sexta-feira, 23 de novembro de 2012

"Discípulo amado é definido pelo amor que recebe de Jesus"

Transcrição integral da entrevista feita ao Frei Bernardo Corrêa d'Almeida, sobre o seu livro "A Vida Numa Palavra". A notícia está aqui.

Todo este trabalho tem por base uma tradução própria do Evangelho de São João. Porque é que isso foi necessário?
Em primeiro lugar partiu do estudo que fiz, directamente do original. Confrontando com as versões que temos ao nosso dispor, pareceu-me que seria valioso e importante aperfeiçoar algumas aproximações ao texto. Pessoalmente, e para quem está a acompanhar a leitura, indo mais possível ao texto original, creio que é sempre de grande valor, até porque o objectivo do meu trabalho é colocar o leitor não propriamente a ler o meu livro, mas a ir ler o Evangelho.

Mas as mais recentes traduções, por exemplo a Bíblia dos Capuchinhos, têm alguma falha importante?
Diria que a minha tradução tem a vantagem de ter sido feita por mim, que dediquei muitos anos ao estudo do Quarto Evangelho, enquanto as que temos foram feitas por grandes peritos, que têm uma maior amplitude literária no que diz respeito à Bíblia.

Acontece que neste momento a Conferência Episcopal está a trabalhar numa nova tradução litúrgica e por isso numa nova tradução bíblica, precisamente neste sentido. O trabalho pode ser sempre apurado e o estudo bíblico aprofundado.

No Evangelho de São João a vida pública de Jesus começa com as Bodas de Caná. No seu entender, a escolha de um casamento para começar não é por acaso…
Não é por acaso. Por um lado importa dizer que o Quarto Evangelho nasce da morte e ressurreição de Jesus, desse momento principal, em que o autor é gerado. O Evangelho nasce do fim, começa com um “happy end” que é um casamento, que é consumado nesse momento da morte e ressurreição de Jesus na cruz. Foi concebido como um seio, imaginemos uma barriga de uma mãe, onde há um bebé, um ser humano, que depois nasce para a vida. O Quarto Evangelho foi assim concebido, é uma comunicação de uma vida, quem a recebe vai sendo gerado para a vida.

Mas esta ideia do Quarto Evangelho como uma história esponsal é nova?
Não, não é nova. O tema do matrimónio, da aliança, é um tema bíblico, transversal. Aliás a única novidade dos Evangelhos é o facto de Jesus completar essas tradições na própria existência e no mistério pascal. Não é nova.

Peguemos na história da Samaritana. Na leitura que apresenta no seu livro, quando Jesus se refere aos cinco maridos anteriores da Samaritana, e ao homem com quem está agora mas que não é marido dela, isto tem uma leitura mais profunda…
O Quarto Evangelho é uma obra magistral, atravessada sempre pelo duplo sentido. Isto é, por detrás do sinal há o conteúdo do sinal. Isto acontece em quase todas as situações.

No caso da samaritana é evidente que se viviam, na altura de Jesus, situações muito desconformes ao que era o plano de Deus e o plano social. Nesse sentido Jesus não condena a samaritana, mas condena alguns comportamentos que ela tinha, concretamente o saciar-se em fontes que não a saciavam, mas por detrás disso há algo mais fundamental, que é aquilo que ela representa. A Samaritana, como outras figuras do Quarto Evangelho, não têm nome, porque além de representarem pessoas concretas da história, factual, representam o povo, representam a comunidade cristã e a comunidade judaica.

O Povo Samaritano, depois da destruição do monte Gorizim, sem negar Javé, prestava culto a outros deuses. Havia uma idolatria religiosa, que é uma das críticas dos profetas. Por detrás da Samaritana há a história desse povo e está também um dado interessante, Jesus acaba por ser o sétimo marido. A plenitude, a aliança, a verdadeira água vida que encontra em Jesus, que vem estabelecer a aliança do povo, da mulher, da esposa, com Deus, que é o Esposo e o Senhor.

Jesus e a Samaritana
Há também a passagem do paralítico na piscina de Siloé, que estava lá há 38 anos… esses dados também apontam para uma comparação que não se entende lendo só à letra.
Claro! Havia uma freira muito simpática, muito calada, muito bondosa, mas que participava pouco no seu ambiente comunitário em termos de intervenção. Algumas das irmãs até se incomodavam. Ela retirava-se sempre para o quarto. Quando ela morreu e foi para o céu, pouco depois, alguém trouxe umas páginas que se tinham encontrado na rua e que se veio a saber que eram o seu diário. Todas as noites ela escrevia meia hora das maravilhas que via na comunidade. Quando a madre-superiora releu o diário, elas ficaram num pranto e felicíssimas ao mesmo tempo, mas as pessoas que tinham visto aquilo na rua, não lhes dizia nada. Isto para dizer que o Evangelho, quanto mais se está por dentro, quanto mais se experimenta, mais significado tem para nós.

De facto há uma tradição em Deuteronómio 2,14 que diz que o Povo de Deus andou 38 anos no Deserto às aranhas. Imagina-se ir a pé de Lisboa a Fátima e que isso demorava 38 anos. Foi o que lhes aconteceu, andaram 38 anos completamente perdidos, desorientados, sem referência, no deserto, sem terra, sem nada. É o que representa esse paralítico, mais profundamente falando.

De todas as passagens do Evangelho de São João, qual é o que mais o surpreendeu quando descobriu a “história” por detrás do texto?
Destaco dois momentos. O momento monumental, sinfónico, eterno, que é o momento da Glória de Cristo, a exaltação ou a elevação na Cruz, onde é coroado. Esta minha descrição pode parecer exagerada, ou desconforme, mas esse momento foi precisamente construído assim.

Depois a experiência do discípulo amado, do autor, aquele que nos dá o testemunho, que nasce e que está presente em todo o Evangelho precisamente a fazer essa experiência. Se virmos uma imagem ou um desenho do discípulo amado, do Apóstolo São João, vêmo-lo sempre a olhar ao alto e a escrever. É uma experiência fundamental de alguém que nasce, que vive, que é animado, gerado, que recebe uma vida e que depois a comunica.

Faz lembrar uma irmã de uma terra aqui perto, que tão generosa, queria ajudar a acabar com a pobreza e então dedicou-se ao campo e ao pomar das irmãs para poder dar muita fruta. Assim fazia, e trazia fruta, mas um dia desesperada foi ter com a madre a chorar porque estava tudo podre. Estava tudo podre porque ela tinha-se dedicado ao fruto e não à raiz e o fruto apodreceu.

Esta personagem do discípulo amado, que antes de amar é aquele que é amado, é genial. Porque só recebendo é que se dá, ou melhor, aquilo que damos é muito do que recebemos. A construção evangélica do Quarto Evangelho, de viver de uma vida que recebe, e testemunhar sem que saibamos exactamente quem ele é, é muito interessante.

Fala-se muito da autoria do Evangelho. É atribuído a São João, mas não será ele o autor…
Canonicamente falando, isto é, segundo o que está escrito no livro o autor é o “discípulo amado”, diz lá explicitamente que é o discípulo amado. O apóstolo São João nunca é referido pelo nome. Mas segundo a tradição, que provém de São Policarpo, diz-se que é São João.

Agora, seguramente terá sido uma comunidade que terá tido influência do apóstolo, e por isso dedicada a essa origem. Mas creio que mais importante do que entrarmos neste tipo de reflexão, que nos afasta do texto, é talvez de nos dedicarmos ao texto e ao que nos diz. Esta ideia do discípulo amado é genial, porque ele é definido pelo amor que recebe de Jesus, não sabemos quem ele é, o que é muito interessante.

Imaginemos que nos aparecia agora Nossa Senhora numa capela. O primeiro a chegar é que quereria ficar com o mérito, depois ainda poderia ter um altar em sua memória, mas a única primazia que o discípulo quer ter, é conduzir Pedro a Jesus. Se formos ler o quarto Evangelho, vemos que o discípulo amado cumpre dois principais papéis: Primeiro, está sempre atraído a Jesus, na última ceia está reclinado sobre o peito de Jesus, na cruz está na cruz, os outros estão dispersos. Quando vai ao sepulcro corre mais depressa que Pedro, está mais atraído. Fernando Pessoa dizia que o caminho mais curto entre dois pontos é um passeio entre dois apaixonados.

Os discípulos reconhecem Jesus na margem
No capítulo XXI, quando Jesus aparece na Margem, é ele quem reconhece Jesus. Depois, está sempre a conduzir Pedro a Jesus, sempre. Na última ceia Pedro pergunta ao discípulo amado quem é que o ia trair, e o discípulo amado pergunta. Quando vão ao sepulcro o discípulo amado corre mais depressa, mas não entra. Atrás dele vem o Pedro, mas quem entra primeiro é Pedro, porque o discípulo amado não entra, quer guiar Pedro. No capítulo XXI Jesus aparece, só o discípulo amado é que o vê, diz que é o senhor, e Pedro atira-se.

E no final, muito interessante, o texto diz que tinha corrido o boato de que aquele discípulo não morreria. Pedro pergunta a Jesus, então e este? E Jesus responde, se eu quiser que ele permaneça até eu voltar, que tens tu a ver com isso? Faz lembrar as bodas de Caná, “mulher, que tenho a ver com isso? Que temos a ver com isso? Temos tudo a ver com isso. É a questão da ironia. Portanto Pedro pergunta, e ele, não morre? E Jesus diz, que tens a ver com isso? Tu segue-me!

E então temos aqui uma pergunta interessante. Se o discípulo amado permaneceu, onde é que ele está? É tão simples como isto, ele permaneceu no testemunho que dá.

Testemunho é uma palavra que ocorre muitas vezes precisamente para nos dizer isto, que o discípulo quis permanecer não pelo seu nome, mas pelo seu testemunho. O testemunho é aquilo que ele recebe. O quarto Evangelho é o testemunho que nos é dado pelo discípulo amado, que o recebeu de Jesus glorificado.

Porque é que nunca vemos os sacerdotes a explorar e a explicar assim os textos nas homilias, por exemplo?
Essa pergunta, eu fi-la a um grande professor, hoje bispo, D. António Couto. Foi exactamente a mesma pergunta. Recordo-me da resposta: “É tudo uma questão de dedicação. Dedicação e valorização”. As realidades fundamentais da vida, o valor de uma família, não se descobre num momento e de repente, é uma experiência que se faz.

Creio que todos nós, todos padres, cristãos, a Igreja inteira e o nosso Papa, como todos que conheci, dão total privilégio à palavra, como não podia deixar de ser, a Igreja nasce da palavra, portanto há uma necessidade grande de irmos ao profundo das realidades e de não ficarmos no superficial das mesmas. Até porque o quarto evangelho, sendo um tesouro, uma fonte de vida, a isso obriga. Portanto todos nós padres, catequistas, cristãos, homens de boa vontade, somos chamados a aprofundar-nos. Há sempre algo a descobrir. A vida é movimento, é espiritual, é vida. Há sempre algo que se pode aprender e recriar. Portanto é uma questão de dedicação. Os próprios padres, cada vez mais valorizam isso, e nós próprios somos chamados à oração, cada vez mais intensa, como ao confronto com a palavra do Senhor.

Faltará um pouco essa dedicação, de conhecimento, a muitos padres?
Não diria assim tanto. Até porque o maior auditório que nós temos são as homilias, e a homilia não é propriamente uma aula, uma explicação do texto bíblico. É algo que vai para além disso. É algo diferente. Necessariamente vive do texto, tem a ver com a experiência da comunidade, tem a ver com a experiencia concreta, com o ambiente eucarístico e celebrativo. Agora, há experiências, vivo no Porto e posso testemunhá-lo, de comunidades muito interessadas. O que às vezes acontece é que os padres criam estas oportunidades, mas as pessoas estão mais interessadas em romances e textos superficiais que exigem menos aprofundamento que os textos sagrados.

E mais, existe um preconceito sobre o texto bíblico, como se fosse algo muito complicado, ou só para alguns, que não é assim. O quarto Evangelho, como dizia, é um descascar, é uma pérola que vai sendo desembrulhada. E à medida que vai sendo desembrulhada vai sendo valorizada. Nunca vi ninguém, mesmo as crianças, que conseguisse num instante abrir a prenda, mesmo que rasgue o papel todo. É preciso um empenho para abrir a prenda, depois de gozar a prenda. Muitas vezes andamos a correr, muito apressados, talvez isso nos falte a todos.

Gostaria de dedicar-se agora a outro Evangelho ou escrito bíblico? Ou vai continuar a dedicar-se a São João?
Em relação a este Evangelho há sempre mais, porque não tem fim. Estou agora a publicar a minha tese, sobre o conceito de unidade no quarto evangelho, do qual este livro é o primeiro capítulo de três. Antes de morrer, gostaria de apresentar um livro como este sobre os outros três Evangelhos, é um sonho que tenho desde criança.

A verdade é que no panorama nacional, puxando a brasa à minha sardinha, não há livros assim. Em português não há livros assim, também pela dimensão do nosso país. Eu gostaria imenso de apresentar um texto semelhante dos outros Evangelhos.

Há uma ligação entre todos os textos atribuídos a São João?
Obviamente estão ligados, é sempre a tradição joanica. A ligação entre o Evangelho e as cartas é evidente, há temas que se aproximam totalmente. Em relação ao apocalipse também, se bem que é diferente. Agora, em termos de tradição, e liturgicamente falando, e até pela importância, os Evangelhos, para nós cristãos, são o sumo maior, não só da Bíblia como da nossa experiência crente. Até porque para interpretar os Evangelhos não se pode ficar só por um, é um risco, e tenho noção disso. Em relação a Jesus, como homem que é e filho de Deus que é, uma perspectiva é sempre redutora. Estes quatro Evangelhos aproximam-nos de Jesus todo.

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