quarta-feira, 25 de abril de 2012

A Morte das Civilizações Segundo Goldman


Matthew Hanley
Uma pergunta de algibeira para aqueles de vocês que, provavelmente em minoria, compreendem que o mundo praticamente inteiro está ameaçado por uma implosão demográfica, mesmo enquanto muitos continuam a falar do sobrepovoamento e os custos para o “sistema” que podem ser evitados prevenindo gravidezes.

Para dar apenas um exemplo, hoje na Grécia há apenas 42 netos por cada cem avós. Parece que é verdade que é preciso uma aldeia para educar uma criança, mas a este ritmo essas aldeias não vão sobreviver muito mais tempo.

Mas vamos à pergunta: Qual é o país que está a passar pela maior queda de fertilidade alguma vez registada na história do mundo? Adoraria prolongar o suspense, mas vou directo ao assunto. É o Irão. Muita coisa se deve passar naquele país muçulmano para justificar uma queda do índice de fertilidade para um nível tão europeu de 1,5 crianças por mulher.

Em 1970 as mulheres iranianas tinham em média sete filhos. Uma queda tão abrupta – mais de cinco filhos por mulher – em tao pouco tempo, é como se uma frente fria acabasse de chutar o Inverno demográfico para os trópicos.

Este é apenas um ponto interessante do novo e estimulante livro de David P. Goldman: How Civilizations Die (And Why Islam is Dying Too) [Como Morrem as Civilizações (e Porque o Islão Também Está a Morrer)]. Os países islâmicos, tal como o Ocidente e o Japão, estão a optar pelo declínio, como muitos outros povos e civilizações fizeram antes deles.

Santo Agostinho acreditava que “para descobrir o carácter de um povo, temos apenas de observar o que amam”, era esta a sua explicação para a queda de Roma e, na verdade, qualquer nação. Goldman concorda e acrescenta: “os povos falham porque amam as coisas erradas.”

Segundo ele o Irão, consciente do seu declínio, é como um “animal ferido” – perigoso e instável. Antevendo a sua queda ou mesmo extinção, pode ter mais tendência para atacar, sentindo que não tem nada a perder.

Mas a análise de Goldman é mais do que uma hábil mistura de estatísticas e considerações geopolíticas. Abrindo novos horizontes para o pensamento, mesmo para aqueles que à partida simpatizam com os seus argumentos, chega ao coração da matéria: as influências espirituais da implosão demográfica.

A organização das nossas culturas secularizadas, apesar de todos os confortos, não satisfaz as nossas necessidades mais básicas: “Quando os homens e as mulheres perdem o sagrado, perdem a vontade de viver.” Isto porque as nossas vidas precisam absolutamente de um sentido que transcenda a vida.

Talvez seja essa a razão pela qual ele chama à implosão demográfica não só “a notícia mais sub-divulgada dos nossos dias”, mas também “o elefante na sala”. É mais difícil falar das coisas mais profundas, mesmo que sejam também as nossas mais prof-undas necessidades.

Goldman atribui a queda demográfica de hoje a uma “Perda de Fé”, a que chama o quinto cavaleiro do apócalipse (os outros são Guerra, Praga, Fome e Morte): “À medida que as sociedades tradicionais dão lugar à modernidade, a fé e a fertilidade desaparecem em conjunto.”

Os níveis epidémicos de suicídio entre povos indígenas da América, desde os Inuit do Canadá aos Guarani da América do Sul, são outra triste manifestação desta profunda deslocação.

O colapso do Irão não é tão diferente assim, argumenta, de aquilo que se passou com comunidades étnicas que em tempos se identificaram fortemente com a fé católica.

David P. Goldman
Os indices de fertilidade no Quebec, que durante muitos anos foram substancialmente mais elevados que o resto do Canadá, caíram mais de dois terços em menos de uma geração, durante a transição para a modernidade. Em 1982 mais de 42% dos homens e mulheres tinham sido esterilizados.

O índice de fertilidade da Polónia – “a nação cuja fé e heroísmo venceram a Guerra Fria” – atingiu agora o ponto incrível de 1,25. A Espanha passou de ter o mais alto índice da Europa ocidental, de longe, nos anos 70, para o mais baixo, em menos de 20 anos.

A conclusão de Goldman é que a religião, quando se confunde com etnicidade – com o sangue e a terra e noções de estatuto de eleição divina – conduz mais frequentemente a conflitos e tende a ser mais frágil perante a modernidade, sobretudo quando comparada com a religião baseada na consciência individual. Isto compõe grande parte da sua discussão sobre a cultura islâmica – “tribalismo elevado a um princípio universal” – mas também ajuda a explicar as significativas diferenças entre a Europa e a América, apesar da herança cristã comum.

O índice de fertilidade na América – que ronda o nível de subtituição – não é tanto um indicador de saúde como um período de graça. Estamos ainda em crescimento, e capazes de nos mantermos, enquanto que a Europa e o Japão estão-se a aproximar de um “ponto sem retorno”. Em 2050, no Japão, haverá apenas metade do número de potenciais mães que existem hoje.

No início deste ano um relatório indicava que mais de metade das crianças de mulheres americanas com menos de 30 anos nasciam fora do casamento. As implicações exactas desta grande cisão no equilíbrio humano são uma questão a debater. Mas no fim de contas toda a “dignidade e equilíbrio” da vida humana depende “em cada momento da história e em todos os pontos geográficos, de quem ela (mulher) será para ele (homem) e ele para ela”, como argumentou João Paulo II em 1980, declarações que viriam a fazer parte da sua “Teologia do Corpo”.

Talvez o já falecido Cardeal Dulles, que Goldman cita, tenha tido razão quando se mostrou preocupado de que o resíduo cristão na América pudesse não ser suficientemente forte para resistir às forças de secularização que tomaram conta da Europa.

Sem ligações ao passado nem confiança no futuro, indivíduos presos numa cultura moribunda “embrutecem os seus sentidos com álcool e drogas” e, num estado de desencorajamento, “abraçam a morte na infertilidade, concupiscência e guerra.”

O salário do pecado, escreve São Paulo, é a morte. O reverso disto contém outro truísmo: o conhecimento da morte, sem fé no dom da vida eterna, leva as pessoas e as culturas a pecados maiores.

O que precisamos mais de tudo neste tempo, em que o pecado e o stress, o desespero e a decadência abundam, é fé no conhecimento de que superabunda a graça.


Matthew Hanley é autor, juntamente com Jokin de Irala, de ‘Affirming Love, Avoiding AIDS: What Africa Can Teach the West’, que foi recentemente premiado como melhor livro pelo Catholic Press Association. O seu mais recente relatório, ‘The Catholic Church & The Global AIDS Crisis’ está disponível através do Catholic Truth Society, editora da Santa Sé no Reino Unido.

(Publicado pela primeira vez na quinta-feira, 19 de Abril 2012 em http://www.thecatholicthing.org/)

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1 comentário:

  1. Muitíssimo obrigado por esta divulgação de qualidade. Isto, sim, é jornalismo católico - uma e outra coisa sem contradição. Ou, se preferir, no jargão da esquerda laicista, jornalismo de causas. Com respeito, falar claro e sem respeitos humanos (sim, sim, não, não) é evangelicamente condição de não pecar contra o Espírito, aquele pecado que não tem perdão. Fernando Católico

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