para um casamento. Esse é o cerne da questão na igualdade do casamento, o equiparar de actos homossexuais a actos que estão intrinsecamente ligados à fertilidade, mesmo que nem sempre resultem na procriação. O casamento gay é o último passo na redefinição do casamento em relação à fertilidade e a procriação. Esse processo de redefinição de casamento iniciou-se com a gradual aceitação moral da contracepção.

Outro passo foi o desenvolvimento de técnicas e meios contraceptivos que causam directamente esterilidade, não apenas no acto mas na pessoa. A pílula era considerada uma alteração temporária (talvez não tão temporária para muitas mulheres) do corpo da mulher, por forma a evitar a fertilidade. Agora existem intervenções cirúrgicas, tanto para homens como para mulheres, que tornam o corpo permanentemente estéril, uma alteração ainda mais radical da natureza humana.

Pecado contra o primeiro mandamento?
Claro que estas invenções tiveram consequências enormes, sociais e culturais, que afectaram tanto o casamento como a família. Hoje negamos regularmente a contribuição significativa da contracepção para a ruina actual destas instituições, bem como o surgimento de novos estilos de vida. Verdadeira cegueira, mas isso não é o pior efeito.

Quando começámos a alterar tecnologicamente o corpo humano e a sua fertilidade, tratou-se de uma verdadeira mudança na nossa relação com Deus. A fertilidade não é apenas mais um aspecto da nossa natureza humana. É o elo de ligação mais íntimo entre a natureza corporal do homem com o Deus da criação, um aspecto essencial da humanidade enquanto criada à imagem de Deus.

O Senhor é verdadeiramente um Deus de fertilidade, ainda que não seja o Deus da fertilidade dos pagãos. Aliás, pelo menos os pagãos estavam, dessa forma, a honrar a relação essencial entre a fertilidade humana e o divino. Eles percebiam aquilo que o nosso mundo tão esclarecido já não percebe. É por isso que João Paulo II ensinou que a contracepção era também um pecado contra o primeiro mandamento. É uma nova forma de idolatria em que o homem se eleva ao estatuto de divindade e as consequências são muito extensas, indo muito para além do mal da contracepção.

A contracepção afectou tudo: casamento, fé, consciência moral, autoridade do magistério, já para não falar no colapso da sociedade, causado pela revolução sexual que facilitou e, agora, a destruição de populações e nações inteiras.

Em Junho os juízes do Supremo Tribunal tomarão uma decisão sobre a natureza do casamento, mas essa decisão interessa pouco. As sondagens já mostram que o mal tomou conta das massas na Europa e aqui. Mesmo muitos cristãos aceitam que uma noção profundamente deturpada de casamento seja aceite como igual ao verdadeiro plano de Deus para o casamento, como aparece no Génesis.

É provável que esta atitude acabe por determinar o destino de muitas nações.


O padre Mark A. Pilon, sacerdote da Diocese de Arlington, Virginia, é doutorado em Teologia Sagrada pela Universidade de Santa Croce, em Roma. Foi professor de Teologia Sistemática no Seminário de Mount St. Mary e colaborou com a revista Triumph. É ainda professor aposentado e convidado no Notre Dame Graduate School of Christendom College. Escreve regularmente em littlemoretracts.wordpress.com

(Publicado pela primeira vez no sábado, 23 de Maio de 2015 em The Catholic Thing)

© 2015 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

As noivas jihadistas querem ser "Jihadi Janes"

O bombista de Boston, condenado por todos os crimes
O Papa Francisco fala tantas vezes que corre o risco de algumas das suas mensagens passarem despercebidas. É importante que esta não passe. O Papa disse esta quarta-feira que “As crianças nunca são um erro”. Ámen.

O cardeal Oscar Maradiaga está em Portugal, onde criticou a austeridade que coloca a economia como um deus.

Finalmente algumas boas notícias do Médio Oriente, onde o Estado Islâmico libertou esta quarta-feira mais de 200 mulheres, idosos e crianças da minoria Yazidi, que estavam cativos desde 2014.

Há cada vez mais sinais de que o Estado Islâmico está em fase descendente. Agora surge a informação que o grupo está a recorrer a mulheres para combater nas suas fileiras. As Jihadi Janes estão a aparecer cada vez mais na linha da frente, segundo esta reportagem.


Lembram-se do bombista de Boston? Foi hoje considerado culpado de todas as acusações que pendiam contra ele, várias das quais incorrem possivelmente na pena de morte. Ainda não foi sentenciado, mas a coisa não está boa para os seus lados…

A Cáritas angariou menos cerca de 30 mil euros no seu peditório deste ano do que no ano passado. Resultados da crise, considera a organização.

Tem havido desenvolvimentos nos casos de liberdade religiosa v. direitos homossexuais em vários países do mundo, sobretudo nos Estados Unidos. No blogue mantenho uma lista das várias situações diferentes, que actualizei recentemente.

Neste debate há várias empresas e empresários que estão a tomar partido publicamente. É o caso da Apple, cujo patrão Tim Cook tem argumentado contra leis de protecção da liberdade religiosa. Contudo,como refere o padre Mark Pilon, no mais recente artigo do The Catholic Thing, estes mesmos empresários, e este em particular, continuam alegremente a fazer negócios com países onde os homossexuais incorrem na pena de execução, sem levantar a voz contra isso. São os “mega hipócritas”, segundo o sacerdote.

Os Mega Hipócritas

Pe. Mark Pilon
Nas empresas como a Apple, tudo é mega. Têm mega lucros, mega vendas de produtos como o iPhone e empregam mega hipócritas como Tim Cook. Cook é presidente de uma das empresas mais lucrativas dos Estados Unidos e sente, pelos vistos, que isso lhe confere o direito não só de opinar sobre direitos constitucionais como a liberdade religiosa, como de comprometer toda a empresa com as suas opiniões pessoais.

Recentemente, Cook aplicou pressão económica, de forma pouco subtil, sobre a cidade de Indianapolis e o Estado do Indiana para que neguem a liberdade religiosa a donos de empresas cujas consciências os impeçam de participar naquilo que consideram ser a celebração imoral de um “casamento” homossexual. Cook quer que a lei da liberdade religiosa seja alterada para que estes proprietários não possam sequer levar os seus casos a tribunal e que os governos os obriguem a tomar parte no que consideram ser actividades imorais, sob pena de perderem o direito a trabalhar nesses ramos.

Vários comentadores conservadores sublinharam o facto, algo embaraçoso, de que Cook nunca levantou a sua voz contra a discriminação de que são alvos os homossexuais em muitos dos países em que a sua empresa opera. Em muitos países do Médio Oriente a Apple tem um grande peso (Teerão tem mais lojas da Apple do que o Estado do Indiana) e lá os homossexuais não só não têm o direito de “casar” como podem sofrer a suprema discriminação: pena de morte pelo crime de sodomia.

Não creio que haja qualquer registo de Cook se ter queixado dessas nações. Porquê? Provavelmente porque não quer perder mercado nesses países. Mas cá nos Estados Unidos, onde estamos cada vez mais próximos de reconhecer a homossexualidade como um direito humano, Cook defende que se negue a liberdade religiosa àqueles cuja consciência os impede de fazer um bolo para um casamento homossexual, mesmo que isso implique a perda do seu sustento.

Ao Sr. Cook e aos seus amigos mega hipócritas não interessa minimamente que muitas destas lojas tenham sido escolhidas a dedo por activistas homossexuais para esmagar a liberdade religiosa dos seus donos e o seu negócio, sobretudo quando tivermos em conta que várias outras pastelarias estariam dispostas a fazer o serviço.[Estes e outros casos estão elencados aqui]

Mas poucos dos comentadores têm referido o facto de Cook e a sua empresa terem meganegócios com a China, um país que nega todos os direitos humanos básicos aos seus cidadãos. A vasta maioria dos iPhones, para dar só um exemplo, são fabricados na China, mesmo que algumas componentes venham de outros países. Escusado será dizer que o registo da China em matéria de direitos humanos continua a ser terrível, tantos anos depois de Richard Nixon nos ter dito que a abertura de relações comerciais com o país o obrigaria a abrir-se às liberdades civis.

Este mesmo argumento é usado por todo o género de executivos hoje, para justificarem a sua colaboração com a supressão dos direitos humanos na China, ao financiarem o seu Governo através das actividades de manufactura.

A liberdade religiosa continua a ser severamente restringida na China comunista. Há todo o género de actividades religiosas que podem acarretar penas de prisão na terra da produção do iPhone. Mas será que Tim Cook se deu ao trabalho de dizer uma palavra que seja contra essa perseguição? Claro que não.

Tim Cook
Mais, a China continua a ser um país em que nem o direito natural à vida é respeitado. Este Estado, a crescer economicamente graças a empresas como a Apple, continua a forçar mulheres a abortar caso fiquem grávidas segunda vez. O Governo da China é responsável por assassinar milhões de crianças todos os anos. Mas claro que homens como o Tim Cook não se preocupam com isso, uma vez que provavelmente também concordam com o aborto a pedido no nosso país. E depois, claro, o aborto forçado até dá jeito nas linhas de montagem, uma vez que assim as mulheres não precisam de tirar licenças para tratar de um segundo filho – convém tanto ao governo totalitário como às empresas amorais.

Mas concentremo-nos na questão da homossexualidade na China. De acordo com organizações de defesa dos direitos dos homossexuais, apesar de a homossexualidade não ser crime nem considerada doença, a vida para os gays é tudo menos fácil naquele país. Ainda há muitas leis que discriminam contra eles, segundo estas organizações. Não existe o conceito de casamento gay, as famílias homossexuais não são permitidas, nem sequer com uniões de facto. Os homossexuais não têm liberdade para promover o estilo de vida gay e a legislação laboral não proíbe a discriminação com base na orientação sexual.

Onde está, portanto, a revolta moral dos Tim Cooks do mundo empresarial, mesmo em relação às questões que pelos vistos lhes interessam tanto que estão dispostos a interferir no processo legal internamente, procurando assegurar novos direitos para uns, ao mesmo tempo que negam ou restringem direitos antigos, como a liberdade religiosa, para outros? Procurem uma única afirmação pública de qualquer das empresas de tecnologia da Califórnia – como o Google, Yahoo e Oracle – que defendem os direitos dos homossexuais e que dizem que se opõem à discriminação de todo o género, em favor da liberdade religiosa. Não são eles todos mega hipócritas?

Estes empresários moralistas “liberais” são tão desprezíveis como os antigos barões “conservadores” que exploravam os trabalhadores para conseguir grandes lucros. A Apple faz o mesmo, mas no estrangeiro, onde paga cerca de um quarto do nosso salário mínimo a trabalhadores chineses que trabalham 60 a 75 horas por semana mas, ainda assim, em cidades como Shanghai, não conseguem dinheiro suficiente para viver senão nas residências colectivas das empresas. Os nossos empresários revoltados são agora os exploradores. A sua revolta é uma farsa, porque os seus mega lucros são o seu deus.


O padre Mark A. Pilon, sacerdote da Diocese de Arlington, Virginia, é doutorado em Teologia Sagrada pela Universidade de Santa Croce, em Roma. Foi professor de Teologia Sistemática no Seminário de Mount St. Mary e colaborou com a revista Triumph. É ainda professor aposentado e convidado no Notre Dame Graduate School of Christendom College. Escreve regularmente em littlemoretracts.wordpress.com

(Publicado pela primeira vez na quarta-feira, 8 de Abril de 2015 em The Catholic Thing)

© 2015 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

O nosso Presidente-Teólogo

Pe. Mark A. Pilon
Diga-se o que se disser sobre os terroristas que estão a massacrar cristãos, muçulmanos e pessoas de outras religiões, parece-me extremamente arrogante que o presidente dos EUA se reserve ao direito de declarar quem é, ou não é, um verdadeiro muçulmano, ou quem é, ou não é, um verdadeiro líder muçulmano. No seu discurso no encontro na Casa Branca na semana passada, o presidente, declarou “ex-cathedra” que os líderes do Estado Islâmico não são líderes religiosos mas simplesmente terroristas que interpretaram falsamente a religião muçulmana: “Não são líderes religiosos”, afirmou, dizendo ainda: “estamos em guerra contra pessoas que perverteram o Islão”.

Essa afirmação poderá ser verdade, ou não, mas depende sobretudo de como se interpreta os textos sagrados do Islão. Por exemplo, que peso atribuímos aos escritos iniciais, por oposição aos mais tardios? Por isso, que um não muçulmano, que certamente não é um especialista em religiões e que não é capaz de ler os livros sagrados nas suas línguas originais (algo muito importante para os estudiosos do Islão) se coloque na posição de juiz de quem é, ou não é, um verdadeiro muçulmano, revela extrema arrogância e ignorância. Como se interpreta estes textos antigos de forma precisa – com base no qual se determina quem é ou não um muçulmano fiel –, é algo que, no fim de contas, só pode ser resolvido no seio desta antiga religião.

Se eu fosse muçulmano, de que confissão fosse, (sabendo que existem várias seitas, dependendo da forma como se lê os textos sagrados, por exemplo), ficaria muito ofendido se um infiel decidisse determinar se eu, ou qualquer outro muçulmano, era um verdadeiro crente ou um verdadeiro  líder religioso. A verdade é que não existe uma autoridade suprema no Islão que tenha o direito de determinar quem é um imã válido ou um verdadeiro líder religioso. Como é que um infiel se arroga ao direito de o fazer? Se isso não constitui uma ameaça ao Islão vinda do mundo infiel, então é o quê?

O que se está a passar na mente do presidente ou nas mentes dos seus conselheiros é muito perturbador. Estas declarações não se explicam pela sua tendência de improvisar, são demasiado consistentes e repetidas. A sua defesa persistente do Islão, quando confrontado por actos terroristas de homens que se identificam como muçulmanos fiéis é bastante bizarra e está em desacordo com a sua obsessão com coisas como a “identidade de género”. Neste campo, a sua administração acredita claramente que se deve dar total crédito ao que as pessoas dizem ser o seu género, mesmo quando esta identificação choca com a sua constituição biológica.

No passado mês de Dezembro, por exemplo, o Departamento da Educação publicou um memorando que afirma que o artigo IX das Emendas da Educação de 1972 é para ser interpretado como abrangendo a identificação de género dos estudantes e obrigando todos os outros aspectos de planeamento e implementação da educação a corresponder a essa auto-identificação.

Por isso, mesmo as crianças mais novas que se possam identificar biologicamente como sendo de um sexo devem ser respeitados se escolherem declarar que pertencem ao sexo oposto, independentemente dos factos biológicos. Mas os adultos que se identificam como muçulmanos ou como líderes muçulmanos não devem ser respeitados ou receber qualquer crédito se não preencherem os critérios do presidente e dos seus conselheiros em assuntos de religião. Há algo tão bizarro sobre tudo isto que me parece estarmos perante um problema muito mais profundo.

Obama a receber inspiração divina para
melhor cumprir o seu papel de supremo teólogo

Parece que chegámos ao mundo representado nos livros de Huxley e Orwell sobre líderes totalitários que abandonaram a verdade em troca do poder da propaganda, novalíngua, manipulação e duplipensar. As palavras já não têm qualquer ligação directa com a realidade. São puros instrumentos de manipulação política. Ambos os autores compreenderam bem o poder que a linguagem tem para manipular, mas foi Orwell quem explicou melhor a metodologia usada pelo ironicamente denominado Ministério da Verdade.

Um dos propósitos do Ministério é desenvolver e promover a Novalíngua, que é descrita como:

“Uma vontade leal de dizer que o preto é branco quando tal for exigido pela disciplina partidária. Mas significa também a capacidade de ACREDITAR que preto é branco e, mais, de SABER que preto é branco e esquecer-se de que alguma vez se acreditou no contrário. Isto exige uma modificação contínua do passado, tornada possível pelo sistema de pensamento que na verdade abarca tudo o resto e que é conhecida, em Novalíngua, como DUPLIPENSAR.”

A história e o passado têm de ser totalmente alterados para acomodar a grande mentira, por exemplo, e os seus efeitos, precisamente da mesma maneira que os nossos líderes políticos falam tão levianamente das Cruzadas e da Inquisição sem verdadeiramente compreender uma coisa ou outra.

Se repetirmos a mentira vezes suficientes as pessoas começarão a acreditar nela. Os totalitários do século passado compreendiam bem isso. A descrição de Orwell mantém-se válida:

Dizer mentiras de forma deliberada, enquanto se acredita genuinamente nelas, esquecer qualquer facto que se tenha tornado inconveniente, e depois, quando se torna necessário novamente, trazê-lo de volta do esquecimento pelo tempo estritamente suficiente, negar a existência de uma realidade objectiva e, todavia, tomar em conta a realidade que negamos – tudo isto é indispensavelmente necessário.

Tudo isto está a acontecer no mundo da política Novalíngua de hoje, apesar de termos acesso a mais informação do que em qualquer outra época. Podemos fazer juízos absurdos sobre a identificação religiosa de alguém, porque a verdade é tudo aquilo que serve a agenda política. Verdade histórica objectiva? Esquece isso! O que é a verdade?

Essa pergunta cínica foi colocada por outra figura política, e conduziu à morte da encarnação da Verdade. Hoje está a conduzir ao caos social.


O padre Mark A. Pilon, sacerdote da Diocese de Arlington, Virginia, é doutorado em Teologia Sagrada pela Universidade de Santa Croce, em Roma. Foi professor de Teologia Sistemática no Seminário de Mount St. Mary e colaborou com a revista Triumph. É ainda professor aposentado e convidado no Notre Dame Graduate School of Christendom College. Escreve regularmente em littlemoretracts.wordpress.com

(Publicado pela primeira vez na quarta-feira, 25 de Fevereiro de 2015 em The Catholic Thing)

© 2015 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

70 anos de Auschwitz e "Stop Jihadismo" em França

Sobreviventes do horror de Auschwitz
Ontem o mundo recordou o Holocausto, no dia em que se comemora a libertação de Auschwitz. Uma reportagem da Renascença mostra que também houve portugueses condenados a ir para esse campo de concentração.

Entretanto o Papa já publicou a mensagem para a Quaresma 2015 e hoje, em Roma, falou da crise dos pais ausentes e de como isso cria uma sociedade com “sentimento de orfandade”.

Os franceses lançaram uma campanha para travar o recrutamento de jihadistas, que procura mostrar um pouco da realidade do Estado Islâmico para refrear o entusiasmo dos eventuais candidatos.

Estamos a vários meses do Sínodo para a Família de 2015, mas a discussão não vai parar! No artigo desta semana do The Catholic Thing, um sacerdote questiona a falta de referências à contracepção nas questões de preparação do encontro dos bispos em Outubro.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Escócia, Madeira, Iraque e Sri Lanka

Dilema familiar por causa do referendo na Escócia
"We don't talk much anymore"
Amanhã os escoceses decidem se querem manter-se no Reino Unido ou não. Os bispos católicos apelam a que, a favor ou contra, todos vão votar.

A diocese do Funchal celebra 500 anos. A histórica e importante diocese está a assinalar a data como deve ser.

O Papa aprovou a canonização de um indo-português que evangelizou o Sri Lanka, dispensando o reconhecimento de um segundo milagre.

No dia 28 de Setembro o Papa vai receber uma delegação de avós. Entre eles estará um casal iraquiano, em representação dos cristãos perseguidos naquele país.

Por falar em Iraque, o artigo desta semana do The Catholic Thing levanta a questão do debate que a Igreja tem de ter. O uso da força contra o Estado Islâmico entra na definição de guerra justa? Parece-me evidente a resposta, estou com Robert Royal. Não deixem de ler, mesmo.

Entretanto deixo também o link para o artigo da semana passada em que o Pe. Mark Pilon se insurge contra os políticos católicos que defendem ou votam a favor do aborto. É precisamente porque nos políticos raramente nos podemos fiar nestes assuntos que todos os que defendem a vida devem ir à Caminhada pela Vida em Outubro. TODOS!

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Joe Biden e as Portas do Inferno

Pe. Mark A. Pilon
Há dias o vice-presidente Joe Biden declarou solenemente que os bárbaros que decapitaram o jornalista Jim Foley seriam perseguidos até às portas do Inferno e depois repetiu, duas vezes, que era no inferno que iriam residir. A primeira parte da afirmação é claramente uma metáfora que indica que os EUA não vão desistir de trazer esta gente até à justiça. Mas a segunda parte é bastante diferente, Biden declarou que os terroristas estão destinados a ir para o Inferno, por causa do assassinato bárbaro deste jornalista americano, e tantos outros.

Biden abriu as portas a um tipo de juízo muito severo. Pessoalmente, concordo que estes homens são verdadeiros bárbaros e que os seus crimes merecem a punição do Inferno – mas estou obrigado a acrescentar: a não ser que se arrependam. Este já é um juizo moral com uma condição e não um juizo final escatológico sobre o destino final de tais monstros.

Mas não podemos dizer algo parecido de Joe Biden? O vice-presidente é um aliado firme do movimento bárbaro que, neste país e durante o seu mandato, conduziu à morte – também grotesca, de, literalmente, milhóes de seres humanos por nascer. Não interessa o que Biden diz serem as suas opiniões pessoais sobre o aborto, se é pessoalmente contra estes crimes contra a humanidade ou não. Fazendo eco da Escritura, podemos dizer que o ISIS matou as suas dezenas de milhares enquanto os médicos americanos cooperaram com as mães americanas para matar dezenas de milhões. 

Contudo, enquanto os islamitas decidiram transformar a sua barbárie num espectáculo público, as barbaridades dos abortistas tendem a ser escondidas e só se tornam ligeiramente visíveis, mesmo hoje, quando pessoas como o Dr. Gosnell são acusados e condenados.

Biden faz parte deste crime através do seu apoio político. Como a maioria dos católicos que apoiam o lobby pró-abortista e a legislação através dos seus votos, Biden parece não ter sensibilidade para a dimensão e a natureza do mal em que está envolvido, verdadeira e responsavelmente envolvido, mesmo que apenas indirectamente. Embora ele não encoraje ninguém a abortar, nem financie os abortos de ninguém, o seu apoio activo tem feito dele um colaborador em milhões de mortes. Tal como Nancy Pelosi, outra auto-proclamada católica, Biden parece não ter qualquer noção da sua responsabilidade moral.

Cristo ensinou que nem todos aqueles que dizem “Senhor, Senhor”, entrarão no Reino, mas apenas aqueles que fazem a vontade do Pai. Certamente não é a vontade do pai que os líderes políticos cooperem em abortos. Biden, Pelosi e outros católicos que se consideram católicos de boa fé correm o risco de ouvir as palavras que Jesus proclama no final do sermão da montanha: “E então lhes direi abertamente: ‘Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade’”. A colaboração ou prática persistente da imoralidade resulta sempre na cegueira moral.


Um muçulmano que se oponha firmemente ao aborto poderia facilmente virar o bico ao prego a Biden e dizer-lhe que é ele o bárbaro que vai parar ao Inferno. Um católico deve colocar as coisas de outra maneira. Deveria usar da caridade para dizer a Biden que residirá no Inferno caso não se arrependa nem faça reparação pela sua colaboração com este grande mal moral. Porque é que nenhum bispo teve a coragem de dizer a Biden e a Pelosi, e a todos os outros católicos colaboracionistas, que arriscam passar a eternidade no Inferno se não se arrependerem? A não ser que Jesus tenha errado quando censurou os fariseus, não há mal nenhum em avisar aqueles que colaboram com o mal moral que arriscam o Inferno caso não se arrependam.

Suponho que os bispos estejam a sofrer de correcção política. Ou então têm uma noção errada da relação entre Estado e Igreja. Mas é provavel que a maioria dos bispos tenha adoptado, de facto, uma noção subjectiva de consciência, a ideia de que a consciência acaba por triunfar sobre a autoridade moral da Igreja. Parece ser isso o que está por detrás da recusa em negar a comunhão a políticos que apoiam o aborto. Partem do princípio que não podem nunca julgar a responsabilidade destes políticos pelas suas acções. O Direito Canónico não exige qualquer juízo final moral para negar a Sagrada Comunhão, apenas o exige quando se considera que certos católicos são culpados de uma acção pública objectivamente escandalosa, contrária à lei moral num assunto grave.

Mas penso que o problema é mais profundo que esta leitura obviamente errada do Direito Canónico. Muitos bispos consideram que uma pessoa pode ter uma consciência recta e moralmente boa, mesmo quando está objectivamente em erro – e sabendo bem que a autoridade da Igreja tem considerado, de forma consistente, que uma acção moral é gravemente errada. Por outras palavras, a formação subjectiva da consciência vence sempre a autoridade moral na determinação da responsabilidade moral, quando estiverem os dois em conflito.

Esta abordagem à consciência moral tem sido a base teórica da “solução pastoral” para a rejeição em massa dos ensinamentos da Igreja sobre contracepção ao longo dos últimos cinquenta anos. A consequência natural, claro, será a total subjectivização da lei moral, como as igrejas protestantes já aprenderam. É por isso que estamos na posição em que estamos no que diz respeito à responsabilidade dos Joe Bidens e das Nancy Pelosis. Eles continuam cegamente a percorrer a estrada que conduz à perdição, enquanto os bispos continuam a manter-se em silêncio, recusando a admoestar publicamente o seu rebanho. Chamam a isto caridade pastoral? 


O padre Mark A. Pilon, sacerdote da Diocese de Arlington, Virginia, é doutorado em Teologia Sagrada pela Universidade de Santa Croce, em Roma. Foi professor de Teologia Sistemática no Seminário de Mount St. Mary e colaborou com a revista Triumph. É ainda professor aposentado e convidado no Notre Dame Graduate School of Christendom College. Escreve regularmente em littlemoretracts.wordpress.com

(Publicado pela primeira vez na quart-feira, 10 de Setembo de 2014 em The Catholic Thing)


© 2014 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. 
Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Dois Papas e duas Burkas

Jiya, heroína da assiduidade escolar
Mais de dois anos depois do começo da Guerra Civil na Síria, os rebeldes estão a tentar chegar ao berço da família Assad, uma região com grande concentração de alauitas que até agora tem estado firmemente ao lado do regime.

O Papa já publicou a mensagem para o dia das Missões, que se assinala em Outubro. Novamente o apelo a chegar às “periferias”.

Outro Papa, o dos coptas, que vive precisamente na periferia, consta de uma lista de “alvos a abater” no Egipto.


Duas notícias de burka… Em França pondera-se proibir os véus islâmicos nas universidades. Ironicamente, isso impediria a professora Jiya, uma heroína de desenho animado paquistanesa que incentiva o estudo, de frequentar o ensino superior francês…

A entrevista do Papa a bordo do avião que o trouxe do Brasil continua a dar que falar. No artigo desta semana de The Catholic Thing, o padre Mark Pilon desaconselha este tipo de acção por parte de Francisco. É um texto com o qual, em traços gerais, não concordo, mas que espelha uma opinião bastante comum e que constitui mais uma achega para a discussão sobre o assunto.

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