segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Religião nas eleições americanas


Este blogue existe em grande parte para demonstrar a importância que a religião tem nas relações internacionais e na política, entre outras áreas. A política interna americana é um grande exemplo disso e apesar de nas últimas semanas não se ter falado muito de fé na campanha, continua a haver uma série de assuntos a realçar e a ter em atenção.

Comecemos com as curiosidades. Como já aqui foi dito, esta é a primeira vez que nenhuma das candidaturas inclui um membro de uma das principais igrejas protestantes. Neste caso temos um cristão que não pertence a qualquer confissão em particular (Obama), contra um mórmon (Romney), com dois católicos a concorrer pela vice-presidência. Se Romney vencer será o primeiro mórmon a assumir a presidência dos Estados Unidos ou, se não me engano, de qualquer país...

Outra curiosidade vem do Havai, onde Tulsi Gabbard arrisca-se a ser a primeira hindu a ser eleita para o congresso dos EUA.

O percurso até aqui foi muito marcado por religião. Desde a barraca de os democratas terem apagado qualquer referência a Deus do seu manifesto eleitoral e depois terem-na colocado à pressão, durante a convenção, em flagrante desrespeito pelos votos dos delegados presentes, até a presença de Obama no jantar Al Smith, a convite do Arcebispo Tim Dolan, de Nova Iorque, que levou o cardeal a ter que justificar-se no seu blogue.

Mas a grande questão, sem dúvida, foi a “guerra” entre Obama e os bispos católicos por causa do decreto da Human Health and Services (HHS), parte da reforma do sistema de saúde de Obama, que visa obrigar as organizações católicas, entre as quais hospitais e escolas, a fornecer aos seus funcionários seguros de saúde que cobrem serviços contraceptivos e abortivos. Pela primeira vez desde que alguém se lembra, todo o episcopado católico falou a uma só voz, genialmente liderados por Dolan, acusando Obama de estar a atentar contra a liberdade religiosa.

Durante a campanha propriamente dita os bispos evitaram apoiar claramente um dos candidatos, mas nos últimos dias têm-se multiplicado cartas pastorais em diversas dioceses que falam do perigo de votar em candidatos que sejam pró-aborto, pró-“casamento” gay e que defendam medidas que põem em causa a liberdade religiosa. Não é preciso ser um génio para ler entre as linhas. Os bispos querem que Romney ganhe. Se isso acontecer será uma enorme vitória para a hierarquia católica. Se não acontecer antevêem-se quatro anos bastante difíceis para o relacionamento entre a Igreja e a presidência nos EUA.

Mas com tanta atenção a ser tomada pela escolha do próximo presidente, é fácil perder de vista alguns outros aspectos que também são muito importantes. Os americanos aproveitam sempre as eleições para fazer referendos estaduais também. Este ano existem 176 referendos estaduais que variam entre um medida para apagar da constituição do Alabama referências à segregação racial nas escolas que ainda lá estão (!!!), até uma no West Virginia que visa pôr fim ao limite de dois mandatos para os xerifes. Mas entre estes 176 há muitos que são de interesse para este blogue e, imagino, para os seus leitores.

Começamos pelos quatro estados que estão a votar sobre o “casamento” gay. Vale a pena recordar que até hoje, nos EUA, mais de trinta estados discutiram esta questão. Seis legalizaram a prática por via exclusivamente legislativa. Mas 32 votaram e, em todas, a opção popular foi contra. Nalguns casos os votos vieram depois de os políticos terem decidido e anularam as leis entretanto aprovadas. A Califórnia é um caso especial, onde o “casamento” gay foi aprovado pelo Governo local, chumbado num referendo estadual há quatro anos e depois readmitido pelos tribunais (viva a soberania popular). Amanhã quatro locais vão colocar a questão aos seus eleitores. A Cidade de Washington, que não é um Estado mas tem autonomia política, e os Estados de Maine, Maryland e Minnesota.

Destes quatro, o único em que os defensores do casamento entre homossexuais parecem ter vitória assegurada é Maine, com uma confortável vantagem nas sondagens. Na Cidade de Washington havia uma vantagem confortável mas tem vindo a diminuir de forma vertiginosa e é bem possível que a situação inverta a tempo das eleições. Maryland e Minnesota parecem estar do lado do casamento tradicional. São quatro iniciativas a ter em atenção e podem ter a certeza que neste blogue, logo que possível, terão acesso aos resultados, uma vez que a imprensa não vai ligar a nada que não as presidenciais.

Há ainda um referendo no Massachusetts sobre eutanásia, embora neste caso se use o eufemismo “Referendo de Morte Digna”, que basicamente permitirá, caso passe, a eutanásia para doentes terminais naquele Estado.

Na Flórida são grandes fãs destas iniciativas e por isso vai haver 11 referendos estaduais no mesmo dia. Um deles tem a ver com o aborto. Se passar, a “Emenda 6” deixará claro na constituição que a legislação estadual sobre o aborto nunca pode ser mais liberal que a lei federal.

No Montana está também a votos a medida LR-120, que tornará obrigatória a autorização dos pais de uma menor (-16 anos) que queira fazer um aborto, salvo em casos de emergência médica (leia-se, imagino, risco imediato para a vida da mãe).

Por fim, na Califórnia há outra medida que visa acabar com a pena de morte no Estado, substituindo-a por pena perpétua sem possibilidade de liberdade condicional.

Como vêem, há muito mais em jogo do que simplesmente a decisão de quem vai ser o homem mais poderoso do planeta durante os próximos quatro anos. Fiquem atentos a este blogue para saberem o que se passa.

Filipe d’Avillez

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