quarta-feira, 3 de junho de 2015

Onde estão os Leões de Outros Tempos?

Anthony Esolen
Enquanto escrevo estas palavras, milhares de cristãos enfrentam massacres no Médio Oriente. Uma das imagens está gravada na minha memória. Um grupo de rapazes, de cerca de 10 anos, aguarda o terror às mãos dos seus captores por se recusarem a renunciar a Cristo. Um dos miúdos que está em primeiro plano, alto e moreno, olha directamente para a objectiva, a sua boca uma expressão de resistência.

Tem corpo de rapaz mas alma de homem. Duvido que ainda esteja vivo. Se soubesse o seu nome, pedia por sua intercessão. Talvez o deva fazer na mesma. Talvez o chame Sanctus Ignotus: O santo que ninguém conhece, o santo que ninguém quis conhecer. Mas se tivesse de lhe dar um nome seria Leoninus: Leãozinho.

Abro um dos meus exemplares encadernados do “The Century”, dos anos terríveis da guerra de 1918. É difícil descrever esta revista a pessoas que estão habituadas ao Cosmopolitan, Newsweek e TV Guia. Mas podemos ter uma ideia da sua verve intelectual e literária através destas palavras de “O Bom Pastor de Mechlin”:

“Se Alberto da Bélgica, esse príncipe cavalheiro cujo reino está transformado nuns poucos quilómetros de dunas e trincheiras ensanguentadas, tem sido o Leonidas da sua pátria martirizada, o Cardeal Mercier tem sido o seu Hildebrand. Alberto dotou a história e o romance do glamour de um novo Termópilas; o Cardeal belga fez o mundo recordar aqueles dias quando um simples monge, elevado ao trono do pescador, enfrentou outro Imperador alemão e berrou aos seus ouvidos as palavras que fazem tremer até os tiranos.”

Esta é a descrição de Désiré-Félicien-François-Joseph Mercier, o grande filósofo e arcebispo de Mechlin, primaz da Bélgica.

Nem sei por onde começar a enumerar as razões pelas quais esta passagem não poderia ser escrita hoje, nem lida de forma inteligível pela maioria dos universitários. Algumas pessoas, sobretudo desde que fizeram um filme inimaginavelmente mau sobre a batalha em questão, talvez reconhecessem os nomes de Termópilas e Leonidas, mas quantas delas saberiam exactamente o que estava em causa, quais os beligerantes ou o significado da guerra para o Ocidente e para a humanidade? Nem uma em mil compreenderia o que quer que fosse do resto.

Quando um jornalista do Washington Post sente a necessidade de explicar o que é a Via Dolorosa, engana-se, chama-lhe Via Della Rosa e depois diz que é um termo francês, penso que é seguro afirmar que mesmo uma expressão como “o trono do pescador” seria o suficiente para o deixar confuso, quanto mais a referência ao confronto invernal no Castelo de Canossa.

Mas independentemente do conhecimento histórico, quem se interessaria pelo cavalheirismo ou o drama de um monge santo e corajoso a lutar contra um imperador? Quem faria mais do que se rir das palavras de excomunhão dirigidas a Henrique IV, Imperador do Sacro-Império? Quem desejaria ver a Igreja vitoriosa na sua luta pela liberdade, em vez de ver os seus bispos ao serviço de um líder mundial ambicioso? Quem seria sequer capaz de escrever frases com este tom épico que o reformador inflexível, Gregório VII, merece?

E depois há outras razões que nada têm a ver com autores ou leitores. O Cardeal Mercier nunca recuou, nunca traiu a Bélgica aos invasores alemães. Ele advertiu os seus compatriotas que “a única autoridade legítima na Bélgica é a do nosso Rei, do nosso Governo, dos representantes eleitos da nação... Por isso, os actos de administração pública dos invasores não têm, em si, qualquer autoridade”, salvo aquela que as verdadeiras autoridades pudessem tacitamente permitir para o bem comum.

As “províncias ocupadas”, disse, “não são províncias conquistadas. A Bélgica não é mais uma província da Alemanha do que a Galícia é uma província russa.” Segundo o Tratado de Londres, cujos termos Mercier recordou aos envelhecidos líderes europeus, a Bélgica devia formar um “Estado perpetuamente neutro” e isso significava também não dar guarida a alemães que quisessem atravessá-la para invadir a França. “A Bélgica não é uma estrada”, disse o Rei Alberto.

Cardeal Mercier, um bom pastor
Depois vieram as atrocidades, que o Cardeal nunca deixou de condenar: O que foi feito, quando, onde e a quem. Para o seu povo ele foi uma torre de força e uma fonte incansável das melhores consolações, que o mundo já não consegue compreender. Mercier não tinha nada de trivial ou de vacilante. Na solidão, clamou: “Porquê todo este desaire, meu Deus?”

Mas depois “elevou os corações de um povo profundamente católico até à cruz que tão bem conheciam”. Eis as suas palavras:

“O cristão é servo de um Deus que se tornou homem para sofrer e morrer. Revoltar-se contra a dor, contra a Providência, simplesmente porque esta permite a dor e a tristeza, é esquecer-se de onde vimos, da escola em que nos formámos, o exemplo que cada um tem gravado no seu nome de cristão, que cada um honra no seu lar, contempla no altar das suas orações e que deseja que assinale a sua sepultura, local do seu descanso final.”

Quem fala assim hoje em dia? Mercier era um gigante entre os homens, com mais de dois metros de altura e uma inteligência, sabedoria, coragem e fidelidade ainda mais elevadas. Amava a Bélgica mais, segundo o autor, “com a coroa de espinhos sobre a sua fronte do que nos seus dias de glória. Ele tem sido o bom pastor do seu rebenho, o guardião do seu povo, o servo leal do seu Rei.”

Hoje, como ontem, com maldades igualmente deprimentes, absurdas e desprezíveis, o demónio caminha sobre a terra como um leão na caça, procurando quem devorar. A escolha a fazer, hoje como ontem, não é entre uma cedência ou outra, é entre dois tipos de leão. Perguntem ao Leoninus, ou ao grande pastor de Mechlin.


Anthony Esolen é tradutor, autor e professor no Providence College. Os seus mais recentes livros são:  Reflections on the Christian Life: How Our Story Is God’s Story e Ten Ways to Destroy the Imagination of Your Child.

(Publicado pela primeira vez na Quarta-feira, 3 de Junho de 2015 em The Catholic Thing)

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