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Friday, 26 May 2023

A lei é má, mas Deus é Bom

A lei da eutanásia já foi publicada em Diário da República. A partir de agora não há nada a fazer. Ou há? Foi isso que tentei saber neste artigo publicado no The Pillar, em inglês, cuja leitura recomendo.

Uma das pessoas que entrevistei para esta reportagem foi a presidente do Conselho de Ética, que apontou duas grandes falhas na lei, que os deputados ignoraram. Dada a importância das suas palavras para se entender tudo isto, decidi publicar na íntegra a transcrição do que ela me disse, em português, claro. Está aqui, não deixem de ler.

Ainda em inglês, tenho uma pequena nota sobre o assunto na edição desta semana do The Tablet, aqui.

Há anos que escreve sobre a questão da eutanásia. Era bastante evidente que este dia ia chegar, se calhar há sete anos poucos acreditavam que demoraria tanto… Desta vez, notei alguma saturação por parte das pessoas em relação ao assunto, daí que seja importante reafirmar muitas vezes, e de forma clara, que a eutanásia é sobre muito mais do que o direito de alguém escolher como e quando morrer e tem muito mais implicações do que apenas acabar com o sofrimento. A eutanásia estabelece que há vidas que são indignas, e isso é uma monstruosidade. Temos a obrigação de continuar esta luta. Não é fácil, pelo contrário, é muito difícil. Mas ainda bem! Se fosse fácil deixávamos para os outros.

O Papa vai estar em Portugal mais dias do que originalmente previsto. É, claro, uma excelente notícia!

Francisco pede liberdade para a Igreja na China, algo que tarda em manifestar-se!

Recentemente partilhei que o meu filho fez a primeira comunhão. Tenho outro, o mais velho, que será crismado no final do mês. Muitos de vocês estarão na mesma situação, tendo filhos, irmãos ou netos que estão a passar importantes marcos nesta altura, que é também tempo de ordenações. Leiam, por isso, este artigo do Stephen White no The Catholic Thing de hoje. É um texto simples para ler numa altura de incessantes polémicas e guerrinhas, para nos recordarmos de que Deus é Bom. Não é bonzinho, é mesmo Bom. Com B grande e tudo! Louvado seja!

Thursday, 25 May 2023

Doentes poderão pedir eutanásia só para ter direito a cuidados paliativos

Esta é a transcrição integral, no português original, da minha entrevista a Maria do Céu Patrão Neves, presidente do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, para a reportagem que publiquei recentemente no The Pillar

Incomoda o facto de os sucessivos pareceres negativos do Conselho terem sido ignorados?

O Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida não deu um Parecer negativo ou positivo; apreciou os textos das propostas de lei que lhe foram enviados, identificou os aspectos eticamente problemáticos e apontou caminhos alternativos a considerar, através das suas recomendações.

O facto de entidades públicas, nomeadamente as que detêm competências legislativas, solicitarem parecer ao CNECV, no âmbito das suas competências específicas, e posteriormente não o tomarem em consideração, evidencia que contributos que poderiam ser efectivamente integrados em prol de uma melhoria da qualidade legislativa não foram. São oportunidades perdidas.

 O Conselho tem um largo espectro de sensibilidades ideológicas, filosóficas, com um largo espectro de formação académica, científica, profissional, funcionando quase como uma micro sociedade. Por isso o parecer do conselho e os consensos que são possíveis de construir ao nível do Conselho, reflectem em grande parte a sensibilidade do que seria a sociedade portuguesa, se fosse possível ouvir cada um dos cidadãos.

Daí a nossa convicção de que as recomendações do Conselho deveriam merecer uma atenção maior por parte do legislador. Receamos que, por vezes, quando a lei exige um pedido formal de parecer, quando os processos democráticos de decisão estipulam como conveniente a solicitação de pareceres, nos quedemos pela formalidade, isto é, o parecer é oficialmente solicitado, mas não substantivamente acolhido. Importa reflectir sobre o teor desses mesmos pareceres e integrá-los, mesmo que não necessariamente na íntegra, atendendo a outros valores ou interesses que os legisladores tomem em consideração. Em todo o caso, surpreende-nos que, no mínimo, as grandes questões éticas apontadas pelo Conselho sobre o diploma da eutanásia, bastante sólidas do ponto de vista ético, e consensualizadas entre conselheiros que são a favor e contra a eutanásia, tenham sido ignoradas ou descartadas.

Esta não é uma realidade constante. Há outras situações em que os pareceres do conselho foram acolhidos, ainda recentemente, na regulamentação sobre a gestação de substituição: na segunda proposta de regulamentação, encontramos muitas das recomendações do Conselho à primeira proposta bem integradas. No que diz respeito à eutanásia, lamentavelmente, descartaram-se as recomendações do Conselho, não obstante serem absolutamente estruturantes.

Qual é a principal preocupação do CNECV agora?

Em relação a esta matéria, aguardamos a respectiva regulamentação. A lei já foi promulgada, e fica como está. Agora vamos apreciar a proposta de regulamentação na expectativa que possa vir a acautelar alguns aspectos, certamente menores, que apontámos anteriormente. Quanto aos estruturantes omissos…, perdeu-se a oportunidade. Identifico dois. O primeiro diz respeito ao facto de o texto aprovado e já promulgado sobre a eutanásia prever que quem solicita a eutanásia tem efectivamente acesso a cuidados paliativos. O Conselho pergunta se realmente a solicitação da eutanásia constitui uma porta facilitadora do acesso a cuidados paliativos sabendo-se que, em Portugal, apenas 30% da população que carece de cuidados paliativos tem acesso aos mesmos. 70% dos que necessitam de cuidados paliativos não têm acesso a eles. Agora temos uma lei da eutanásia que afirmar solicitar a eutanásia dá acesso aos cuidados paliativos. Parece francamente discriminatório e, no limite, quase que encorajador da solicitação da eutanásia, mesmo que depois se revogue esse pedido, utilizado como acesso a cuidados paliativos. Claro que esta interpretação é absurda, mas resulta do texto da lei.

O segundo aspecto é também bastante gravoso. Sendo ao abrigo do princípio da autonomia que se descriminaliza a eutanásia, verificamos que todo o poder ao longo do processo está nas mãos do médico orientador. Esta sua quase hegemonia tem o seu corolário no facto de ser ele a escolher e /ou a autorizar quem estará presente no acto de eutanásia. A pessoa que vai ser eutanasiada pode propor as pessoas que gostaria de ter presente nos seus últimos momentos de vida, mas a autorização tem de ser dada pelo médico assistente. Isto é um contrassenso, que não respeita de todo a autonomia de quem solicita a eutanásia.

Estes são apenas dois dos mais graves erros estruturantes que a actual lei apresenta, tendo havido extensa oportunidade para serem corrigir, o que não foi feito.

Vai nomear alguém para a Comissão de Avaliação?

O Conselho nomeará um conselheiro para integrar esta comissão quando tal nos for solicitado.

Thursday, 18 May 2023

Reacções à legalização da eutanásia

Aqui pretendo juntar as várias reacções que vão surgindo, de organizações de teor religioso, à legalização e promulgação da lei da eutanásia. Agradeço que partilhem outras que possam ainda não constar, para acrescentar. 

Conferência Episcopal Portuguesa

Comungamos da tristeza do Papa Francisco manifestada no passado dia 13 de maio, após a confirmação parlamentar do diploma sobre a morte medicamente assistida: “Hoje estou muito triste, porque no país onde apareceu Nossa Senhora foi promulgada uma lei para matar. Mais um passo na grande lista de países com eutanásia”.

Como reafirmámos por diversas vezes ao longo do processo legislativo que agora chegou ao seu termo, com a legalização da eutanásia quebra-se o princípio fundamental da inviolabilidade da vida humana e abrem-se portas perigosas para um alargamento das situações em que se pode pedir a morte assistida.

Com a despenalização da eutanásia, a vida humana está desprotegida e sofre um grave atentado ao seu valor e dignidade. A morte passa a ser apresentada como solução para a dor e sofrimento, ao invés de uma promoção dos cuidados paliativos humanizantes até ao fim natural da vida.

Leia o comunicado na íntegra aqui

Associação de Juristas Católicos

[A AJC] quer também deixar claro que este combate em defesa da vida não termina agora.

Está ainda aberta a possibilidade de declaração, através da fiscalização sucessiva, de inconstitucionalidades da lei em aspetos ainda não analisados pelo Tribunal Constitucional.

Há que apoiar os médicos e profissionais de saúde que, de diferentes modos, tentarão preservar as ancestrais normas deontológicas que, mais do que quaisquer outras, definem a sua missão ao serviço da vida.

Porque em democracia não há leis irreversíveis, não desistimos de propor a revisão desta lei na primeira ocasião em que tal venha a ser possível. A experiência de outros países diz-nos que é muito difícil e reversão de leis como esta (pelo contrário, têm-se sucedido muito rapidamente leis cada vez mais permissivas). Mas considerar intocável e indiscutível a legalização da eutanásia e do suicídio assistido contraria todos os princípios e regras democráticas.

Leia o comunicado na íntegra aqui

Associação dos Médicos Católicos Portugueses

Portugal vive hoje um dia negro da sua história, uma ocasião de afrontamento à dignidade dos portugueses.

Manifestámos publicamente, por mais diversas vezes, mormente desde que o processo parlamentar se iniciou, em 2017, quer junto dos órgãos decisórios quer junto da opinião pública, a nossa radical oposição à legalização da eutanásia em Portugal. 

Esta firme oposição mantém-se hoje como então e assenta na ética médica e no Código Deontológico, que não pactuam com a lei aprovada.

De novo reiteramos que a eutanásia e o suicídio assistido atentam contra a própria Medicina, são atos vedados aos médicos, não são atos médicos.

Quando os médicos se deparam com um doente em sofrimento de grande intensidade, cuidam e acompanham-no com humanidade e proximidade. Dispomos hoje de meios muito eficazes, para apaziguar o sofrimento físico, psicológico e espiritual dos nossos doentes.

Leia o comunicado na íntegra aqui

Grupo de Trabalho Inter-Religioso | Religiões-Saúde

A aprovação da lei que agora se discute constituiria um tremendo e grave ato de demissão coletiva face aos membros mais vulneráveis da sociedade que constituímos, para com os seus membros mais frágeis. Ora, há um princípio ético que as religiões que representamos ofereceram à civilização que somos, de tal modo que, tendo origem religiosa, faz já parte do sentir comum da sociedade, constituindo um traço civilizacional essencial, determinante e estruturador: os mais vulneráveis têm no próprio facto da sua vulnerabilidade um título de especial dignidade e requerem especial solicitude.

(…) 

A situação que decorreria da legalização da eutanásia e do suicídio assistido, precisamente porque pode empurrar para a morte os frágeis e os vulneráveis, é um atentado aos seus direitos humanos fundamentais: a vida, a dignidade e a liberdade. Ainda que isto seja supostamente feito em nome da qualidade de vida, da dignidade da pessoa e da liberdade individual.

(...)

Aliança Evangélica Portuguesa; Comunidade Hindu Portuguesa; Comunidade Islâmica de Lisboa; Comunidade Israelita de Lisboa; Igreja Católica; Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias; Patriarcado Ecuménico de Constantinopla; União Budista Portuguesa; União Portuguesa dos Adventistas do Sétimo Dia

Leia o comunicado na íntegra aqui

Federação Portuguesa pela Vida

A Federação pela Vida lamenta o dia, que se vestiu de negro, por ter sido promulgada a lei da Eutanasia. Triste! Dor e tristeza!

O País foi esquecido, os cidadãos ignorados, os valores do Humanismo descartados, a Ciência envergonhada, os profissionais de saúde ostracizados e dezenas de creditadas Instituições que se pronunciaram, foram silenciadas.

A aprovação e promulgação desta lei é um retrocesso e um caminho para a barbarie.

Leia o comunicado na íntegra aqui

Friday, 10 February 2023

Relatório à vista... Estejam preparados

Estamos a três dias da apresentação do relatório sobre abusos sexuais na Igreja portuguesa, feito pela Comissão Independente. Em antecipação desse momento, dediquei as passadas semanas a elaborar um documento que resume tudo aquilo que já se sabe sobre os abusos cometidos no âmbito eclesial. Aqui encontrarão todos os casos que foram tornados públicos em Portugal nos últimos anos, e o que se passou com cada um deles, incluindo os resultados de processos civis e canónicos. É evidente que o relatório trará muitas novidades, mas só conseguiremos compreender bem esse impacto se tivermos noção daquilo que já se sabe. Está tudo aqui, e caso saibam de mais algum caso que não esteja na lista, mas que tenha sido tornado público, informem-me para eu poder completar.

Preparei também uma série de questões que pedem resposta com este relatório. Quando ele for divulgado é natural que toda a gente foque sobretudo o número total de testemunhos recebidos e o número de alegados abusadores. Mas há muita coisa que é importante saber para se poder contextualizar bem esses dados. Qual o universo total de padres no país nos anos avaliados? Há uma estimativa do número de casos total, e não apenas dos denunciados? A comissão aceitou todos os testemunhos por si, ou houve algum método de avaliar a sua credibilidade? Vejam aqui aquelas que considero serem as questões fundamentais e, mais uma vez, partilhem comigo sugestões de outras que me possam estar a escapar.

O número de mortos devido ao terrível terramoto que afectou principalmente a Turquia e na Síria já ultrapassou os 15 mil, incluindo pelo menos um padre católico. Esta tragédia vem relevar o enorme sofrimento do povo sírio, já duramente afectado por anos de guerra, Covid, uma crise financeira terrível e sanções que são dirigidas aos governantes, mas que como sempre acabam por dificultar a vida aos mais pobres. A fundação Ajuda à Igreja que Sofre está no terreno a ajudar, sobretudo em Alepo e Latakia, e quem quiser fazer donativos para ajudar na reconstrução de casas de membros da comunidade cristã pode obter mais informação aqui. Os líderes da comunidade cristã pedem orações e solidariedade, mas todos concordam que é urgente acabar com as sanções para que o país possa finalmente reerguer-se.

Alguma vez ficou com dúvidas sobre se devia pedir coisas a Deus? Acontece a todos. Randall Smith explica porque é que não nos devemos preocupar mais com o assunto, e continuar a pedir e a bater à porta, neste artigo do The Catholic Thing.

Deixo-vos ainda com os meus artigos para o The Tablet sobre o chumbo pelo Tribunal Constitucional de mais uma tentativa de legalizar a eutanásia, e ainda com o artigo que escrevi sobre a questão do palco para a JMJ.

Monday, 26 December 2022

O caso do Padre Rupnik e a purificação do templo

O mais recente escândalo que está a abalar o mundo católico é a da acusação de assédio sexual de religiosas por parte do famoso jesuíta e artista Marko Rupnik. Podem ler tudo o que se sabe sobre este caso aqui, mas leiam também a minha reflexão em que explico que embora haja semelhanças importantes entre o abuso de menores e as relações entre adultos, há também algumas diferenças fundamentais. Se isto justifica a forma como o Vaticano lidou com este caso? Não chego tão longe. A Igreja tem avançado muito na forma de lidar com situações de abuso de menores e talvez seja altura de aplicar algumas dessas lições a outras áreas, como esta. Leiam e comentem, ou no blog ou respondendo para mim, caso tenham alguma coisa a acrescentar. Todos somos poucos para contribuir para estas reflexões.

Várias instituições católicas escreveram ao presidente Marcelo Rebelo de Sousa a pedir que ele vete a lei da eutanásia.

O ex-reitor do Santuário de Fátima critica a actual gestão daquele espaço, pedindo uma “purificação do templo”.

Nos últimos dois dias foram raptados mais dois padres na Nigéria. Uma praga sem fim naquele país.

As discussões sobre masculinidade estão na moda. Por um lado, os que insistem que qualquer característica masculina é “tóxica” e do outro os que consideram que um verdadeiro homem deve ser musculado, usar barba, fumar cachimbo e tratar a mulher com condescendência. Onde está o bom-senso? Felizmente ainda existe e o artigo desta semana do The Catholic Thing em português é um bom exemplo disso, com Stephen White a argumentar que se queremos homens que vivem a sua masculinidade de forma saudável não temos de fazer mais do que educá-los para a virtude. Leiam que vale mesmo a pena, e partilhem, sobretudo com homens e jovens pais.

O Mundial acabou, com o troféu a ir para o país do Papa e do jogador com uma tatuagem gigante de Jesus no braço. Fui acompanhando e sublinhando as dimensões religiosas do torneio no Twitter, podem ver aqui, ou aqui, caso não tenham conta no Twitter.

Esta semana, por estarmos em vésperas do Natal, não há Hospital de Campanha, mas se ainda não o fizeram ouçam o mais recente episódio, sobre como amar os mais frágeis da nossa sociedade.

Monday, 12 December 2022

Amar Jesus nos marginalizados, a caminho do Natal

Espero que tenham tido um óptimo feriado. Para mim o 8 de Dezembro é especial, porque faz 17 anos que comecei a construir a maior e mais bela obra da minha vida. O dia em que me casei. Pude voltar ao local onde tudo começou, agora com os meus filhos, e ver a Igreja de Santa Isabel, em Lisboa, já com as obras de restauro praticamente concluídas. Se tiverem possibilidade visitem, porque está absolutamente espetacular!

Nas notícias, temos esta semana um novo episódio do Hospital de Campanha. Neste episódio conversamos com Luís Abrantes, que trabalha no Vale de Acór, e nos ajuda a compreender como é possível ver Jesus nos marginalizados, nas feridas da sociedade, naqueles que o mundo acha que são descartáveis. É uma excelente maneira de entrar no espírito de Natal, o verdadeiro espírito de Natal, que celebra e encontra a dignidade na fragilidade.

Todos sabemos o que é uma Conferência Episcopal. Mas para que serve uma Conferência Episcopal? E, mais importante, para que é que o Papa Francisco acha que servem as conferências episcopais? Um artigo interessante a ler no The Catholic Thing desta semana.

E por falar em dignidade, voltamos ao tempo em que essa palavra aparece travestida. Tal como “compaixão”. Eu acredito na boa-vontade de muitos dos que nos tentam convencer que a eutanásia pode ser um acto de bondade. Mas é preciso mostrar que estão enganados e que nada há de digno numa morte higienizada, encomendada e receitada. Não tenho sobre isso nenhum texto novo, mas tenho uns quantos antigos que não perderam actualidade. Comecem por este, depois é só seguir os outros links.

O Papa Francisco escreveu uma carta ao povo ucraniano. A carta é bonita, mas aparentemente não diz nada em especial de novo. Olhando mais de perto, contudo, encontramos uma frase que mostra o que acontece quando volumes e volumes de teoria esbatem de frente com a realidade. Leiam aqui como o Papa reconhece implicitamente, nesta carta, que existem guerras justas e que a batalha que os ucranianos travam encaixa nessa definição.

Como sabem, gosto especialmente de realçar o cruzamento entre o futebol e a religião, sem, claro, sacralizar o desporto. O meu mais recente artigo para o World Mission é precisamente sobre esse fenómeno. Cliquem aqui, nem que seja para ver a belíssima fotografia que escolheram para acompanhar o texto.

Friday, 7 October 2022

Bélgica condenada por eutanásia e sanções para Ximenes

Há sondagens que indicam que há cada vez mais católicos a duvidar da presença real na Eucaristia? Neste artigo do The Catholic Thing, Randall Smith argumenta que o problema está a montante. Conseguimos acreditar num Deus que nos ama pessoalmente? Que se interessa por nós? Tudo segue daí.

A semana passada já tinha falado da situação de D. Ximenes Belo, que tanto quanto sei continua desaparecido. Entretanto soubemos que o Vaticano impôs-lhe sanções. Têm aqui a notícia em português, aqui o meu artigo para o The Tablet, em inglês.

O que é interessante as apenas em 2019, o que deixa por explicar tudo o que se passou nos 17 anos anteriores. Este é um dos assuntos que, se Deus quiser, será discutido no próximo episódio do Hospital de Campanha. Será o terceiro episódio seguido sobre a questão dos abusos, o que é um sinal dos tempos. Se ainda não ouviu os dois episódios de conversa com Pedro Gil sobre os abusos em Portugal, faça-o aqui e aqui.

Este e outros casos, incluindo as recentes alegações contra D. José Ornelas, continuam a ser reunidas aqui.

Temos notícias boas do Líbano, onde a fundação Ajuda à Igreja que Sofre ajudou uma escola técnica a resistir à crise e a continuar a servir a população, mas más notícias de Moçambique, onde o bispo de Nacala contou, à mesma instituição, como terroristas degolaram três cristãos e mataram outras oito pessoas nas últimas semanas.

Ontem surgiu uma notícia que infelizmente, não teve eco em Portugal. O Tribunal Europeu dos Direitos do Homem condenou a Bélgica num caso sobre a eutanásia. O Tribunal considerou que a Bélgica violou o direito à vida na forma como lidou com o processo de investigação à morte de uma senhora que sofria de depressão. O processo de eutanásia foi aceite por um médico activista da eutanásia que antes tinha recebido dela um donativo. A família dela nunca foi avisada. Depois de morta, quando se abriu um processo para saber se tinha havido irregularidades, o mesmo médico fez parte da comissão! Tudo inacreditável… Mas o que vale é que por cá nos dizem que vai ser tudo diferente, vai tudo correr bem.

Eu entrevistei em tempos o advogado do filho desta senhora, que processou o estado belga. A versão portuguesa está aqui, a versão integral, em inglês, está aqui. 

Thursday, 28 April 2022

Vias Sacras, polémicas e obsessões: Hospital de Campanha - Episódio 4

Neste episódio o Duarte, a Inês e eu falamos sobre a Via Sacra de Sexta-feira Santa em Roma, analisando algumas das meditações que este ano se centraram em diferentes tipos de vida familiar, com partilhas extraordinárias.

Mas a Via Sacra foi também alvo de alguma polémica, com os católicos ucranianos a manifestar o seu desagrado pela ideia de juntar uma família ucraniana e outra russa na 13ª Estação. Afinal de contas do que se queixam os ucranianos em relação a Roma e ao Papa Francisco? Têm razões para isso? Falámos bastante sobre o tema.

Por fim, olhámos para a obsessão do Governo e de certos partidos com a legalização da Eutanásia em Portugal.


Ouçam, partilhem, comentem connosco! Nós estamos muito contentes com este projecto e o feedback que temos tido até agora tem sido bastante positivo. 

Podem ouvir no Spotify ou no Google.

Wednesday, 16 March 2022

Vendendo o Homicídio

Francis X. Maier

O que vou fazer aqui é publicidade pura, mas o produto merece. Se ainda não viu a curta-metragem “Perdoai as Nossas Ofensas”, na Netflix, que saiu no dia 17 de Fevereiro, arranje maneira de o fazer rapidamente. O filme tem pouco mais de 14 minutos e quase que parece um trailer para uma longa metragem. Nem se trata de uma obra de genialidade cinematográfica. O guião, a realização e a produção são muito simples, quase primitivos. E, contudo, como escreveu um crítico, está cheio de “notas de tensão, acção dramática e descompressão que normalmente esperaríamos num filme de visão mais alargada”. Enquanto “grande filmografia em pequena escala” é um sucesso. É por isso que é memorável.

Dezenas de filmes têm sido feitos sobre a tragédia do Holocausto ao longo dos últimos 70 anos. Mas poucos examinaram o programa que antecedeu a Solução Final e permitiu aperfeiçoar as suas técnicas. Entre 1939 e 2945, a campanha Aktion T4, do Terceiro Reich, assassinou 300 mil pessoas com deficiências físicas e mentais através da eutanásia involuntária. Através da propaganda oficial do Estado, as matanças eram vendidas como um acto de compaixão pelas vítimas, de necessidade económica para a nação e geneticamente benéfico para o povo alemão.

“Perdoai as Nossas Ofensas” conta uma história muito diferente: a história de uma mãe que sacrifica a sua vida para ajudar o seu filho deficiente a fugir a uma campanha de desumanidade clinicamente organizada.

Como é que a nação supostamente mais avançada da Europa, do ponto de vista cultural, embarcou numa tarefa destas? É tentador explicar o programa Aktion T4 como sendo o fruto da ideologia Nazi. Mas isso seria incompleto. Grande parte do corpo médico alemão tinha “seguido a ciência” e aceitado como benéfica a esterilização forçada e a eutanásia voluntária, e não só, antes de Adolf Hitler chegar ao poder. Foram médicos e cientistas, e não os capangas do Partido Nazi, que abraçaram a ideia em primeiro lugar. O Reich simplesmente tirou proveito do seu apoio implícito e, por vezes, entusiástico. Pessoal médico falsificou milhares de certidões de óbito para disfarçar os homicídios da Aktion T4. E muitos desses mesmos médicos escaparam à justiça depois da guerra.

De início as matanças envolveram injecções letais individuais. Mas isso demonstrou ser uma solução morosa e muito desproporcional à dimensão do “problema” da deficiência. O programa evoluiu até chegar a um veículo selado que podia matar dezenas de deficientes e indesejados ao mesmo tempo, através do bombeamento de monóxido de carbono. Em locais como o asilo psiquiátrico de Hadamar, as vítimas – frequentemente descritas como “cascas humanas” – eram gaseadas em massa numa cava disfarçada de balneário.

Na sua história brilhante, emocionante e profundamente perturbadora da Aktion T4, “Death and Deliverance”, o historiador britânico Michael Burleigh escreve que os deficientes eram despidos, pesados e examinados por um médico que escolhia uma “causa de morte” fictícia de uma lista de 61 factores. Depois

os doentes desciam uma dezena de degraus, em grupos de 60 de cada vez, e eram fechados na câmara de gás. Um médico posicionado na parte de fora ligava a válvula e o gás entrava por um cano. Longe de ser uma “morte tranquila” as vítimas experimentavam terror extremo, bem como todos os sintomas de envenenamento por dióxido de carbono. Depois de uma hora, restava o silêncio.  

Entrava então uma equipa de “desinfectadores” para desembaraçar os cadáveres. “Aqueles que tinham sido marcados de antemão como sendo de especial interesse científico”, nota Burleigh, “eram separados e levados para uma sala de autópsia ali perto. Os seus cérebros eram depois enviados para clínicas universitárias em Frankfurt e Würzburg”. Depois de se retirarem os dentes de ouro dos mortos, os seus corpos eram incinerados num crematório. As cinzas eram espalhadas e os ossos esmagados numa prensa.

O Holocausto veio apenas aplicar este procedimento numa escala muito maior, com três inovações: balneários maiores, fornos maiores e gás Zyklon B.

Sondagens secretas feitas na altura pelo Reich revelaram que o povo alemão estava muito dividido e inquieto sobre o assunto. Quanto mais religiosa fosse a pessoa, o mais provável que se opusesse ao Aktion T4. Mas muitos cidadãos comuns apoiavam a campanha de eutanásia, desde que fosse apresentada como “voluntária” por parte das vítimas adultas, ou pelos pais, no caso de crianças.


A propaganda do Reich teve muito cuidado em suavizar a percepção pública da campanha, apresentando o programa de eutanásia da melhor forma possível. Isto incluía a produção de melodramas de qualidade como o “Eu Acuso”, um filme de resto desprovido dos toques nazis normais.

A história de “Eu Acuso” envolve um casal atraente e fiel. A mulher, que sofre de uma doença terminal, suplica ao seu marido para pôr fim ao seu sofrimento. Movido por amor e pelos seus apelos insistentes, ele mata-a e é imediatamente levado a tribunal como homicida. Mas sem qualquer arrependimento, o marido deslumbra o tribunal com palavras que vos poderão soar familiares.

Aqui estou eu, o acusado, e agora sou eu que acuso. Acuso os defensores de crenças passadas e leis antiquadas. Isto não diz respeito só a mim, mas a centenas de milhares de outros que sofrem sem esperança, cujas vidas prolongamos de forma antinatural, e cujo sofrimento aumentamos na mesma medida… E é sobre os milhões de pessoas saudáveis, que não podem ser protegidas contra doença, porque todos os recursos necessários estão a ser usados para manter vivos seres cuja morte seria para eles um alívio e para o resto da humanidade a libertação de um jugo… E agora, senhores juízes e jurados, façam favor de ler a vossa sentença!

Muitos clérigos católicos e luteranos resistiram ao programa de eutanásia como puderam. O mais vocal de entre eles foi o Beato Clemens August Graf von Galen, bispo de Münster. Mas muitos outros mantiveram-se em silêncio. Tipicamente as instituições de deficientes, que frequentemente eram de natureza religiosa, cediam à pressão do regime e entregavam os seus residentes para “tratamento”.

E de que serve recordar tudo isto? Aqui e hoje tal coisa não seria possível. Suicídio medicamente assistido? Milhões de abortos? Venda de restos mortais de fetos? Experiências com tecido fetal? Funcionários públicos católicos que ignoram ou permitem tais coisas? Aqui não seria possível!

Ou então, talvez tenhamos as nossas próprias ofensas que precisam de ser perdoadas.

Para mais informação sobre este assunto aconselho a ver o premiado (e angustiante) documentário Selling Muder: The Killing Films of the Third Reich, também escrito por Michael Burleigh e disponível no YouTube.


Francis X. Maier é conselheiro e assistente especial do arcebispo Charles Chaput há 23 anos. Antes serviu como Chefe de Redação do National Catholic Register, entre 1978-93 e secretário para as comunidades da Arquidiocese de Denver entre 1993-96.

Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Sábado, 5 de Março de 2022)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

Friday, 5 November 2021

A Cultura da Morte não desiste, persiste

Raffaella Petrini, a Franciscana do Francisco
Sem surpresas, o Parlamento voltou a aprovar a lei da eutanásia, agora com umas pequenas alterações que na verdade não mudam coisa nenhuma. As confissões religiosas voltaram a manifestar-se contra e a Associação de Juristas Católicas espera que o Presidente vete o diploma.

Um novo relatório sobre abusos sexuais, desta vez no estado do Nebrasca, nos Estados Unidos. Há, como sempre, histórias arrepiantes e muita coisa para envergonhar a Igreja, mas há também dados positivos como o facto de se comprovar, novamente, que as medidas de prevenção adotadas no ano 2000 resultaram e continuam a resultar.

Sobre o mesmo tópico, o Papa mandou uma carta à Igreja francesa, ainda a recuperar do escândalo do seu próprio relatório (sobre o qual escrevi aqui), a dizer que está solidário como eles para carregarem juntos o fardo da vergonha. E em Portugal os bispos prometem continuar a acompanhar o assunto.

A Grécia juntou-se aos países que proíbe a matança ritual de animais para consumo, deixando assim as comunidades islâmicas e judaicas sem outra opção que não importar carne kosher e halal e com um forte sentimento de não serem bem-vindos…

Conheça aqui a mulher que ocupa um alto cargo no Vaticano. É franciscana e cientista política.

Costuma rezar pelos padres que acompanharam a sua família? Não deixe de o fazer, porque é bem possível que mais ninguém o faça. Tudo explicado no artigo desta semana do The Catholic Thing.

Thursday, 4 November 2021

Higiene democrática e orações sacerdotais

O Parlamento discutiu esta quinta-feira a nova versão da lei da eutanásia, que será votada amanhã. A Federação Portuguesa pela Vida diz que a oposição à lei é uma “questão de higiene democrática” e o presidente da Conferência Episcopal questiona a legitimidade do processo.

Há 20 anos que a eutanásia é legal na Holanda e na Bélgica, mas só agora, segundo este especialista, é que as consequências para os médicos se estão a começar a fazer sentir.

Vale ainda a pena ler a opinião de Henrique Leitão, de José Pedro Ramos Ascensão e de Manuel Fúria sobre o assunto.

Os bispos vão rezar em Fátima pelas vítimas da pandemia.

Os jesuítas abriram um “serviço de escuta” para vítimas de abusos sexuais, num dia em que o Papa apela ao fim do “silêncio cúmplice” por parte da Igreja nesta matéria.

Numa semana em que tanto se falou de morte, pelas boas razões (2 de Novembro) e pelas más (eutanásia), o artigo do The Catholic Thing em português fala da importância de se rezar pelos mortos, sobretudo pelos que não têm descendentes que rezem por eles… Os padres!

Tuesday, 2 November 2021

A morte, sob várias perspectivas

Estamos a dois dias da votação da nova versão da lei da eutanásia. A Associação de Juristas Católicos critica este processo, o Dr. Pedro Vaz Patto, juiz desembargador e presidente da Comissão Nacional de Justiça e Paz espera que Marcelo Rebelo de Sousa vete a lei e o especialista em bioética, Michel Renaud, explica porque é que a lei – seja aprovada ou não – não presta.

O Papa Francisco esteve esta terça-feira no cemitério militar francês em Roma, onde criticou “as vítimas da guerra que devora os filhos da pátria”. Francisco mandou também uma mensagem para a Cimeira Climática que está a decorrer em Glasgow.

Chamo a vossa atenção para a entrevista conjunta da Ecclesia e da Renascença desta semana, com o provedor da Irmandade da Misericórdia e São Roque. Os voluntários da irmandade acompanham enterros daqueles que morrem sozinhos e Mário Pinto fala sobre a terrível pandemia de solidão que afeta cidades como Lisboa.

Este fim-de-semana decorreu o V Fórum Europeu One of Us, em Lisboa. Saiba o que se passou aqui.

E temos a lamentar a morte de D. Basílio do Nascimento, um homem que marcou muito Timor-Leste e que foi fundamental em garantir uma transição pacífica para a independência em Bacau, como não aconteceu em Dili e outras partes.

Friday, 29 October 2021

Eutanásia 2.0 é pior que a versão original...

A Renascença divulgou esta sexta-feira a nova versão da lei da eutanásia que os deputados vão votar na próxima quinta-feira. Fizeram alterações para tentar ultrapassar o chumbo do Tribunal Constitucional. Será que vai funcionar? O constitucionalista Paulo Otero diz que é pior a emenda que o soneto…

Joe Biden foi hoje ao Vaticano. Deu ao Papa um presente com um significado muito pessoal e conversaram durante mais de uma hora. No final, aos jornalistas, disse que não falaram do aborto, mas que o Papa o tinha encorajado a continuar a comungar. A polémica já está instalada. Saiba porquê.

A Universidade Católica vai acolher um simpósio internacional para promover a ideia da “aprendizagem-serviço”. O Papa Francisco e António Guterres gostaram da ideia e mandaram mensagens de incentivo.

Já todos sabemos que Portugal vai estar debaixo de chuva intensa estes dias, mas se estiver pelos lados de Fátima e quiser ir a um concerto de Rock cristão italiano, ao menos é num auditório.

Não deixem de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing, sobre conhecimentoque cega, em vez de iluminar.

Friday, 22 October 2021

A Caminhada Pela Vida é já no Sábado

Vem junta-te a nós...
É amanhã que se realiza a Caminhada Pela Vida. São dez cidades em simultâneo, sempre às 15h. Se acreditam na “dignidade e na beleza da vida”, ou se querem aproveitar para homenagear as vítimas da Covid, não deixem de aparecer!

Depois de uma primeira tentativa falhada, por causa da Covid, o Papa disse esta sexta-feira em entrevista que tenciona ir a Timor-Leste.

Recentemente falei do caso do padre que foi impedido de administrar os sacramentos ao deputado David Amess. Uma proposta no Parlamento britânico consagraria esse direito e ficaria associada sempre ao nome dele.

Bento XVI disse recentemente, numa carta, que espera juntar-se em breve a um amigo que morreu. Desejo de morrer? De todo, explica o arcebispo Ganswein, trata-se antes de uma antiga tradição cristã, a preparação para uma boa morte.

O líder do gangue que raptou 17 missionários no Haiti promete meter “uma bala na cabeça de cada um” caso não receba um resgate de 17 milhões de euros.

Não deixem de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing, sobre as possíveis consequências para o movimento pró-vida no caso de o Supremo Tribunal americano revogar o Roe v. Wade.

Thursday, 7 October 2021

Encontro de Médicos Católicos em Sintra, polémica em França

É já no sábado que se realiza o encontro da Associação de Médicos Católicos, no campus da nova faculdade de Medicina da Católica, em Sintra. Os temas em destaque são a pandemia e a eutanásia. Eu estarei lá para moderar uma conferência, mas há muito mais razões de interesse para não faltar! Médicos, estudantes de medicina ou apenas interessados, não percam! O programa e detalhes estão aqui.

Como prometido, trago-vos hoje o texto em que questiono o rigor do relatório sobre abusos sexuais de menores na Igreja francesa. Não se trata de uma defesa cega da instituição. Este é um problema muito grave que merece – mesmo por respeito às vítimas – ser tratado com rigor, o que não me parece ter sido agora o caso.

Entretanto os efeitos do relatório já se fizeram sentir, com Macron a chamar o presidente da Conferência Episcopal Francesa para falar sobre o segredo da confissão.

Boas notícias do Curdistão iraquiano, onde o Governo regional cedeu um distrito para ser gerido pela maioria cristã que lá vive. Saiba mais aqui.

Não deixem de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing, sobre as possíveis sementes do Evangelho que foram plantados no Afeganistão.

Wednesday, 28 July 2021

Comer os Deficientes? Sigam a Ciência!

Nota: Já tivemos algumas experiências desagradáveis com textos desta natureza, por isso deixamos um aviso. O leitor poderá encontrar neste artigo algumas notas de sátira, explicadas pelo conteúdo do último parágrafo. – Os Editores

A mente funciona de forma curiosa: as memórias e as ideias cruzam-se, conduzindo umas às outras. Como neste caso: eu adoro ficção científica, e por isso dei por mim, recentemente, a rever o filme Soylent Green, de 1973, com Charlton Heston e Edward G. Robinson. A história desenrola-se numa distopia marcada por sobrepopulação e desastre ecológico. Com a vida animal e vegetal destruída, as pessoas subsistem à base de bolachas orgânicas, Soylent Encarnado e Soylent Amarelo – manufacturadas pelo gigante transnacional, Soylent Industries.

A vida é dura e difícil. As pessoas são encorajadas a optar pelo suicídio assistido no centro de eutanásia local, em vez de morrerem nas ruas. Caso o façam, antes de serem terminados são recompensados com uma breve imagem da beleza assoladora do planeta antes de ter sido estragado. Mas surgem boas notícias. Um produto novo e melhor, Soylent Green, acaba de ser lançado, mais saboroso e nutritivo que os anteriores. O segredo, conforme descobre o nosso herói, desempenhado por Heston, está na fonte do novo produto: cadáveres humanos.

Naturalmente, o herói fica horrorizado. Mas pensando bem, será que isso faz sentido?

Pensemos por uns momentos. No estado de Washington já estamos a fazer compostagem com cadáveres. Outros estados estão a pensar no mesmo. A revolta contra o consumo daquilo que outrora foram pessoas é claramente uma norma cultural herdada de um passado pré-racional. Para que é que servem as ciências sociais, se não para nos conduzir da escuridão das patologias sentimentais, para a luz de um futuro mais racional? Não é essa a essência das nossas profissões de assistência?

Jonathan Swift compreendia isto. Ele era um homem à frente do seu tempo. No seu ensaio “Uma proposta modesta” (1729), que alguns idiotas insistem em chamar “sátira”, Swift avança, com muito bom-senso, uma solução para o problema da pobreza e sobrepopulação da Irlanda naqueles tempos. Os pais irlandeses deviam vender os seus bebés aos ricos para comer. Parece uma crueldade, mas o que é pior? A garantia de uma vida horrível de pobreza para recém-nascidos – que, de acordo com alguns bem-pensantes modernos nem serão bem “pessoas” ainda – ou melhorar os padrões de vida de toda a gente com um caminho lucrativo e satisfatório para a independência económica? Note-se ainda que este género de pensamento futurista faz sentido do ponto de vista ambiental e implica menos prejuízo para as preciosas espécies animais.

No século passado assistimos a alguns passos no sentido de uma sociedade orientada pela lógica, livre de emoções debilitantes. O Terceiro Reich é justamente odiado pelo seu lamentável registo de agressão e brutalidade, mas se deixarmos de lado por alguns momentos a invasão da Polónia e da Dinamarca, e já agora da Holanda, França, Noruega e Rússia – e o Holocausto, evidentemente – podemos ver um interesse genuíno, embora lamentavelmente estreito, pela ciência, sobretudo a ciências aplicada, por parte do regime.

Como Michael Burleigh demonstrou em “The Racial State” e “Death and Deliverance”, a causa da eutanásia obrigatória para os deficientes, doentes terminais e socialmente incapazes foi promovida não por políticos zelotes e ignorantes, mas pela comunidade médica e científica, numa campanha que data pelo menos desde 1900. Vários cientistas, médicos e intelectuais de outras disciplinas encontraram muito trabalho prático no regime Nacional-Socialista.

Charlton Heston em Soylent Green

Niall Ferguson escreve em “The War of the World” que 15 das 25 personalidades na equipa alemã que foi enviada para a Polónia depois da invasão de 1939 para limpar (a palavra “assassinar” tem uma conotação tão negativa) elementos negativos como judeus, padres e líderes culturais hostis eram homens com doutoramentos de universidades de topo na Alemanha. E é natural que assim seja. Grandes experiências como estas exigiam acções desagradáveis, mas determinadas por parte de pessoas com inteligência, visão e coragem para levar as coisas até à sua conclusão lógica. Tal como disse Lenine, numa circunstância semelhante (embora o comentário deva ser apócrifo): não se pode fazer uma omelete sem partir alguns ovos.

E sejamos sinceros: O Reich era muito bom a aprender com certas experiências. A remoção da sociedade alemã de mais de 300 mil pessoas consideradas, nos anos 30, como deficientes mentais, doentes sem esperança ou socialmente inúteis começou com uma operação desajeitada e cansativa de injeções individuais. Mas rapidamente se progrediu para campanhas de marketing articuladas e o uso de carrinhas móveis, e por isso mais baratas, para ajudar grupos inteiros a chegar à sua recompensa eterna com a ajuda de monóxido de carbono. Claramente foram aprendidas lições valiosas de organização, método e tecnologia que foram depois aplicadas noutros locais, de forma mais eficiente ainda e em muito maior escala.

Mas estou a divagar. Aqui na América, com excepção dos 60 milhões de abortos e mais algumas bizarrias, temos instintos mais decentes. E temos de falar sobre isso. A decência é, em si mesma, uma questão de consenso cultural, um artefacto ético flexível e – admitimo-lo – há muito que precisamos de actualizar o conceito. A verdade é que a “decência” é muitas vezes usada como mais uma desculpa humanitária para a cobardia, uma falta de vontade, herdada e pré-racional, para fazer o que é audaz, urgente e necessário.

Porque é que haveríamos de seguir o caminho egoísta da compostagem de cadáveres, quando temos milhões de pessoas a passar fome no mundo? Por falar nisso, a nossa indústria de aborto poderia, sozinha, alimentar a maior parte de África com os restos orgânicos. Desde que devidamente embalados, claro. E já agora, porque é que estamos a desperdiçar tanto tempo e recursos nos deficientes mentais e físicos, e nos doentes crónicos? O que é que eles contribuem para o mundo? Estamos diante de uma enorme fonte de alimentos e um grande passo em frente rumo à recuperação económica.

Temos de ver o Soylent Green através de olhos novos e limpos. Temos de seguir a ciência. Cantei comigo, irmãos! Sigamos a ciência.

Devo, contudo, terminar com um reparo. Eu e a minha mulher temos um filho com trissomia 21 e três netos com deficiências que vão do moderado ao grave. Estamos ainda, lamentavelmente, possuídos pelo obscurantismo religioso (Josué 24,15). Por isso, eu e os meus vamos servir os nossos amados – e não como patê. Devo admitir, porém, que não me importava de dar umas dentadas em alguns dos nossos gurus científicos e médicos.


Francis X. Maier é conselheiro e assistente especial do arcebispo Charles Chaput há 23 anos. Antes serviu como Chefe de Redação do National Catholic Register, entre 1978-93 e secretário para as comunidades da Arquidiocese de Denver entre 1993-96.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no sábado, 24 de Julho de 2021)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Tuesday, 16 March 2021

Inconstitucionalidade eutanasial

O Tribunal Constitucional decidiu que a lei da eutanásia viola a Constituição.

Os bispos e outras organizações católicas saudaram a decisão, embora sublinhando – ao contrário do acórdão – que a eutanásia é sempre um grave mal que viola o direito à vida.

Houve muita discussão sobre a decisão do tribunal, tendo em conta que a sentença diz que a eutanásia, propriamente dita, não viola o direito à vida. Assim, esta pode parecer uma vitória fugaz, mas sugiro que leiam com atenção esta entrevista a Jorge Silva Pereira, da Faculdade de Direito da Universidade Católica, que ajuda a pôr as coisas em perspetiva.

Hoje é o dia em que os portugueses são chamados a rezar pelas vítimas da pandemia. É uma iniciativa europeia e Portugal ficou com o dia 16.

Fantástica descoberta arqueológica em Israel!

Os Estados Unidos poderão ter em breve o seu primeiro juiz federal de religião muçulmana.

Não deixem de ler o artigo da semana passada do The Catholic Thing, sobre as semelhanças entre a Quaresma e a jardinagem.

Thursday, 4 February 2021

Dificuldade e drama em Fátima e fraternidade sinfónica

Dez professores de Direito, incluindo catedráticos e “pais da Constituição” deram a cara para o facto de a lei da eutanásia aprovada no Parlamento ser inconstitucional.

Difícil e dramático” é como o Santuário de Fátima descreve o ano de 2020, que assistiu a um decréscimo grande de receitas devido às medidas Covid.

O Papa participou esta quinta feira no primeiro Dia da Fraternidade e decretou que “ou somos irmãos ou nos destruímos uns aos outros”. A fraternidade, diz ainda o Papa, é sinfónica.

A Igreja Católica de Angola alerta para um “grave massacre” que ocorreu no final de janeiro. As vítimas seriam membros do Movimento do Protectorado Português de Lunda Tchokwe. Eu também desconhecia, mas aqui podem aprender mais.

Certamente já ouviram falar do livro “Quo Vadis”. O artigo desta semana do The Catholic Thing em português parte dessa obra primada literatura para retirar lições para os cristãos de hoje.

Friday, 22 January 2021

Eu não voto, mas se votasse não era nele

Desde os 14 anos que sou monárquico e nunca votei em eleições presidenciais. Faço-o conscientemente. Claro que há muitos monárquicos que votam nestas eleições, e não os critico, mas a minha forma de mostrar a minha discordância com o regime é de não participar no processo.

Pela mesma lógica não costumo comentar os candidatos ao cargo, mas escrevo este texto porque André Ventura tem-se tornado um fenómeno maior do que aquele que representa nestas eleições em particular e porque estou verdadeiramente preocupado em ver muita gente com quem em princípio me identifico – católicos ou cristãos, tendencialmente conservadores, preocupados com questões sociais como o aborto e a eutanásia, etc., – a deixarem-se levar por um fascínio que não só não compreendo como acho perigoso.

Uma última nota, antes de continuar. Há quem diga que os críticos do Chega da direita só temem a perda de influência dos seus partidos. Sobre isso sou insuspeito. Não tenho partido, nunca tive, muito menos exerci qualquer cargo ou tenho em perspetiva fazê-lo.

1 – A fraude

O André Ventura até pode ser mais ou menos simpático, não está em causa o gosto pessoal. O problema é que eu não confio em André Ventura. E não confio em André Ventura porque acho que ele é uma fraude.

É inteligente, sem dúvida; é articulado, sem dúvida; tem boa presença, sem dúvida e é cativante, evidentemente. Mas tudo isso só torna mais perigoso o fenómeno, porque a verdade é que eu não acredito por um segundo que ele concorde com uma fração das coisas que diz para cativar o eleitorado do Chega.

E isso – um político que prega aquilo em que não acredita, acicatando rivalidades e divisões para se promover e conquistar eleitores – é muito grave. Mas o populismo é isso mesmo.

Eu não acredito que Ventura seja contra o casamento homossexual, que seja contra a eutanásia e que seja contra a legalização do aborto. Há registos de ele ter defendido quase todas estas coisas, e mais, como a legalização da prostituição e alguns desses registos são até bem recentes. Um homem não pode mudar? Pode. O problema é que não vejo qualquer sinal de que essa mudança seja sincera e não um simples aproveitamento político.

Da mesma forma não acredito por um segundo que Ventura seja o devoto católico por que se faz passar, deixando-se fotografar ajoelhado em oração, afirmando sem vergonha na cara que a sua missão está intimamente ligada à mensagem de Fátima e depois criticando o Papa.

André Ventura é um actor. No teatro e no cinema isso não é vergonha nenhuma, mas na política faz dele uma fraude.

2 – As políticas

Há políticas que o Chega defende que são discutíveis, mas há outras que são pura e simplesmente inaceitáveis. A castração química é uma solução aparentemente fácil para um problema terrível, mas é uma solução que não tem provas dadas, tem efeitos secundários gravíssimos para a saúde e por isso jamais pode ser imposto a quem quer que seja.

A prisão perpétua atira pela janela toda a base de um sistema penal que tem por objetivo reformar o cidadão e não o castigar ad aeternum e toda a insistência na segurança faz passar uma imagem completamente falsa de Portugal ser um país inseguro, que não é. Da mesma forma, nunca, repito nunca, terá o meu apoio quem publicamente apelida pessoas – sejam quais forem os seus crimes – de monstros, como o Chega faz quando fala da questão da criminalidade.

Um dos problemas mais graves é mesmo a insistência na tecla dos ciganos. E o mais irónico é que eu acho que André Ventura foi mal compreendido quando, ainda candidato pelo PSD a Loures se tornou polémica a frase dele sobre os ciganos. Na altura ele disse que há um problema com os ciganos e foi crucificado por isso, mas é inegável que existe em Portugal – mais nuns sítios do que noutros – um problema com a integração dos ciganos. A forma como ele foi crucificado por um lado, mas elogiado por muitos, por outro, terá tido um papel no percurso que veio a seguir?

Agora, o discurso actual de Ventura sobre os ciganos é inacreditável. Propor leis específicas para membros de uma etnia? Está tudo maluco? E se reconhecemos que existe um problema com a integração dos ciganos, digam-me, por favor, como é que resolvemos isso cavando um fosso ainda maior entre ciganos e não ciganos? Hostilizando-os? Este género de discurso tem o condão precisamente de piorar as situações que pretende denunciar.

Por fim, o discurso desumanizante sobre os imigrantes é demoníaco. Sim, é esse o termo. Trata-se de criar um fantasma à volta de um problema que em Portugal simplesmente não existe e que acicata ódios e alimenta discursos xenófobos. Um cristão pode, naturalmente, defender a existência de regras e de limites à imigração, mas não pode, nunca, adoptar o tipo de discurso que o Chega adopta, sobre este assunto, muito menos o pode fazer invocando alguma espécie de messianismo fatimista. Mete nojo.

3 – Os apoiantes

Deixem-me clarificar já, para não ser mal-entendido. Se eu achasse que todos os apoiantes do Chega são idiotas, não estaria a escrever este texto. O que me preocupa é precisamente ver bons amigos, pessoas próximas, pessoas com as quais me identifico, a deixarem-se levar por este engodo.

A minha preocupação principal neste ponto é aquela franja de apoiantes do Chega que são inegavelmente de uma extrema-direita feia, porca e má e que estão a ganhar relevância e a sentir-se em casa no Chega.

Quando eu participo nas cerimónias do 10 de junho, em Lisboa, frente ao monumento de homenagem aos mortos nas guerras, sei que estão sempre lá os skinheads da praxe. Estão num grupinho, sozinhos, fazem a sua própria festa, mas não é possível olhar à volta e confundir o espírito do evento com a sua presença marginal. Portanto se eu visse que havia uma extrema-direita que votava Chega por achar que era o melhor que se arranjava, eu até compreendia. Mas não é isso que eu vejo. Eu vejo uma extrema-direita que se sente em casa no Chega e que o partido não se limita a aturar, mas que procura mesmo seduzir, com o discurso, com os gestos, com a simbologia. E isso… Bom, isso Chega para mim.

A imagem do apoiante de Ventura a fazer uma saudação romana durante o comício dele não é um infeliz acidente e a forma como outro se aproxima dele e o convence a baixar o braço não tem nada de condenação, mas de cautela e preocupação com a imagem. E este é apenas um caso de pessoas com claras conotações fascistas (uso o termo de forma pensada, e não como a esquerda que considera fascista tudo o que não esteja à esquerda do PSD) que estão felizes e entusiasmados no partido e não se vê nada da parte da estrutura para os demover ou para contrariar esse entusiasmo.

E por isso pergunto às pessoas de bem – os tais de quem o Ventura diz que quer ser Presidente – é neste barco que querem andar? São estes os vossos companheiros de viagem? Bem sei que a existência de fascistas e neo-nazis no partido não faz de vocês fascistas e neo-nazis mas devia, pelo menos, deixar-vos desconfortáveis. Deixa? É que eu não conseguiria estar ali de consciência tranquila. 

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