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Thursday, 25 May 2023

Doentes poderão pedir eutanásia só para ter direito a cuidados paliativos

Esta é a transcrição integral, no português original, da minha entrevista a Maria do Céu Patrão Neves, presidente do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, para a reportagem que publiquei recentemente no The Pillar

Incomoda o facto de os sucessivos pareceres negativos do Conselho terem sido ignorados?

O Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida não deu um Parecer negativo ou positivo; apreciou os textos das propostas de lei que lhe foram enviados, identificou os aspectos eticamente problemáticos e apontou caminhos alternativos a considerar, através das suas recomendações.

O facto de entidades públicas, nomeadamente as que detêm competências legislativas, solicitarem parecer ao CNECV, no âmbito das suas competências específicas, e posteriormente não o tomarem em consideração, evidencia que contributos que poderiam ser efectivamente integrados em prol de uma melhoria da qualidade legislativa não foram. São oportunidades perdidas.

 O Conselho tem um largo espectro de sensibilidades ideológicas, filosóficas, com um largo espectro de formação académica, científica, profissional, funcionando quase como uma micro sociedade. Por isso o parecer do conselho e os consensos que são possíveis de construir ao nível do Conselho, reflectem em grande parte a sensibilidade do que seria a sociedade portuguesa, se fosse possível ouvir cada um dos cidadãos.

Daí a nossa convicção de que as recomendações do Conselho deveriam merecer uma atenção maior por parte do legislador. Receamos que, por vezes, quando a lei exige um pedido formal de parecer, quando os processos democráticos de decisão estipulam como conveniente a solicitação de pareceres, nos quedemos pela formalidade, isto é, o parecer é oficialmente solicitado, mas não substantivamente acolhido. Importa reflectir sobre o teor desses mesmos pareceres e integrá-los, mesmo que não necessariamente na íntegra, atendendo a outros valores ou interesses que os legisladores tomem em consideração. Em todo o caso, surpreende-nos que, no mínimo, as grandes questões éticas apontadas pelo Conselho sobre o diploma da eutanásia, bastante sólidas do ponto de vista ético, e consensualizadas entre conselheiros que são a favor e contra a eutanásia, tenham sido ignoradas ou descartadas.

Esta não é uma realidade constante. Há outras situações em que os pareceres do conselho foram acolhidos, ainda recentemente, na regulamentação sobre a gestação de substituição: na segunda proposta de regulamentação, encontramos muitas das recomendações do Conselho à primeira proposta bem integradas. No que diz respeito à eutanásia, lamentavelmente, descartaram-se as recomendações do Conselho, não obstante serem absolutamente estruturantes.

Qual é a principal preocupação do CNECV agora?

Em relação a esta matéria, aguardamos a respectiva regulamentação. A lei já foi promulgada, e fica como está. Agora vamos apreciar a proposta de regulamentação na expectativa que possa vir a acautelar alguns aspectos, certamente menores, que apontámos anteriormente. Quanto aos estruturantes omissos…, perdeu-se a oportunidade. Identifico dois. O primeiro diz respeito ao facto de o texto aprovado e já promulgado sobre a eutanásia prever que quem solicita a eutanásia tem efectivamente acesso a cuidados paliativos. O Conselho pergunta se realmente a solicitação da eutanásia constitui uma porta facilitadora do acesso a cuidados paliativos sabendo-se que, em Portugal, apenas 30% da população que carece de cuidados paliativos tem acesso aos mesmos. 70% dos que necessitam de cuidados paliativos não têm acesso a eles. Agora temos uma lei da eutanásia que afirmar solicitar a eutanásia dá acesso aos cuidados paliativos. Parece francamente discriminatório e, no limite, quase que encorajador da solicitação da eutanásia, mesmo que depois se revogue esse pedido, utilizado como acesso a cuidados paliativos. Claro que esta interpretação é absurda, mas resulta do texto da lei.

O segundo aspecto é também bastante gravoso. Sendo ao abrigo do princípio da autonomia que se descriminaliza a eutanásia, verificamos que todo o poder ao longo do processo está nas mãos do médico orientador. Esta sua quase hegemonia tem o seu corolário no facto de ser ele a escolher e /ou a autorizar quem estará presente no acto de eutanásia. A pessoa que vai ser eutanasiada pode propor as pessoas que gostaria de ter presente nos seus últimos momentos de vida, mas a autorização tem de ser dada pelo médico assistente. Isto é um contrassenso, que não respeita de todo a autonomia de quem solicita a eutanásia.

Estes são apenas dois dos mais graves erros estruturantes que a actual lei apresenta, tendo havido extensa oportunidade para serem corrigir, o que não foi feito.

Vai nomear alguém para a Comissão de Avaliação?

O Conselho nomeará um conselheiro para integrar esta comissão quando tal nos for solicitado.

Wednesday, 15 May 2019

Doação de Órgãos e Morte Cerebral

E. Christian Brugger
Nota: Recebemos de um leitor a seguinte pergunta, que nos pareceu merecer uma resposta cuidadosa por parte de um especialista em bioética.

Pergunta: A minha amiga enfermeira diz que os órgãos principais não podem ser doados a não ser que o dador esteja vivo, logo administra-se anestesia na altura em que são retirados. Se isto for correto, então o ato de recolher os órgãos provocaria a morte do dador, certo? Isto não é uma forma de eutanásia? Eu disse-lhe que a Igreja jamais aprovaria isto. Contudo, sempre ouvi dizer que a Igreja não só aprova como elogia a doação de órgãos. Podem esclarecer este assunto?

Se por órgãos principais a sua amiga quer dizer órgãos vitais, então o que ela diz é ambíguo. Os órgãos vitais são aqueles de que precisamos para permanecer vivos (como coração, um par de rins, um par de pulmões, fígado e cólon). A regra nos Estados Unidos, e na maioria dos outros países do mundo é o “dead donor rule” (DDR). Isto significa, ou pelo menos devia significar, que os órgãos vitais apenas podem ser recolhidos de dadores já mortos. Embora a oposição ao DDR tenha estado a crescer há mais de uma década (ver 123,4), a regra continua a prevalecer de forma universal na medicina de transplante.

O ensino moral católico sobre doação de órgãos também afirma o DDR (ver o Catecismo da Igreja Católica, #2296, 2301; Os parágrafos 15, 86 do Evangelium Vitae de João Paulo II e Ethical and Religious Directives for Health Care Services, 6thEd., 2018, nos. 29, 30, 62-64).

Ensina ainda que, como você diz, e bem, a doação de órgãos pode ser uma coisa boa. De facto, João Paulo II ensinou que, quando feito de forma eticamente aceitável, é um exemplo de “heroísmo do dia-a-dia”.

Logo, para melhor compreender a posição da Igreja é importante perceber bem o que significa “forma eticamente aceitável”.

Uma vez que a doação de órgãos vitais levaria alguém a sacrificar ou a prejudicar seriamente as funções corporais necessárias para a vida ou para uma saúde estável – isto é, põe em causa aquilo a que a teologia moral se refere como integridade funcional – não seria moralmente lícito, uma vez que ao escolhê-lo estaríamos a violar o dever que temos de cuidar da nossa própria vida corporal.

Mas também seria errado se prevíssemos que a doação de um órgão não-vital nos poderia levar a falhar em relação a um dever pré-existente. Por exemplo, se temos ao nosso cuidado uma criança deficiente e a doação de um órgão (como um único pulmão, por exemplo) tornaria essa tarefa mais difícil ou mesmo impossível, então não devemos doar o órgão a não ser que tenhamos a certeza moral de que a criança possa ser cuidada por outros. O contrário seria injusto para a criança.

Também seria moralmente condenável a doação de órgãos para transplante que envolvam o estabelecimento ou a transmissão de identidade pessoal (por exemplo, ovários, testículos ou cérebro); tal como é a doação por motivos moralmente triviais (por exemplo, a minha namorada sempre quis ter um olho azul, e eu tenho dois); por fim, a doação é inaceitável sem o consentimento livre do dador ou de um seu representante, ou caso existam formas acessíveis e menos prejudiciais (como o uso de órgãos bovinos) ou se a doação é motivada por recompensa económica. Em todas estas situações seria errado optar por doar órgãos.

No que diz respeito a dadores mortos, à partida qualquer órgão, incluindo órgãos que outrora eram vitais, pode ser recolhido, desde que se cumpram três condições: 1) se certifique que o dador está morto; isto deve ser feito por clínicos competentes, de acordo com critérios científicos responsáveis e aceites. Para evitar qualquer conflito de interesse, os médicos que determinam a morte não devem integrar as equipas de transplantes correspondentes. 2) o dador, ou um seu representante, devem dar o seu consentimento livre; e 3) a intenção por detrás da recolha dos órgãos deve ser boa (por exemplo, não se deve ter por objectivo o transplante de órgãos envolvidos na transmissão de identidade pessoal).

A questão da morte cerebral
Disse atrás que a doação de órgãos nos Estados Unidos é governada pelo DDR, e que quase todos concordam com este princípio.

Mas os comentários da sua amiga levantam uma questão importante no debate bioético, que está actualmente a ser debatido seriamente por especialistas cristãos.

A questão passa por determinar se indivíduos em morte cerebral, ventilados artificialmente, estão de facto mortos. Será que a morte neurológica é uma definição adequada da morte humana?

Para que os órgãos possam ser transplantados precisam de ser mantidos até ao momento em que são removidos. Logo, os corpos em morte cerebral são mantidos ligados a máquinas de respiração mecânica (ventiladores) que garantem que o sangue oxigenado chegue aos órgãos até que a equipa de transplante esteja pronta.

Durante anos ninguém questionou seriamente se corpos em morte cerebral podiam ser seres humanos vivos, partiam do princípio que sem o cérebro a funcionar, o corpo não conseguia sobreviver.

Mas em 2001 o chefe de neurologia do Centro Médico de UCLA, Alan Shewmon, um católico devoto, publicou investigação alarmante sobre corpos em morte cerebral ventilados. Ele demonstrou, de forma conclusiva, que há casos em que estes corpos são capazes de respirar (sem o auxílio de ventilação), mas de assimilar nutrição, sarar feridas, combater infeções responder ao stress, manter a homeostasia, crescer de forma proporcional e até gerar nascituros. Por outras palavras, comportavam-se tal como outros corpos humanos. 

Se aceitarmos a antropologia cristã mais básica, onde existe um corpo humano vivo, existe uma pessoa, por mais incapacitada que possa estar.

A investigação de Shewmon levou-o a concluir – e com ele vários notáveis cientistas e filósofos, incluindo católicos como Josef Seifart e Nicanor Austriaco – que alguns corpos em morte cerebral são seres humanos vivos que, erradamente dados como falecidos, são de facto mortos quando os seus órgãos são recolhidos para transplante. 

Com base nisto a minha conclusão é de que as provas levantam pelo menos sérias dúvidas e de que, perante tais dúvidas, temos obrigação moral de os tratar como se estivessem vivos, a não ser que as dúvidas sejam dissipadas.

Em breve realiza-se em Roma uma conferência patrocinada pela Academia João Paulo II para a Vida Humana e Família, precisamente sobre esta questão e Shewmon será um dos oradores.

Há centros e especialistas em bioética importantes nos Estados Unidos que discordam das conclusões de Shewmon. Infelizmente, contudo, alguns deles insistem que os que levantam dúvidas sérias sobre os critérios neurológicos são maus católicos. Baseiam-se no facto de João Paulo II ter dito, num discurso no ano 2000 que: “a cessação total irreversível de toda a actividade encefálica, se for aplicado de maneira escrupulosa, não parece contrastar os elementos essenciais duma sólida antropologia.”

Mas se, à luz de novas provas empíricas, questionamos um juízo provisório de um Papa, sobretudo quando esse juízo foi feito numa esfera – como é a medicina – sobre a qual ele não tem qualquer autoridade divinamente mandatada, isso não é certamente um ato de infidelidade.


E. Christian Brugger é professor de Teologia Moral no Seminário Regional de St. Vincent, na Flórida, onde vive com a sua mulher e cinco filhos. Foi reitor da Escola de Filosofia e Teologia da Universidade de Notre Dame Austrália, em Sidnei e é consultor teológico para a comissão de doutrina da Conferência Episcopal dos Estados Unidos. É autor do livro “TheIndissolubility of Marriage and the Council of Trent”.

(Publicado pela primeira vez na terça-feira, 7 de Maio de 2019 em The Catholic Thing)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com oconsentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 13 February 2019

Tão Maduro que Desilude

O Papa tem sido acusado de ter mão leve em relação a Nicolas Maduro. Pois hoje foi revelada uma carta escrita por Francisco em que se manifesta “desiludido” com o líder venezuelano, a quem nem sequer trata por Presidente.

O Vaticano aliou-se à Microsoft para promover a Ética na Inteligência Artificial. Vai haver um prémio internacional e tudo!

Foi aprovado o milagre que permite canonizar o cardeal John Henry Newman. São excelentes notícias.

Há quem tenha honras de capa, e há quem tenha capa de honras. O Papa conjuga os dois factores e diz que os “Portugueses são muito fortes”.

Os bispos dizem que desde 2001 os tribunais eclesiásticos analisaram cerca de uma dezena de casos de abusos. Recordo que podem ver aqui uma cronologia rigorosa de todos os casos que tem havido em Portugal nos últimos anos.

Um artigo de leitura obrigatória para quem se interessa pelo tema do aborto. Nos Estados Unidos torna-se cada vez mais claro que o direito ao aborto se estende até aos bebés que acabam por nascer vivos. Não se esqueçam que o que se passa lá, mais cedo ou mais tarde vem cá parar. Leiam e divulguem.

Wednesday, 11 April 2018

O Lento Veneno das Ideias Más

David Carlin
Todos os semestres lecciono uma cadeira de ética (filosofia moral) na faculdade onde trabalho. Digo aos alunos que não têm de concordar comigo; têm direito às suas próprias opiniões, ainda que estas estejam profundamente erradas. Mas tento persuadi-los de que algumas teorias de moralidade, embora populares, estão erradas.

Em particular, argumento contra três teorias populares mas, em minha opinião, perniciosas:

  • A teoria de que as normas que definem o que é certo ou errado são meras criações sociais.
  • A teoria de que somos livres de criar os nossos próprios códigos morais, individuais.
  • A teoria de que tudo é moralmente permissível, desde que não prejudique terceiros de forma evidente e tangível, sem o seu consentimento.

Por outro lado, argumento que existe uma teoria de moralidade verdadeira, nomeadamente a teoria de que todos os seres humanos normais têm um conhecimento inato das regras fundamentais da moralidade, por exemplo, não matar, não roubar, não cometer adultério, não abandonar os filhos, etc. Pode-se chamar a isto uma teoria de moralidade do “direito natural”, mas não insisto nesse nome.

Escusado será dizer que não convenço todos, nem sequer a maioria, dos meus alunos a concordar comigo. Consolo-me dizendo que isso não é grave. Porquê? Porque se calhar estou errado, e nesse caso espero que não concordem comigo. Ou se calhar estou certo e eles verão isso daqui a 30 ou 40 anos. Ou se calhar tenho razão mas eles nunca vão concordar comigo. Mas se Jesus apenas conseguiu persuadir 11 dos seus 12 discípulos, porque é que eu hei de ficar desencorajado por não conseguir convencer todos os meus alunos?

Mas há dias um jovem da minha turma chocou-me (na verdade, achei piada), ao defender clara e francamente uma teoria da moralidade que eu considero verdadeiramente terrível. Ele é um bom aluno, sincero e simpático, e não é de todo o género de miúdo que os professores por vezes encontram, aqueles que discordam do professor só para chatear. De todo, longe disso, é um bom miúdo.

Ele defendeu (não obstante eu ter tentado refutar essa teoria no início desse mesmo semestre) que todos os indivíduos criam a sua própria moralidade e, por isso, que o que é certo ou errado para ti poderá não ser certo ou errado para mim. Desde que tu faças o que crês, pessoalmente, estar certo, então está certo. Da mesma forma, se eu fizer aquilo que pessoalmente considero estar certo, então está certo.

Agora, sempre que um aluno meu defende esta posição eu jogo a cartada do Hitler. “Se o Hitler acreditava que o holocausto era a coisa certa, então achas que ele estava certo em assassinar seis milhões de judeus, para não falar de milhões de outros? É isso que estás a dizer?”

Quando meto o Hitler ao barulho, o aluno tende a recuar da sua afirmação. (Às vezes desconfio que Deus tenha permitido a Hitler cometer estes homicídios em massa para que os professores possam usá-lo como exemplo horrível nas discussões nas salas de aula.) Mas este rapaz não recuou. Ele defendeu a lógica da sua posição, dizendo que o que Hitler fez estava certo porque ele acreditava que sim, e por isso este meu aluno não o condenaria por fazer a coisa errada.

Ao mesmo tempo assegurou-me que ele próprio tinha uma moral pessoal muito diferente. Pessoalmente, jamais cometeria genocídio; seria errado fazê-lo, porque isso vai contra o seu código moral pessoal. Não duvido que seja assim, como disse, é um miúdo porreiro. Não tenho qualquer medo de homicídio em massa quando entro na sala de aula e ele está lá.

Partilha connosco a tu ideia própria de moralidade!
Mas isso recorda-me que podemos mudar de ideias mais facilmente do que de coração. Mudamos as nossas opiniões mais rapidamente do que os nossos sentimentos. E no mais fundo de todos os nossos sentimentos estão as atitudes morais que adquirimos na juventude e na adolescência.

As nossas atitudes morais, porém, sejam boas ou más, são diferentes das nossas opiniões morais. É por isso que é tão difícil convencer uma pessoa a abandonar maus hábitos. Os conselhos que lhe damos podem ser 100% sãos, mas ainda assim ele não se mexe. O mesmo se aplica, mutatis mutandis, às pessoas que crescem com boas atitudes morais.

Isto significa que as teorias morais más são inofensivas ou que as boas são inúteis? De todo. Se for uma pessoa com boas atitudes morais, então as teorias más provavelmente terão pouco impacto na sua conduta moral. Mas podem vir a ter um impacto sobre os seus filhos.

À medida que os educa, estará a dar-lhes um bom exemplo através da sua conduta (digamos, por exemplo, pela sua honestidade); mas a sua teoria dirá: “pessoalmente, acredito na honestidade, e espero que vocês também acreditem quando forem adultos, mas lembrem-se sempre que esta honestidade não passa de uma preferência pessoal. Lembrem-se de ser tolerantes para com os patifes, mentirosos e ladrões que por acaso não acreditam na honestidade”.

As teorias morais más, então, terão consequências morais más, e as teorias morais boas terão consequências boas. Mas isso não acontece de um dia para o outro. Levará uma ou duas gerações, talvez cem, duzentos ou trezentos anos. Jefferson escreveu: “todos os homens são criados iguais” em 1776. Isto implicava que a escravatura deveria ser abolida. Mas levou mais 87 anos e uma grande guerra civil até que isso acontecesse.

“As ideias governam o mundo”, disse certa vez um filósofo francês. E é verdade. Mas na maior parte dos casos isso apenas acontece de forma gradual. Hoje existem muitas más teorias morais por aí, não apenas a do meu aluno. Se não os combatermos, acabarão por nos destruir – se não a curto prazo, gradualmente.


David Carlin é professor de sociologia e de filosofia na Community College of Rhode Island e autor de The Decline and Fall of the Catholic Church in America


(Publicado pela primeira vez na sexta-feira, 6 de Abril de 2018 em The Catholic Thing)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 23 October 2013

Quem Queres Ser?

Randall Smith
Estávamos a discutir o extraordinário livro de Christopher Browning “Ordinary Men: Reserve Police Battalion 101 and the Final Solution in Poland”, no qual descreve as circunstâncias à volta do massacre de quase 2000 mulheres e crianças judaicas no dia 13 de Julho de 1942, na pequena aldeia de Józefów, na Polónia.

Em lágrimas, o comandante do batalhão, Major Wilhelm Trapp, explicou aos seus homens a “tarefa desagradável” que lhes tinha sido confiada. Cada mulher e criança da aldeia seria levada para a floresta e forçada a deitar-se de barriga para baixo na terra. Colocando as baionetas entre as omoplatas, os soldados deviam dar-lhes um tiro na nuca. Adolescentes, avós, crianças com seis meses: todos deviam ser mortos até à aldeia estar vazia.

Terminada a explicação da tarefa, Trapp fez uma oferta extraordinária: se algum dos homens de entre eles não tivesse vontade de participar, podia retirar-se. Dos cerca de 500 homens no batalhão, apenas 12 o fizeram.

Todos os semestres discuto com os meus alunos porque é que tão poucos aceitaram a proposta, recusando-se a tomar parte na matança. Há uma série de razões, cada um dos quais está detalhado no excelente livro do Prof. Browning. Alguns dos homens que participaram no massacre afirmam que não tiveram tempo para pensar devidamente no assunto; outros dizem que “os tempos e o lugar eram outros” e que “naquela altura as circunstâncias eram diferentes”. Outros ainda disseram que não queriam “parecer fracos” diante dos outros, como se matar mulheres e crianças inocentes fosse algo que os fizesse parecer fortes.

A maioria das razões dadas por estes homens para não se terem recusado a tomar parte no massacre parecem-me, basicamente, treta, excepto uma: alguns dos homens disseram que tinham medo do que lhes poderia acontecer caso recusassem as ordens: “E se alguém nos apontar uma arma à cabeça e disser que nos mata se não matarmos os prisioneiros? Com a arma encostada à cabeça, sob pena de ser executado, temos culpa se matarmos o preso? Temos o dever de preservar a nossa vida, não? Se sim, seria ‘imoral’ matar o preso para preservar a nossa própria vida?”

Com estas perguntas os meus alunos revelam ser jovens adultos intelectualmente desenvolvidos. Porém, isto revela também alguns dos perigos para as suas vidas morais que derivam de lhes ensinar a ética da forma como costuma ser ensinada. Um professor meu referiu, certa vez, que os livros que são mais frequentemente roubados de bibliotecas são de ética, o que comprova algo de que ele sempre tinha suspeitado: que os cursos de ética não costumam tornar as pessoas melhores e mais virtuosas, pelo contrário, tendem a torná-las piores. Um bocadinho de conhecimento pode ser uma coisa muito perigosa.


Não quero ser mal-entendido. Não estou a criticar todos os cursos de ética ou de teologia moral. Seria estranho, uma vez que lecciono um desses cursos todos os semestres. Não, o que me preocupa é a forma como a ética costuma ser ensinada. Há uma série de assuntos importantes envolvidos em todos os dilemas morais que os meus alunos propuseram.

Cemitério judaico de Józefów
Na teologia moral clássica há distinções muito bem definidas entre níveis de culpabilidade, dependendo no grau de voluntariedade ou involuntariedade do acto. Determinar correctamente a culpabilidade de um agente é crucial, por exemplo, num tribunal por parte de um juiz ou de um júri.

Nas gerações anteriores essa consideração desempenhava um papel importante no confessionário. Se me obrigarem a fazer algo contra a minha vontade, cometi um pecado? Talvez até um pecado mortal? Se for escravo num galeão muçulmano, por exemplo, (para citar um famoso caso histórico), devo recusar-me a remar para os meus supervisores muçulmanos se isso implicar a minha execução? Nestas circunstâncias o que é que constitui cooperação “formal” com o mal, que em certos casos é permissível? Todas estas questões são interessantes e importantes, em certos contextos e por razões particulares.

Mas neste caso eu prefiro colocar a pergunta aos meus alunos do seguinte modo: Tu és o homem ou a mulher que tem uma arma apontada à cabeça da mulher ou criança judia. Temes que, se não disparares, serás executado. O que é que esperas que seria a tua decisão? Por enquanto não me interessa saber o que pensas que seria a solução “moralmente correcta”. Nem quero avaliar a culpabilidade de outra pessoa envolvida na situação. O que quero saber, muito concretamente, é o que é que esperas que seria a tua decisão? Que tipo de pessoa queres ser? As nossas decisões formam-nos.

Invariavelmente os meus alunos respondem: Espero que seria a pessoa com a coragem para não disparar, mesmo que isso me custasse a vida. E aí têm a resposta.

Podemos falar de “moral” e de “ética” como se fossem uma série de regras abstractas que nada tivessem a ver com o nosso carácter ou com a nossa formação enquanto pessoas completas e íntegras. Quando compreendemos a ética desta forma errada damos por nós a dizer parvoíces como: “Eu sei que não é moralmente correcto, mas ainda assim acho que é a decisão certa”, ou: “Pode não ser a decisão mais moral, mas é a melhor decisão” – como se o acto “moral” estivesse numa categoria totalmente diferente do que é “bom”.

São Tomás de Aquino pedir-nos-ia para considerar que categoria de virtude é relevante nesta situação. No caso referido, a virtude relevante é a coragem. Então perguntamos o que faria uma pessoa corajosa. E ao escolher correctamente, tornamo-nos aquilo que escolhemos.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez na Quinta-feira, 17 de Outubro 2013 em The Catholic Thing)

© 2013 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Thursday, 12 January 2012

Never smile at a crocodile...

Onde é que se podem encontrar malabaristas e animais exóticos? No Vaticano, pelos vistos. Conheça aqui o crocodilo bebé que ontem foi conhecer Bento XVI.

Os terroristas islâmicos da Nigéria mostram que estão a aprender algo com os seus amigos da Al-Qaeda. Hoje o líder da Boko Haram apareceu num vídeo de 15 minutos a explicar porque é que anda a matar cristãos.

Esteve hoje em Portugal o Presidente da Associação Mundial de Juristas Católicos, que explicou que não se pode separar a ética, o direito e a política. Saiba aqui porquê.

Por fim, no mail que enviei na Terça-feira recorri ao sarcasmo quando parafraseei o Patriarca de Lisboa. Nem toda a gente compreendeu. Publiquei no blogue um esclarecimento e peço a todos desculpa por alguma confusão causada.

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