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Friday, 29 December 2023

O ponto mais baixo do pontificado de Francisco?

Com o ano a aproximar-se do fim, e no final de uma década de pontificado de Francisco, está na altura de perguntar se o Papa está a perder controlo da Igreja. A verdade é que a publicação do Fiducia Supplicans espoletou uma reacção que se vem juntar a uma divisão prolongada com as facções tradicionalistas, mas também com os progressistas na Alemanha e agora com uma diocese inteira da Igreja Siro-Malabar. Este artigo é uma versão mais curta de um que vai sair ainda hoje no site do Expresso e na edição impressa desta semana.

O tema das bênçãos para pessoas em uniões homossexuais foi, claro, um dos vários abordados no episódio desta semana do podcast E Deus Criou o Mundo, em que tive o privilégio de participar. Podem ouvir aqui. E fiquem atentos, porque também estarei no próximo.

Está a chegar ao final mais um ano de muitos conflitos. A fundação Ajuda à Igreja que Sofre dá-lhe uma lista de 10 países ou regiões que estão a precisar especialmente de orações.

Infelizmente o Natal passou com mais uma tragédia para os cristãos na Nigéria. São pelo menos 160 mortos e centenas de feridos no mais recente ataque.

Numa nota um pouco mais positiva, convido-vos a conhecer a história de Milad, um jovem sírio cujo nome significa Natal. Vale a pena ler, acreditem!

No artigo desta semana do The Catholic Thing o padre Paul Scalia analisa a diferença entre a pergunta que Nossa Senhora fez ao Arcanjo Gabriel, e a que Zacarias fez ao anjo que lhe anunciou o nascimento de João Baptista.

Thursday, 28 December 2023

Estará Francisco a perder o controlo da Igreja?

[Esta é uma versão resumida de um artigo que escrevi para o Expresso, que pode ser lida na edição impressa e no site]

O Pontificado do Papa Francisco poderá estar a atravessar o seu momento mais difícil, com crises em diferentes pontos do mundo católico a pôr seriamente em causa a autoridade de Roma e a própria unidade da Igreja.

A declaração Fiducia Supplicans causou bastante polémica na Igreja, com o Dicastério para a Doutrina da Fé a anunciar que pessoas em uniões homossexuais podem receber bênçãos. Sem surpresas, a ideia que passou para o mundo foi de que o Papa acabava de aprovar a bênção de uniões homossexuais, apesar de o texto dizer explicitamente que a bênção é para as pessoas, e em caso algum para a relação em si.

No seguimento dessa declaração aconteceu um facto muito pouco comum, com muitos padres, bispos, e até conferências episcopais inteiras, a dizer que não aplicarão a Fiducia Supplicans nos seus territórios.

Pelo menos 10 conferências episcopais, incluindo a Polónia e o Canadá, já reagiram negativamente ao documento, algumas proibindo explicitamente a sua implementação, e outras apenas reiterando a proibição de bênçãos específicas para relações e uniões homossexuais.

E se é verdade que algumas das reações negativas vieram dos “suspeitos do costume”, também há bispos que são tidos como próximos de Francisco, como Ambongo Besungo, da República Democrática do Congo, que faz parte do grupo de cardeais consultores do Papa desde 2020 e chegou mesmo a pedir uma resposta conjunta de todos os bispos africanos, na qualidade de presidente do Simpósio de Conferências Episcopais de África e Madagáscar.

Talvez uma das respostas mais firmes tenha sido do arcebispo maior Sviatoslav Shevchuk, que é o líder da Igreja Greco-Católica da Ucrânia, que se demarcou do documento, dizendo que ele não se aplica à sua igreja. Shevchuk e Francisco podem ter tido alguns desentendimentos por causa da guerra na Ucrânia, mas são amigos e conhecem-se há muitos anos, pois Shevchuk liderou a comunidade ucraniana na Argentina.

Alemanha e Índia

Entretanto a maioria dos bispos alemães continua a defender o seu “caminho sinodal”, que já apelou explicitamente a mudanças na doutrina moral e sexual da Igreja e tem um caráter marcadamente progressista e liberal.

Francisco criticou abertamente o “caminho sinodal”, dizendo que “a Alemanha já tem uma Igreja evangélica, não precisa de outra”, mas até agora tem evitado tomadas de posição mais firmes que possam acelerar a divisão ou mesmo promover uma rutura. Esta atitude, contudo, leva as alas mais conservadoras a estranhar a dualidade de critérios, recordando que o Papa tem tido mão firma contra outras comunidades, como por exemplo os tradicionalistas, que viram limitada a liberdade que o Papa Bento XVI tinha concedido para a celebração de missa de acordo com a liturgia anterior ao Concílio Vaticano II.

O clima de desconfiança entre Roma e os grupos tradicionalistas espalhados pelo mundo tornou-se conhecida como a “guerra litúrgica” e torna ainda mais bizarro o que está a acontecer neste momento na Índia, onde o clero de uma diocese inteira pode estar prestes a ser excomungado.

Trata-se da diocese de Ernakulam-Angamaly, a principal da Igreja Siro-Malabar, a segunda maior igreja católica de rito oriental do mundo, a seguir à já referida igreja ucraniana. A Igreja Siro-Malabar tem mais de quatro milhões de membros, e só a diocese de Ernakulam tem 500 mil, com pelo menos 400 padres.

Tal como outras igrejas de rito oriental, a Igreja Siro-Malabar tem a sua própria liturgia, de origem siríaca, muito anterior à chegada dos portugueses à Índia. Contudo, essa liturgia sofreu muitas influências latinas ao longo dos séculos, que a Igreja tem tentado retificar. Uma dessas influências levou a que em algumas dioceses, incluindo em Ernakulem, os padres passassem a celebrar a liturgia voltados para a comunidade, em vez de seguir a tradição de celebrar voltados para o altar.

Como parte do esforço de uniformização e regresso às raízes litúrgicas, o sínodo da Igreja Siro-Malabar chegou a uma fórmula de consenso em que os padres celebram voltados para os fiéis, exceto a liturgia eucarística, em que se voltam para o altar. Todas as dioceses aceitaram, menos a de Ernakulem, onde padres e fiéis se revoltaram de tal forma contra as novas regras que a polícia encerrou a catedral para evitar cenas de violência e grupos de fiéis queimaram efígies de cardeais da cúria romana.

Falhadas várias tentativas de mediação, o Papa Francisco enviou uma mensagem para a diocese em que pediu aos padres para “não se tornarem uma seita”, sublinhando que a persistência na desobediência poderia levar à excomunhão. Francisco deu até ao Natal para se começar a celebrar o novo rito, mas no dia 25 de dezembro os padres da diocese limitaram-se a celebrar uma missa de acordo com essa liturgia, deixando claro que o faziam por respeito ao Papa, e que ela não se tornaria regra. A possibilidade de um acordo não está descartada, mas o braço-de-ferro mantem-se.

A ironia de o Vaticano estar, de um lado, a pressionar os fiéis de rito latino que querem celebrações com o padre voltado para o altar e, do outro, a ameaçar com excomunhão os padres e fiéis que querem celebrar voltados para o povo, tem sido sublinhada, embora as situações não sejam idênticas. Mas o que as duas realidades revelam é que Francisco tem entre mãos uma Igreja Católica universal cada vez mais dividida, com conflitos abertos sem solução evidente à vista.

Acresce que a idade avançada do Papa, e a sua saúde frágil, tornam ainda menos provável que ele consiga resolver estas crises antes do final do seu pontificado, até porque os seus opositores podem estar dispostos simplesmente a esperar que seja eleito o seu sucessor, para terem um novo parceiro de diálogo, o que implica também que todas estas questões: as bênçãos a homossexuais, o caminho sinodal alemão e as diferentes frentes das guerras litúrgicas, podem vir a desempenhar um papel importante no próximo conclave. 

Friday, 22 December 2023

Assassinatos na Terra Santa e bênçãos polémicas na Santa Sé

O Papa Francisco fez esta semana 87 anos, e que semana foi!

Começou no passado sábado com a notícia da condenação de dez pessoas e quatro empresas no megaprocesso de corrupção no Vaticano. O Cardeal Becciu recebeu a sentença mais pesada, com cinco anos e seis meses de prisão. Agora haverá recursos, como é evidente, e a coisa pode ser demorada, mas a primeira fase está concluída.

Este processo é de uma complexidade enorme, e é muito difícil acompanhar tudo em detalhe. Uma das pessoas que tem feito o melhor trabalho nesse campo é o Ed Condon, do The Pillar. Por isso, se lêem bem inglês, sugiro que acompanhem a reportagem dele, que será certamente a melhor fonte de informação.

Dois dias depois de ter saído a sentença, o Dicastério para a Doutrina da Fé lançou um documento sobre bênçãos, que explica que pessoas em uniões irregulares, incluindo em uniões homossexuais, podem pedir bênçãos aos ministros da Igreja. O documento foi apresentado na imprensa como uma revolução e como se a Igreja estivesse a aceitar as uniões homossexuais. Não é mesmo assim tão simples. Fui chamado várias vezes a falar do assunto, para diferentes órgãos de imprensa, sugiro que cliquem aqui e sigam os diferentes links para ver a minha opinião.

Estamos em vésperas do Natal e a Terra Santa, onde tudo começou, continua a ferro e fogo. Recentemente tivemos a terrível notícia do assassinato – é mesmo esse o termo – de duas mulheres cristãs que se encontravam dentro do complexo da paróquia Católica em Gaza. Foram mortas com tiros de sniper, e outras sete pessoas ficaram feridas. Quem carregou no gatilho? Israel dirá Hamas, Hamas dirá Israel. A própria da comunidade cristã palestiniana acredita que foi Israel, mas o que interessa é que isto é mais um prego no caixão da já pequena comunidade de Gaza.

Não deixem de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing, no qual Stephen White comenta o facto de a nossa civilização guardar cada detalhe minúsculo do passado, mas não parecer capaz de produzir nada que dure mais do que uma ou duas gerações. Para saber o que isto tem a ver com a Basílica de São Pedro, leia.

Convido ainda a quem possa ou queira que leia o meu artigo na edição em papel da revista Brotéria, que está agora à venda, e que oiçam o programa “E Deus Criou o Mundo” da RDP de dia 26 de Dezembro, para o qual fui convidado.

Só me resta desejar a todos um Santo Natal! Voltarei para a semana, se Deus quiser.

Friday, 1 December 2023

Castigos, pastéis e ex-soviéticos a pagar o preço do ateísmo

O Papa Francisco está doente, tendo por isso cancelado a viagem que estava planeada para o Dubai. Felizmente isso não o impediu de receber esta quinta-feira, em Roma, uma delegação de organizadores da JMJ de Lisboa. Devido à sua doença, o discurso do Papa foi lido por outro, mas Francisco teve forças para falar de improviso e até brincou com os presentes, dizendo que tem saudades dos pastéis.

E Francisco não vai estar no COP28, mas continua a ser uma inspiração para os ambientalistas.

Esta semana começou a circular a notícia de que o Papa Francisco vai castigar o Cardeal Burke, retirando-lhe o apartamento e o estipêndio em Roma. Quem é o cardeal Burke? Porque é que vai ser castigado? E esse castigo faz sentido? A história está bem contada? Os factos e a minha análise estão aqui.

O Tribunal de Justiça da União Europeia decretou na terça-feira que os governos nacionais podem impor um ambiente de trabalho “neutro” do ponto de vista religioso, exigindo aos seus funcionários a não utilização de símbolos de fé, como crucifixos, quipás ou véus islâmicos. Mais uma machadada na liberdade religiosa na Europa, explicada neste texto que eu escrevi há mais de dez anos.

A Rússia foi um dos países em destaque no recente “Meeting Lisboa” do movimento Comunhão e Libertação. Durante esse evento conversei com Elena Zhemkova, da Associação Memorial, que se dedica a recolher testemunhos de vítimas do sistema soviético. Nesta entrevista ela explica que os países da ex-URSS continuam a pagar o preço pela guerra contra a fé. Falei também com Marta Dell’Asta, que trabalha para uma organização italiana que promove o cristianismo na Rússia. Falou sobre o estado da Igreja Ortodoxa Russa na actualidade, e sobre se a conversão da Rússia, prometida em Fátima, já se realizou ou não.

Uma excelente notícia chega do Mali, onde o padre Hans-Joachim, raptado há mais de um ano, foi libertado.

Em Agosto aconteceu um dos piores episódios de perseguição aos cristãos na história recente do Paquistão. Para o cardeal Sebastian Shaw, porém, este evento marcou um ponto de viragem positiva nas relações inter-religiosas no país.

Continua a decorrer o ciclo de conversas “E Deus em Nós”, na Capela do Rato, em Lisboa. A mais recente foi com a artista Ilda David, que conta como na Escola das Belas Artes olhavam-na com estranheza porque incluía anjos nas suas gravuras.

Deus existe? Podemos ter a certeza? Mas será que a certeza é necessária? Randall Smith lança estas e outras questões essenciais no artigo desta semana do The Catholic Thing, onde desmascara o “erro de Descartes”.

Thursday, 30 November 2023

O caso do castigo ao Cardeal Burke

Tem circulado esta semana a informação de que o Papa Francisco pretende castigar o Cardeal Raymond Leo Burke, retirando-lhe o apartamento onde vive no Vaticano, e o seu estipêndio. A razão por detrás do castigo será o facto de o Cardeal Burke ser um instigador de desunião na Igreja.

Existem diferentes versões do que se terá passado, que analisarei adiante. Mas antes de mais convém explicar quem é o Cardeal Burke.

O homem das Dubia

Raymond Burke é um cardeal americano. Especialista em Direito Canónico, serviu durante muitos anos na Signatura Apostolica, o tribunal canónico da Santa Sé, tendo chegado a ser prefeito da mesma. Conhecido por ser conservador, cedo no pontificado de Francisco se começou a perceber que ele não estaria alinhado com o estilo e, em larga medida, o conteúdo do mesmo.

O primeiro grande choque do cardeal com o Papa foi depois da publicação do Amoris Laetitia, em que Burke, juntamente com outros três cardeais – dois dos quais já morreram – endereçaram ao Papa uma série de perguntas, pedindo respostas na forma de “Sim” ou “Não”, conhecidas como “Dubia”. A questão das dúbia tornou-se uma autêntica novela, com o Papa a recusar responder e os cardeais a divulgar publicamente as questões que tinham feito, e o facto de terem ficado sem resposta.

Burke também se opôs ao Sínodo sobre a sinodalidade, que se realizou em Outubro, tendo participado num evento paralelo, organizado por opositores ao Papa Francisco, em Roma, chamado “A Torre de Babel Sinodal”.

Mais recentemente Burke voltou a enviar umas dubia ao Papa, acompanhado agora de outros quatro cardeais, incluindo Brandmüller, sobrevivente da primeira volta. Desta vez o Papa respondeu, em texto corrido, mas descontentes, os cardeais reformularam as perguntas e exigiram do Papa respostas na forma de “Sim” ou “Não”, publicando o pedido. O Vaticano publicou então as primeiras respostas, ignorando o segundo apelo.

O castigo

Depois de tudo isto, emergiu recentemente que o Papa Francisco teria dito, numa reunião com os líderes dos dicastérios em Roma, que pretendia aplicar um castigo a Burke, retirando-lhe o apartamento e o salário.

Nas versões que circulam em sites tradicionalistas, o Papa é citado como tendo dito “Burke é meu inimigo, por isso vou retirar-lhe o apartamento e o estipêndio”. Segundo as fontes mais credíveis que eu tenho conseguido consultar, esta versão é falsa. O termo “inimigo” nunca foi usado. Isto é importante, porque o termo transmite a ideia de uma vingança, ou uma birra. Contudo, as medidas serão verdade, de facto, confirmado pelo próprio Papa a um dos seus mais fiéis defensores, Austen Ivereigh. O Papa, aparentemente, não queria que as medidas fossem tornadas públicas, mas alguém presente na reunião divulgou a informação.

Esta medida era necessária?

Estabelecidos os factos, vale a pena ponderar a questão. Será que a medida do Papa era necessária?

Ivereigh, sem grandes surpresas, argumenta que sim, dizendo que o Papa até já tinha demonstrado muita paciência com um cardeal que, contrariamente aos votos que faz quando é elevado ao cargo, estaria a opor-se ao seu ministério.

O voto a que Ivereigh se refere é este: “Prometo e juro permanecer, a partir de agora e para sempre enquanto tiver vida, fiel a Cristo e ao seu Evangelho, constantemente obediente à Santa Apostólica Igreja Romana. A são Pedro na pessoa do Sumo Pontífice e aos seus sucessores canonicamente eleitos.”

Segundo Ivereigh, ao propor um magistério alternativo, questionando e pondo em causa as decisões e medidas de Francisco, Burke estaria a violar esse voto.

O sistema político britânico tem um conceito muito engraçado. Quem manda no país é o “Governo de Sua Majestade” e aos seus adversários, no Parlamento, chama-se “a lealíssima oposição de Sua Majestade”. Faz falta em todo o lado, e também na Igreja, o conceito de uma oposição leal, a ideia de que é possível ser leal a alguém, e ao seu cargo, discordando, todavia, do seu rumo e até dando voz a essa discordância. Discordância não equivale a traição ou a deslealdade.

Será que isto se aplica sempre? Evidentemente não. Há dois casos na história deste pontificado que o ilustram perfeitamente. Um é o Arcebispo Viganò. Quando Viganò começou a criticar o Papa e o seu magistério, Francisco causou alguma surpresa ao recusar castigá-lo, aplicar medidas canónicas contra ele, ou sequer responder. Mas o tempo veio a dar-lhe razão, uma vez que Viganò, deixado a falar sozinho, acabou por se remeter para o espaço das teorias da conspiração e da loucura total. Mais recentemente tivemos também o caso do Bispo Joseph Strickland, que é muito claramente um homem insensato e desequilibrado, que também disparatava contra Francisco, e ainda por cima, ao que tudo indica, geria pessimamente a sua diocese. Aqui Francisco agiu – talvez tarde de mais – pedindo ao bispo que apresentasse a sua resignação, e quando não o fez, retirou-o de funções.

Burke está neste campeonato? Não acredito. Eu tive o privilégio de estar com o Cardeal Burke uma vez, em Roma, durante um curso que fiz na Universidade de Santa Croce para jornalistas. Digo privilégio, porque é sempre um privilégio estar com pessoas simpáticas e boas e Burke deixou-nos a todos com a impressão de ser uma pessoa boa, muito simpática e paciente. Isso quer dizer que eu concordo com tudo o que ele diz ou faz? Longe disso. Acho que ele está muito enganado no que diz respeito ao pontificado de Francisco, mas acho, e essa é para mim a chave, que ele é movido de intenções sinceras e que a oposição que faz é uma oposição leal, que talvez tenha sido insensato numa ou noutra ocasião, sobretudo deixando-se colar ou ser usado por forças mais radicais, mas sem nunca entrar ele mesmo em maledicência contra o Papa.

J. D. Flynn, um dos meus editores no The Pillar, dos EUA, escreveu o seguinte numa análise a esta questão: “Embora ele se pronuncie de forma aberta sobre questões eclesiásticas, como ele as entende, Burke não tem feitio para falar publicamente sobre uma desfeita pessoal – aliás, estive na sua companhia várias vezes ao longo dos últimos anos e nunca o ouvi falar mal do Papa pessoalmente, ou da sua decisão de o retirar das posições de liderança que desempenhava. Na verdade, já vi Burke ficar visivelmente desconfortável na presença de católicos que insultavam pessoalmente Francisco, em vez de criticar apenas a sua abordagem teológica ou estilo de liderança”.

Por tudo isto, acho sinceramente que o Papa teria feito melhor em não tomar a medida que tomou, ou que se prepara para tomar. Se a presença de Burke em Roma o deixa desconfortável então acredito que poderia ter pedido ao cardeal americano para regressar ao seu país, o que não seria escândalo ou surpresa, uma vez que Burke já fez 75 anos e por isso está na idade da reforma, e ainda por cima tem família e um santuário do qual é reitor nos Estados Unidos, portanto teria o que fazer e com quem estar.

É verdade que Burke é fonte de desunião? Eu diria antes que é verdade que a Igreja está desunida – não há como o negar – e que Burke é uma das figuras dessa desunião, mas ainda assim é das figuras com quem se pode dialogar de forma fraternal. Castigá-lo, de uma forma que facilmente pode ser interpretada – bem ou mal – como vingativa, não só não resolve a questão da desunião, como a agrava, pois transforma-o em vítima e permite aos opositores pintar Francisco como um homem vingativo que prega a misericórdia, mas não a pratica.

Uma questão acessória

Há uma outra questão que aparece associada a esta: Faz sentido um cardeal sem cargos que exijam a sua presença permanente na Santa Sé continuar a viver no Vaticano, num apartamento luxuoso subsidiado e com ordenado de mais de cinco mil euros por mês?

Numa altura em que tanto se critica o clericalismo, carreirismo e despesas em Roma, penso que a resposta é evidente. Acredito que seja bom para alguém que está há anos a viver em Roma poder continuar a fazê-lo depois da reforma, mas do ponto de vista de política económica do Vaticano não faz sentido nenhum.

Agora, isso aplica-se a Burke e a tantos outros que estarão nessa posição. Usar este argumento agora, especificamente para Burke, é mesquinho, até porque não foi essa a razão invocada pelo Papa para as medidas que tomou.

Se queremos discutir o que fazer a cardeais reformados, que o façamos, mas não misturemos as coisas, pois ninguém ganha com isso.

Wednesday, 8 November 2023

O Caso Rupnik: Como é que isto ainda está a acontecer?

Stephen P. White

A semana passada a Santa Sé anunciou que o Papa Francisco tinha decidido levantar o prazo de prescrição nas alegações contra o antigo jesuíta e famoso artista Pe Marko Rupnik. O padre esloveno tem sido acusado por mais de duas dúzias de mulheres de abusos sexuais, espirituais e psicológicos, praticados ao longo de várias décadas. A decisão do Papa de levantar o prazo de prescrição neste caso é, por isso, bem-vindo.

Contudo, a decisão de levantar o prazo de prescrição sobre estas alegações teria sido muito mais bem-vindo caso tivesse sido tomada bem mais cedo, e se o caso, até agora, tivesse sido tratado com um pingo de transparência, e se a concessão à justiça não tivesse tido de ser arrancado a ferros, por assim dizer, ao Papa, por um grito colectivo de indignação e justa revolta por parte dos fiéis e, especialmente, por muitas vítimas de abuso sexual na Igreja.

Não temos espaço aqui para elencar todos os detalhes da saga do caso de Rupnik, nem sequer os detalhes que são públicos, mas é necessário fazer um pequeno resumo para compreender o quão inexplicável e desadequado tem sido o tratamento dado a este caso.

As primeiras alegações conhecidas sobre as más-práticas e os abusos sexuais cometidos por Rupnik chegaram à atenção dos jesuítas em 2018. Tendo sido consideradas credíveis, estas alegações foram encaminhadas para a Congregação para a Doutrina da Fé (CDF). Elas incluíam a alegação de que Rupnik tinha dado absolvição a uma cúmplice no pecado contra o Sexto Mandamento – um crime grave que incorre em excomunhão automática.

Em Março de 2020, depois de os jesuítas terem determinado que Rupnik tinha provavelmente incorrido excomunhão, e depois de terem enviado o caso para a CDF para maior investigação, mas antes de a congregação ter confirmado (e subsequentemente levantado) a dita excomunhão, o Pe Rupnik foi convidado a pregar um sermão quaresmal ao Papa na Cúria Romana.

Um ano mais tarde, em 2021, os jesuítas levaram a cabo outra investigação de alegações contra Rupnik feitas por membros femininos da sua antiga comunidade na Eslovénia. Esta investigação determinou que existiam indícios suficientes para desencadear um processo penal contra Rupnik. Pela segunda vez em dois anos, as alegações credíveis contra ele foram submetidas à CDF, desta vez com a recomendação de que fosse iniciado um processo penal.

Estas alegações foram submetidas à Congregação para a Doutrina da Fé em Janeiro de 2022. Nesse mesmo mês, o Papa Francisco encontrou-se pessoalmente com Rupnik. Um mês mais tarde o padre foi sujeitado a novas restrições pelos seus superiores jesuítas. Em Outubro de 2022 a CDF – agora conhecida como Dicastério para a Doutrina da Fé – determinou que tinha sido ultrapassado o prazo de prescrição, e por isso não seria aberto um processo canónico.

No início deste ano, em 2023, os jesuítas abriram outra investigação interna contra Rupnik – pelas minhas contas, a terceira investigação no espaço de cinco anos. Entretanto, Rupnik violou as restrições que lhe tinham sido impostas pelos jesuítas. Esta persistente desobediência levou-o eventualmente a ser expulso da Sociedade de Jesus em Junho deste ano.

O que nos traz à decisão, tornada pública há duas semanas, de que o Pe Marko Rupnik tinha sido incardinado na diocese Eslovena de Koper onde, segundo uma declaração daquela diocese, “goza de todos os direitos e deveres dos padres diocesanos”.

Como é que é possível que alguém, no ano 2023, pudesse pensar que a resolução justa para o caso de um padre que enfrenta tantas alegações, confirmadas como sendo credíveis em tantas investigações diferentes, de tantos acusadores, ao longo de tantos anos, passasse por devolvê-lo discretamente ao ministério, num local diferente e sob as ordens de um novo superior?

Nada disto faz sentido. Não faz sentido se ele for culpado, e não faz sentido se ele for inocente. Talvez por isso ninguém pareça estar interessado em defender a forma como tudo isto tem sido tratado. Chegámos ao ponto exasperante em que a interpretação mais caridosa possível de tudo o que se passou é a incompetência burocrática.

Se existe uma explicação boa, razoável ou sequer plausível para a forma como se tem lidado com o caso, o Vaticano, como de costume, não tem mostrado qualquer vontade de se explicar a ninguém.

Com Roma a querer dizer o menos possível, a mensagem que se passa não é de preocupação pelas vítimas, nem de dedicação à transparência, nem um esforço para restaurar a confiança, nem a determinação de que a justiça seja não só feita, como se veja que foi feita. Antes, a mensagem que passa (certamente sem intenção) é de um gritante desprezo pela inteligência dos fiéis e de total desrespeito pelas vítimas dos abusos sexuais na Igreja.

O problema de tudo isto vai muito para além da culpa ou da inocência do próprio Rupnik, ou sequer da necessidade de justiça e de cura para os que possam ter sofrido os seus abusos. É a paciência das vítimas de abusos que está a se repetidamente posta à prova, a confiança dos fiéis que está cada vez mais saturada e os obstáculos à proclamação do Evangelho que se tornam cada vez maiores à medida que a credibilidade da Igreja diminui.

A revolta que se fez sentir com a notícia do regresso de Rupnik ao ministério foi de tal ordem que a Comissão Pontifícia para a Protecção de Menores interveio, convencendo o Santo Padre a mudar de rumo. Ainda bem para a Comissão, e ainda bem para o Papa por voltar atrás no que diz respeito ao prazo de prescrição.

Tudo dito, é difícil imaginar uma resolução para o caso de Rupnik que possa desfazer a percepção já criada por este caso, nomeadamente de que não obstante todos os esforços de reforma, muito elogiados, do Papa Francisco, na verdade pouca coisa mudou. Como é que a Igreja pode afirmar credivelmente ter aprendido com as suas falhas do passado no que diz respeito a criminosos influentes como Maciel e McCarrick, quando ainda hoje se continuam a passar-se casos inexplicáveis como o de Rupnik?


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na Quinta-feira, 2 de Novembro de 2023)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing



Friday, 3 November 2023

Papa confirma Dubai e erros transparentes

Imagem gerada com
inteligência artificial

O Papa Francisco confirmou na quarta-feira que vai à COP28, que se realiza no Dubai. Francisco estará lá de 1 a 3 de Dezembro, podendo por isso ainda receber a delegação da organização da JMJ, no dia 30 de Novembro, na Santa Sé. Não é todos os dias que um jornalista consegue um furo a nível mundial, portanto permitam-me regozijar um pouco com o facto de eu ter dado esta notícia há 15 dias, publicada aqui no Expresso (só para assinantes) e aqui no The Pillar.

Na quarta-feira passada a Conferência Episcopal enviou para as redacções uma nota dando conta do número de pessoas – padres e leigos – que foram afastadas cautelarmente das suas funções por suspeitas de abuso sexual desde que foi publicado o relatório da Comissão Independente. A surpresa com que vi esses números foi grande, pela simples razão de que estavam todos errados. Não escrevi nada sobre o assunto no mail da semana passada porque precisei de mais tempo para poder verificar e ter a certeza que o erro não era meu, mas agora posso afirmá-lo com segurança. Escrevi aqui um texto a explicar como é que surgiu o erro, e a tirar algumas conclusões. Sublinho que não foi por deter informações secretas que percebi que os números estavam mal, bastou-me recorrer a dados que são públicos, seja por notas publicadas pelas dioceses, seja por informação recolhida por mim e entretanto publicada no meu blog, aqui, aqui e aqui.

Digo-o no meu texto, mas quero deixar claro aqui que não estamos perante um caso de encobrimento por parte das comissões diocesanas (de onde partiram os erros), mas sim de descuido, ou pelo menos estou disso convencido. Contudo, se todos concordamos que a transparência é um dos factores essenciais para lidar com este flagelo na Igreja, então os organismos da Igreja têm uma responsabilidade acrescida de fornecer números e informações rigorosas. Temos um longo caminho para fazer nesse sentido.

Ainda sobre o tema dos abusos, agora chegou a vez de Espanha, e houve um volte-face no caso do Pe Rupnik, que afinal vai ser julgado pelos crimes de abusos sexuais sobre freiras de quem era director espiritual.

Chegou ao fim o Sínodo sobre a Sinodalidade. Foi sem estrondo, nem dramas. Recordemos, porém, que o processo ainda vai a meio.

Continua a tragédia da guerra na Terra Santa. Os líderes cristãos da região não fizeram grandes declarações nos últimos dias, à excepção do Patriarcado Greco-Ortodoxo, que criticou duramente o facto de Israel estar a atingir centros culturais, desportivos e locais de culto em Gaza. A Ajuda à Igreja que Sofre tem estado em contacto diário com a comunidade católica que está na Igreja da Sagrada Família em Gaza. É grande o cansaço, e só não falo em desespero porque, como diz a irmã Nabila, “só temos Deus”. Rezem, por favor, pela paz em geral, mas especialmente para que Deus console estes cristãos em Gaza. E se quiserem enviem-me mensagens que eu talvez consiga fazer-lhes chegar através da AIS. No caso da minha família, enviámos uma fotografia dos filhos com um desenho a dizer que estamos a rezar por eles. Parece pouco, mas é um encorajamento para quem lá está, saber que não estão esquecidos.

E porque a guerra na Terra Santa nos pôs a falar novamente sobre a questão do terrorismo islâmico, o artigo desta semana do The Catholic Thing fala precisamente sobre a relação entre o Cristianismo e o Islão, recorrendo a citações de grandes pensadores, incluindo São João Paulo II.

Monday, 16 October 2023

Papa a caminho da Turquia?

[Afinal enganei-me! Mas ainda fui a tempo de emendar a mão.]

O Papa Francisco cancelou a audiência geral que tinha marcada para o dia 30 de Novembro. Este cancelamento ainda não foi divulgado oficialmente pelo Vaticano, mas já foi comunicado às delegações que pretendiam tomar parte na audiência, como é o caso de um grupo de representantes da organização da JMJ Lisboa, que iam viajar para Roma para o efeito.

O motivo do cancelamento é uma “viagem não programada” do Santo Padre nos dias à volta do dia 30. Não se sabem mais detalhes.

Contudo, 30 de Novembro é dia de Santo André, o padroeiro do Patriarcado de Constantinopla. Sabemos que o Papa Francisco – como era o caso dos seus antecessores – tem óptimas relações com o Patriarca Bartolomeu de Constantinopla, que por sua vez tem primazia de honra em toda a comunhão ortodoxa. É normal os dois hierarcas trocarem mensagens de saudação no dia do respectivo santo padroeiro, mas também já se visitaram oficialmente, sendo que Bartolmeu esteve pessoalmente em Roma para a oração ecuménica que marcou o início do Sínodo sobre a Sinodalidade, no dia 30 de Setembro.

Não seria de descartar que Francisco tenha sido, por isso, convidado a visitar Istanbul, na Turquia, para celebrar com Bartolomeu o dia de Santo André, ou, eventualmente, que ambos tenham decidido celebrar o dia noutro local.

Para além da importância ecuménica da relação entre Roma e Constantinopla, ela faz ainda mais sentido numa altura em que a autoridade de Bartolomeu está a ser activamente ameaçada pelo Patriarcado de Moscovo e as Igrejas dos países eslavos que tendem a alinhar com a Rússia.

A Guerra na Ucrânia acentuou esta crise interna da Igreja Ortodoxa e levou a algum isolamento de Moscovo. Roma, não obstante o interesse que tem em não cortar relações com Moscovo e em conseguir que o Papa um dia visite a Rússia, quer sem dúvida que Constantinopla saia fortalecida desta situação, mantendo a sua primazia de honra na Comunhão Ortodoxa. Uma visita do Papa, sobretudo no dia 30 de Novembro, ajudaria certamente.

A viagem calharia ainda numa altura em que a Turquia, liderada por Erdogan, parece estar a fazer esforços para melhorar as relações com o mundo cristão. No fim-de-semana passado foi inaugurada a primeira igreja cristã construída em solo turco nos últimos 100 anos, desde a fundação da República turca. Trata-se de uma Igreja Ortodoxa Siríaca, mas o simbolismo destina-se certamente a todo o mundo cristão. Apesar de as relações entre o Estado turco e o Patriarcado de Constantinopla não serem fantásticas, Erdogan sabe com certeza que tem mais a ganhar em manter o centro espiritual do mundo ortodoxo no seu quintal do que em deixá-lo passar para Moscovo.

Devo deixar claro que tudo isto é, por agora, especulação. A única coisa de que temos a certeza é que o Papa vai viajar, e a viagem não estava prevista, o que é raro. Veremos nas próximas semanas, ou mesmo dias, que outras novidades surgem de Roma para confirmar ou desmentir esta possibilidade de uma visita a Constantinopla.

Friday, 13 October 2023

O triste e grotesco regresso da Guerra na Terra Santa

O triste regresso à normalidade em Gaza
O tema desta semana é, obviamente, o regresso – em grotesca força – do conflito entre Israel e Palestina. O Papa é apenas um dos muitos líderes que tem apelado à paz, e mais recentemente à libertação de reféns, mas esta não parece estar para breve. Aliás, Israel criticou-o por fazer “falsos paralelismos”. Francisco telefonou também ao pároco da comunidade católica em Gaza, que é muito pequena, mas desenvolve um trabalho social muito importante na região.

Os bispos católicos da Terra Santa já declararam que o dia 17 de Outubro será de oração e jejum pela paz, e sei que várias organizações católicas se vão juntar a esse apelo, por isso encorajo-vos a fazer o mesmo.

No dia seguinte, 18 de Outubro, a fundação Ajuda à Igreja que Sofre já tinha convocado a iniciativa “Um milhão de crianças reza o terço” e a paz na Terra Santa será sem dúvida uma das principais intenções.

Não há nada que se passe na Terra Santa que não tenha uma dimensão religiosa, e há poucos locais do mundo em que a realidade religiosa é tão complexa como lá. Hoje actualizei e republiquei um texto que datava originalmente de 2012 sobre a relação dos cristãos com Israel. É um assunto complicado e muito, muito variado, mas que podem ter interesse em aprofundar numa altura como esta. Aconselho ainda a leitura desta entrevista com um padre, judeu convertido ao catolicismo, que explica porque é que a Igreja Católica tem de agir com cautela quando fala desta guerra, que parece não ter fim.  

O grupo Renascença tem um novo presidente do Conselho de Administração, o cónego Paulo Franco. Como a maioria de vocês saberá, eu trabalhei na Renascença durante mais de uma década e para além de ainda lá ter muitos amigos, continua a ser uma casa pela qual tenho a maior estima. Acredito perfeitamente que a Renascença ainda tem um papel a cumprir na comunicação social em Portugal e que pode ser cada vez mais e melhor aquela instituição que ajuda os portugueses a fazer uma leitura crente e cristã da actualidade. Por isso só desejo o maior sucesso ao Pe. Paulo Franco e a todos os que lá trabalham, sabendo muito bem que o presente e o futuro continuam a não ser nada fáceis.

Enquanto isto, o ex-presidente da Renascença, o agora Cardeal Américo Aguiar, vai presidir às celebrações de Fátima, que começaram na noite de quinta-feira, e onde certamente também se vai rezar muito pela paz.

A semana passada disse que estava para sair um artigo meu no Expresso sobre o papel da mulher na Igreja, a propósito do Sínodo. Foi adiado para esta semana, em princípio, portanto podem procurá-lo a partir de amanhã.

E por falar no papel da mulher na Igreja, o artigo desta semana do The Catholic Thing é talhado para gerar discussão e até alguma polémica. A teóloga Carrie Gress pergunta se é possível um feminismo cristão. Leia a conclusão a que chega.

Wednesday, 4 October 2023

Papa autoriza bênçãos a uniões homossexuais? Calma aí…

Sempre que o Papa diz alguma coisa ligada a um assunto minimamente polémico, é certo que acontecerão duas coisas. Primeiro virão pessoas – frequentemente jornalistas e activistas – dizer que o Papa acaba de virar de pernas para o ar a posição da Igreja Católica sobre o assunto; e logo de seguida vêm pessoas explicar que o Papa não disse nada daquilo, e se disse não devia ter dito, ou que é indiferente, porque ele não o poderia dizer de qualquer maneira.

O que raramente vemos é tempo de antena dado a interpretar as palavras do Papa de forma correcta e ponderada.

É certo que com o Papa Francisco a questão põe-se mais vezes, até porque ele tem o hábito de se pronunciar de forma mais espontânea sobre tudo o que lhe perguntam, e também – há que ceder este ponto aos seus mais ferozes críticos – porque tende a formular as suas posições de forma ambígua, permitindo diferentes interpretações. Mas também é verdade que aconteceu o mesmo, e mais que uma vez, com o Papa Bento XVI.

A mais recente questão tem a ver com as bênçãos para uniões homossexuais.

Vamos então aos factos. Um grupo de cardeais endereçou ao Papa Francisco uma série de questões, vulgo “dúbia”, incluindo uma pergunta sobre se a prática “generalizada” de abençoar uniões homossexuais está de acordo com o magistério da Igreja Católica.  

Em resposta, o Papa disse que para a Igreja o casamento é entre um homem e uma mulher, e que por isso a Igreja se opõe a qualquer prática ou bênção que possa gerar confusão sobre esse assunto. Isto parece claro.

Mas a resposta prossegue, apelando à caridade pastoral quando se lida com pessoas. “A defesa da verdade objectiva não é a única expressão dessa caridade, que também é composta de bondade, paciência, compreensão, carinho e encorajamento. Logo, não podemos tornar-nos juízes que apenas negam, rejeitam e excluem”.

Diz ainda que, por esta razão, é necessário exercer prudência pastoral para determinar “se existem formas de bênçãos, solicitadas por uma ou mais pessoas, que não transmitem um conceito errado de casamento. Porque quando uma bênção é solicitada, isso expressa um pedido de auxílio de Deus, um desejo de poder viver melhor, confiança num Pai que nos pode ajudar a viver melhor”.

Por fim, diz a resposta, “embora existam situações que, de um ponto de vista objectivo, são moralmente inaceitáveis, a caridade pastoral requer que não tratemos como pecadores pessoas cuja culpa ou responsabilidade possa ser atenuada por vários factores”.

Bênçãos há muitas

A primeira conclusão que podemos tirar é que é muito exagerado dizer que o Papa está com isto a reverter a posição tradicional da Igreja sobre bênçãos a uniões homossexuais. Não há nada nesta resposta que indique que a união em si pode ou deve ser objecto de uma bênção. Pelo contrário, na medida em que tal bênção necessariamente implicaria uma confusão com o casamento, isso deve mesmo ser evitado.

Mas o Papa vai mais longe e diz que outra coisa são bênçãos solicitadas por pessoas – seja um, ou um par – que são homossexuais e estão numa união homossexual. Ou seja, é possível abençoar duas pessoas que estão numa relação, sem estar a abençoar a própria da relação.

Vejamos alguns exemplos hipotéticos. Dois homens homossexuais que estão numa relação e estão prestes a fazer uma viagem juntos, pedem a um padre uma bênção para a viagem. O padre pode dar essa bênção, até em conjunto, sem que isso implique, ou seja entendido como, uma bênção aos dois enquanto casal, ou o abençoar de tudo o que se passa na sua relação.

Mais, imaginemos que dois homens que estão numa relação homossexual decidem acolher em sua casa crianças com deficiência, com o sentido de missão de dar a essas crianças um lar onde possam sentir o amor de uma família, e que pedem a um padre uma bênção para esse empreendimento. O padre pode dar essa bênção, como abençoaria outras duas pessoas que se estão a dedicar a uma missão de ajudar os mais frágeis e vulneráveis, sem que passe pela cabeça de ninguém que ele está a dar luz verde ao que se passa na intimidade do quarto daqueles dois homens.

O mesmo se poderia aplicar se em vez de dois homens falássemos de um casal, homem e mulher, que vivem juntos, mas não são casados, talvez por um deles ser divorciado.

No fundo, o Papa está a dizer que todos temos fragilidades e pecados, e que uma bênção, seja por que razão for, não deve ser entendida como a validação ou o encorajamento desse nosso pecado ou fragilidade, mas sim como uma ajuda para o nosso crescimento espiritual e constante conversão. Se fosse necessário estarmos todos em estado de graça e impecabilidade para recebermos bênçãos, então as bênçãos pouco nos acrescentariam.

A Igreja continua a ter um ideal para a humanidade, mas não afasta de nós o seu auxílio só porque não estamos ainda nesse ideal, da mesma forma que não se deve mostrar condescendente com essas fraquezas ou fragilidades, antes ajudando-nos a ultrapassá-las, compreendendo, todavia, que todos estamos em diferentes fases de conversão e crescimento, e por isso não se pode nem deve colocar a mesma exigência a todos, indiscriminadamente.

Por isso não, o Papa não diz que se possa abençoar “uniões” homossexuais, mas isso não significa que pessoas que estão em uniões homossexuais não possam pedir bênçãos para as áreas mais variadas das suas vidas, seja pessoais, seja em conjunto. A isso chama-se cuidado pastoral, a arte de acompanhar espiritualmente as pessoas partindo do lugar, tempo e estado em que estão, e não de exigir que estejam primeiro onde achamos que deviam estar antes de lhes estendermos a mão.

Friday, 29 September 2023

Tragédia para cristãos no Iraque e Nossa Senhora do Rugby

Começo com uma tristíssima notícia. Mais de cem pessoas terão morrido num incêndio que deflagrou durante a festa de um casamento, no norte do Iraque. Porque é que esta notícia diz respeito à Actualidade Religiosa? Porque atingiu precisamente a já frágil e sofredora comunidade cristã daquele país, embora a maioria dos órgãos de comunicação social – certamente por ignorância e não por preconceito – não o tenham referido. Aqui explico porque é que este é mais um golpe duro para os cristãos iraquianos.

É já no sábado o consistório que elevará D. Américo Aguiar a cardeal. Em princípio eu estarei na SIC Notícias de manhã para comentar o assunto, e sairá um artigo no Expresso sobre o Colégio dos Cardeais depois desta nova remessa criada por Francisco, fiquem atentos e para a semana envio links. Entretanto, o novo bispo de Setúbal deu uma entrevista em que faz um balanço da JMJ.

Infelizmente, as minhas previsões sobre a tragédia humanitária e limpeza étnica em Nagorno Karabakh estão a realizar-se. Mais de metade da população arménia daquele enclave já se refugiou na Arménia propriamente dita. É o fim de uma cultura milenar, num dos berços e últimos redutos do Cristianismo na região do Cáucaso.

A selecção portuguesa de rugby está a entusiasmar e domingo tem um novo teste de fogo contra uma Austrália aparentemente enfraquecida. O rugby é o tema do meu mais recente artigo no The Pillar. Mas o que é que o rugby tem a ver com religião, perguntam? Pois perguntam muito bem. Talvez Nossa Senhora do Rugby possa esclarecer.

O caso do Pe Rupnik continua a dar que falar e agora tem uma nova dimensão portuguesa. Saibam tudo aqui.

E o Papa esteve em Marselha para uma visita relâmpago, onde falou sobretudo da importância de tratar os migrantes como pessoas plenas de dignidade.  

E não deixem de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing em que Stephen White explica porque é que um dos grandes problemas da nossa sociedade é o facto de termos perdido a noção do pecado.

Thursday, 21 September 2023

Adeus Artsakh

Em 2016 viajei com um grupo de jornalistas para o enclave de Nagorno Karabakh. Fomos primeiro para Yerevan, na Arménia, e de lá era suposto seremos levados de helicóptero para Stepanakert. Por causa do mau tempo, porém, tivemos de partir de autocarro por volta da 1h00, para fazer quase cinco horas de estrada, sempre com curvas e a subir montanhas.

Chegámos de madrugada à autoproclamada República de Artsakh, um território historicamente povoado por arménios, dentro do Azerbaijão. Quando a União Soviética se desintegrou, os Arménios de Karabakh, que era administrada pelo Azerbaijão, declararam independência, o que conduziu a uma guerra. Foram cometidas atrocidades de parte a parte, morreram famílias inteiras, mas os arménios venceram e consolidaram o seu controlo sobre a região. Declararam uma independência que nunca foi reconhecida por ninguém, nem sequer pela Arménia, e assim viveram durante 30 anos, rodeados de inimigos, ligados ao mundo exterior apenas pelo corredor de Lachin, que lhes permitia ter acesso à Arménia.

Em Karabakh assistimos às comemorações dos 25 anos da "independência", junto ao cemitério militar. Uma das coisas mais impressionantes da viagem foi mesmo ver as inúmeras campas de soldados mortos ao longo dos anos a defender aquela terra. Num caso em particular estavam três irmãos que morreram na mesma batalha, outros tinham imagens gravadas no mármore dos mortos fardados e de arma na mão; visitámos ainda a linha da frente, onde recebi de um oficial um Novo Testamento arménio, camuflado, e fomos ao famoso monumento "Nós somos as nossas montanhas" que é o símbolo de Artsakh. Os arménios de Karabakh queriam mostrar-nos que estavam a defender mais que um país, estavam a lutar por uma herança, pela terra onde tinham vivido e morrido os seus antepassados, ao longo de séculos, e que contra todas as expectativas estavam a conseguir fazê-lo.

Tudo isso acabou ontem.

Depois de anos a rearmar-se e a incentivar um ódio étnico e cultural aos arménios, e com o apoio imprescindível da Turquia, o Azerbaijão voltou a atacar Karabakh, como tem feito sempre por esta altura do ano, ao longo dos últimos dois anos. Desta vez, com o corredor de Lachin bloqueado por alegados activistas ambientais, sabendo que a Arménia não se iria comprometer com uma guerra total contra os azeris, e sem o apoio da Rússia, as autoridades de Nagorno Karabakh anunciaram a sua rendição. Artsakh morreu.

Estão neste momento a ser negociadas as condições da rendição, mas o que se avizinha é previsível. A perseguição dos arménios que não fugirem – do aeroporto de Stepanakert já chegam as imagens de caos que acompanha sempre estes momentos – e o apagamento sistemático da milenar herança cultural e religiosa arménia da região.

Quando a Rússia invadiu a Ucrânia, perguntei neste texto o que aconteceria se Moscovo perdesse a guerra, acrescentando que perder a guerra, neste contexto, era tudo o que ficasse aquém da ocupação de Kiev em três dias. Uma das minhas previsões era exactamente a tragédia que agora se está a desenrolar à nossa frente.

Mas esta é também, de certa forma, uma derrota diplomática para o Vaticano. Em 2016 Francisco visitou tanto a Arménia como o Azerbaijão. O objectivo era tentar promover a pacificação. Mais recentemente o cardeal Parolin também esteve em missão entre os dois estados para tentar impedir o recrudescimento do conflito. Ao menos tentaram, mas sem sucesso.

Karabakh não é apenas mais um território. É para os arménios o que Guimarães é para Portugal, o que o Kosovo é para os Sérvios (outros cuja dependência do amigo Putin de pouco lhes tem valido). Independentemente do direito internacional, que de facto reconhece a região como parte do Azerbaijão, o que se está a passar ali é uma dor de alma. É o coração de um povo que está a ser arrancado e esmagado diante dos seus olhos.

É também o recordar de tragédias colectivas do passado. Os azeris são turcomanos, e existe uma expressão na Turquia e no Azerbaijão: Um povo, dois estados. Por isso mesmo, e pela importância da mão de Erdogan nisto tudo, os arménios sentem que este é apenas mais um capítulo do terrível genocídio de 1915.

Como me disse um arménio quando estive lá em 2016: “Em 1915 mataram os arménios ocidentais, agora querem acabar o trabalho”.

"They protect the land" - Música dedicada a Nagorno Karabakh pela banda System of a Down, constituída por arménios americanos

Friday, 15 September 2023

Português dirige "revista do Papa" e Setúbal continua sem bispo

Um dos temas das últimas semanas é o facto de os ucranianos, e mais especificamente os bispos católicos ucranianos, terem-se manifestado desgastados com as palavras e os gestos de Francisco sobre a guerra na Ucrânia. Este é um assunto sensível. Neste texto explico que os ucranianos têm algumas razões de queixa, mas que, bem vistas as coisas, as acusações de que Francisco é de alguma forma russófilo no que diz respeito a esta guerra são profundamente injustas, e não resistem a um escrutínio cuidadoso.

A semana passada dei-vos a feliz notícia da libertação, na Nigéria, de um padre e um seminarista que tinham sido raptados. Hoje, infelizmente, trago-vos a triste notícia da morte de mais um seminarista naquele país (na foto). Na’aman Danlami morreu carbonizado quando a casa paroquial em que estava foi atacada e incendiada. Dois padres que estavam na mesma casa conseguiram escapar com vida. Rezem pela Nigéria, para que o pesadelo termine.

E rezem também pelo Sudão do Sul. O apelo é da missionária portuguesa Beta Almendra.

De Roma chega a notícia de mais uma nomeação de um português para um cargo importante. O jesuíta Nuno Gonçalves, que chegou a ser sugerido como possível Patriarca de Lisboa, é a partir de agora director da revista Civiltà Cattolica. Recordo que a Civiltà Cattolica não é “apenas” uma revista dos jesuítas italianos. Cada edição é revista pessoalmente pelo Papa antes de ser publicada e é onde aparecem sempre publicadas as conversas do Papa com os jesuítas quando viaja. É, por isso, um órgão muito importante para se ir tomando o pulso ao pontificado.

O Papa está solidário com as vítimas dos desastres naturais que ocorreram em Marrocos e na Líbia.

O Bispo de Coimbra anunciou um sínodo para os jovens e o bispo de Angra diz que é preciso lutar contra a religião de sofá e de pijama. Quem não anunciou nada foi o bispo de Setúbal, isto porque Setúbal está sem bispo desde 28 de janeiro de 2022. São 595 dias de efectiva orfandade naquela diocese. É grave. Entretanto ouvi uns “zunzuns” de que a situação poderá ficar resolvida até ao fim do mês. Rezemos que sim!

Não deixem de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing em que o padre Charles Fink, no seu primeiro texto neste site, fala de preconceito, racismo e tolerância cristã, recorrendo às memórias do seu avô e à sua própria experiência como militar na guerra do Vietname.

Thursday, 14 September 2023

O Papa e a Ucrânia: uma sucessão de falhas de comunicação e interpretações mal-intencionadas?

Um dos aspectos mais curiosos e inesperados da guerra na Ucrânia é o facto de o Papa Francisco estar a ser visto por muitos como sendo de alguma forma pró-russo, ou pelo menos russófilo.

Porque é que isto tem acontecido, e será justa a sugestão?

Recentemente os bispos da Igreja Greco-Católica Ucraniana estiveram em Roma para o seu sínodo, e encontraram-se com o Papa, tendo o seu líder, o arcebispo-maior Sviatoslav Shevchuk, aproveitado a ocasião para dizer francamente a Francisco que o seu povo está magoado com ele.

O último incidente foi a mensagem por vídeo que o Papa fez aos jovens católicos da Rússia, em que apelou que estes sejam fiéis à herança intelectual e espiritual dos seus antepassados, referindo como exemplos figuras históricas da Rússia como Pedro o Grande e Catarina II. Os ucranianos sentiram-se ofendidos com essas palavras, recordando que esses imperadores cometeram crimes contra vários povos, incluindo os ucranianos. (As palavras polémicas foram ditas de improviso, no final do discurso, e não aparecem no discurso oficial publicado no site do Vaticano.)

Mas este foi apenas mais um caso. Antes tinha havido dois episódios nas vias sacras de Roma, na Sexta-feira Santa, em que o Vaticano pediu a russos e ucranianos para carregarem a cruz juntos. No primeiro caso eram duas mães, uma de cada nação, e no segundo eram duas crianças que tinham perdido os pais na guerra, um de cada lado. Em ambas as situações os ucranianos ficaram lívidos, acusando o Vaticano de estar a equiparar o sofrimento e a condição das vítimas e dos agressores.

Tivemos ainda a ocasião em que o Papa pareceu dar a entender que a Rússia tinha sido provocada pela aproximação da NATO às suas fronteiras.

Sejamos claros, há aqui sérias falhas de comunicação por parte do Vaticano, e mais especificamente do Papa. Referir Pedro e Catarina era desnecessário e o próprio Francisco lamentou-o no final da sua viagem à Mongólia; e depois de no primeiro ano a ideia da Via Sacra ter caído tão mal na Ucrânia – foi a primeira vez em mais de uma década que a televisão católica ucraniana não a transmitiu em directo – é incompreensível que o tenham feito outra vez no ano seguinte. Pior, sei que queriam repetir o gesto na JMJ, mas a organização portuguesa conseguiu evitá-lo.

Mas estamos também perante um problema de interpretação. Há muito de subjectivo na forma como interpretamos palavras, ou até falhas de comunicação. É sempre possível fazê-lo pela pior lente possível, e parece ser isso o que se está a passar aqui.

O Papa Francisco não é militar, nem é apenas o Papa dos ucranianos, apesar de haver mais católicos na Ucrânia do que na Rússia. Ele é o Papa, ponto final, e a sua obrigação é pugnar pela justiça, sim, e pela paz, certamente, mas não pode, em prol disso, sacrificar as relações com toda uma nação, sobretudo uma nação como a Rússia que, por mais que esteja corrompida a sua chefia, tem uma das Igrejas ortodoxas mais importantes do mundo.

Isso significa que sempre que Francisco age neste campo ele está a levar a cabo uma operação de equilibrismo complexa, em várias frentes. É importante que a guerra acabe, mas a guerra deve acabar sem uma paz justa que devolva à Ucrânia todo o seu território e, já agora, as centenas de milhares de crianças que os russos raptaram? E defender explicitamente essa vitória total não é, de certa forma, defener o prolongar da guerra e, por conseguinte, mais mortes? É importante denunciar o agressor nesta guerra, mas como fazê-lo sem virar a Rússia ainda mais contra o ocidente e contra a Igreja Católica do que já está?

O risco do equilibrismo é que inevitavelmente pode-se cair. E Francisco, ou a diplomacia da Santa Sé, já teve umas quedas, mas só cai quem lá está e a Igreja está lá porque quer mesmo, sinceramente, ver alcançada a paz na Ucrânia.

Para muitos ucranianos, contudo, e incluindo os líderes religiosos, tudo o que não seja a defesa incontestada de uma vitória ucraniana a todos os níveis é visto como uma facada nas costas. E isso explica as reacções negativas por parte de muitos ucranianos. Não me entendam mal… Acho que isto é completamente compreensível, e simpatizo. Mas o papel do Papa não é ser cheerleader para a Ucrânia nesta guerra, até porque se o fizer perde qualquer margem de manobra junto da Rússia, e já vimos que o Papa tem conseguido alguns sucessos nesse campo, nomeadamente a nível de trocas de prisioneiros.

Mas parece-me evidente que chegámos ao ponto em que muito ucranianos já perderam a tolerância e por isso interpretam sempre da pior forma possível tudo o que Francisco diz sobre este assunto. Vejamos a tal mensagem que ele proferiu aos jovens católicos russos, recordando que está a falar com pessoas que estão na Rússia, a viver debaixo do regime de Putin. “Desejo-vos, jovens russos, a vocação de serdes artífices da paz no meio de tantos conflitos, no meio de tantas polarizações de todos os lados, que assolam o nosso mundo. Convido-vos a ser semeadores, a lançar sementes de reconciliação, pequenas sementes que, neste inverno de guerra, não brotarão, entretanto, no solo gelado, mas florescerão numa futura primavera.”

Isto são palavras de coragem, é um desafio que embora não referindo especificamente a guerra da Ucrânia, foi claramente compreendida como tal pelos ouvintes. Mas no meio disto, tudo o que ficou para os críticos foi o elogio à herança russa e uma referência, mal pensada é certo, aos imperadores Catarina e Pedro.

Para mim todos estes ataques ao Papa parecem particularmente injustos uma vez que eu tive o trabalho meticuloso e muito desgastante de acompanhar todas as intervenções feitas sobre a guerra na Ucrânia por líderes religiosos significativos. Só o fiz durante o primeiro ano da guerra, mas foi tempo suficiente para perceber que Francisco foi, mas de longe, o líder religioso não-ucraniano que mais falou da Ucrânia. Só o líder da Igreja Greco-Católica da Ucrânia o superou, e isso é porque ele publicava uma mensagem diária para os seus conterrâneos. Francisco falou um total de 126 vezes sobre a Ucrânia em 365 dias.

Mas não foi só falar. O Papa condenou a guerra, tendo sido dos primeiros líderes mundiais a dizer explicitamente que se tratava de uma guerra e não de uma “operação militar”; nunca hesitou em dizer que a Rússia é que era a responsável pela mesma e que a Ucrânia e os ucranianos eram e são as vítimas; rompeu com o protocolo e foi pessoalmente à embaixada da Rússia no Vaticano para pedir justificações aquando da invasão; enviou representantes para os locais de massacres e matanças; recebeu e beijou bandeiras ucranianas, vindas desses mesmos locais de massacres; apelidou os ucranianos de “corajosos”, “atormentados”, “sofredores” e “mártires”; chamou ao Patriarca de Moscovo acólito de Putin… A lista é enorme.

Quem acompanha o que o Papa escreve e diz, e não apenas as polémicas que de vez em quando surgem quando diz a coisa errada, não pode se não concluir que Francisco está firmemente do lado do povo ucraniano e que deseja o melhor para ele. Que os ucranianos, que tanto sofrem, sintam que isso não basta, porque queriam era ver o Papa a lançar anátemas sobre toda a Rússia e a apelar a uma vitória militar, é compreensível, mas que pessoas de fora, e boa parte da imprensa, alinhem nessa imagem distorcida é perfeitamente injusto.

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